Entra ou Sai

Março 13, 2010

Coisas da vida

Hoje é sábado, dia treze de Março de dois mil e dez.
Voluntariamente fui trabalhar. E até hoje pouquíssimas vezes fui voluntário, fosse para o que fosse.
Sempre ouvi dizer que voluntário, só para a sopa e o pré – que é o ordenado da tropa.
Para entrar na Marinha, tive que assinar um documento, porque nessa data já era casado. Por isso, voluntário, não foi, porque fui fora de tempo, e não fui recrutado porque não me tinham chamado. Então digamos que fui semivoluntário.
Hoje, como disse, aprontei-me a ir, porque no último sábado deste mês o meu amigo joão Cruz e respectiva família vão mudar de casa e quero ir ajudá-los. Para isso já avisei o meu chefe para nessa data não contar comigo.
Normalmente devia ter ficado em casa, porque antes de ontem fui a Zurique com a minha irmã, a minha mulher, uma das minhas filhas e um dos meus genros, assistir ao concerto da Mariza.
Lá fomos na “carreira”, em excursão no jipalhão da minha filha, porque o meu carro estava na garagem para ser preparado para ser levado ao controle periódico. E a tracção às quatro rodas do jipe dava mais garantias de não acontecer, vir a ser apanhado num carrossel de uns possíveis incómodos e perigosos deslizares no gelo e na neve.
Tirei o dia de sexta-feira de férias porque nunca se sabe o que pode vir a acontecer, e porque não sabia a duração do concerto, e também porque estava de neve.
E então pensei: _Para quê poupar férias se eles, escudando-se na polivalência e na flexibilidade laboral, (palavras deles) nos estão a meter em casa conforme lhes agrada?
Gastar um dia de férias – o dia de sexta-feira, e ir trabalhar o sábado – não é normal . Mas como já disse o interesse foi meu.
Acabei de sair de uma rica sesta.
Já estou de molho no banho de imersão.
A careca transpira. Nas tetas a espuma faz cócegas. Com o calor da água quentinha o grelo acorda e arrebita-se.
Lembro-me dos tempos da Marinha. Dos saborosos petiscos na nigth inglesa, que foram repasto do meu cavalo, jovem e à solta.
Lá fora, sei que está frio porque a neve continua nos telhados e no lameiro.
Sabendo isto, tem mais sabor o quentinho da água da banheira.
Da sala chega-me a voz da minha mulher a falar com a nossa neta Noélia de sete meses e meio.
“ Estás rabugenta! Estás farta de estar na aranha? Já te ponho na manta do chão para poderes fazer ginástica, rebolar esbracejar e espernear à tua vontade. Oh com um catano! Já estás outra vez junto ao móvel! Caramba que não paras! “
Criança parada é mau sinal. Querer criança saudável paradinha, sossegadinha? – Será o mesmo que querer um leão sentadinho a ver televisão. só amarrando-o a um poste… Penso.
A neta responde-lhe com um papa, que não sei se quer dizer papá de pai, ou papa de comer. A chamar pelo Papa chefe dos cristãos não é com certeza…
Volto à minha Marinha.
“Se tivesse ficado por lá, já estaria reformado a gozar à grande e à francesa”, penso.
No Vale da Amoreira onde tenho a minha sede, habitam também alguns dos meus ex. Colegas. E em contacto periódico que com eles tenho mantido, fui sabendo que há já muito tempo, muitos anos, com a frequência nos diversos cursos se tornaram Sargentos.
Alguns, por terem participado em comissões especiais, beneficiaram de bonificações de tempo e já se encontram reformados.
Eu, como não me tenho nem por mais burro, nem por mais esperto, certamente teria passado por tudo isso, e agora estaria nessa dourada situação, a gozar o saboroso estatuto… Assim tenho que por aqui continuar a malhar no ferro dos tubos…
Poderia ter continuado. Cheguei a meter os papéis. Acabei por decidir sair. Foi a minha opção portanto não adianta chorar sobre leite derramado…
“Que raio, outra vez?! Já me doi as costas de tanto me baixar para te ir buscar .“
“A guerra continua. Ainda bem porque assim tens com que te entreteres , senão morrerias ao pasmo, a cismar em coisas e loisas”, penso, enquanto me seco.
Saio. Na sala, a Tv. passa algo que não sei do que se trata.
Não me cheira a grande coisa…Em poucos segundos, concluo que não me interessa.
Vou para o computador.
E aqui estou, a dedilhar para registar, esta coisa em forma de desabafo.
Agora com as baterias bem carregadas estou pronto. Prontíssimo!
Noutros tempos seria para a nigth. Hoje vai ser para a sossega, que estes meus cansados ossos por vezes rangendo já reclamam.

Abril de 2010

Junho 25, 2009

Coisas & Loisas

 A Gata, Sra. Esperança

A Gata Sra. esperança

A Gata Sra. esperança

Aqui estou, eu e a minha gata Sra. Esperança. Sinto-me só. A minha mulher e uma das minhas três filhas foram uma semana de férias para Chipre. A minha mulher não deixa a gata subir para a cama porque ela fura-lhe os lençóis com as unhas. A gata é arraçada de siamesa. É de uma fidelidade canina incrível. Mas tem tanto de meigo como de ferocidade. Não se lhe consegue cortar as unhas. Tem-as tão grandes e encurvadas que se prendem em todo o lado. A caminhar na alcatifa , ouvem-se uns estalidos. Acho até que para além da dita fidelidade tem muito mais de canino. Quando acha por bem, não se confessa, nem pede autorização para nos dar umas valentes dentadas.
Mas hoje sabendo-me só aproxima-se sorrateira e sobe para a cama. Lentamente como que a apalpar terreno, enrosca-se no triângulo formado pelas minhas pernas flectidas. Não tenho coragem para a espantar.
“Vá lá. Hoje também tu te sentes só. Pois que seja, fica aí.”
Parafraseando o meu amigo Zé Espanhol, esta semana fui promovido a gestor doméstico. Abro a arca frigorifica à procura de algo para cozinhar. Apetece-me um peixito. Tiro uma coisa vermelhinha que me parece salmão. Mesmo a calhar, penso. Para acompanhar, aproveito o resto dos brócolos que cozi ontem. Coitados … Já estavam passados, mais que retardados. O molho, de tão florido parecia um lindo jardim. Cortei, lavei, raspei, e as flores eram tantas, que me fartei de querer ver-lhes o fim. Cozi mesmo assim.
Lembro-me daquela vez em que a minha mulher teve que se deslocar ao Alentejo tratar da avó que estava muito doente e renitente a tudo e a todos e teve que ir a neta preferida pô-la nos eixos e na linha. Fiquei uns dias com as minhas filhas.
Para almoço nada mais nada menos que esparguete com manteiga e pescada cozida da véspera, (também esta retardada), e como nunca tinha feito aquilo, meti tanta manteiga que as minhas filhas em vez de comerem, puseram-se a brincar, a escorrer e a ver quando o esparguete terminava de largar manteiga.
Passados vinte e tal anos, de vez em quando, e quando estão juntas e se põem a rebobinar a cassete, falam e riem com muito prazer deste episódio. “ A culpa não é minha. É da minha mãe que não me ensinou, apenas se limitou a seguir os costumes que naquela época ensinavam: __O Homem quer-se para o machado, sachola, sacholo e afins. A Mulher para a barrigada do pontapé nas costas e para mexer em panela.”__ Tenho-lhes dito.
No último domingo em Martigny à mesa, a conversa versava em culinária. “ Pois e no queijo fresco”__ disse eu. Todos se entreolharam. E eu na minha. “ Sim, não gostam? Eu gosto muito.” “Bem, diz uma das presentes. Nunca comi, vou provar, talvez seja bom. “ Passado um bocado liguei o radar e captei a alhada que estava armada. “Ora que porra! Têm razão. Eu estava a confundir com pimenta.” “Um Ah! Exclamativo e quase síncrono se ouviu, pois não era para menos porque o tema era: canela!
A minha amiga Manuela soltou a sua famosa e muito sonora gargalhada e conhecendo-me tão bem, certamente pensou__ “Só mesmo tu, ó Carmindo! “ Realmente, em culinária devo ser um zero à esquerda …, penso e não digo. Ainda acabrunhado, ainda durava a enrascada da embrulhada por mim ali arranjada.
Enquanto espero pela cozedura, pego num livro do Gabriel García Márquez __ Memória das minhas putas tristes__. E o tempo passou voando.
Os olhos liam. __Ou talvez estivessem a ler __ , mas o meu pensar vagabundo passou para uma outra lembrança.
Lembrei-me de um diálogo de uma avó para um neto, que li no livro __Luuanda__ do grande José Luandino Vieira.
“Olha só, Zeca!? O menino gosta de peixe d’ ontem? “ Ai, vavó! Está onde, então? …Diz já, vavó, vavó sabe eu gosto. Peixe d’ontem …”
De revés e de vez em quando vou deitando um olhar ao resto.
Reparo que: __ Os legumes já estão, o ovo também, o resto pareceu-me que não. Mas então esta coisa nunca mais coze?! Continua dura!
Começo a ver a água a ficar acinzentada com umas partículas a soltarem-se da peça em questão. Ora que porra! Esta coisa é carne e eu como a vi tão vermelhinha pensei que era peixe, concluí finalmente. Tenho bom dente e como em tempo de guerra não se limpam armas, marchou e soube muito bem.
De tarde fui trabalhar, e tive que ir mais cedo porque sabia que ia acontecer uma reunião de informação sobre a actual situação, e sobre previsões para o futuro da firma. Houve quarta-feira passada, na segunda e vai haver hoje. Esta gente habituada a milhões, (no passado, nestas reuniões era só milhões e mais milhões de lucro e que eram rapidamente investidos, diziam-nos. Crescer, crescer, era a palavra de ordem). Agora, com a crise em curso o tema é outro. Preocupação máxima: tentar reduzir e encurtar o desemprego. Mas então onde pára o dinheiro que pagámos em tantos anos de vacas gordas? Eu já ando há vinte e quatro anos a pagar, a descontar para uma coisa sem nunca a ter usado nem dela ter usufruído, sem nunca ter recebido nada em troca. Acho que com este meio ano de recebimento parcial, ou seja: alguns dias parado por redução de produção ainda não gastei o que me lá têm. Esta gente que só pensa e enxerga rapas, quando a coisa aquece entram logo em parafuso. Andam todos à nora, uns com os neurónios a escaldar, outros já com os fusíveis fundidos. Agora devido a esta crise que se deve a um consumo desenfreado, mal programado e mal calculado, __ dizem eles.
A ganância, a gula, as burlas e falcatruas em grandes negociatas, por vezes autênticas roubalheiras dos senhores do grande capital, é que geraram esta caldeirada a que chamam de crise, __ digo eu. Eles a cozinharam e nela nos meteram, eles mesmos, dela nos hão-de tirar. Senão, pode acontecer que o Zé-povinho vá morrer à fome, mas eles também irão morrer quando nada tiverem para comer. Antes irão comer as notas esverdeadas dos milhões que lhes restarem, imaginando frescas e verdes alfaces. Eu acabarei por sucumbir também. mas muito hei-de resistir, pois que fui criado a comer pão com azeitonas, pão com cebola nova do tamanho da cabeça de um alho rachada e com sal grosso a arranhar os dentes substituindo a inexistente pasta dentífrica.
Na tal reunião, o pessoal começa a amontoar-se e a entupir a entrada. Foi preciso o grande chefe pedir-lhes para avançarem. E como se de uma ordem se tratasse, lá avançaram mais um pouco, todos em bloco, obedecendo como os outros tais obedecem ao pastor.

