Entra ou Sai

Abril 20, 2012

Tabus 

Tabus

 

Tabus. Ah! Os tabus. Monstros que atrofiam, que enclausuram.

Foi o namoro em casa do irmão onde o sogro é que ficava a controlar-me, a controlar-nos.

A mim, que era um estranho que lhe entrava em casa, mas a ti que vivias lá e tinhas vinte e sete anos?!

Tanto controle! Controle, mas na pessoa errada.

Tanto foi assim que a filha é que emprenhou!

Foi nos vãos de escadas, nas curvas de escadas entre andares, nos jardins, nos bancos dos autocarros , na barraca da praia com areia a arranhar , em lençóis alugados.

Foi onde tinha de ser, o momento exigia e onde podia ser …

Foi em casa, às sestas de pança cheia em plena digestão onde ainda o alçar das pernas não incomodavam, não havia dores chatas a chatearem nos tornozelos, nos artelhos…nem panças a estorvarem.

 Foi em casa de tarde à noite, a qualquer hora, bastava que apetecesse.

 Mas sempre esperando que enquanto e durante o acto, quem tinha a chave suplente não viesse incomodar.

 Como chegou a acontecer vir e interromper no momento exacto e mais impróprio.

Foi, o que foi, como foi. E é isto que temos para recordar.

Se um dia te acabarem os comeres , se um dia te caírem os dentes , lembra-te que já tiveste dias melhores que foram teus , que foram meus, meus e teus.

 

Abril de 2012

 ImagemImagem

Janeiro 3, 2011

Livros Grátis

Filed under: COISAS — carva55 @ 8:09 pm
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Olá.
Aqui deixo estes dois LINKS para que, quem estiver interessado, possa ler grátis e na íntegra , dois dos meus últimos quatro livros, edição de 2010 .
Basta que os marquem copiem e coloquem nos FAVORITOS para que os possam ler nas calmas.
No fundo de cada página aparece a numeração , por isso é fácil ir controlando o que já foi lido.
Espero que gostem .Um bom Ano para todos , com tudo de bom .

http://www.wattpad.com/708377-conversas-de-papel
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Março 13, 2010

