Entra ou Sai

Setembro 6, 2008

Domingo à tarde

Domingo à tarde

Hoje, é o último domingo de Agosto de 2008. Agora decorre a parte da tarde. A minha mulher está de pausa e mais logo torna a ir trabalhar. Se fico por aqui, não resisto à tentação do sofá e não tarda muito estou a ferrar o galho numa sesta. Levantei-me às dez. __ Nem oito nem oitenta, não pode ser. Vou até lá abaixo ler um bocado e com o ambiente certamente me manterei desperto, penso.
Pego na trouxa e lá vou eu para o tal __lá abaixo __ que mais não é senão o lago Konstanz também conhecido por Bodensee. Chamam-lhe de lago. Mas cá para mim um lago não tem entrada nem saída de água e este tem. Começa nos Alpes Suíços, nas altas montanhas como o St. Gotthard. Desce em “rapé” nas quedas, Rheinfall de Schaffhausen e continua a sua viagem até ao mar do norte. Portanto é um rio que aqui alarga tal como o Tejo junto a Lisboa.
O tempo está pesado, cinzento, abafado. Igual ao que habitualmente antecede as trovoadas. Cá para mim, ainda vem aí uma e das fortes, penso.
O lago está calminho, estanhado, igualzinho ao meu mar – da – palha, ( cartão de visita de Lisboa e arredores ) , em tempos de calmaria.
Decorre ainda a exposição das belíssimas esculturas de areia. Há já vários anos consecutivos que realizam este evento. Todos os anos, religiosamente, tenho vindo fotografá-lo. Mas, para isso já cá vim ontem. Estava um tempo lindo com um sol aberto e quente. Junto ao repuxo nadavam algumas pessoas. Na base sólida estavam dois rapazes a deliciarem-se com a água a cair-lhes sobre os corpos. Era a cascata possível, estariam a pensar. Um deles pôs-se em pé com os braços abertos __à Cristo__, em posição de saltar.
Reparei que no repuxo estava a gerar-se um lindíssimo arco-íris. Não hesitei, e sem demora captei aquele momento.
Mas isto foi ontem, e já foi ontem …, agora é outro dia. Em frente marchar…, quero ir à aventura, em busca de novas sensações, porque parar é morrer. “Cavalo parado__ ganha ferrugem nas ferraduras. Ferramenta não usada __ encrava…”
Dirijo-me para a zona do Seerestaurant . O parque está esgotado. Continuo para o seguinte que fica em frente à Hauptbahnhof __ estação principal dos comboios__. Também este se encontra esgotado. Ora que porra, hoje pariu a galega?! Anda toda a gente à solta? Agora que o período escolar já começou, já poucos estão de férias, já regressou a maioria, e talvez estejam a despedirem-se do Verão pois que no ano passado, (ou terá sido já no outro? __ interrogo-me. __Ah! como o tempo passa e as cabeças avariam!) Por volta dos dias vinte e três ou vinte e cinco de Setembro já havia neve lá em cima na serra Rorschacherberg.
Decido ali ficar parado esperando uma vaga, que acontece passados uns minutos. Um carro entra no parque e, __ queres ver que vou ter que me chatear com este gajo, penso. O fulano que o conduz faz-me um sinal, retribuo-lhe outro e ficámos desde logo entendidos. Aquele lugar era para mim e não ia abrir mãos …
O fulano decide ir embora. Faz a manobra e eis que um outro lhe obstrui a passagem. Apitou. O outro responde-lhe com o célebre e mundialmente conhecido gesto dos três dedos. Um esticado e os dois encolhidos. Que querem dizer: “vai para o …, e, aproveita-o.”Gesto este, por todos entendido. Queres ver que isto ainda dá molho, penso. Mas não. O fulano descarregou a fúria no acelerador do carro provoca uma chiadeira e vai embora. Por aqui, onde o chamar a polícia custa dinheiro, alguém vai ter de pagar, evita muitas confusões.
Chego junto à água e constato que realmente uma grande multidão se “espraia“ pela relva. Também aqui resulta o que antes escrevi: é a praia possível, na Suíça não há mar.
Uns comem, outros jogam, à bola, ao badmington, etc. Graúdos e miúdos divertem-se, cada qual vive à sua maneira, livre e à solta.
Alguns pescadores de pesca à linha posicionam-se, e trabalham em equipa ,“ora dá cá e vai lá, ora toma lá que eu vou”, __ e lá iam fazer outra coisa qualquer. Outros tornam a mudar, talvez à procura do melhor local. De vez em quando lá vem um trazer o produto da faina. Uns peixitos pequenitos que metem no pequeno tanque do chafariz, os quais os putos aproveitam logo para usar na brincadeira. (Coitados, tão atrapalhados que estão com a morte certa que se avizinha e ainda têm que aturar aquelas tropelias!) __ Penso.