Hoje é quinta-feira. Estava a dar uns retoques neste escrito e interrompi para ir olhar o almoço de hoje.
Num tacho, o bacalhau mais uns segundos e ficaria estorricado. Noutro tacho, as berças também já estão a transpirar de tanto calor. À cebola parece que lhe cresceu o grelo com tal sessão de sauna. O fogão estaria bêbedo se de vinho se tratasse, pois que é muita a água que o banha. Ferveu e entornou, pois claro.
Enfim. Estou contente e sou feliz assim. Contento-me facilmente e isto me basta.

Dezembro 26, 2008

Remexendo no sótão dos esquecidos

Filed under: Conto — carva55 @ 4:09 pm
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 Da Net

Hoje é segunda-feira, dia 24 de Abril de 2006.
Fui trabalhar. Foi mais uma daquelas malditas segundas-feiras, que valem por toda a semana. Os sacanas dos ponteiros do relógio, pareceu-me que de propósito não se mexiam e, quando assim acontece ,um segundo equivale a uma eternidade.
O trabalho, o tipo de tubos que estávamos fazendo era do tipo puxa e empurra, ou seja: a máquina caminhava devagar e quando isso acontece nem sei como passar o tempo.
Se vou rondar, arrastar os pés pelos corredores, há sempre alguém que pensa que não faço nada, que cheguei à América e encontrei o melhor local de trabalho. São vivas à fama da América .
Mas nem sempre é assim. Quando algo não corre bem, ou com outro material, é um stress! Que nem tenho tempo para arrear o calhau. Só se for diarreia. Aí sim, que se lixe! Não posso meter uma rolha. Lá vou como outros vão, que bem os vejo a passar no corredor em passo acelerado para fazer o servicinho. E é daqueles que não posso mandar ninguém fazê-lo por mim.
Há já uns tempos que ouvi no telejornal que em Portugal, em algumas firmas colocaram nas casas de banho fechaduras com sistemas de controlo de tempo. O empregado tinha onze minutos por mês.Logo que fossem esgotados, não podia entrar.
E eu ri à gargalhada. “O quê?! Onze minutos! Para mim nem para um dia me chegariam”.
Há outras formas, em outras coisas, de ganhar tempo e produtividade. Estou a chegar a uma fase em que se estão conjugando vários factores no sentido de que, se aqui, um dia me quiserem impor tal coisa, cago num balde. Se for pró mole basta assim, senão, junto água, mexo e enfio a mistela nos cornos do primeiro chefe que encontrar. Raios me partam se não o faço.
Estou a imaginar a minha mulher a dizer o que tantas vezes já me disse. “ Se tu fosses patrão, coitados dos teus empregados! Seria : __vai lá, traz cá__. Só sabes mandar !”
Ainda na última sexta-feira foi um desses dias. Pelas dez horas colou-se-me uma daquelas morrinhas que , vos vou contar: __durou até ao meio-dia.
Agora depois de jantar estou mais fresco e sem saber porquê, como estou no tema de cagada, remexendo no sótão dos esquecidos recuo no tempo e depressa chego aos anos sessenta e tal. Era eu um puto. Um meu amigo disse-me que tinha morrido a Dona Genoveva.
Coitada dela. Mas fiquei contente porque sabia que isso queria dizer que mais tarde ia acontecer velório, onde teríamos guloseimas e isso para mim, era um acontecimento imperdível.
As carpideiras para terem direito a tais mordomias tinham que forçosamente chorar lágrimas, ainda que fossem de, __Crocodilo__ para poderem adoçar a boca. Como éramos pequenos, ficávamos dispensados de tal sacrifício.
Lá fomos. A coitada da Dona Genoveva lá estava, deitada de papo pró ar, branca como a cal, com a penca do nariz espetada talvez para que servisse de rampa e assim a sua alma mais rapidamente fizesse a viagem até lá acima, ao céu, que é para onde todos querem ir.
Hás tantas, chega-me a vontade de arrear o calhau. Disse-o a esse meu amigo. “Olha, vou lá fora ao quintal”.
Naquela altura nem sei como lhe expliquei o que tinha que ir fazer. Se fosse mais tarde, passados alguns anos, lhe diria de outras formas, talvez: “Vou mandar um telegrama, ou algo parecido”.
Sei que me entendeu e me disse: Não é preciso ires lá fora, vem cá. Era visita assídua daquela casa e sabia que por lá havia sítios mais modernos, mais próprios. Era uns anitos mais velho que eu. Malandreco leva-me até à casa de banho, (soube mais tarde que era assim que aquele espaço se devia chamar). Olho à minha volta e em vez de um buraco no sobrado como o que existia na minha casa onde era difícil errar, era só apontar e deixar sair. Problemas poderiam ter os porcos e a burra que moravam por baixo. Eles sim, tinham que ter em conta o horário dessas descargas. Em vez disso repito, havia duas coisas brancas. Ele sentou-se numa e disse: Senta-te e caga aí. Esse “aí ” era a outra coisa branca.
Eu, é claro, lá faço o servicinho todo contente por me sentir mais aliviado. O pior foi quando me quis desfazer das chouriças que ali ficaram. E ele ria! E eu desesperava! Vi uma coisa que me pareceu que daria para as desfazer , __um pau com uns bigodes __, e truca que truca, mas nada. Lá continuavam também elas a rirem-se de mim. Aquela coisa era dura e não se desfazia. Sem saber o que fazer, saí e deixei tudo num triste e porco espectáculo.
Ao outro dia constava no “Jornal de parede” . Toda a aldeia ficou a saber . Mesmo havendo alguns, e eram muitos, que nem sabiam ler, mas aquele tipo de jornal, circulava rápido e todos entendiam.
Depois de concluir que tinha sido gozado pelo meu amigo, pensei:
“ Para amigo, amigo e meio”.
Andei uns tempos a matutar em como me poderia vingar.
Como já disse ele era mais velho, mais espigadote, também nem seria preciso muito porque eu era um enfezadito e mesmo depois pouco cresci fiquei pelo metro e sessenta e sete.
Logo que aconteceu a primeira peladinha na pelota no largo do Irô, eis que lá vai disto:
__Biqueirada à farta! Cometi várias faltas, perdemos o jogo, está claro, mas nesse momento, para além dessa minha programada vingança, nada mais me importava .
Não satisfeito , mais tarde aproveitei uma sessão de pedrada tipo concurso para afinar a pontaria e toma que lá vai: __ Pedrada na crista do galarote!
E foi assim, que servi a minha vingança, __Fria e eficaz.
Mesmo agora que já lá vai tanto tempo, não me sinto arrependido nem sequer com um pouco de remorsos.

In, __ Conversas de papel __

Novembro 26, 2008

O Salto

Filed under: Conto — carva55 @ 11:34 am
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É sábado, este dia dois de Junho de mil, novecentos e oitenta e cinco.
O avião que me trouxe aterrou a horas e sem problemas, neste aeroporto em Zurique na Suíça. Foi a primeira vez que andei de avião. Andar de avião! Tantas vezes desejei e por isso tanto tempo esperei.
Isso e o facto de saber que estava a dar um passo muito importante na minha vida e que indirectamente iria envolver a da minha família, gerou em mim muita ânsia.
“Fixa as caras de algumas pessoas e segue-as, sempre em direcção da saída, ausgang, escreveu a minha irmã na carta que me mandou”.
Como sou bem mandado, sigo à risca o que ela me recomendou e vou agora caminhando no rebanho, naquela enxurrada de gente, por rampas, corredores e tapetes rolantes.
De cor, sei mais duas palavras, scheiss e schwein, __ merda e porco, respectivamente __.
Aprendi estas duas palavras, com uma rapariga Alemã, turista, que foi levada ao serviço de urgência do hospital psiquiátrico Miguel Bombarda. Cuspia-as juntamente com outras coisas, sempre que era contrariada.
Principalmente quando tínhamos que a injectar à força. E é claro que nós é que éramos bombardeados e apanhávamos com essa carga porque os Srs. Doutores prescreviam, estava prescrito e pronto. Não diziam mas era como se dissessem.
“Agora desenrascai-vos. Se não quiser aceitar já sabeis, pega de caras ou de cernelha, é-me igual”.
“Sim, já sabemos Sr. Doutor. Depois chamamo-lo para apanhar as flores da arena. E se não houver flores pode aproveitar a merda da besta”. Comentávamos nós, os empregados, entre dentes.

