Entra ou Sai

Novembro 26, 2008

O Salto

Filed under: Conto — carva55 @ 11:34 am
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É sábado, este dia dois de Junho de mil, novecentos e oitenta e cinco.
O avião que me trouxe aterrou a horas e sem problemas, neste aeroporto em Zurique na Suíça. Foi a primeira vez que andei de avião. Andar de avião! Tantas vezes desejei e por isso tanto tempo esperei.
Isso e o facto de saber que estava a dar um passo muito importante na minha vida e que indirectamente iria envolver a da minha família, gerou em mim muita ânsia.
“Fixa as caras de algumas pessoas e segue-as, sempre em direcção da saída, ausgang, escreveu a minha irmã na carta que me mandou”.
Como sou bem mandado, sigo à risca o que ela me recomendou e vou agora caminhando no rebanho, naquela enxurrada de gente, por rampas, corredores e tapetes rolantes.
De cor, sei mais duas palavras, scheiss e schwein, __ merda e porco, respectivamente __.
Aprendi estas duas palavras, com uma rapariga Alemã, turista, que foi levada ao serviço de urgência do hospital psiquiátrico Miguel Bombarda. Cuspia-as juntamente com outras coisas, sempre que era contrariada.
Principalmente quando tínhamos que a injectar à força. E é claro que nós é que éramos bombardeados e apanhávamos com essa carga porque os Srs. Doutores prescreviam, estava prescrito e pronto. Não diziam mas era como se dissessem.
“Agora desenrascai-vos. Se não quiser aceitar já sabeis, pega de caras ou de cernelha, é-me igual”.
“Sim, já sabemos Sr. Doutor. Depois chamamo-lo para apanhar as flores da arena. E se não houver flores pode aproveitar a merda da besta”. Comentávamos nós, os empregados, entre dentes.

Já vejo uma coisa que me parece que há-de ser dali que chegarão as malas. As malas? A mala e um saquito! São parcos os haveres.
Lanço um olhar em redor à procura da minha irmã. Lá está ela do outro lado do vidro esperando.
Acena-me. Retribuo-lhe o gesto.
A toda a largura do vidro encontram-se pessoas.
Algumas, nas mãos, seguram flores.
“Para mim não serão, nunca ninguém me deu flores”, __ reparo agora.
Uns garotos com as caras coladas ao vidro, brincam, e talvez distraídos, com a língua que exibem, vão-o lavando.
“Não faças isso que o vidro está sujo! Estará com certeza alguma das mães a dizer”. E se for português até poderá estar a dizer:
“Não faças isso ó João. És um grande porcalhão!”
Por fim chego aonde se encontra a minha irmã.
__Olá como estás? Dá cá esses ossos e toma lá este abraço que te trago.
Ela, solta apenas um olá engasgado pela emoção, envolto num sorriso aberto, com todos os dentes, como se costuma dizer.
O salto! Finalmente aconteceu o salto para a emigração que tanto desejei.
Tentei inscrever-me em tudo que “mexesse”com sabor a emigração. Fui a Embaixadas a Consulados a todo o lado onde ouvia dizer que estavam a aceitar pessoas, e até às apalpadelas a ver se pegava, mesmo sem ouvir dizer. Até fui às instalações Diplomáticas das ex. Colónias, oferecer-me como cooperante.
Como ajudante, servente, auxiliar de fosse do que fosse. Não me aceitaram, porque com atributos iguais tinham lá muitos, __disseram-me.
Como especialização apresentava a formação em electrónica recentemente adquirida. Mas nem com essa mais valia. Nada de nada me surgiu. Mas, nas ditas ex. Colónias, posteriormente aconteceram casos de raptos de pessoas perpetrados pelos grupos da guerrilha, (ou da oposição ao regime vigente, depende como se queira entender). levávam-os para a mata e era preciso muito trabalho Diplomático para os libertar.”Ainda bem que não me aceitaram, senão poderia ser eu um daqueles”, __ pensava, cada vez que ocorriam tais actos.
A casa da minha irmã vou só comer e para dormir foi-me destinado um quarto em casa de uma tia do meu cunhado Suíço.
Boa pessoa essa Senhora. Levantava-se todos os dias muito cedo para me preparar o pequeno-almoço. Tratava-me com muito carinho, não admitia que eu saísse sem o tomar.
Em Portugal, isto seria impensável, __ pensei.
Teria com certeza medo da má-língua das vizinhas.
Era uma coisa tão diferente que deu logo para pensar que muitas diferenças iria encontrar nesta terra a que chamam de Confederação Helvética.
Pois é, cada povo com a sua própria cultura, o seu modo de pensar e viver diferente.