Brincam com os peixes e às molhadelas, apertando o papo ao repuxo do bebedouro que continuamente esguicha e desperdiça água. Aqui ainda vá lá …, chove muito, e há muita água, mas mesmo assim acho mal não colocarem uma torneira, enfim… E vêm-me à lembrança imagens televisivas a mostrarem gente em África a tirarem água de fontes com a torneira avariada, ou mesmo sem torneira, debitando ao ritmo da força do bombeamento, e algumas vezes eles mesmos a desperdiçarem porque nem funis usam e às vezes é mais a que se perde do que a que metem nas vasilhas, __ vê-se e incomoda.
De vez em quando lá vêm umas gotas cair no livro que estou a ler.
Uma senhora de lenço bem amarrado na cabeça e de capa ou gabardine, (nem sei bem como lhe chamar), estende o estaminé num banco do jardim e toca a aviar o prato. Umas loirinhas que abraçadinhas vão a passar, viram as cabeças para trás para verem um pouco mais e sorriem, sorriem muito, achando muita piada àquilo.
Lembro-me de que no ano passado o Cunha organizou um passeio e na carrinha do Benfica que alugámos, fomos um domingo, uma dúzia de homens, (sem as mulheres, a laurear o queijo, à boa vida, à “boavaiela”, etc. __ viva a liberdade). Tivemos azar com o tempo que fez. Choveu todo o dia. Aqui nesta terra onde o tempo faz várias caras ao longo do dia, é impossível programar algo ao ar livre. logo de manhã começou a dose de azar. Quando chegámos para levantar o leitão destinado à nossa paparoca, apercebemo-nos de que tinha acontecido uma confusão na encomenda e o “Suisserote” entendeu que era cru que o queríamos para nós mesmos o assarmos, e cru estava, e assim não nos servia, e a solução foi andar, andar, a fazer quilómetros a matar tempo, necessário para a lenta assadura.
No entretanto aterrámos em bando num café de uma estação de serviço, para tomarmos o pequeno-almoço. Aquilo parecia uma equipa de futebol e logo com o emblema e o nome do grande Benfica escarrapachado na carrinha, e nós todos orgulhosos! Só que, com aquelas personagens carecas e barrigudas, facilmente se via, que a ser uma equipa, teria de ser a do reumático!
Mas vem isto a propósito para aqui e agora relatar que também nós aproveitámos um banco do jardim e pusemos – lhe em cima a caixa onde trazíamos o leitão cortado aos bocados. E também ali foi coisa que espantou muita boa gente que passava. Ainda por cima, estávamos precisamente nas quedas de água de Schaffhausen, onde turismo é às carradas !
Imaginem-se muitas mãos com copos de plástico, com vinho, e bocados de carne. Aos olhos de quem passava, deveríamos parecer um bando de canibais!
Mas isso não nos incomodava. Queríamos era encher a pança. E à boa maneira portuguesa, (para comer e beber, o português está sempre pronto), havia muita carne. Ainda chegou para outra comezaina. Só que quando aconteceu, eu já estava de férias em Portugal e lerpei…
Mas, não houve espiga …, que lhes tenha feito bom proveito.
Um bebé que há muito por ali palra e na manta que cobre a relva gatinha, agora chora. “ Está na hora da mamada “, __ deve ter pensado uma senhora que dele tem cuidado e até pode ser a sua mãe, penso.
Sem demora enfia a mão por entre a roupa e trás para a luz do dia uma grande mama que pelo tempo que demorou, o mamilo necessário para servir de chuchadeira, devia estar bem em baixo junto ao umbigo…
O puto, agarra-lhe com ambas as mãos __como que se de um troféu se tratasse__ , e regalado com o leitinho fresco aceita fazer umas tréguas na choradeira e deve ter pensado, (porque puto já pensa!), __aqui tenho muito onde agarrar!
Um alguém que assiste à cena, (será o pai?) __ Parece – me não estar a gostar, olha carrancudo, talvez chateado por ter de partilhar aquela parcela da sua propriedade.
“Tem calma, __ apetece-me dizer-lhe__, pois que tens aí nessa camioneta, quase camião, ou deverei dizer camiona? __ Muita areia para emprestar, dar, e vender!”
Lembro-me que uma vez fui banhar-me à água do lago. Na relva que faz de areia de praia, __ porque a Suíça não tem mar __, (sei que já o disse mas torno a dizê-lo), estendi a toalha e de repente vi-me todo preto como um africano. Foi motivo de gargalhada geral. __”Deve de ter sido alguém que pôs estrume tal como os vaqueiros costumam meter nos lameiros para fertilizar os terrenos, e é cá um pivete tão insuportável que temos de fechar as janelas á pressa__. “ Ouvi um parceiro dizer .
__” Sim, ou então alguém de duas ou de quatro patas que por aqui passou e da carga da tripa se aliviou e isso com as chuvadas se diluiu e o resultado agora se viu.” __Aventa um outro, convicto.
Um dos barcos que fazem a carreira__ apita e interrompe a minha leitura.
O meu iPod debita agora, “ __ Podia haver uma luz em cada mesa / e uma família em cada casa / Jesus em Dezembro, aqui na terra/ podia ser natal e não ser farsa. / Podia ser notícia o fim da amargura/ que divide os homens por trás dos canhões /a fome e a miséria servem a loucura/ que forja profetas e divide as nações.”