Já vejo uma coisa que me parece que há-de ser dali que chegarão as malas. As malas? A mala e um saquito! São parcos os haveres.
Lanço um olhar em redor à procura da minha irmã. Lá está ela do outro lado do vidro esperando.
Acena-me. Retribuo-lhe o gesto.
A toda a largura do vidro encontram-se pessoas.
Algumas, nas mãos, seguram flores.
“Para mim não serão, nunca ninguém me deu flores”, __ reparo agora.
Uns garotos com as caras coladas ao vidro, brincam, e talvez distraídos, com a língua que exibem, vão-o lavando.
“Não faças isso que o vidro está sujo! Estará com certeza alguma das mães a dizer”. E se for português até poderá estar a dizer:
“Não faças isso ó João. És um grande porcalhão!”
Por fim chego aonde se encontra a minha irmã.
__Olá como estás? Dá cá esses ossos e toma lá este abraço que te trago.
Ela, solta apenas um olá engasgado pela emoção, envolto num sorriso aberto, com todos os dentes, como se costuma dizer.
O salto! Finalmente aconteceu o salto para a emigração que tanto desejei.
Tentei inscrever-me em tudo que “mexesse”com sabor a emigração. Fui a Embaixadas a Consulados a todo o lado onde ouvia dizer que estavam a aceitar pessoas, e até às apalpadelas a ver se pegava, mesmo sem ouvir dizer. Até fui às instalações Diplomáticas das ex. Colónias, oferecer-me como cooperante.
Como ajudante, servente, auxiliar de fosse do que fosse. Não me aceitaram, porque com atributos iguais tinham lá muitos, __disseram-me.
Como especialização apresentava a formação em electrónica recentemente adquirida. Mas nem com essa mais valia. Nada de nada me surgiu. Mas, nas ditas ex. Colónias, posteriormente aconteceram casos de raptos de pessoas perpetrados pelos grupos da guerrilha, (ou da oposição ao regime vigente, depende como se queira entender). levávam-os para a mata e era preciso muito trabalho Diplomático para os libertar.”Ainda bem que não me aceitaram, senão poderia ser eu um daqueles”, __ pensava, cada vez que ocorriam tais actos.
A casa da minha irmã vou só comer e para dormir foi-me destinado um quarto em casa de uma tia do meu cunhado Suíço.
Boa pessoa essa Senhora. Levantava-se todos os dias muito cedo para me preparar o pequeno-almoço. Tratava-me com muito carinho, não admitia que eu saísse sem o tomar.
Em Portugal, isto seria impensável, __ pensei.
Teria com certeza medo da má-língua das vizinhas.
Era uma coisa tão diferente que deu logo para pensar que muitas diferenças iria encontrar nesta terra a que chamam de Confederação Helvética.
Pois é, cada povo com a sua própria cultura, o seu modo de pensar e viver diferente.

Hoje é domingo. O meu primeiro domingo passado nesta terra.
Levanto-me cedo e vou dar um passeio.
Começo a andar em direcção a uma manta de água que avisto lá em baixo. É o Lago Constança, disseram-me mais tarde. Verifico que afinal é um rio, o rio Reno, que ali alarga e banha a Áustria, a Alemanha e a Suíça. Tem cerca de oitenta quilómetros e mais de cem metros de profundidade em alguns sítios. Pelo menos naquele a que foram pescar a avioneta que lá viria a cair mais tarde, foram “pescá-la” a cento e tal.
Poucos metros palmilhados e vejo uma estrumeira.
A estrumeira mais vaidosa de todas que tinha visto em toda a minha vida.
Ostentava plantas floridas, de várias cores. Achei piada àquilo e fiquei um par de minutos embasbacado a olhar.
Plantas que eram compradas. Mais tarde em conversa, foi-me confirmado esse costume.
O lago está lindo! Lembra-me o meu mar.
Tinham-me dito que a Suíça não tem mar.
“Tenho que me contentar com este”. __Pensei.

Olho em direcção da serra. Que linda que ela está! De várias cores vestida! Que contraste com o cinzento do betão de Lisboa e arredores, da minha Vale da Amoreira, da minha Brandoa, onde depositei muitos dos meus poucos anos de vida.
Saí ontem de casa bem cedo. As minhas filhas dormiam ainda. A minha mulher acompanhou-me às escadas. Lancei-lhe um último olhar, mudo, não fui capaz de articular uma única palavra.
Apanhei a camioneta que me levou até ao barco. O meu vizinho sapateiro também.
__Então vizinho! Vai de viagem?
__Vou. Vou para a Suíça tentar algo melhor que isto.
__Faz bem vizinho. Tenha esperança que há-de conseguir. Outros o fizeram e é vê-los por aí muito bem, parece-me.Que tenha muita sorte.
__ Obrigado vizinho. Até qualquer dia, respondo.
“Se soubesse o quanto me lembrei destas palavras …, o quanto me serviram de bálsamo …., nestes quase vinte anos!”
Segunda-feira, junto com o meu cunhado, apresento-me na
firma que me saíra na rifa. Duas semanas depois saiu, e fico só.
Subo ao primeiro andaime. As pernas sempre me tremeram, sempre que subia a um escadote para mudar uma simples lâmpada.
Agora nem sei como as sinto, se tremem, se abanam. Ainda se desenroscam, __ penso.
O trabalho consistia em lavar fachadas com ácidos e raspar com uma máquina lixadeira eléctrica e nas partes onde a máquina não cabia era com um pedaço de um material raspador segurado nas pontas dos dedos e depois meter um produto de conservação, diferente conforme elas fossem de pedra, metal, ou madeira.
Acabada aquela obra passámos para outra.
“Tive muita sorte, ainda é baixa, talvez assim me adapte às alturas”, __ pensei.
Disseram-me que na semana seguinte, teríamos que ir para mais longe e ficar por lá toda a semana.
Vou com um colega Suíço, sem saber dizer água vai, água vem. Começo a fazer “contas à vida”.
Depois de almoço apercebo-me que me faltam alguns utensílios para trabalhar.
A falar sozinho, de mim para mim, solto ao vento umas asneiradas. “Que porra! E ainda por cima o gajo deixou-me aqui sozinho!”
“É pá! Tenha lá calma! Sei que o seu colega foi comprar umas coisas que lhe fazem falta”.__ Ouvi, vindo dali do lado, bem perto.
De contente até saltei por ver um português! E que bem me soube ouvi-lo! Foi uma bonita melodia nos meus ouvidos.
Era o primeiro português que encontrava. E disse-lhe:
__ Que grande alegria tenho de o ver e ouvir, pode crer.
Não o conheço, mas conheço essa língua linda em que me falou. Obrigado.
__Vai encontrar muitos, há por aí portugueses em todas as esquinas, vai ver, __diz-me ele.
À noite o Suíço ficou na carrinha numa cama de corda à Tarzan.
A mim deixou-me numa pensão. Perdão num hotel! (Sim que por aqui não há pensões, chamam hotel a tudo, ainda que algumas instalações deixem muito a desejar).
Tenho uma grande dor de dentes. Agora me lembro que uns dias antes de vir espetei uma espinha, que ao espelho, tirei com as pontas dos dedos.
Infectou pois claro! E agora é que são elas.
O Suíço deixou-me e pirou-se que já se fazia tarde para a sessão psicadélica que tinha preparado.
A empregada vai mostrar-me o quarto. Sobe umas escadas bastante íngremes, com um belo rabiosque a dar – a – dar e eu a pensar:
“Só isto me faria esquecer esta porcaria “.
Mais tarde no restaurante não me entendeu. Pois claro! Como poderia entender? Mas apercebeu-se que eu tinha fome e queria comer mas que tinha por companhia, uma tremenda dor de dentes.
Chamou o cozinheiro, que apercebendo-se que eu era português e não o entendia, fez-me um gesto que eu interpretei como um pedido para que o acompanhasse. Levou-me à cozinha e mostrou-me um bom pedaço de carne.
“Vermelhinha! Altinha e fofinha, vem mesmo a calhar, __ pensei”.
Concordei com a proposta.
Que pena! Nem uns míseros gramas devo ter comido.
Era tal aquela chatice que nem a língua por perto o malvado suportava.