Coisas da vida

Hoje é sábado, dia treze de Março de dois mil e dez.
Voluntariamente fui trabalhar. E até hoje pouquíssimas vezes fui voluntário, fosse para o que fosse.
Sempre ouvi dizer que voluntário, só para a sopa e o pré – que é o ordenado da tropa.
Para entrar na Marinha, tive que assinar um documento, porque nessa data já era casado. Por isso, voluntário, não foi, porque fui fora de tempo, e não fui recrutado porque não me tinham chamado. Então digamos que fui semivoluntário.
Hoje, como disse, aprontei-me a ir, porque no último sábado deste mês o meu amigo joão Cruz e respectiva família vão mudar de casa e quero ir ajudá-los. Para isso já avisei o meu chefe para nessa data não contar comigo.
Normalmente devia ter ficado em casa, porque antes de ontem fui a Zurique com a minha irmã, a minha mulher, uma das minhas filhas e um dos meus genros, assistir ao concerto da Mariza.
Lá fomos na “carreira”, em excursão no jipalhão da minha filha, porque o meu carro estava na garagem para ser preparado para ser levado ao controle periódico. E a tracção às quatro rodas do jipe dava mais garantias de não acontecer, vir a ser apanhado num carrossel de uns possíveis incómodos e perigosos deslizares no gelo e na neve.
Tirei o dia de sexta-feira de férias porque nunca se sabe o que pode vir a acontecer, e porque não sabia a duração do concerto, e também porque estava de neve.
E então pensei: _Para quê poupar férias se eles, escudando-se na polivalência e na flexibilidade laboral, (palavras deles) nos estão a meter em casa conforme lhes agrada?
Gastar um dia de férias – o dia de sexta-feira, e ir trabalhar o sábado – não é normal . Mas como já disse o interesse foi meu.
Acabei de sair de uma rica sesta.
Já estou de molho no banho de imersão.
A careca transpira. Nas tetas a espuma faz cócegas. Com o calor da água quentinha o grelo acorda e arrebita-se.
Lembro-me dos tempos da Marinha. Dos saborosos petiscos na nigth inglesa, que foram repasto do meu cavalo, jovem e à solta.
Lá fora, sei que está frio porque a neve continua nos telhados e no lameiro.
Sabendo isto, tem mais sabor o quentinho da água da banheira.
Da sala chega-me a voz da minha mulher a falar com a nossa neta Noélia de sete meses e meio.
“ Estás rabugenta! Estás farta de estar na aranha? Já te ponho na manta do chão para poderes fazer ginástica, rebolar esbracejar e espernear à tua vontade. Oh com um catano! Já estás outra vez junto ao móvel! Caramba que não paras! “
Criança parada é mau sinal. Querer criança saudável paradinha, sossegadinha? – Será o mesmo que querer um leão sentadinho a ver televisão. só amarrando-o a um poste… Penso.
A neta responde-lhe com um papa, que não sei se quer dizer papá de pai, ou papa de comer. A chamar pelo Papa chefe dos cristãos não é com certeza…
Volto à minha Marinha.
“Se tivesse ficado por lá, já estaria reformado a gozar à grande e à francesa”, penso.
No Vale da Amoreira onde tenho a minha sede, habitam também alguns dos meus ex. Colegas. E em contacto periódico que com eles tenho mantido, fui sabendo que há já muito tempo, muitos anos, com a frequência nos diversos cursos se tornaram Sargentos.
Alguns, por terem participado em comissões especiais, beneficiaram de bonificações de tempo e já se encontram reformados.
Eu, como não me tenho nem por mais burro, nem por mais esperto, certamente teria passado por tudo isso, e agora estaria nessa dourada situação, a gozar o saboroso estatuto… Assim tenho que por aqui continuar a malhar no ferro dos tubos…
Poderia ter continuado. Cheguei a meter os papéis. Acabei por decidir sair. Foi a minha opção portanto não adianta chorar sobre leite derramado…
“Que raio, outra vez?! Já me doi as costas de tanto me baixar para te ir buscar .“
“A guerra continua. Ainda bem porque assim tens com que te entreteres , senão morrerias ao pasmo, a cismar em coisas e loisas”, penso, enquanto me seco.
Saio. Na sala, a Tv. passa algo que não sei do que se trata.
Não me cheira a grande coisa…Em poucos segundos, concluo que não me interessa.
Vou para o computador.
E aqui estou, a dedilhar para registar, esta coisa em forma de desabafo.
Agora com as baterias bem carregadas estou pronto. Prontíssimo!
Noutros tempos seria para a nigth. Hoje vai ser para a sossega, que estes meus cansados ossos por vezes rangendo já reclamam.