Hoje é domingo. O meu primeiro domingo passado nesta terra.
Levanto-me cedo e vou dar um passeio.
Começo a andar em direcção a uma manta de água que avisto lá em baixo. É o Lago Constança, disseram-me mais tarde. Verifico que afinal é um rio, o rio Reno, que ali alarga e banha a Áustria, a Alemanha e a Suíça. Tem cerca de oitenta quilómetros e mais de cem metros de profundidade em alguns sítios. Pelo menos naquele a que foram pescar a avioneta que lá viria a cair mais tarde, foram “pescá-la” a cento e tal.
Poucos metros palmilhados e vejo uma estrumeira.
A estrumeira mais vaidosa de todas que tinha visto em toda a minha vida.
Ostentava plantas floridas, de várias cores. Achei piada àquilo e fiquei um par de minutos embasbacado a olhar.
Plantas que eram compradas. Mais tarde em conversa, foi-me confirmado esse costume.
O lago está lindo! Lembra-me o meu mar.
Tinham-me dito que a Suíça não tem mar.
“Tenho que me contentar com este”. __Pensei.

Olho em direcção da serra. Que linda que ela está! De várias cores vestida! Que contraste com o cinzento do betão de Lisboa e arredores, da minha Vale da Amoreira, da minha Brandoa, onde depositei muitos dos meus poucos anos de vida.
Saí ontem de casa bem cedo. As minhas filhas dormiam ainda. A minha mulher acompanhou-me às escadas. Lancei-lhe um último olhar, mudo, não fui capaz de articular uma única palavra.
Apanhei a camioneta que me levou até ao barco. O meu vizinho sapateiro também.
__Então vizinho! Vai de viagem?
__Vou. Vou para a Suíça tentar algo melhor que isto.
__Faz bem vizinho. Tenha esperança que há-de conseguir. Outros o fizeram e é vê-los por aí muito bem, parece-me.Que tenha muita sorte.
__ Obrigado vizinho. Até qualquer dia, respondo.
“Se soubesse o quanto me lembrei destas palavras …, o quanto me serviram de bálsamo …., nestes quase vinte anos!”
Segunda-feira, junto com o meu cunhado, apresento-me na
firma que me saíra na rifa. Duas semanas depois saiu, e fico só.
Subo ao primeiro andaime. As pernas sempre me tremeram, sempre que subia a um escadote para mudar uma simples lâmpada.
Agora nem sei como as sinto, se tremem, se abanam. Ainda se desenroscam, __ penso.
O trabalho consistia em lavar fachadas com ácidos e raspar com uma máquina lixadeira eléctrica e nas partes onde a máquina não cabia era com um pedaço de um material raspador segurado nas pontas dos dedos e depois meter um produto de conservação, diferente conforme elas fossem de pedra, metal, ou madeira.
Acabada aquela obra passámos para outra.
“Tive muita sorte, ainda é baixa, talvez assim me adapte às alturas”, __ pensei.
Disseram-me que na semana seguinte, teríamos que ir para mais longe e ficar por lá toda a semana.
Vou com um colega Suíço, sem saber dizer água vai, água vem. Começo a fazer “contas à vida”.
Depois de almoço apercebo-me que me faltam alguns utensílios para trabalhar.
A falar sozinho, de mim para mim, solto ao vento umas asneiradas. “Que porra! E ainda por cima o gajo deixou-me aqui sozinho!”
“É pá! Tenha lá calma! Sei que o seu colega foi comprar umas coisas que lhe fazem falta”.__ Ouvi, vindo dali do lado, bem perto.
De contente até saltei por ver um português! E que bem me soube ouvi-lo! Foi uma bonita melodia nos meus ouvidos.
Era o primeiro português que encontrava. E disse-lhe:
__ Que grande alegria tenho de o ver e ouvir, pode crer.
Não o conheço, mas conheço essa língua linda em que me falou. Obrigado.
__Vai encontrar muitos, há por aí portugueses em todas as esquinas, vai ver, __diz-me ele.
À noite o Suíço ficou na carrinha numa cama de corda à Tarzan.
A mim deixou-me numa pensão. Perdão num hotel! (Sim que por aqui não há pensões, chamam hotel a tudo, ainda que algumas instalações deixem muito a desejar).
Tenho uma grande dor de dentes. Agora me lembro que uns dias antes de vir espetei uma espinha, que ao espelho, tirei com as pontas dos dedos.
Infectou pois claro! E agora é que são elas.
O Suíço deixou-me e pirou-se que já se fazia tarde para a sessão psicadélica que tinha preparado.
A empregada vai mostrar-me o quarto. Sobe umas escadas bastante íngremes, com um belo rabiosque a dar – a – dar e eu a pensar:
“Só isto me faria esquecer esta porcaria “.
Mais tarde no restaurante não me entendeu. Pois claro! Como poderia entender? Mas apercebeu-se que eu tinha fome e queria comer mas que tinha por companhia, uma tremenda dor de dentes.
Chamou o cozinheiro, que apercebendo-se que eu era português e não o entendia, fez-me um gesto que eu interpretei como um pedido para que o acompanhasse. Levou-me à cozinha e mostrou-me um bom pedaço de carne.
“Vermelhinha! Altinha e fofinha, vem mesmo a calhar, __ pensei”.
Concordei com a proposta.
Que pena! Nem uns míseros gramas devo ter comido.
Era tal aquela chatice que nem a língua por perto o malvado suportava.