É outro dia e hora de almoço. Apercebo-me que o “Suísserote” se prepara para ficar a roer uma sandes na obra.
Olho ao meu redor e não vislumbro nada parecido com restaurante.
Lá ao fundo enxergo algo que me parece ser um. Vou ver.
Efectivamente era um toldo. Deve ser algum Restaurante, deduzi.
Entro. Fico especado, não era nada do que esperava encontrar.
Vejo um espaço com um balcão, umas mesas, e para lá de um vidro, vislumbro uma pista de ténis, coberta.
Pensando que não era ambiente para um suado vestido de fato – macaco, com terra nas botas porque me esqueci de as sacudir muito menos de as lavar, dou meia volta para sair, e ouço alguém atrás de mim a falar qualquer coisa que subentendo como sendo um convite para entrar.
“ Bem, sendo assim é diferente, pensei”.
Entrei.
Apresentam-me a ementa. Não sei ler nem uma letra.
Que faço? Interrogo-me certamente, de todo, aparvalhado.
A tropa manda desenrascar, __ aprendi na escola da vida. Excluindo a zona Ásia e Árabe , os números são iguais em todo o mundo, e ainda bem, __ pensei.
Lembro-me de ter visto o Bruce Lee num dos seus filmes fazer o seguinte : apontou para um número e comeu o que lhe trouxeram. Pois nem mais nem menos , o foi o que eu fiz . Para comer , apontei para um escrito que me “cheirou a comida” e um número que correspondia a um preço que eu podia pagar e pronto. E então para que serve os gestos e as imagens senão para as imitarmos ?
Para beber tento pedir em francês uma cerveja sem álcool.
Trazem-me um refrigerante, de nome, _Sinalco.
Assim como assim não me saiu nada mal, pois o menu que tinha escolhido, era nem mais nem menos que o Biechermüesli, uma papa composta por: __ iogurte, passas, pedaços de fruta e cereais. Adocicado, portanto.
E lá vou eu vergar a mola com a pança docinha mas a dar horas! Docinha mas por pouco tempo, porque passado um bocado sinto dentro de mim, nas minhas entranhas, uma grande revolta, uma grande batalha naval. E lá vou eu à pressa à casa de banho onde chego à justa para baixar as calças e as cuecas e sem mais demora, deixar sair. Arre que porra! Com um catano! Ia-me borrando todinho! Aquela misturada gerou um purgante tão eficaz que despejou e limpou toda a tubagem! Aprendi mais tarde que aquilo é usado como comida de velhotes, logicamente pessoas a quem já não é pedido nem esperado que verguem a mola.
Ao fim da tarde para matar o tempo vou passear junto ao lago.
Há tantos lagos nesta terra! Lá ao fundo, muito ao longe, umas serras lindíssimas ostentam ainda muita neve.
Há tanto tempo que não vejo, nem apalpo neve! Recordo com saudade outros tempos. Tempos idos. Tempos de eu ainda menino. Desde os meus verdes oito ou dez anitos lá na minha santa terrinha na Beira – Alta.
À noite, no silêncio do meu quarto faço contas.
Sei que ganho doze francos e meio à hora segundo o câmbio do momento vejo que ganho umas quatro ou cinco vezes mais do que ganhava lá no manicómio.
“Uns quatro ou cinco anitos e piro-me “. Calculei.
Lembro-me do rabiosque a dar – a – dar.
Conto os barrotes, os carneirinhos, e por fim adormeço.
Adormeço e sonho com uma árvore muito grande e carregadinha de patacas.
Acordo, lembro-me do sonho.
“Deve ser a tal tão famosa árvore das patacas de que tanto tinha ouvido falar. Que era só chegar abanar e apanhar, para depressa e bem encher o bornal”.
Se assim fosse, só abanar, apanhar e rico abalar, que bom seria, mas já deu para ver que não é assim, nem assim vai ser, __pensei.
Agora, neste momento, acho muita piada ao ver o quanto me enganei ao fazer aquelas contas.
Passaram esses tais calculados anitos, trouxe a família, e passaram muitos mais, já lá vão dezanove anos e onze meses e vinte dias! Quase vinte anos!
Releio o que até agora escrevi. Sinto-me um Zé cabra. Como aquele da música que não cantava, cacarejava!
Eu, não canto, esgravato neste papel, abro buracos, planto letras, e formo palavras mal escrevinhadas.
Vou-me rir à gargalhada do trabalhão que a crítica, __a Sra. Dona Crítica! __ Irá ter para rotular, catalogar, prateleirar esta minha escrevinhadela.
De romance? De crónica? De diário? A! A! A! Quero lá saber o que lhe irão chamar. Chamem-lhe o que chamarem não poderão alterar nada.
Bem ou mal foi assim que surgiu, e foi a mim que sorriu, e foi de mim que saiu.
Ó críticos de meia tigela! Que tal isto?
“O Carmindo é incomparável! É único! Por falta de referência se torna no melhor escritor do mundo”. Dêem-lhe o Nobel já, __acrescentai”.

Novembro 25, 2008

Ao almoço no Meumarkt

Filed under: Conto — carva55 @ 10:59 am
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Em St. Gallen, ao Neumarkt em hora de almoço , chega uma enxurrada de gente esfomeada e apressada.
Todos querem comer depressa, porque a hora de almoço passa a voar.
Entro. Coloco-me na fila já com o tabuleiro na mão e começo a tentar ver os cartazes expostos por cima do balcão.
Ver, disse eu, porque lê-los seria outra coisa. Mas como ainda não percebo patavina desta língua esquisita, arranhada, confusa que me funde os fusíveis, (cada palavra entra-me na carola pelo menos umas vinte vezes e se fica uma, já é muita sorte).
Criei uma total alergia que me iria ser fatal como o destino.
Ainda hoje pouco sei. Sei umas centenas de palavras que palrapiadas sem ordem gramatical se tornam numa batalha de palavras cruzadas que só quem tenha interesse no assunto do momento, consegue arranjar paciência para me aturar.
Isso por um lado tem uma certa graça e dá jeito porque sempre que me sirva, posso sempre alegar que não entendi.
Por outro lado quando por exemplo numa discussão quero exprimir-me e não consigo, dá-me cá uma raiva que nem vos conto.
Mas voltando ao que vos estava a contar. Nesse dia não consegui saber do que constava a paparoca.
O homem, o cozinheiro, com um enorme barrete parecia um cardeal. Cardeal pobre, porque os ricos têm, (que bem me lembro de ter visto), barretes dourados, mais vistosos.
Pois claro! Igreja é outra loiça!
Chegada a minha vez, só havia uma coisa a fazer. Espreitei por cima do balcão e apontei para uma coisa branca.
Puré, porreiro, pensei.
Ele, espeta um pouco daquela coisa branca no prato e olha para mim à espera que eu escolha algo mais. “Porque , por muito magra que seja a bolsa, tão magra não costuma ser a pança nem a vontade de comer , deve ter pensado o sujeito.”
“O quê? Só isso! Queres matar-me à fome ou quê?!
Não me vês aqui de fato-macaco, fardado à trabalhador?!
Pensas que sou algum desses gravatinhas que de pouco alimento precisam porque a caneta pouco lhes pesa ? ”
Tudo isto pensei e muito me custou , tudo isto que me apeteceu dizer-lhe , mas pelos factores já aqui falados, fácil será deduzir __ pensei , calei , e mudo fiquei.“
Mais um pouco por favor, pedi. Ó! Lá! Lá! É verdade nesta altura do campeonato já sabia isto.
E ele truca, mais um pouco.
Atrás de mim a fila crescia a olhos vistos. Eu, cada vez mais atrapalhado olhava para tudo sem me decidir. Até que vislumbro uma coisa escura no fundo dum tacho lá longe na enorme cozinha. Parece carne, pensei.
Arrisquei e apontei.

E lá fui todo contente, com o meu quinhão de paparoca.
Chego à caixa registadora. Uma menina, de nome Italiano cuja placa identificadora assim rezava, colocada ao lado da muito sua mama bem avantajada, empinada, que esticava a camisola e mostrava um belíssimo rego! __Não confundir com aqueles de rega, mas com aqueles que podem ser regados!__ Olhou para mim e ficou especada.
“O quê? Que queres? Sou assim tão bonito? __ Questiono em pensamento , sem palavras e meio aparvalhado.”
Por fim, aponta para o número que o mostrador exibia e que era o que eu devia pagar.
Pois bem, paguei e fui à vida, todo emproado, com a bandeja na mão, com a paparoca bem segura como se de um troféu se tratasse.
Procuro mesa para me instalar. À minha volta, jovens com aspecto de estudantes e outras mais crescidotas com estilo de executivas, saboreavam o repasto.
Encontro um lugar numa mesa ocupada por uma Senhora já bem entradota. Janota, jovialmente vestida, talvez querendo retardar o efeito impiedoso, devastador do tempo.
Cumprimento-a e pergunto-lhe se me posso sentar. (Sim, sei que já vos disse que na altura sabia e ainda sei pouco Alemão, mas para o efeito chegou).
Afio os dentes, afago o bigode em jeito de afastar algum pêlo que pudesse estorvar.
Dou uma dentada. Faço uma careta de enjoado que até a dita senhora sorriu e perguntou.
__Que se passa? Não está bom?
__Não é nada disso, respondi.
__É que me enganei. Eu pensava que isto era puré e afinal é maionese.
Apalpei-me a ver quanto teria comigo. Eram só uns trocados que não davam nem para mandar cantar um cego Suíço, quanto mais para comprar algo para roer.
Ela ao ver o meu apalpanço talvez a imaginar coisas, (Sim porque os olhos também comem e quem sabe? Poderia querer ser ela a apalpadora), desata a rir ruidosamente.
Ri-te, ri-te, põe-te a jeito e verás quem por fim ri melhor, pensei.
Ao som das suas galhofosas gargalhadas, enquanto aguentei o enjoo, comi umas dentadas e lá fui vazio de tanto nada e cheio de tanto pouco. Tanta raiva! Raiva por as coisas piores nos acontecerem nos momentos de maior fragilidade.

Novembro 17, 2008

Vagueando no Real

burroÀs três e um quarto começa o meu tormento no silêncio do meu quarto.
Levanto – me. São horas de levantar para ir trabalhar!
Quem se terá lembrado disto inventar?
O autor deste invento deve ter pensado: __Ai eles querem mais dinheiro? Começam mais cedo a mola a vergar __.
O quê? ficam empenados, depenados? Não faz mal são só estrangeiros carne para canhão! Quando estiverem a cair de maduros dá – se – lhes um empurrão lá para o fundo do caixão.
Ficam bonitos assim tão duros!
Não é horário de padeiro, muito menos de carteiro.
Será que valem este penar estas moedas furadas como migalhas no bolso a tilintar?
Chego à rua, cresce a minha raiva, olho para o carro coberto de neve que eu enxoto ao de leve.
Olha, olha! Também o Saraiva para o seu carro entrou. Está do seu rabo a neve a sacudir, de frio a tinir, o frio o enganou, primeiro se sentou.
Abro o ferrolho da minha cavalariça. Antes era só a minha burra, a carriça, hoje são cento e quarenta cavalos.
Todos me olham espantados! Uns abanam o rabo em sinal de cumprimento, outros arregalam só um olho tal como eu, não gostaram de largar a cama sem chegar a pregar o olho.
Pico – os com as esporas. Foi pior que os pôr a puxar noras!
Gritai, gritai, basta eu que não posso dizer nem ai.
Dez horas da manhã. Com sono sonâmbulo cambaleio para a esquerda e para a direita a espinha é que não pode estar direita tenho que a vergar como espiral de mola.
Apalpo a minha tola, é só o que me resta! Eu penso que ainda está para as curvas mas será que ainda presta?
Vou ao W. C., evito olhar para o espelho para não ver. O quê? O arco-íris que circunda os meus olhos. De sono empolados sei que agora estão: azuis, amarelos e outras cores.
Lá dentro na íris sinto dores. Chega a pausa, meia hora para algo roer e o trabalho esquecer. Sem apetite olho para as sardinhas na lata entaladinhas.
A cerveja, (que nem uma pode ser), tenho que poupar. A garrafa já vai meia! Na pança vazia é só azia!
Já é de tarde quando chego a casa. Vou para a cama para tentar dormir. Mas como? Se até consigo ouvir os insectos a zumbir. Com estas trocas e baldrocas o meu cérebro anda embaralhado.
Desligo o radar para tentar não captar o barulhão que vem lá do alto da serra. Será uma moto – serra? Não sei, só sei que na cabeça algo me martela.
Levanto – me e tomo um banho.
Amanhã outro dia igual a tantos outros nesta vida sofrida.
E assim se passam os anos! E lentamente cada dia que passa envelhecemos mais um pouco consumidos pelos desgostos e os enganos.

