Entra ou Sai

Julho 19, 2009

Confraria da Caldeirada

Da net

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Decorriam os anos setenta. Havia pouco tempo que tinha acontecido a célebre revolução dos cravos.
A esperança estava elevada ao máximo. “Era agora que tudo aquilo por que tínhamos sonhado e tanto esperado ia ser realizado”, __ ouvia-se por todo o lado.
Era uma coisa que enchia as ruas, as fábricas, e impregnava de alegria principalmente, as cabeças e os corações das pessoas.
As pessoas que eram o povo. E o povo acreditava, porque a fé e a esperança move ou derruba montanhas, dizem …
Mas outras forças, semiocultas, submersas, quase que em banho – maria, esperavam o momento de atacar.
As forças de quem pode __ as forças do vil metal, por quem tudo gira, para quem tudo cresce, para sustentar as descontroladas gulas, e ganâncias desenfreadas.
E assim foram passando os dias que fizeram anos. Anos de continuação do penar dos filhos da mãe, de muitas mães, mães sofredoras, mães trabalhadoras, mães que limpavam, mães que amamentavam e desmamavam, mães que sofriam os azedumes dos seus homens, mães que choravam as mortes dos seus filhos, mães que apertavam a cinta para travar a crescente fome de tudo a crescente fartura de nada.
As forças acima descritas, semiocultas nos covis, ou em tachos marinando e temperando, repito: _ em banho – maria esperando, pacientemente esperavam.
Até que chegaram os tempos em que já no ponto, apareceram e como praga moléstia ou epidemia se multiplicaram e de tudo se apropriaram.
As pessoas, as mães e os filhos que faziam e compunham o ramalhete da esperança e da crença, de tanto esperar, estando já num estado de desiludidos, amorfos, e como um rebanho entontecido pelos interesses do pastor, foram fechando os olhos, deixando tudo crescer ao gosto e prazer de quem estava a reaparecer.
E assim, o meu querido país, rapidamente se transformou numa manta de retalhos rota, desfraldada e esfarrapada. De todo o lado, apareceram mentes corruptas e dedos gulosos e mafiosos a abanar e depressa a desviar, a árvore. A desviar, repito, __ porque roubar era o acto de quem antes estendia a mão à fruta para matar a larica a que estava condenado.
Décadas depois permanece a caldeirada, por essas forças tão bem confeccionada. Forças reunidas na confraria da Caldeirada.
E para completar a obra começada, apanharam boleia na crise financeira que os seus primos espalhados pelo mundo engendraram, comandados pelos dos “states”, (porque é de lá que vem toda a merda envolta em pozinhos de oiro!) e à outra crise de valores já bem medrada, juntaram, e nos restantes amorfizados, anestesiados, deram muita porrada. Agora como toiros usados nas toiradas, nas arenas torturados, ensanguentados, ajoelhados esperam a última estocada.
Enquanto esperam por isso olham em redor procurando os valores anteriormente conquistados em séculos de lutas. Alguns desses valores estão já irremediavelmente perdidos. Outros esperam ainda na calha do corredor da morte. Como se de membros desossados se tratasse, já desmaiados, desfocados, desvalorizados, esperam o momento final. O sacristão prepara já a corda e o sino para dar o toque a finados, finitos, espremidos, prensados.

Julho de 2009

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