É outro dia e hora de almoço. Apercebo-me que o “Suísserote” se prepara para ficar a roer uma sandes na obra.
Olho ao meu redor e não vislumbro nada parecido com restaurante.
Lá ao fundo enxergo algo que me parece ser um. Vou ver.
Efectivamente era um toldo. Deve ser algum Restaurante, deduzi.
Entro. Fico especado, não era nada do que esperava encontrar.
Vejo um espaço com um balcão, umas mesas, e para lá de um vidro, vislumbro uma pista de ténis, coberta.
Pensando que não era ambiente para um suado vestido de fato – macaco, com terra nas botas porque me esqueci de as sacudir muito menos de as lavar, dou meia volta para sair, e ouço alguém atrás de mim a falar qualquer coisa que subentendo como sendo um convite para entrar.
“ Bem, sendo assim é diferente, pensei”.
Entrei.
Apresentam-me a ementa. Não sei ler nem uma letra.
Que faço? Interrogo-me certamente, de todo, aparvalhado.
A tropa manda desenrascar, __ aprendi na escola da vida. Excluindo a zona Ásia e Árabe , os números são iguais em todo o mundo, e ainda bem, __ pensei.
Lembro-me de ter visto o Bruce Lee num dos seus filmes fazer o seguinte : apontou para um número e comeu o que lhe trouxeram. Pois nem mais nem menos , o foi o que eu fiz . Para comer , apontei para um escrito que me “cheirou a comida” e um número que correspondia a um preço que eu podia pagar e pronto. E então para que serve os gestos e as imagens senão para as imitarmos ?
Para beber tento pedir em francês uma cerveja sem álcool.
Trazem-me um refrigerante, de nome, _Sinalco.
Assim como assim não me saiu nada mal, pois o menu que tinha escolhido, era nem mais nem menos que o Biechermüesli, uma papa composta por: __ iogurte, passas, pedaços de fruta e cereais. Adocicado, portanto.
E lá vou eu vergar a mola com a pança docinha mas a dar horas! Docinha mas por pouco tempo, porque passado um bocado sinto dentro de mim, nas minhas entranhas, uma grande revolta, uma grande batalha naval. E lá vou eu à pressa à casa de banho onde chego à justa para baixar as calças e as cuecas e sem mais demora, deixar sair. Arre que porra! Com um catano! Ia-me borrando todinho! Aquela misturada gerou um purgante tão eficaz que despejou e limpou toda a tubagem! Aprendi mais tarde que aquilo é usado como comida de velhotes, logicamente pessoas a quem já não é pedido nem esperado que verguem a mola.
Ao fim da tarde para matar o tempo vou passear junto ao lago.
Há tantos lagos nesta terra! Lá ao fundo, muito ao longe, umas serras lindíssimas ostentam ainda muita neve.
