Entra ou Sai

Dezembro 26, 2008

Remexendo no sótão dos esquecidos

Filed under: Conto — carva55 @ 4:09 pm
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 Da Net

Hoje é segunda-feira, dia 24 de Abril de 2006.
Fui trabalhar. Foi mais uma daquelas malditas segundas-feiras, que valem por toda a semana. Os sacanas dos ponteiros do relógio, pareceu-me que de propósito não se mexiam e, quando assim acontece ,um segundo equivale a uma eternidade.
O trabalho, o tipo de tubos que estávamos fazendo era do tipo puxa e empurra, ou seja: a máquina caminhava devagar e quando isso acontece nem sei como passar o tempo.
Se vou rondar, arrastar os pés pelos corredores, há sempre alguém que pensa que não faço nada, que cheguei à América e encontrei o melhor local de trabalho. São vivas à fama da América .
Mas nem sempre é assim. Quando algo não corre bem, ou com outro material, é um stress! Que nem tenho tempo para arrear o calhau. Só se for diarreia. Aí sim, que se lixe! Não posso meter uma rolha. Lá vou como outros vão, que bem os vejo a passar no corredor em passo acelerado para fazer o servicinho. E é daqueles que não posso mandar ninguém fazê-lo por mim.
Há já uns tempos que ouvi no telejornal que em Portugal, em algumas firmas colocaram nas casas de banho fechaduras com sistemas de controlo de tempo. O empregado tinha onze minutos por mês.Logo que fossem esgotados, não podia entrar.
E eu ri à gargalhada. “O quê?! Onze minutos! Para mim nem para um dia me chegariam”.
Há outras formas, em outras coisas, de ganhar tempo e produtividade. Estou a chegar a uma fase em que se estão conjugando vários factores no sentido de que, se aqui, um dia me quiserem impor tal coisa, cago num balde. Se for pró mole basta assim, senão, junto água, mexo e enfio a mistela nos cornos do primeiro chefe que encontrar. Raios me partam se não o faço.
Estou a imaginar a minha mulher a dizer o que tantas vezes já me disse. “ Se tu fosses patrão, coitados dos teus empregados! Seria : __vai lá, traz cá__. Só sabes mandar !”
Ainda na última sexta-feira foi um desses dias. Pelas dez horas colou-se-me uma daquelas morrinhas que , vos vou contar: __durou até ao meio-dia.
Agora depois de jantar estou mais fresco e sem saber porquê, como estou no tema de cagada, remexendo no sótão dos esquecidos recuo no tempo e depressa chego aos anos sessenta e tal. Era eu um puto. Um meu amigo disse-me que tinha morrido a Dona Genoveva.
Coitada dela. Mas fiquei contente porque sabia que isso queria dizer que mais tarde ia acontecer velório, onde teríamos guloseimas e isso para mim, era um acontecimento imperdível.
As carpideiras para terem direito a tais mordomias tinham que forçosamente chorar lágrimas, ainda que fossem de, __Crocodilo__ para poderem adoçar a boca. Como éramos pequenos, ficávamos dispensados de tal sacrifício.
Lá fomos. A coitada da Dona Genoveva lá estava, deitada de papo pró ar, branca como a cal, com a penca do nariz espetada talvez para que servisse de rampa e assim a sua alma mais rapidamente fizesse a viagem até lá acima, ao céu, que é para onde todos querem ir.
Hás tantas, chega-me a vontade de arrear o calhau. Disse-o a esse meu amigo. “Olha, vou lá fora ao quintal”.
Naquela altura nem sei como lhe expliquei o que tinha que ir fazer. Se fosse mais tarde, passados alguns anos, lhe diria de outras formas, talvez: “Vou mandar um telegrama, ou algo parecido”.
Sei que me entendeu e me disse: Não é preciso ires lá fora, vem cá. Era visita assídua daquela casa e sabia que por lá havia sítios mais modernos, mais próprios. Era uns anitos mais velho que eu. Malandreco leva-me até à casa de banho, (soube mais tarde que era assim que aquele espaço se devia chamar). Olho à minha volta e em vez de um buraco no sobrado como o que existia na minha casa onde era difícil errar, era só apontar e deixar sair. Problemas poderiam ter os porcos e a burra que moravam por baixo. Eles sim, tinham que ter em conta o horário dessas descargas. Em vez disso repito, havia duas coisas brancas. Ele sentou-se numa e disse: Senta-te e caga aí. Esse “aí ” era a outra coisa branca.
Eu, é claro, lá faço o servicinho todo contente por me sentir mais aliviado. O pior foi quando me quis desfazer das chouriças que ali ficaram. E ele ria! E eu desesperava! Vi uma coisa que me pareceu que daria para as desfazer , __um pau com uns bigodes __, e truca que truca, mas nada. Lá continuavam também elas a rirem-se de mim. Aquela coisa era dura e não se desfazia. Sem saber o que fazer, saí e deixei tudo num triste e porco espectáculo.
Ao outro dia constava no “Jornal de parede” . Toda a aldeia ficou a saber . Mesmo havendo alguns, e eram muitos, que nem sabiam ler, mas aquele tipo de jornal, circulava rápido e todos entendiam.
Depois de concluir que tinha sido gozado pelo meu amigo, pensei:
“ Para amigo, amigo e meio”.
Andei uns tempos a matutar em como me poderia vingar.
Como já disse ele era mais velho, mais espigadote, também nem seria preciso muito porque eu era um enfezadito e mesmo depois pouco cresci fiquei pelo metro e sessenta e sete.
Logo que aconteceu a primeira peladinha na pelota no largo do Irô, eis que lá vai disto:
__Biqueirada à farta! Cometi várias faltas, perdemos o jogo, está claro, mas nesse momento, para além dessa minha programada vingança, nada mais me importava .
Não satisfeito , mais tarde aproveitei uma sessão de pedrada tipo concurso para afinar a pontaria e toma que lá vai: __ Pedrada na crista do galarote!
E foi assim, que servi a minha vingança, __Fria e eficaz.
Mesmo agora que já lá vai tanto tempo, não me sinto arrependido nem sequer com um pouco de remorsos.

In, __ Conversas de papel __

1 Comentário »

  1. Recordar é viver e adorei ler este conto do teu sótão:))))

    Desejo-vos uma boa passagem de ano e que 2009 seja igual ou ainda melhor que o que finda.

    Beijocas

    Comentar por Fatyly — Dezembro 27, 2008 @ 9:13 am | Responder


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