Abril de 2010

Setembro 6, 2008

Domingo à tarde

Domingo à tarde

Hoje, é o último domingo de Agosto de 2008. Agora decorre a parte da tarde. A minha mulher está de pausa e mais logo torna a ir trabalhar. Se fico por aqui, não resisto à tentação do sofá e não tarda muito estou a ferrar o galho numa sesta. Levantei-me às dez. __ Nem oito nem oitenta, não pode ser. Vou até lá abaixo ler um bocado e com o ambiente certamente me manterei desperto, penso.
Pego na trouxa e lá vou eu para o tal __lá abaixo __ que mais não é senão o lago Konstanz também conhecido por Bodensee. Chamam-lhe de lago. Mas cá para mim um lago não tem entrada nem saída de água e este tem. Começa nos Alpes Suíços, nas altas montanhas como o St. Gotthard. Desce em “rapé” nas quedas, Rheinfall de Schaffhausen e continua a sua viagem até ao mar do norte. Portanto é um rio que aqui alarga tal como o Tejo junto a Lisboa.
O tempo está pesado, cinzento, abafado. Igual ao que habitualmente antecede as trovoadas. Cá para mim, ainda vem aí uma e das fortes, penso.
O lago está calminho, estanhado, igualzinho ao meu mar – da – palha, ( cartão de visita de Lisboa e arredores ) , em tempos de calmaria.
Decorre ainda a exposição das belíssimas esculturas de areia. Há já vários anos consecutivos que realizam este evento. Todos os anos, religiosamente, tenho vindo fotografá-lo. Mas, para isso já cá vim ontem. Estava um tempo lindo com um sol aberto e quente. Junto ao repuxo nadavam algumas pessoas. Na base sólida estavam dois rapazes a deliciarem-se com a água a cair-lhes sobre os corpos. Era a cascata possível, estariam a pensar. Um deles pôs-se em pé com os braços abertos __à Cristo__, em posição de saltar.
Reparei que no repuxo estava a gerar-se um lindíssimo arco-íris. Não hesitei, e sem demora captei aquele momento.
Mas isto foi ontem, e já foi ontem …, agora é outro dia. Em frente marchar…, quero ir à aventura, em busca de novas sensações, porque parar é morrer. “Cavalo parado__ ganha ferrugem nas ferraduras. Ferramenta não usada __ encrava…”
Dirijo-me para a zona do Seerestaurant . O parque está esgotado. Continuo para o seguinte que fica em frente à Hauptbahnhof __ estação principal dos comboios__. Também este se encontra esgotado. Ora que porra, hoje pariu a galega?! Anda toda a gente à solta? Agora que o período escolar já começou, já poucos estão de férias, já regressou a maioria, e talvez estejam a despedirem-se do Verão pois que no ano passado, (ou terá sido já no outro? __ interrogo-me. __Ah! como o tempo passa e as cabeças avariam!) Por volta dos dias vinte e três ou vinte e cinco de Setembro já havia neve lá em cima na serra Rorschacherberg.
Decido ali ficar parado esperando uma vaga, que acontece passados uns minutos. Um carro entra no parque e, __ queres ver que vou ter que me chatear com este gajo, penso. O fulano que o conduz faz-me um sinal, retribuo-lhe outro e ficámos desde logo entendidos. Aquele lugar era para mim e não ia abrir mãos …
O fulano decide ir embora. Faz a manobra e eis que um outro lhe obstrui a passagem. Apitou. O outro responde-lhe com o célebre e mundialmente conhecido gesto dos três dedos. Um esticado e os dois encolhidos. Que querem dizer: “vai para o …, e, aproveita-o.”Gesto este, por todos entendido. Queres ver que isto ainda dá molho, penso. Mas não. O fulano descarregou a fúria no acelerador do carro provoca uma chiadeira e vai embora. Por aqui, onde o chamar a polícia custa dinheiro, alguém vai ter de pagar, evita muitas confusões.
Chego junto à água e constato que realmente uma grande multidão se “espraia“ pela relva. Também aqui resulta o que antes escrevi: é a praia possível, na Suíça não há mar.
Uns comem, outros jogam, à bola, ao badmington, etc. Graúdos e miúdos divertem-se, cada qual vive à sua maneira, livre e à solta.
