Entra ou Sai

Novembro 25, 2008

Ao almoço no Meumarkt

Filed under: Conto — carva55 @ 10:59 am
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Em St. Gallen, ao Neumarkt em hora de almoço , chega uma enxurrada de gente esfomeada e apressada.
Todos querem comer depressa, porque a hora de almoço passa a voar.
Entro. Coloco-me na fila já com o tabuleiro na mão e começo a tentar ver os cartazes expostos por cima do balcão.
Ver, disse eu, porque lê-los seria outra coisa. Mas como ainda não percebo patavina desta língua esquisita, arranhada, confusa que me funde os fusíveis, (cada palavra entra-me na carola pelo menos umas vinte vezes e se fica uma, já é muita sorte).
Criei uma total alergia que me iria ser fatal como o destino.
Ainda hoje pouco sei. Sei umas centenas de palavras que palrapiadas sem ordem gramatical se tornam numa batalha de palavras cruzadas que só quem tenha interesse no assunto do momento, consegue arranjar paciência para me aturar.
Isso por um lado tem uma certa graça e dá jeito porque sempre que me sirva, posso sempre alegar que não entendi.
Por outro lado quando por exemplo numa discussão quero exprimir-me e não consigo, dá-me cá uma raiva que nem vos conto.
Mas voltando ao que vos estava a contar. Nesse dia não consegui saber do que constava a paparoca.
O homem, o cozinheiro, com um enorme barrete parecia um cardeal. Cardeal pobre, porque os ricos têm, (que bem me lembro de ter visto), barretes dourados, mais vistosos.
Pois claro! Igreja é outra loiça!
Chegada a minha vez, só havia uma coisa a fazer. Espreitei por cima do balcão e apontei para uma coisa branca.
Puré, porreiro, pensei.
Ele, espeta um pouco daquela coisa branca no prato e olha para mim à espera que eu escolha algo mais. “Porque , por muito magra que seja a bolsa, tão magra não costuma ser a pança nem a vontade de comer , deve ter pensado o sujeito.”
“O quê? Só isso! Queres matar-me à fome ou quê?!
Não me vês aqui de fato-macaco, fardado à trabalhador?!
Pensas que sou algum desses gravatinhas que de pouco alimento precisam porque a caneta pouco lhes pesa ? ”
Tudo isto pensei e muito me custou , tudo isto que me apeteceu dizer-lhe , mas pelos factores já aqui falados, fácil será deduzir __ pensei , calei , e mudo fiquei.“
Mais um pouco por favor, pedi. Ó! Lá! Lá! É verdade nesta altura do campeonato já sabia isto.
E ele truca, mais um pouco.
Atrás de mim a fila crescia a olhos vistos. Eu, cada vez mais atrapalhado olhava para tudo sem me decidir. Até que vislumbro uma coisa escura no fundo dum tacho lá longe na enorme cozinha. Parece carne, pensei.
Arrisquei e apontei.

E lá fui todo contente, com o meu quinhão de paparoca.
Chego à caixa registadora. Uma menina, de nome Italiano cuja placa identificadora assim rezava, colocada ao lado da muito sua mama bem avantajada, empinada, que esticava a camisola e mostrava um belíssimo rego! __Não confundir com aqueles de rega, mas com aqueles que podem ser regados!__ Olhou para mim e ficou especada.
“O quê? Que queres? Sou assim tão bonito? __ Questiono em pensamento , sem palavras e meio aparvalhado.”
Por fim, aponta para o número que o mostrador exibia e que era o que eu devia pagar.
Pois bem, paguei e fui à vida, todo emproado, com a bandeja na mão, com a paparoca bem segura como se de um troféu se tratasse.
Procuro mesa para me instalar. À minha volta, jovens com aspecto de estudantes e outras mais crescidotas com estilo de executivas, saboreavam o repasto.
Encontro um lugar numa mesa ocupada por uma Senhora já bem entradota. Janota, jovialmente vestida, talvez querendo retardar o efeito impiedoso, devastador do tempo.
Cumprimento-a e pergunto-lhe se me posso sentar. (Sim, sei que já vos disse que na altura sabia e ainda sei pouco Alemão, mas para o efeito chegou).
Afio os dentes, afago o bigode em jeito de afastar algum pêlo que pudesse estorvar.
Dou uma dentada. Faço uma careta de enjoado que até a dita senhora sorriu e perguntou.
__Que se passa? Não está bom?
__Não é nada disso, respondi.
__É que me enganei. Eu pensava que isto era puré e afinal é maionese.
Apalpei-me a ver quanto teria comigo. Eram só uns trocados que não davam nem para mandar cantar um cego Suíço, quanto mais para comprar algo para roer.
Ela ao ver o meu apalpanço talvez a imaginar coisas, (Sim porque os olhos também comem e quem sabe? Poderia querer ser ela a apalpadora), desata a rir ruidosamente.
Ri-te, ri-te, põe-te a jeito e verás quem por fim ri melhor, pensei.
Ao som das suas galhofosas gargalhadas, enquanto aguentei o enjoo, comi umas dentadas e lá fui vazio de tanto nada e cheio de tanto pouco. Tanta raiva! Raiva por as coisas piores nos acontecerem nos momentos de maior fragilidade.

1 Comentário »

  1. Desculpa lá mas tive que rir à gargalhada porque este teu conto retrata a triste figura que fazemos longe da nossa terra e da “comidinha a que fomos habituados”.
    A maionese passa por puré:) e eu li uma vez: Bouillon d’escargots e pensei deve ser uma sopa com alguma verdura, sem relembrar os pobres caracóis:))))))) ia vomitando as tripas:)

    Adorei estes momentos de leitura.

    Para além de escritor és um grande, mas grande poeta:)

    Um abração

    Comentar por Fatyly — Novembro 25, 2008 @ 7:02 pm | Responder


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