Setembro 6, 2008

Domingo à tarde

Domingo à tarde

Hoje, é o último domingo de Agosto de 2008. Agora decorre a parte da tarde. A minha mulher está de pausa e mais logo torna a ir trabalhar. Se fico por aqui, não resisto à tentação do sofá e não tarda muito estou a ferrar o galho numa sesta. Levantei-me às dez. __ Nem oito nem oitenta, não pode ser. Vou até lá abaixo ler um bocado e com o ambiente certamente me manterei desperto, penso.
Pego na trouxa e lá vou eu para o tal __lá abaixo __ que mais não é senão o lago Konstanz também conhecido por Bodensee. Chamam-lhe de lago. Mas cá para mim um lago não tem entrada nem saída de água e este tem. Começa nos Alpes Suíços, nas altas montanhas como o St. Gotthard. Desce em “rapé” nas quedas, Rheinfall de Schaffhausen e continua a sua viagem até ao mar do norte. Portanto é um rio que aqui alarga tal como o Tejo junto a Lisboa.
O tempo está pesado, cinzento, abafado. Igual ao que habitualmente antecede as trovoadas. Cá para mim, ainda vem aí uma e das fortes, penso.
O lago está calminho, estanhado, igualzinho ao meu mar – da – palha, ( cartão de visita de Lisboa e arredores ) , em tempos de calmaria.
Decorre ainda a exposição das belíssimas esculturas de areia. Há já vários anos consecutivos que realizam este evento. Todos os anos, religiosamente, tenho vindo fotografá-lo. Mas, para isso já cá vim ontem. Estava um tempo lindo com um sol aberto e quente. Junto ao repuxo nadavam algumas pessoas. Na base sólida estavam dois rapazes a deliciarem-se com a água a cair-lhes sobre os corpos. Era a cascata possível, estariam a pensar. Um deles pôs-se em pé com os braços abertos __à Cristo__, em posição de saltar.
Reparei que no repuxo estava a gerar-se um lindíssimo arco-íris. Não hesitei, e sem demora captei aquele momento.
Mas isto foi ontem, e já foi ontem …, agora é outro dia. Em frente marchar…, quero ir à aventura, em busca de novas sensações, porque parar é morrer. “Cavalo parado__ ganha ferrugem nas ferraduras. Ferramenta não usada __ encrava…”
Dirijo-me para a zona do Seerestaurant . O parque está esgotado. Continuo para o seguinte que fica em frente à Hauptbahnhof __ estação principal dos comboios__. Também este se encontra esgotado. Ora que porra, hoje pariu a galega?! Anda toda a gente à solta? Agora que o período escolar já começou, já poucos estão de férias, já regressou a maioria, e talvez estejam a despedirem-se do Verão pois que no ano passado, (ou terá sido já no outro? __ interrogo-me. __Ah! como o tempo passa e as cabeças avariam!) Por volta dos dias vinte e três ou vinte e cinco de Setembro já havia neve lá em cima na serra Rorschacherberg.
Decido ali ficar parado esperando uma vaga, que acontece passados uns minutos. Um carro entra no parque e, __ queres ver que vou ter que me chatear com este gajo, penso. O fulano que o conduz faz-me um sinal, retribuo-lhe outro e ficámos desde logo entendidos. Aquele lugar era para mim e não ia abrir mãos …
O fulano decide ir embora. Faz a manobra e eis que um outro lhe obstrui a passagem. Apitou. O outro responde-lhe com o célebre e mundialmente conhecido gesto dos três dedos. Um esticado e os dois encolhidos. Que querem dizer: “vai para o …, e, aproveita-o.”Gesto este, por todos entendido. Queres ver que isto ainda dá molho, penso. Mas não. O fulano descarregou a fúria no acelerador do carro provoca uma chiadeira e vai embora. Por aqui, onde o chamar a polícia custa dinheiro, alguém vai ter de pagar, evita muitas confusões.
Chego junto à água e constato que realmente uma grande multidão se “espraia“ pela relva. Também aqui resulta o que antes escrevi: é a praia possível, na Suíça não há mar.
Uns comem, outros jogam, à bola, ao badmington, etc. Graúdos e miúdos divertem-se, cada qual vive à sua maneira, livre e à solta.
Alguns pescadores de pesca à linha posicionam-se, e trabalham em equipa ,“ora dá cá e vai lá, ora toma lá que eu vou”, __ e lá iam fazer outra coisa qualquer. Outros tornam a mudar, talvez à procura do melhor local. De vez em quando lá vem um trazer o produto da faina. Uns peixitos pequenitos que metem no pequeno tanque do chafariz, os quais os putos aproveitam logo para usar na brincadeira. (Coitados, tão atrapalhados que estão com a morte certa que se avizinha e ainda têm que aturar aquelas tropelias!) __ Penso.
Brincam com os peixes e às molhadelas, apertando o papo ao repuxo do bebedouro que continuamente esguicha e desperdiça água. Aqui ainda vá lá …, chove muito, e há muita água, mas mesmo assim acho mal não colocarem uma torneira, enfim… E vêm-me à lembrança imagens televisivas a mostrarem gente em África a tirarem água de fontes com a torneira avariada, ou mesmo sem torneira, debitando ao ritmo da força do bombeamento, e algumas vezes eles mesmos a desperdiçarem porque nem funis usam e às vezes é mais a que se perde do que a que metem nas vasilhas, __ vê-se e incomoda.
De vez em quando lá vêm umas gotas cair no livro que estou a ler.
Uma senhora de lenço bem amarrado na cabeça e de capa ou gabardine, (nem sei bem como lhe chamar), estende o estaminé num banco do jardim e toca a aviar o prato. Umas loirinhas que abraçadinhas vão a passar, viram as cabeças para trás para verem um pouco mais e sorriem, sorriem muito, achando muita piada àquilo.
Lembro-me de que no ano passado o Cunha organizou um passeio e na carrinha do Benfica que alugámos, fomos um domingo, uma dúzia de homens, (sem as mulheres, a laurear o queijo, à boa vida, à “boavaiela”, etc. __ viva a liberdade). Tivemos azar com o tempo que fez. Choveu todo o dia. Aqui nesta terra onde o tempo faz várias caras ao longo do dia, é impossível programar algo ao ar livre. logo de manhã começou a dose de azar. Quando chegámos para levantar o leitão destinado à nossa paparoca, apercebemo-nos de que tinha acontecido uma confusão na encomenda e o “Suisserote” entendeu que era cru que o queríamos para nós mesmos o assarmos, e cru estava, e assim não nos servia, e a solução foi andar, andar, a fazer quilómetros a matar tempo, necessário para a lenta assadura.
No entretanto aterrámos em bando num café de uma estação de serviço, para tomarmos o pequeno-almoço. Aquilo parecia uma equipa de futebol e logo com o emblema e o nome do grande Benfica escarrapachado na carrinha, e nós todos orgulhosos! Só que, com aquelas personagens carecas e barrigudas, facilmente se via, que a ser uma equipa, teria de ser a do reumático!
Mas vem isto a propósito para aqui e agora relatar que também nós aproveitámos um banco do jardim e pusemos – lhe em cima a caixa onde trazíamos o leitão cortado aos bocados. E também ali foi coisa que espantou muita boa gente que passava. Ainda por cima, estávamos precisamente nas quedas de água de Schaffhausen, onde turismo é às carradas !
Imaginem-se muitas mãos com copos de plástico, com vinho, e bocados de carne. Aos olhos de quem passava, deveríamos parecer um bando de canibais!
Mas isso não nos incomodava. Queríamos era encher a pança. E à boa maneira portuguesa, (para comer e beber, o português está sempre pronto), havia muita carne. Ainda chegou para outra comezaina. Só que quando aconteceu, eu já estava de férias em Portugal e lerpei…
Mas, não houve espiga …, que lhes tenha feito bom proveito.
Um bebé que há muito por ali palra e na manta que cobre a relva gatinha, agora chora. “ Está na hora da mamada “, __ deve ter pensado uma senhora que dele tem cuidado e até pode ser a sua mãe, penso.
Sem demora enfia a mão por entre a roupa e trás para a luz do dia uma grande mama que pelo tempo que demorou, o mamilo necessário para servir de chuchadeira, devia estar bem em baixo junto ao umbigo…