Alguns pescadores de pesca à linha posicionam-se, e trabalham em equipa ,“ora dá cá e vai lá, ora toma lá que eu vou”, __ e lá iam fazer outra coisa qualquer. Outros tornam a mudar, talvez à procura do melhor local. De vez em quando lá vem um trazer o produto da faina. Uns peixitos pequenitos que metem no pequeno tanque do chafariz, os quais os putos aproveitam logo para usar na brincadeira. (Coitados, tão atrapalhados que estão com a morte certa que se avizinha e ainda têm que aturar aquelas tropelias!) __ Penso.
Brincam com os peixes e às molhadelas, apertando o papo ao repuxo do bebedouro que continuamente esguicha e desperdiça água. Aqui ainda vá lá …, chove muito, e há muita água, mas mesmo assim acho mal não colocarem uma torneira, enfim… E vêm-me à lembrança imagens televisivas a mostrarem gente em África a tirarem água de fontes com a torneira avariada, ou mesmo sem torneira, debitando ao ritmo da força do bombeamento, e algumas vezes eles mesmos a desperdiçarem porque nem funis usam e às vezes é mais a que se perde do que a que metem nas vasilhas, __ vê-se e incomoda.
De vez em quando lá vêm umas gotas cair no livro que estou a ler.
Uma senhora de lenço bem amarrado na cabeça e de capa ou gabardine, (nem sei bem como lhe chamar), estende o estaminé num banco do jardim e toca a aviar o prato. Umas loirinhas que abraçadinhas vão a passar, viram as cabeças para trás para verem um pouco mais e sorriem, sorriem muito, achando muita piada àquilo.
Lembro-me de que no ano passado o Cunha organizou um passeio e na carrinha do Benfica que alugámos, fomos um domingo, uma dúzia de homens, (sem as mulheres, a laurear o queijo, à boa vida, à “boavaiela”, etc. __ viva a liberdade). Tivemos azar com o tempo que fez. Choveu todo o dia. Aqui nesta terra onde o tempo faz várias caras ao longo do dia, é impossível programar algo ao ar livre. logo de manhã começou a dose de azar. Quando chegámos para levantar o leitão destinado à nossa paparoca, apercebemo-nos de que tinha acontecido uma confusão na encomenda e o “Suisserote” entendeu que era cru que o queríamos para nós mesmos o assarmos, e cru estava, e assim não nos servia, e a solução foi andar, andar, a fazer quilómetros a matar tempo, necessário para a lenta assadura.
No entretanto aterrámos em bando num café de uma estação de serviço, para tomarmos o pequeno-almoço. Aquilo parecia uma equipa de futebol e logo com o emblema e o nome do grande Benfica escarrapachado na carrinha, e nós todos orgulhosos! Só que, com aquelas personagens carecas e barrigudas, facilmente se via, que a ser uma equipa, teria de ser a do reumático!
Mas vem isto a propósito para aqui e agora relatar que também nós aproveitámos um banco do jardim e pusemos – lhe em cima a caixa onde trazíamos o leitão cortado aos bocados. E também ali foi coisa que espantou muita boa gente que passava. Ainda por cima, estávamos precisamente nas quedas de água de Schaffhausen, onde turismo é às carradas !
Imaginem-se muitas mãos com copos de plástico, com vinho, e bocados de carne. Aos olhos de quem passava, deveríamos parecer um bando de canibais!
Mas isso não nos incomodava. Queríamos era encher a pança. E à boa maneira portuguesa, (para comer e beber, o português está sempre pronto), havia muita carne. Ainda chegou para outra comezaina. Só que quando aconteceu, eu já estava de férias em Portugal e lerpei…
Mas, não houve espiga …, que lhes tenha feito bom proveito.
Um bebé que há muito por ali palra e na manta que cobre a relva gatinha, agora chora. “ Está na hora da mamada “, __ deve ter pensado uma senhora que dele tem cuidado e até pode ser a sua mãe, penso.
Sem demora enfia a mão por entre a roupa e trás para a luz do dia uma grande mama que pelo tempo que demorou, o mamilo necessário para servir de chuchadeira, devia estar bem em baixo junto ao umbigo…
