Entra ou Sai

Julho 31, 2009

Vendo e não sonhando

Filed under: POESIA — carva55 @ 8:33 pm
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Aqui por onde ando
Vendo e não sonhando
Vejo vacas
Muitas vacas.

Vacas Suícas
Francesas
Inglesas
Cinesas
Holandesas
E até portuguesas.

Umas caladas
Pastando
Bojudas.
Outras
Como varinas
Demais falando.

Vacas
Muitas vacas!

De todas as raças
Malhadas
Multicolores
Turinas
Cinzentas
E outras cores.

Julho 27, 2009

Pela manhã

Pela manhã, abeiro-me da minha janela.
A serra está linda!
Hoje o Sol acordou bem disposto
E vai acontecer um dia quente e colorido.
Já pintou a paisagem de muitas cores.
As casas, o lameiro e as árvores.
As vacas pastam, lindas, coloridas.

Uma mistura de sentimentos
Inunda-me de um misto
De nostalgia
Tristeza e raiva.
Lembro-me do meu Portugal e da minha casa
Plantada num bairro
Dormitório a que deram o nome de Vale da Amoreira.

Cercada por uma paisagem árida
Triste despida e vazia
Onde bailam ao sabor do vento
Cascas de melão e sacos vazios de plástico.
Lixo que sobra dos contentores
Abarrotados
A rebentarem pelas costuras.

Lixo abandonado
Pelo remexer dos animais abandonados
Vadios e esfomeados. E dos caçadores de tesouros
Que se contentam com pouco.
Basta-lhes uns palmos de cartão
Usado que lhes rende uns trocos
Para o vinho e o pão.

Os autocarros a passarem!
Os cães a ladrarem!
Bestas humanas que de dentro dos carros
Com preguiça de alçar o rabo
E carregarem no botão da campainha
Apitam para chamarem algum vizinho
Dorminhoco e atrasado.

Camiões aquecem os motores
Num irritante e engasgado
Matraquear de malhadeira
Cansada e soltam lamentos
Em soluços fumarentos.
Não vá pelo caminho chegarem as dores
Do reumático e pregarem uns sustos aos condutores.

Tenho já saudades
Das saudades
Que ainda não tenho
Mas que sei que irei ter.
Saudades deste verde, desta calma
Destas cores, que depois, daquela minha varanda
Só em pensamento poderei ver.

Julho de 2003

Julho 19, 2009

Confraria da Caldeirada

Da net

Da net


Decorriam os anos setenta. Havia pouco tempo que tinha acontecido a célebre revolução dos cravos.
A esperança estava elevada ao máximo. “Era agora que tudo aquilo por que tínhamos sonhado e tanto esperado ia ser realizado”, __ ouvia-se por todo o lado.
Era uma coisa que enchia as ruas, as fábricas, e impregnava de alegria principalmente, as cabeças e os corações das pessoas.
As pessoas que eram o povo. E o povo acreditava, porque a fé e a esperança move ou derruba montanhas, dizem …
Mas outras forças, semiocultas, submersas, quase que em banho – maria, esperavam o momento de atacar.
As forças de quem pode __ as forças do vil metal, por quem tudo gira, para quem tudo cresce, para sustentar as descontroladas gulas, e ganâncias desenfreadas.
E assim foram passando os dias que fizeram anos. Anos de continuação do penar dos filhos da mãe, de muitas mães, mães sofredoras, mães trabalhadoras, mães que limpavam, mães que amamentavam e desmamavam, mães que sofriam os azedumes dos seus homens, mães que choravam as mortes dos seus filhos, mães que apertavam a cinta para travar a crescente fome de tudo a crescente fartura de nada.
As forças acima descritas, semiocultas nos covis, ou em tachos marinando e temperando, repito: _ em banho – maria esperando, pacientemente esperavam.
Até que chegaram os tempos em que já no ponto, apareceram e como praga moléstia ou epidemia se multiplicaram e de tudo se apropriaram.
As pessoas, as mães e os filhos que faziam e compunham o ramalhete da esperança e da crença, de tanto esperar, estando já num estado de desiludidos, amorfos, e como um rebanho entontecido pelos interesses do pastor, foram fechando os olhos, deixando tudo crescer ao gosto e prazer de quem estava a reaparecer.
E assim, o meu querido país, rapidamente se transformou numa manta de retalhos rota, desfraldada e esfarrapada. De todo o lado, apareceram mentes corruptas e dedos gulosos e mafiosos a abanar e depressa a desviar, a árvore. A desviar, repito, __ porque roubar era o acto de quem antes estendia a mão à fruta para matar a larica a que estava condenado.
Décadas depois permanece a caldeirada, por essas forças tão bem confeccionada. Forças reunidas na confraria da Caldeirada.
E para completar a obra começada, apanharam boleia na crise financeira que os seus primos espalhados pelo mundo engendraram, comandados pelos dos “states”, (porque é de lá que vem toda a merda envolta em pozinhos de oiro!) e à outra crise de valores já bem medrada, juntaram, e nos restantes amorfizados, anestesiados, deram muita porrada. Agora como toiros usados nas toiradas, nas arenas torturados, ensanguentados, ajoelhados esperam a última estocada.
Enquanto esperam por isso olham em redor procurando os valores anteriormente conquistados em séculos de lutas. Alguns desses valores estão já irremediavelmente perdidos. Outros esperam ainda na calha do corredor da morte. Como se de membros desossados se tratasse, já desmaiados, desfocados, desvalorizados, esperam o momento final. O sacristão prepara já a corda e o sino para dar o toque a finados, finitos, espremidos, prensados.

Julho de 2009

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