O puto, agarra-lhe com ambas as mãos __como que se de um troféu se tratasse__ , e regalado com o leitinho fresco aceita fazer umas tréguas na choradeira e deve ter pensado, (porque puto já pensa!), __aqui tenho muito onde agarrar!
Um alguém que assiste à cena, (será o pai?) __ Parece – me não estar a gostar, olha carrancudo, talvez chateado por ter de partilhar aquela parcela da sua propriedade.
“Tem calma, __ apetece-me dizer-lhe__, pois que tens aí nessa camioneta, quase camião, ou deverei dizer camiona? __ Muita areia para emprestar, dar, e vender!”
Lembro-me que uma vez fui banhar-me à água do lago. Na relva que faz de areia de praia, __ porque a Suíça não tem mar __, (sei que já o disse mas torno a dizê-lo), estendi a toalha e de repente vi-me todo preto como um africano. Foi motivo de gargalhada geral. __”Deve de ter sido alguém que pôs estrume tal como os vaqueiros costumam meter nos lameiros para fertilizar os terrenos, e é cá um pivete tão insuportável que temos de fechar as janelas á pressa__. “ Ouvi um parceiro dizer .
__” Sim, ou então alguém de duas ou de quatro patas que por aqui passou e da carga da tripa se aliviou e isso com as chuvadas se diluiu e o resultado agora se viu.” __Aventa um outro, convicto.
Um dos barcos que fazem a carreira__ apita e interrompe a minha leitura.
O meu iPod debita agora, “ __ Podia haver uma luz em cada mesa / e uma família em cada casa / Jesus em Dezembro, aqui na terra/ podia ser natal e não ser farsa. / Podia ser notícia o fim da amargura/ que divide os homens por trás dos canhões /a fome e a miséria servem a loucura/ que forja profetas e divide as nações.”
Olho em redor e penso: óh! Meu caro amigo Ribeiro, como tu tens razão! Aqui, por enquanto há paz, trabalho e pão.
O livro que estou a ler tem o título __Nachtzug nach Lissabon__ (comboio nocturno para Lisboa). E é do escritor Suíço, __ Peter Bieri__, sob o pseudónimo, __ Pascal Mercier__.
Leio: “__No dia seguinte, o primeiro de Novembro, fui de madrugada até ao arco no final da Rua Augusta, a mais bela rua do mundo. Sob a luz desmaiada do amanhecer o rio era uma superfície lisa de prata baça.” Ao ler esta homenagem a uma parcela da minha Lisboa escrita por um autor estrangeiro, sinto um arrepio percorrer-me a espinha. Devido, talvez a um sopro de saudade, (a ser sopro, será porque ainda há poucos dias que vim de lá, senão seria certamente um vendaval que me rasgaria a camisa…), ou simplesmente pela agradável surpresa!
Já ganhei o dia, penso.
Já tenho uma boa dose de leitura. Faço um intervalo e vou até à casa do Benfica a ver como param as modas, decido.
No parque, abro a porta do carro com muito cuidado porque o espaço é pouco e não quero bater no veículo vizinho.
Apercebo-me de que o espaço ora estica ora encurta . Ehi pá! Que é isto?! Algum terramoto?!
O veículo é uma carrinha caravana. Pela janela, vejo quatro pés. Ah! com que então é isso ?! Já entendi. Bom proveito a quem quer que seja. Mas que grande lata! Aqui e agora a esta hora da tarde numa tarefa destas …, À frente! Será isto um bordel ambulante e estarão os “quartos” de trás todos ocupados? __ Interrogo-me, meio aparvalhado. Pois, esta surpresa não é coisa para menos, abala qualquer um, penso, constatando o meu estado do momento.
No banco do pendura, um cão de grande porte assiste ao espectáculo em posição privilegiada, logo no primeiro balcão pois então! Nem dá sinal da minha presença. Será porque está muito entretido e entusiasmado, ou não quer distrair os actores?!
Oh! Ai! Ui! __Se os carros falassem! ….
Chego à casa do Benfica. __Uma “auguinha” diz o Toni. __ Sim, se fosse há três meses atrás “ uma bojeca? ” __ Perguntarias. Mas agora é assim que tem que ser. E o que tem que ser tem muita força.
O boneco do João Pinto, o poster do Eusébio, fotos com equipas de velhas glórias vitoriosas de outros tempos, a Águia Vitória plastificada, algumas caras , a gargalhada única e especial da Alda marcam presença, preenchem o espaço, confundem-se, impregnam-se, como sendo e fazendo já parte dos móveis da casa, e são a diferença.
A maquineta do bingo com as bolas arrumadas e preparadas, esperam que os francos entrem nos bolsos das pessoas e os tornem mais expansivos, mais alegres, mais mãos largas.
A mesa redonda, antes, palco de actores faladores em grandes conferências muito participativas, com boas petiscadas e bem regadas, hoje ali está no seu canto abandonada e triste…
A Águia pintada na parede, com as suas grandes asas abertas parece dar as boas vindas a toda a gente que chega. Politicamente correcta como o astuto político que usa este velho gesto, esta velha artimanha, querendo fazer-se passar por o grande irmão de todos cuidador, de todos protector “ Vem aos meus braços, meu povo! “
O ar está quente e pesado. Aqui neste ambiente fechado ainda mais se nota. Decido ir para a esplanada improvisada. E por ali fico a ler mais um bocado até que chega o parceiro que me acompanhou ao concerto dos Metallica.
A conversa que se seguiu pôs fim à leitura.
Chego a casa e a minha mulher lá está agarrada aos tachos. Coitada! Trabalha fora e ainda vem trabalhar para casa, penso.
Lamento, mas eu, talvez, porque não tenho olfacto para gozar os condimentos das especiarias, a cozinha nunca me entusiasmou. E não sendo assim, onde iria eu arranjar tempo para os meus livros, os meus escritos, a Net, o meu Xadrez?
Vem a propósito trazer aqui e agora à baila o facto da existência da ausência de olfacto. O meu pai talvez com pressa, por ter que se levantar cedo para ir regar o milho, ( certamente me fez à noite, que era quando havia algum vagar e quando os calores apertavam, penso), deve de ter poupado algumas bombadas e saí com este defeito de fabrico…
Às vezes em jeito sádico, e para a chatear, já lhe disse : “eu casei, não para ter mulher, mas sim para ter secretária.” E quando fui presidente do Centro Português que é uma associação cá da terra, cheguei a dizer-lhe : “estás a ver, eu já sabia que um dia ia ser presidente e que ia precisar de uma secretária.”
Por isto é que ela não acredita que eu lamento. Mas a verdade é que lamento muito. Gostaria de ter posses para lhe arranjar uma empregada doméstica.
Na Tv. passa o telejornal, que sei de antemão que vai ser longo de uma hora e meia. (onde se vê, ou já se viu isto?). Como grande novidade mostram um sistema de som aquático em piscinas.
Ora aí está o que sempre ouvi: “ __ Portugal está atrasado vinte anos __.) Esses e mais alguns__ penso. Porque há já vinte e três anos que entrei numa piscina pública lá para os lados de Rapperswil e que já tinha isso instalado. Nessa altura, para mim, isso foi uma grande surpresa. Mas porra, já lá vão tantos anos!
Vou até à estante para lhe devolver o livro. Lembro-me de que ainda não tenho título para este escrito, e às vezes demoram uma eternidade a surgir…
Mesmo em frente do nariz está o livro do Fernando Namora, ___ Domingo à tarde __. Ora aqui está! Gosto, e foi mesmo a um domingo à tarde, por isso nem mais nem menos, já tenho.
Sento-me à mesa para comer o que já estava preparado. Ao lembrar-me deste meu devaneio vagabundo, automaticamente sorrio. Ela repara e pergunta, o porquê. __ Um dia irás ler. Espera, saber esperar é uma virtude, respondo-lhe.
“Talvez lendo, acredites mais facilmente. No muito do falado às vezes vem embrulhado, __O fado do bandido __. No escrito há mais verdade e fica marcado pela assinatura invisível do escriba.”
Escrevo, mais uma vez, primeiro para mim, e depois para mais alguém será, o tempo o dirá.
Assim desejo. Assim seja.