O puto, agarra-lhe com ambas as mãos __como que se de um troféu se tratasse__ , e regalado com o leitinho fresco aceita fazer umas tréguas na choradeira e deve ter pensado, (porque puto já pensa!), __aqui tenho muito onde agarrar!
Um alguém que assiste à cena, (será o pai?) __ Parece – me não estar a gostar, olha carrancudo, talvez chateado por ter de partilhar aquela parcela da sua propriedade.
“Tem calma, __ apetece-me dizer-lhe__, pois que tens aí nessa camioneta, quase camião, ou deverei dizer camiona? __ Muita areia para emprestar, dar, e vender!”
Lembro-me que uma vez fui banhar-me à água do lago. Na relva que faz de areia de praia, __ porque a Suíça não tem mar __, (sei que já o disse mas torno a dizê-lo), estendi a toalha e de repente vi-me todo preto como um africano. Foi motivo de gargalhada geral. __”Deve de ter sido alguém que pôs estrume tal como os vaqueiros costumam meter nos lameiros para fertilizar os terrenos, e é cá um pivete tão insuportável que temos de fechar as janelas á pressa__. “ Ouvi um parceiro dizer .
__” Sim, ou então alguém de duas ou de quatro patas que por aqui passou e da carga da tripa se aliviou e isso com as chuvadas se diluiu e o resultado agora se viu.” __Aventa um outro, convicto.
Um dos barcos que fazem a carreira__ apita e interrompe a minha leitura.
O meu iPod debita agora, “ __ Podia haver uma luz em cada mesa / e uma família em cada casa / Jesus em Dezembro, aqui na terra/ podia ser natal e não ser farsa. / Podia ser notícia o fim da amargura/ que divide os homens por trás dos canhões /a fome e a miséria servem a loucura/ que forja profetas e divide as nações.”
Olho em redor e penso: óh! Meu caro amigo Ribeiro, como tu tens razão! Aqui, por enquanto há paz, trabalho e pão.
O livro que estou a ler tem o título __Nachtzug nach Lissabon__ (comboio nocturno para Lisboa). E é do escritor Suíço, __ Peter Bieri__, sob o pseudónimo, __ Pascal Mercier__.
Leio: “__No dia seguinte, o primeiro de Novembro, fui de madrugada até ao arco no final da Rua Augusta, a mais bela rua do mundo. Sob a luz desmaiada do amanhecer o rio era uma superfície lisa de prata baça.” Ao ler esta homenagem a uma parcela da minha Lisboa escrita por um autor estrangeiro, sinto um arrepio percorrer-me a espinha. Devido, talvez a um sopro de saudade, (a ser sopro, será porque ainda há poucos dias que vim de lá, senão seria certamente um vendaval que me rasgaria a camisa…), ou simplesmente pela agradável surpresa!
Já ganhei o dia, penso.
Já tenho uma boa dose de leitura. Faço um intervalo e vou até à casa do Benfica a ver como param as modas, decido.
No parque, abro a porta do carro com muito cuidado porque o espaço é pouco e não quero bater no veículo vizinho.
Apercebo-me de que o espaço ora estica ora encurta . Ehi pá! Que é isto?! Algum terramoto?!
O veículo é uma carrinha caravana. Pela janela, vejo quatro pés. Ah! com que então é isso ?! Já entendi. Bom proveito a quem quer que seja. Mas que grande lata! Aqui e agora a esta hora da tarde numa tarefa destas …, À frente! Será isto um bordel ambulante e estarão os “quartos” de trás todos ocupados? __ Interrogo-me, meio aparvalhado. Pois, esta surpresa não é coisa para menos, abala qualquer um, penso, constatando o meu estado do momento.
No banco do pendura, um cão de grande porte assiste ao espectáculo em posição privilegiada, logo no primeiro balcão pois então! Nem dá sinal da minha presença. Será porque está muito entretido e entusiasmado, ou não quer distrair os actores?!
Oh! Ai! Ui! __Se os carros falassem! ….
Chego à casa do Benfica. __Uma “auguinha” diz o Toni. __ Sim, se fosse há três meses atrás “ uma bojeca? ” __ Perguntarias. Mas agora é assim que tem que ser. E o que tem que ser tem muita força.
