Entra ou Sai

Junho 25, 2009

Coisas & Loisas

 A Gata, Sra. Esperança

A Gata Sra. esperança

A Gata Sra. esperança

Aqui estou, eu e a minha gata Sra. Esperança. Sinto-me só. A minha mulher e uma das minhas três filhas foram uma semana de férias para Chipre. A minha mulher não deixa a gata subir para a cama porque ela fura-lhe os lençóis com as unhas. A gata é arraçada de siamesa. É de uma fidelidade canina incrível. Mas tem tanto de meigo como de ferocidade. Não se lhe consegue cortar as unhas. Tem-as tão grandes e encurvadas que se prendem em todo o lado. A caminhar na alcatifa , ouvem-se uns estalidos. Acho até que para além da dita fidelidade tem muito mais de canino. Quando acha por bem, não se confessa, nem pede autorização para nos dar umas valentes dentadas.
Mas hoje sabendo-me só aproxima-se sorrateira e sobe para a cama. Lentamente como que a apalpar terreno, enrosca-se no triângulo formado pelas minhas pernas flectidas. Não tenho coragem para a espantar.
“Vá lá. Hoje também tu te sentes só. Pois que seja, fica aí.”
Parafraseando o meu amigo Zé Espanhol, esta semana fui promovido a gestor doméstico. Abro a arca frigorifica à procura de algo para cozinhar. Apetece-me um peixito. Tiro uma coisa vermelhinha que me parece salmão. Mesmo a calhar, penso. Para acompanhar, aproveito o resto dos brócolos que cozi ontem. Coitados … Já estavam passados, mais que retardados. O molho, de tão florido parecia um lindo jardim. Cortei, lavei, raspei, e as flores eram tantas, que me fartei de querer ver-lhes o fim. Cozi mesmo assim.
Lembro-me daquela vez em que a minha mulher teve que se deslocar ao Alentejo tratar da avó que estava muito doente e renitente a tudo e a todos e teve que ir a neta preferida pô-la nos eixos e na linha. Fiquei uns dias com as minhas filhas.
Para almoço nada mais nada menos que esparguete com manteiga e pescada cozida da véspera, (também esta retardada), e como nunca tinha feito aquilo, meti tanta manteiga que as minhas filhas em vez de comerem, puseram-se a brincar, a escorrer e a ver quando o esparguete terminava de largar manteiga.
Passados vinte e tal anos, de vez em quando, e quando estão juntas e se põem a rebobinar a cassete, falam e riem com muito prazer deste episódio. “ A culpa não é minha. É da minha mãe que não me ensinou, apenas se limitou a seguir os costumes que naquela época ensinavam: __O Homem quer-se para o machado, sachola, sacholo e afins. A Mulher para a barrigada do pontapé nas costas e para mexer em panela.”__ Tenho-lhes dito.
No último domingo em Martigny à mesa, a conversa versava em culinária. “ Pois e no queijo fresco”__ disse eu. Todos se entreolharam. E eu na minha. “ Sim, não gostam? Eu gosto muito.” “Bem, diz uma das presentes. Nunca comi, vou provar, talvez seja bom. “ Passado um bocado liguei o radar e captei a alhada que estava armada. “Ora que porra! Têm razão. Eu estava a confundir com pimenta.” “Um Ah! Exclamativo e quase síncrono se ouviu, pois não era para menos porque o tema era: canela!
A minha amiga Manuela soltou a sua famosa e muito sonora gargalhada e conhecendo-me tão bem, certamente pensou__ “Só mesmo tu, ó Carmindo! “ Realmente, em culinária devo ser um zero à esquerda …, penso e não digo. Ainda acabrunhado, ainda durava a enrascada da embrulhada por mim ali arranjada.
Enquanto espero pela cozedura, pego num livro do Gabriel García Márquez __ Memória das minhas putas tristes__. E o tempo passou voando.
Os olhos liam. __Ou talvez estivessem a ler __ , mas o meu pensar vagabundo passou para uma outra lembrança.
Lembrei-me de um diálogo de uma avó para um neto, que li no livro __Luuanda__ do grande José Luandino Vieira.
“Olha só, Zeca!? O menino gosta de peixe d’ ontem? “ Ai, vavó! Está onde, então? …Diz já, vavó, vavó sabe eu gosto. Peixe d’ontem …”
De revés e de vez em quando vou deitando um olhar ao resto.
Reparo que: __ Os legumes já estão, o ovo também, o resto pareceu-me que não. Mas então esta coisa nunca mais coze?! Continua dura!
Começo a ver a água a ficar acinzentada com umas partículas a soltarem-se da peça em questão. Ora que porra! Esta coisa é carne e eu como a vi tão vermelhinha pensei que era peixe, concluí finalmente. Tenho bom dente e como em tempo de guerra não se limpam armas, marchou e soube muito bem.
De tarde fui trabalhar, e tive que ir mais cedo porque sabia que ia acontecer uma reunião de informação sobre a actual situação, e sobre previsões para o futuro da firma. Houve quarta-feira passada, na segunda e vai haver hoje. Esta gente habituada a milhões, (no passado, nestas reuniões era só milhões e mais milhões de lucro e que eram rapidamente investidos, diziam-nos. Crescer, crescer, era a palavra de ordem). Agora, com a crise em curso o tema é outro. Preocupação máxima: tentar reduzir e encurtar o desemprego. Mas então onde pára o dinheiro que pagámos em tantos anos de vacas gordas? Eu já ando há vinte e quatro anos a pagar, a descontar para uma coisa sem nunca a ter usado nem dela ter usufruído, sem nunca ter recebido nada em troca. Acho que com este meio ano de recebimento parcial, ou seja: alguns dias parado por redução de produção ainda não gastei o que me lá têm. Esta gente que só pensa e enxerga rapas, quando a coisa aquece entram logo em parafuso. Andam todos à nora, uns com os neurónios a escaldar, outros já com os fusíveis fundidos. Agora devido a esta crise que se deve a um consumo desenfreado, mal programado e mal calculado, __ dizem eles.
A ganância, a gula, as burlas e falcatruas em grandes negociatas, por vezes autênticas roubalheiras dos senhores do grande capital, é que geraram esta caldeirada a que chamam de crise, __ digo eu. Eles a cozinharam e nela nos meteram, eles mesmos, dela nos hão-de tirar. Senão, pode acontecer que o Zé-povinho vá morrer à fome, mas eles também irão morrer quando nada tiverem para comer. Antes irão comer as notas esverdeadas dos milhões que lhes restarem, imaginando frescas e verdes alfaces. Eu acabarei por sucumbir também. mas muito hei-de resistir, pois que fui criado a comer pão com azeitonas, pão com cebola nova do tamanho da cabeça de um alho rachada e com sal grosso a arranhar os dentes substituindo a inexistente pasta dentífrica.
Na tal reunião, o pessoal começa a amontoar-se e a entupir a entrada. Foi preciso o grande chefe pedir-lhes para avançarem. E como se de uma ordem se tratasse, lá avançaram mais um pouco, todos em bloco, obedecendo como os outros tais obedecem ao pastor.