Rorschach, 31 de Agosto de 2008

Janeiro 26, 2008

O Quarteto na Vigairada

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Decorriam os anos setenta e era tempo de festas. Festas dos Santos populares. Festa de dança, marchas e petiscadas.
Os quatro amigos decidem ir a ela, à tal festa, e a elas, que por ela, a pavonearem-se certamente não faltariam. “ Nesta altura do ano andam todas à solta, é dos calores!”__diz o Brasuca, muito convicto dessa sua afirmação__. (Brasuca por alcunha, por ter estado no Brasil e por ainda não se ter livrado de algumas expressões tal como uma que repetia amiúde, que era: __ ó seu cara de chapa).
Depois de bem aperaltados eis que: eles lá vão à caça, de armas bem carregadas, prontas a serem descarregadas na primeira “perdiz” que por perto passasse, ou que a jeito se pusesse.
Atravessam o descampado grande como uma parada militar e ao passarem junto ao ringue desportivo e à cozinha, são contemplados com um trecho de uma peça orquestrada pelas gargantas da bicharada que habitava a horta. Eram patos, galinhas, cabritas e porcos, que por serem muito bem tratados por um grupo de doentes orientados e devidamente controlados por uma equipa de profissionais da saúde mental, eles os da bicharada também contentes estavam e se manifestavam com a sua festa possível.
Transpõem o portão e o manicómio fica para trás.
O manicómio era um mundo diferente totalmente à parte, do outro mundo considerado dos sãos .
Ainda hoje tenho as minhas dúvidas que assim seja , porque cada vez mais, vejo mais malucos à solta que internados.
Junto ao Campo Santana, na rua que desce até ao Martim Moniz, passam carros eléctricos a abarrotar de gente alegre.
Os quatro amigos decidem continuar a pé. Não por eles, __os carros irem tão cheios, (porque cabe sempre mais um nem que seja pendurado fora de borda ) , mas porque estava uma rica tarde, com uma temperatura ideal que convidava a bons passeios.
Já no Largo do Martim Moniz, junto ao cinema “piolho”especializado e afamado por passar sessões contínuas de “coboyada” da forte com grandes batalhas de tiroteios, setadas e machadadas entre soldados liderados e guiados por aventureiros e por grupos aguerridos de Índios, que, coitados perdiam sempre. Porque era assim que rezava a história, era assim que a contavam, porque era assim que devia de ser encarada, __ os bons e os maus __. Os bons eram os colonos invasores, os maus eram os Índios, que coitados só queriam que os deixassem em paz e sossego, a viverem na paz dos anjos e na companhia das aves e dos animais de quatro patas seus amigos, naquelas terras onde primeiro tinham chegado. Às vezes nos salões, após todo mundo estar bem bebido, aconteciam desavenças entre pistoleiros, jogadores e engatatões profissionais que originava grandes sessões de porrada de criar bicho e rapar pêlo.
__ Ó pessoal! Ali naquela casa da janela verde, um dia vim ver uma televisão que estava empenada.
Estava eu a olhar as entranhas da dita, envoltas num camadão de poeira, e eis que a dona, uma velhota já muito velhota mas com um pulmão de fazer inveja a muita boa gente, dá uma assopradela com uma tal força, que me enfarinhou todo! Do que ela se haveria de lembrar!
__ Ouve lá ó Dr. “Parafusos”: isso havia de ter sido comigo!Pegava na velha e pendurava-a no estendal da roupa, diz o “Brazuca”.
Na esquina da praça, o “ Rodas baixas”, (alcunha bem espetada porque realmente era muito pequenino), tem um rica ideia e lança-a para a mesa.
__ E que tal se fossemos ali ao Intendente, ao bar Lindoso ou outro, beber algo e arregalar o olho com o mulherio?
__Isso mesmo, boa ideia! E eu até vou espetar cá pró bucho um prego bem regado com um fino bem geladinho. __ Acrescenta o Olhos de sapo.
(este levou com esta, por usar umas lentes tão fortes que parecia que olhava por um fundo de garrafa!)
Ele tinha um carro! Coisa rara em gente com a categoria de servente, que depois alguém se lembrou de mudar para empregado geral e eu soube que alguns anos mais tarde, esta designação, ainda foi mudada para, __ auxiliar de acção médica __. Ora que porra! Ora vejam lá! Coisa linda sim senhora!
Mas dizia eu que ele tinha um carro. Um carro muito grande, não me lembro nem da marca nem do modelo. Era do tipo citroen boca de sapo com a traseira em rampa. Só que o tal era trombudo estilo americanado.
Um dia organizou um passeio até à praia de Tróia. Todos os que ele convidou para o acompanhar naquela aventura, se arrependeram de terem aceitado o desafio porque o maldito carro andava um pouco e parava. Empurrávamos, andava e de repente, punha-se a tossir e depois de soltar uns roncos engasgados e umas tremidelas na carroçaria, tornava a parar.
As paradas e os empurrões foram às dúzias.
No bar, diz o Brasuca:
__Eia! Pá! Que pivete aqui vai!
__Realmente, agora que o dizes, também eu o sinto. __diz o Rodas baixas.
__Tinha que ser, só agora o sentiste porque os cheiros sobem, e tu, se não desces, pelo menos manténs-te aí em baixo. E o “olhos de sapo” que foi quem isto disse e que era grande como uma girafa, passa a mão em frente do nariz do outro como que a medi-lo. O outro, que, coitado não tinha culpa de ter saído assim, __às vezes, a brincar, brincadeira parva! Mas enfim… , também eu lhe dizia : isso foi falta de adubo na raiz! E ele ria e dizia: “Ou má qualidade da semente!__” E ambos ríamos a bandeiras despregadas.
__Cá para mim, isto é cheiro de leite azedo largado pela pachacha de alguma daquelas gajas, diz o Dr. Parafusos.
Gargalhada geral!
__ Realmente só mesmo tu! Só mesmo dessa tua cabecinha pensadora …, tens bom remédio: vai cheirar uma a uma e logo verás.__ Diz o Olhos de sapo
A gargalhada geral tinha levantado a lebre, e o porteiro que era grande como um dos filhos do clã Bonanza da série da Tv. olhava a medir-nos as intenções.
O Barman, secundava-o no serviço de controlo.
Um gajo com uns pendentes amarelados a brilhar na peluda peitaça, e que pelo aspecto deveria ser o dono de alguma, ou algumas, das máquinas de sexo por ali sentadas, esperando um cliente, em defesa do negócio, olhou e deixou-nos sem saber o que tinha concluído.
__ Bem, o melhor é vazarmos já daqui para fora, diz o Brasuca.
Em fila Indiana, passámos em frente às máquinas de sexo, que alinhadas junto à parede, obedientes aos métodos ensinados e assimilados na aprendizagem da vida, nos seguiram olhando à cata do tal olhar sinal __”anda daí”__, que porventura algum de nós fizesse.
Por aquela encosta acima, de metro a metro a festa animava.
Por todo o lado, rua, ruela, beco e esquina, era um regalo ver petiscadas apetitosas, esperando-nos.
Nos bailaricos as moçoilas encaloradas esperam-nos, __ todos pensávamos.
__ É pessoal, nem é tarde nem é cedo, agora mesmo tocou para uma sardinhada, diz o Olhos de sapo
__Pois que assim seja. Para comer e beber todas as ordens são bem vindas, diz o Rodas baixas.
__Pois claro! Tinhas de ser tu a dizer isso! É por estas e por outras que só cresces prós lados, diz o Brasuca.
__ Que raio! O pivete continua presente, nem o cheiro das sardinhas o afasta daqui!__ Diz o Olhos de sapo .
E a festa continuou, como, mais não pode ser dito, porque as paredes têm ouvidos.
Chegados à camarata do manicómio, eu este narrador , (de Dr. Parafusos alcunhado por um enfermeiro bem inspirado que isto inventou devido ao meu gosto e jeito pela electrónica ), entro no quarto, olho em redor e vejo a causa do
pivete.
Naquele tempo, eu aderi , ( e não gosto de modas ), à moda do salto tamanho de um tijolo e das calças “saiadas”que tapavam a biqueira e ainda sobrava pano ! Para compôr o ramalhete usava-se o cabelo grande. Para o segurar meti umas borrifadelas de uma embalagem que eu pensava ser de laca fixadora, mas era uma outra mistela que com a pressa e como não tenho olfacto, não dei por nada.
__ É pessoal! Encontrei a causa do pivete.
Vinde ver. A quem descobrir, pago uma imperial na Portugália, já na próxima saída.
Todos olharam, com olhos de ver, deveras interessados.
__Ó raios te partam! Não é que este gajo em vez de laca pôs brise, purificador de ar?! __ Diz o Rodas baixas.
__ Ai pagas, pagas, e não só a ele que descobriu o mistério, pagas a todos e sem espiga, diz o Brasuca, com toda a sua justiça.
E pronto, foi assim aquela noitada daquela cambada à solta mas bem comportada.

Novembro 15, 2007

Abaixo de cão

Filed under: Conto,Ratadas — carva55 @ 10:53 am
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Na fábrica, fui até ao Wc. despejar as tripas. Necessidade que não se pode delegar em ninguém. Ao menos nisto sou igual aos demais, nem mais nem menos, nisto todos têm que se ocupar, até os tais mandões, pensei. E este pensamento deu-me um gozo do caraças!
Na parede junto à porta estava colado um papel com um texto a convidar o pessoal para o jantar de convívio anual.
Junto ao texto, alguém desenhou um cão em pose de ladrar, a largar pela boca uma baba, espuma ou coisa parecida.
Pelo cu saíam-lhe umas bolitas que eu identifiquei como sendo fezes.
“Quem será o autor desta obra de arte? Com isto estará a querer dizer-me: __não venhas, olha que te mordo. Se vieres, comes esta merda que estou do cu a largar__.“
Isto caiu-me tão mal que logo ali naquele momento decidi não ir.
Após se ter esgotado o prazo para a entrega da confirmação, da ida ou não ida, abeirou-se de mim o grande chefe e assim falou:
__Então Senhor Carvalho, não vi o seu boletim para a festa. Esqueceu-se de o entregar? Vem, ou não vem? __Não, não vou, e digo-lhe porquê.
E falei-lhe de tudo aquilo que vi, deduzi, e que tenho estado a relatar.
__ Toda a gente achou piada só o Sr. Carvalho é que não. Para a próxima vez mando fazer outro desenho com uma coroa de rei e o seu nome, e até lhe posso dar uma para que a coloque na sua cabeça.
__Claro que pode! Pode isso e muito mais!
Mas será melhor que mande escrever somente o texto sem lhe acrescentar desenhos estúpidos.
Sei que sou especial! Tenho uma cabeça que pensa diferente dos demais. É o meu pensar, a minha óptica das coisas, a minha razão. Porque tenho direito a isto tudo, e ainda porque:
__ Não há machado que corte a raiz ao pensamento __, lá diz a célebre canção__, porque não abdico nem sequer de uma ínfima parte desta minha forma de estar e de pensar, digo-lhe: __Não, não vou! __.

Talvez por não estar habituado as falas nem a desobediências destas, Talvez por estar habituado a lidar com gente de todo o mundo, (por aqui, só ainda não vi esquimós!), que devido a guerras, a misérias extremas que os obrigou a deslocarem-se e por sistema acomodam-se, submetem-se e deixam-se escravizar, talvez por ter concluído que este careca, foi feito de outra massa, que não se submetia, que dizia não à ocasião, __ não respondeu, virou-me as costas e não me falou durante uns longos tempos. São assim, procedem assim estes chefes. Os outros, na Marinha, ostentavam uns galões doirados, estes aqui, apenas usam as penas eriçadas, as cristas emproadas, os narizes empinados, a realçarem o poder de todo o conjunto.