O boneco do João Pinto, o poster do Eusébio, fotos com equipas de velhas glórias vitoriosas de outros tempos, a Águia Vitória plastificada, algumas caras , a gargalhada única e especial da Alda marcam presença, preenchem o espaço, confundem-se, impregnam-se, como sendo e fazendo já parte dos móveis da casa, e são a diferença.
A maquineta do bingo com as bolas arrumadas e preparadas, esperam que os francos entrem nos bolsos das pessoas e os tornem mais expansivos, mais alegres, mais mãos largas.
A mesa redonda, antes, palco de actores faladores em grandes conferências muito participativas, com boas petiscadas e bem regadas, hoje ali está no seu canto abandonada e triste…
A Águia pintada na parede, com as suas grandes asas abertas parece dar as boas vindas a toda a gente que chega. Politicamente correcta como o astuto político que usa este velho gesto, esta velha artimanha, querendo fazer-se passar por o grande irmão de todos cuidador, de todos protector “ Vem aos meus braços, meu povo! “
O ar está quente e pesado. Aqui neste ambiente fechado ainda mais se nota. Decido ir para a esplanada improvisada. E por ali fico a ler mais um bocado até que chega o parceiro que me acompanhou ao concerto dos Metallica.
A conversa que se seguiu pôs fim à leitura.
Chego a casa e a minha mulher lá está agarrada aos tachos. Coitada! Trabalha fora e ainda vem trabalhar para casa, penso.
Lamento, mas eu, talvez, porque não tenho olfacto para gozar os condimentos das especiarias, a cozinha nunca me entusiasmou. E não sendo assim, onde iria eu arranjar tempo para os meus livros, os meus escritos, a Net, o meu Xadrez?
Vem a propósito trazer aqui e agora à baila o facto da existência da ausência de olfacto. O meu pai talvez com pressa, por ter que se levantar cedo para ir regar o milho, ( certamente me fez à noite, que era quando havia algum vagar e quando os calores apertavam, penso), deve de ter poupado algumas bombadas e saí com este defeito de fabrico…
Às vezes em jeito sádico, e para a chatear, já lhe disse : “eu casei, não para ter mulher, mas sim para ter secretária.” E quando fui presidente do Centro Português que é uma associação cá da terra, cheguei a dizer-lhe : “estás a ver, eu já sabia que um dia ia ser presidente e que ia precisar de uma secretária.”
Por isto é que ela não acredita que eu lamento. Mas a verdade é que lamento muito. Gostaria de ter posses para lhe arranjar uma empregada doméstica.
Na Tv. passa o telejornal, que sei de antemão que vai ser longo de uma hora e meia. (onde se vê, ou já se viu isto?). Como grande novidade mostram um sistema de som aquático em piscinas.
Ora aí está o que sempre ouvi: “ __ Portugal está atrasado vinte anos __.) Esses e mais alguns__ penso. Porque há já vinte e três anos que entrei numa piscina pública lá para os lados de Rapperswil e que já tinha isso instalado. Nessa altura, para mim, isso foi uma grande surpresa. Mas porra, já lá vão tantos anos!
Vou até à estante para lhe devolver o livro. Lembro-me de que ainda não tenho título para este escrito, e às vezes demoram uma eternidade a surgir…
Mesmo em frente do nariz está o livro do Fernando Namora, ___ Domingo à tarde __. Ora aqui está! Gosto, e foi mesmo a um domingo à tarde, por isso nem mais nem menos, já tenho.
Sento-me à mesa para comer o que já estava preparado. Ao lembrar-me deste meu devaneio vagabundo, automaticamente sorrio. Ela repara e pergunta, o porquê. __ Um dia irás ler. Espera, saber esperar é uma virtude, respondo-lhe.
“Talvez lendo, acredites mais facilmente. No muito do falado às vezes vem embrulhado, __O fado do bandido __. No escrito há mais verdade e fica marcado pela assinatura invisível do escriba.”
Escrevo, mais uma vez, primeiro para mim, e depois para mais alguém será, o tempo o dirá.
Assim desejo. Assim seja.