Hoje é quinta-feira. Estava a dar uns retoques neste escrito e interrompi para ir olhar o almoço de hoje.
Num tacho, o bacalhau mais uns segundos e ficaria estorricado. Noutro tacho, as berças também já estão a transpirar de tanto calor. À cebola parece que lhe cresceu o grelo com tal sessão de sauna. O fogão estaria bêbedo se de vinho se tratasse, pois que é muita a água que o banha. Ferveu e entornou, pois claro.
Enfim. Estou contente e sou feliz assim. Contento-me facilmente e isto me basta.

3 comentários »

  1. Não, não farei comentário por agora!

    Comentar por Candeias — Junho 26, 2009 @ 9:16 pm | Responder

  2. Só hoje tive um tempinho para me deleciar com esta tua narrativa que me fez rir à gargalhada:)

    Pois é meu amigo, trata de levares a gata ao veterinário para cortar as unhas porque pode ter problemas bem graves.

    A caldeirada de milhões em que os grandes senhores nos meterem e que apelidaram de “crise” nada semelhantes com os teus cozinhados (fartei-me de rir) já que eles continuam a comer milhões e nós a poupar tostões.

    As tuas miúdas devem ter ficado traumatizadas com o espaguete e…e… não aprendes porque não queres, segue uma receita à risca e verás que afinal és capaz de cozinhar. A desculpa esfarrapada de milhares de homens:)

    Adorei vir até aqui!:)

    Beijos para ti e para toda a família

    Comentar por Fatyly — Julho 8, 2009 @ 8:00 am | Responder

  3. ola, parabens, muito lindo mesmo

    Comentar por catia — Agosto 22, 2009 @ 4:11 pm | Responder


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