Há tanto tempo que não vejo, nem apalpo neve! Recordo com saudade outros tempos. Tempos idos. Tempos de eu ainda menino. Desde os meus verdes oito ou dez anitos lá na minha santa terrinha na Beira – Alta.
À noite, no silêncio do meu quarto faço contas.
Sei que ganho doze francos e meio à hora segundo o câmbio do momento vejo que ganho umas quatro ou cinco vezes mais do que ganhava lá no manicómio.
“Uns quatro ou cinco anitos e piro-me “. Calculei.
Lembro-me do rabiosque a dar – a – dar.
Conto os barrotes, os carneirinhos, e por fim adormeço.
Adormeço e sonho com uma árvore muito grande e carregadinha de patacas.
Acordo, lembro-me do sonho.
“Deve ser a tal tão famosa árvore das patacas de que tanto tinha ouvido falar. Que era só chegar abanar e apanhar, para depressa e bem encher o bornal”.
Se assim fosse, só abanar, apanhar e rico abalar, que bom seria, mas já deu para ver que não é assim, nem assim vai ser, __pensei.
Agora, neste momento, acho muita piada ao ver o quanto me enganei ao fazer aquelas contas.
Passaram esses tais calculados anitos, trouxe a família, e passaram muitos mais, já lá vão dezanove anos e onze meses e vinte dias! Quase vinte anos!
Releio o que até agora escrevi. Sinto-me um Zé cabra. Como aquele da música que não cantava, cacarejava!
Eu, não canto, esgravato neste papel, abro buracos, planto letras, e formo palavras mal escrevinhadas.
Vou-me rir à gargalhada do trabalhão que a crítica, __a Sra. Dona Crítica! __ Irá ter para rotular, catalogar, prateleirar esta minha escrevinhadela.
De romance? De crónica? De diário? A! A! A! Quero lá saber o que lhe irão chamar. Chamem-lhe o que chamarem não poderão alterar nada.
Bem ou mal foi assim que surgiu, e foi a mim que sorriu, e foi de mim que saiu.
Ó críticos de meia tigela! Que tal isto?
“O Carmindo é incomparável! É único! Por falta de referência se torna no melhor escritor do mundo”. Dêem-lhe o Nobel já, __acrescentai”.

1 Comentário »

  1. Muitos partiram deste Portugal e outros chegaram como eu, mas digo-te sinceramente que só me arrependo de uma coisa: quando vim do Brasil ia com destino a Angola e resolvi não ir, dando oportunidade ao que nunca deveria ter dado e fiquei por cá.
    Uma história que gostei de ler por me serem tão familiares.
    Hoje tens a tua vida encaminhada e Portugal como refúgio de férias.
    Hoje tenho a vida encaminhada e nenhum refúgio de férias.

    Parabéns escritor.

    (Já li os livros e digo-te que estão fantástiscos. Já assinalei alguns:)

    Um abração e nunca deixes de escrver

    Comentar por Fatyly — Novembro 26, 2008 @ 8:46 pm | Responder


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