Estávamos em mil novecentos e noventa e agora estamos em dois mil e sete. Entretanto com a chamada, __Globalização __, o grupo empresarial cresceu e expandiu-se para o estrangeiro e às festas tem vindo gente das vizinhanças. Em algumas, já aconteceu juntarem-se mil e tal pessoas.
Já aconteceram muitas festas. Acabei por ir a algumas e às restantes tenho-me cortado a ir. Tenho ido conforme o apetite do momento. Estando eu quentinho, na minha casita aquecida, e lá fora haver um grande nevão não me apetece sair para ir, e tenho pensado:
__ Não, não vou! Acendo a lareira, tomo uns copitos, e pronto.
Ir? Para quê? __Para esperar muito tempo pela comida, por um mísero meio copito de tinto, que quando a menina depois de servir aquelas gotas logo vira costas! Apetece chamá-la, apontar para o copo, e dizer: “ Olhe, menina: já estou outra vez às escuras! “
Aqui existe um enchido de que já muito falei noutros escritos mas acho necessário repetir agora.
Chama-se __Olma-Bratwurst __. Faz-me lembrar a moira portuguesa, mas nem aos calcanhares lhe chega. E eu, ainda bem me lembro de quando , e do quanto, ao comê-la lambia os beiços, só que infelizmente, muito raramente, isso acontecia lá na minha terrinha, a minha querida Nagosa, plantada na Beira – Alta, só que esta, a dita, é feita de carne tão triturada e diluída que lhe dá uma cor uniforme, sem a brancura de um único milímetro de nervo ou tendão descarnado, nem a vermelhada típica da carne ensanguentada, nem a dureza traiçoeira de um pedacito de osso. Tem um sabor tão esquisito que me deixa na boca uma sensação desagradável, que me parece estar a comer um pedaço de plástico, e por momentos vejo-me na pele de um cão a roer o seu osso artificial de brincar.
Por estas paragens é considerada uma grande especialidade , especialidade da avó, __OLMA__e é muito usada em festas. Até em algumas onde as portas são abertas ao público, em firmas, em fábricas, em garagens, quando querem apresentar as novidades do mercado. Não há festa que se preze, que não a apresente. Sem ela, não seria festa, não seria nada.

Nós os latinos não apreciamos muito aquela coisa, porque temos enchidos, __os nossos muito saborosos fumeiros, que principalmente os alentejanos aquando da ida à terrinha trazem, e convidam alguns amigos para se regalarem numas petiscadas bem regadas.
“Que sorte tenho, por ter amigos desses! Eles são os culpados de algumas segundas-feiras azedas…, que me têm mantido turvo por muitas horas.”
Os nossos chefes sabem isso, e uma vez, na tentativa de agradarem, puseram à disposição e à descrição do pessoal outras carnes tais como: febras e costeletas. Com a obrigação de cada qual as assar. Ora aconteceu que com aquela novidade introduzida, os que puderam, abusaram e paparam tudo num instante. Digo, puderam, porque deixaram os atrasados a berrar! A esta não fui, por isso não assisti, mas se muito gozo tive ao ouvir contar, muito mais teria se tivesse assistido.
Mas, além disto que descrevi como inconvenientes, ainda há a acrescentar que em todas elas têm acontecido sempre as mesmas cenas teatrais! Tenho-me fartado de rir ao ver toda aquela gente, __colegas e chefes__ numa falsa cavaqueira, todos sorridentes, eles que passam todo o resto do ano numa autêntica guerra de lambe-lambe, de ver quem mais espezinha para conseguir os seus fins, e ali, naqueles momentos é um “regalo” vê-los a usarem cumprimentos especiais, com palmadinhas nas costas, tudo aquilo me cheira a uma enorme hipocrisia.
Em algumas até foi muito saboroso. Numa delas, todas as comunidades, (e por lá mora todo o mundo), foram convidadas a apresentarem as suas especialidades. Foram montadas barraquinhas, parecia um arraial no meu Portugal.
Numa outra vez, __ não na festa geral do grupo empresarial, mas na nossa secção e mesmo assim meteu muita gente! __, Um grupo de portugueses aceitou o desafio e tomaram em ombros a tarefa de representar Portugal.
Fizeram gambas, sopa de peixe, e bacalhau assado, __ mesmo na brasa! __, E com mais umas coisas a enfeitar e a complementar, (coisas que agora já não me lembro) deixaram uma boa imagem de Portugal.
Para quem não sabe ou nunca quis saber e por isso nunca nisso sequer pensou, digo aqui e agora, que nós os emigrantes, somos os melhores e autênticos embaixadores de Portugal. Porque os outros ditos e tidos por tal, ficam-se pela representação, selectiva, em momentos e para elementos especiais e que por isso não chegam aos demais, às massas do país onde se encontram teoricamente a desempenharem essa missão. Com isto que estou a dizer, se algum deles me ler, vai ficar a deitar fumo pelas fossas nasais, (vede como também sei falar caro! Porque me apetece, senão escreveria, __ventas__, como um dragão. Mas pouco me importa. Não devo nada a ninguém. Sou livre e independente como o Pardal que vai e que vem, torna a ir e torna a vir sem dar cavaco a ninguém!
E pronto, eis mais um relato verdadeiro, a juntar à minha colecção das esquisitices desta gente.

Novembro 10, 2007

Sornice

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São três e meia da tarde de sábado do dia dez de Novembro de dois mil e sete.
Lá fora, o tempo tem um aspecto farrusco.
Lá em cima no alto da serra passa uma mancha enevoada de onde cai neve. No chão vê-se bem nítida a sua brancura.
Cá em baixo, embrulhados no vento que irritado assopra e faz os meus estores metálicos queixarem-se dos seus safanões,
passam uns flocos de neve que logo derretem.
Aqui na sala, as Tvs., como habitualmente, (e talvez para não variar), estão a passar uns programas que parecem terem sido copiados a papel químico, tal é a semelhança dos seus modelos.
Os pássaros, __Agapornis__, a quem os Ingleses chamam de “ pássaros do amor “ estão enrolados, já preparados para baterem uma rica sesta.
Os peixes, de pança cheia nadam calmos. Alguns nem sequer nadam, flutuam apenas.
Chega-me uma sornice que me torna amorfo, sem que nada de jeito me apeteça fazer.
Penso e visiono o “filme”. Ali ao lado na Caravela certamente que acontece o normal habitual. No espaço que é bar e também salão de jogos, um par a jogar bilhar, alguns a jogar cartas. No restaurante, a esta hora, estará algum retardado a lamber-se nos restos do almoço.
Na casa do Benfica a esta hora já as cartas fervilham nas mãos e saltam para a mesa. As setas voam apressadas em direcção à máquina dos pontos. A Tv. está sintonizada no sporTv. e no futebol Inglês. __ Porque é por lá que anda a brilhar o nosso Cristiano Ronaldo! __.
Os jornais, abandonados, amontoados, lá estão a forrar a máquina do tabaco, esperando um folhear, um simples olhar.
“Coitados de vós …, bem podeis esperar sentados! “

O ambiente do Centro é-me mais difícil calcular pois que ultimamente tem andado muito irregular.
E eu aqui estou sem saber que fazer.
Pego no livro que ando a ler e depressa o lanço para o sofá. “Não, por agora não vou chatear-me mais com esta porcaria. Mas hei-de acabar de te ler,” penso eu, olhando-o.
Dizem que já vendeu carradas de resmas, mas é a maior porcaria que já li até hoje.
Os autores dizem – me para não pensar nas dividas. “ Que antes de abrir a caixa do correio devo pensar sempre que vou encontrar lá dentro arrumadinhos cheques com dinheiro fresquinho e vindo de desconhecidos. Que se eu não pensar nas dividas elas não aparecem.”
Ora eu penso que ninguém dá nada a ninguém. Mesmo quem dá esmolas, está sempre esperando receber algo em troca, nem que seja algo vindo de um santinho qualquer.
Que treta! Elas, __as dividas__, existem porque eu as contraí . Por isso, quer eu pense nelas ou não, as facturas vão continuar a chegar até que tudo seja pago.
“Que os meus pensamentos são como ímanes que atraem as coisas, boas e as más. Que geram ondas de frequência que se espalham pelo Universo e reúnem as pessoas que podem influenciar.”
Um deles diz que conseguiu ter a casa que anos antes tinha pintado numa tela. Um casarão de muito milhão!
Outro diz que ao olhar para os carrões de sonho devo pensar: “ vou ter um igual, vou ter um igual, __devo pensar muitas vezes e assim um dia vou ter um igualzinho!”
Garantem sem vergonha e com muita certeza!
Será por causa desta treta de pensamentos que muitos se cansam de esperar, passam-se dos carretos e entram numa onda de crime? E aí chegados, com isso, compram sim os tais carrões e casarões!
Ora que porra! Já agora digam que tudo se resume em ter ou não ter a tal lâmpada mágica e o tal gajo que ao esfregá-la faz aparecer materializados todos os nossos sonhos.
Àqueles que é costume andarem tesos, por falta de dinheiro dizem que não devem pensar na sua falta, mas que devem dar algum e pensar que já têm muito, que já têm o suficiente e assim vão atrair e conseguir ter muito mais dinheiro!
Enfim…! E assim se fazem fortunas usando o desconhecido e abusando dos desgraçados inconformados que tudo aproveitam para ver se algo de bom muda nas suas vidas. São apenas mais uma fornada a juntar aos bruxos, videntes, e similares.
Já me esquecia de dizer que esta fornada de papões é a autora e colaboradores na feitura do livro, __ The Secret __, o segredo, que de segredo para mim não tem nada de nada de secreto nem de aproveitável.
Não acredito no invisível, acredito somente no palpável.
Que hei-de fazer? Tenho umas mãos muito curiosas! E uns neurónios pouco ou nada influenciáveis.

Pois é rapaz. Tens que sair dessa morrinha e preparar a segunda – feira que já está perto, porque as férias estão a chegar ao fim e tens que ir fresquinho vergar a mola.
Para arrebitar, coloco na aparelhagem uma salada musical composta por: Whitesnake, Bon Jovi, John Mellencamp, Sunrise, Sammy Hagar e mais alguns “amigos”que certamente me elevarão a um estado tal, que me ajudarão a resistir a estes ventos adversos, penso.

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