Rorschach, 31 de Agosto de 2008

Outubro 9, 2007

Má-Língua

ratazana.jpg

São como noctívagos fantasmas na noite mal dormida, vagueando no insípido vácuo do nada da vida.
São apenas componentes insignificantes deste mundo conturbado.
São apenas pedras dum muro parcialmente já demolido.
Vão chegando, de soslaio olhando, os olhos esfregando, a tentar o resto de sono espantar, e um pouco de apetite pró trabalho arranjar.
Uns correndo atrasados, apressados, empurram o cartão lá pró fundo do relógio de ponto. Essa maquineta sem dó nem piedade para quem fora de horas o cartão lá meta.
Por fim mais descansados suspiram aliviados.
“Já está! Pronto! Assim fica sem razão o chefe refilão.”
Quase todos com cara amarelecida e olhos semi – abertos de sono empolados.
Assim, cada qual se transforma numa fachada precocemente envelhecida!
Sorrateiramente vão – se abeirando, controlando qual o melhor porto para atracar: se aqui, se ali.
Com um lacónico olá se vão esgueirando pró lado de lá, fugindo deste ferro que é pesado
e ali mesmo ao lado é mais leve o mangalho do trabalho!
Olá! Lá vem aquele! Se é quem penso que estou a ver já deve ter a língua gasta de tanto lamber!
Esfrego os olhos, apalpo a cabeça, tentando decifrar se é verdade o que nos outros estou a ver: Umas grandes orelhas de burro!
Não consigo chegar a uma conclusão, mas deve ser verdade e não alucinação, pois se fôssemos mais espertos, a esta hora estaríamos fundeados no mar dos nossos lençóis em vez de andarmos por aqui à nora.
Aqui sozinho no meu cantinho enquanto outros se juntam em bando falando de futebol ou então de qualquer coisa baldroando eu aqui estou nas suas casacas cortando.
Voluntariamente deixo cair para o chão uma migalha de pão para alimentar o meu ratinho.
Lá está a espreitar! Com os seus vivitos olhitos e as orelhitas espetadas a fazer lembrar gente especial: __ cientistas, peritos e peritas, espias e espiões até malícia de maioral!
À cautela, patada ante patada vai – se aproximando.
Ainda um dia há – de vir comer à minha mão! É lindo este meu ratinho! Não é desses plastificados, nem de pelúcia de brincar, nem daqueles domesticados treinados a passear pelos colarinhos para impressionar os vizinhos!
Lá vem aquele que já não é ratinho nem ratão mas sim asquerosa ratazana!
Ele e a sua mania que tanto enoja e já não me engana!

A CHUVA DA MINHA RUA

Filed under: COISAS — carva55 @ 3:14 pm
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Bate as horas o relógio da torre. Pum, pum, máquina indolente a tudo indiferente.
É máquina e nada sente!
Horas que foram , horas que hão – de vir. É a noite no seu lento fluir.
E esse pum, pum, lembra – me que há momentos que fazem e marcam os tempos.
As chegadas, as partidas, com suas tristezas ou alegrias.
E eu desespero nesta espera! Espera longa dolorosa!
Mas há esperas deliciosas:
Esperando a noite observando o pôr-do-sol! Esperando o raiar da aurora! No nascer dum novo dia. Saboreando o luar! Escutando os ralos a cantar!
Eis quase chegado o fim desta noite. Ali ao lado ouço um ressonar, lá em baixo o comboio que vai a passar.
E eu, aqui, só, enfastiado desta chuva que caía ontem e cai hoje de dia e de noite.
Estou triste. A chuva é boa e necessária mas é fria e feia, e é triste e me põe triste.
Não gosto dela, pronto! Prefiro o meu Sol brilhante e quente que me abre os horizontes e me mostra lindas paisagens de belos prados com regatos, densas e frondosas ramagens, rouxinóis nos choupais, pardais nos milharais, andorinhas nos beirais e outras coisas mais.
Mas ele tarda a chegar! E eu desespero nesta espera.
Há silêncio nesta insónia… Vou até à janela e ela lá está caindo miudinha e chata.
Vou para a cama para dormir e sonho com ela.

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