Olho em redor e penso: óh! Meu caro amigo Ribeiro, como tu tens razão! Aqui, por enquanto há paz, trabalho e pão.
O livro que estou a ler tem o título __Nachtzug nach Lissabon__ (comboio nocturno para Lisboa). E é do escritor Suíço, __ Peter Bieri__, sob o pseudónimo, __ Pascal Mercier__.
Leio: “__No dia seguinte, o primeiro de Novembro, fui de madrugada até ao arco no final da Rua Augusta, a mais bela rua do mundo. Sob a luz desmaiada do amanhecer o rio era uma superfície lisa de prata baça.” Ao ler esta homenagem a uma parcela da minha Lisboa escrita por um autor estrangeiro, sinto um arrepio percorrer-me a espinha. Devido, talvez a um sopro de saudade, (a ser sopro, será porque ainda há poucos dias que vim de lá, senão seria certamente um vendaval que me rasgaria a camisa…), ou simplesmente pela agradável surpresa!
Já ganhei o dia, penso.
Já tenho uma boa dose de leitura. Faço um intervalo e vou até à casa do Benfica a ver como param as modas, decido.
No parque, abro a porta do carro com muito cuidado porque o espaço é pouco e não quero bater no veículo vizinho.
Apercebo-me de que o espaço ora estica ora encurta . Ehi pá! Que é isto?! Algum terramoto?!
O veículo é uma carrinha caravana. Pela janela, vejo quatro pés. Ah! com que então é isso ?! Já entendi. Bom proveito a quem quer que seja. Mas que grande lata! Aqui e agora a esta hora da tarde numa tarefa destas …, À frente! Será isto um bordel ambulante e estarão os “quartos” de trás todos ocupados? __ Interrogo-me, meio aparvalhado. Pois, esta surpresa não é coisa para menos, abala qualquer um, penso, constatando o meu estado do momento.
No banco do pendura, um cão de grande porte assiste ao espectáculo em posição privilegiada, logo no primeiro balcão pois então! Nem dá sinal da minha presença. Será porque está muito entretido e entusiasmado, ou não quer distrair os actores?!
Oh! Ai! Ui! __Se os carros falassem! ….
Chego à casa do Benfica. __Uma “auguinha” diz o Toni. __ Sim, se fosse há três meses atrás “ uma bojeca? ” __ Perguntarias. Mas agora é assim que tem que ser. E o que tem que ser tem muita força.
O boneco do João Pinto, o poster do Eusébio, fotos com equipas de velhas glórias vitoriosas de outros tempos, a Águia Vitória plastificada, algumas caras , a gargalhada única e especial da Alda marcam presença, preenchem o espaço, confundem-se, impregnam-se, como sendo e fazendo já parte dos móveis da casa, e são a diferença.
A maquineta do bingo com as bolas arrumadas e preparadas, esperam que os francos entrem nos bolsos das pessoas e os tornem mais expansivos, mais alegres, mais mãos largas.
A mesa redonda, antes, palco de actores faladores em grandes conferências muito participativas, com boas petiscadas e bem regadas, hoje ali está no seu canto abandonada e triste…
A Águia pintada na parede, com as suas grandes asas abertas parece dar as boas vindas a toda a gente que chega. Politicamente correcta como o astuto político que usa este velho gesto, esta velha artimanha, querendo fazer-se passar por o grande irmão de todos cuidador, de todos protector “ Vem aos meus braços, meu povo! “
O ar está quente e pesado. Aqui neste ambiente fechado ainda mais se nota. Decido ir para a esplanada improvisada. E por ali fico a ler mais um bocado até que chega o parceiro que me acompanhou ao concerto dos Metallica.
A conversa que se seguiu pôs fim à leitura.
Chego a casa e a minha mulher lá está agarrada aos tachos. Coitada! Trabalha fora e ainda vem trabalhar para casa, penso.
Lamento, mas eu, talvez, porque não tenho olfacto para gozar os condimentos das especiarias, a cozinha nunca me entusiasmou. E não sendo assim, onde iria eu arranjar tempo para os meus livros, os meus escritos, a Net, o meu Xadrez?
Vem a propósito trazer aqui e agora à baila o facto da existência da ausência de olfacto. O meu pai talvez com pressa, por ter que se levantar cedo para ir regar o milho, ( certamente me fez à noite, que era quando havia algum vagar e quando os calores apertavam, penso), deve de ter poupado algumas bombadas e saí com este defeito de fabrico…
Às vezes em jeito sádico, e para a chatear, já lhe disse : “eu casei, não para ter mulher, mas sim para ter secretária.” E quando fui presidente do Centro Português que é uma associação cá da terra, cheguei a dizer-lhe : “estás a ver, eu já sabia que um dia ia ser presidente e que ia precisar de uma secretária.”
Por isto é que ela não acredita que eu lamento. Mas a verdade é que lamento muito. Gostaria de ter posses para lhe arranjar uma empregada doméstica.
Na Tv. passa o telejornal, que sei de antemão que vai ser longo de uma hora e meia. (onde se vê, ou já se viu isto?). Como grande novidade mostram um sistema de som aquático em piscinas.
Ora aí está o que sempre ouvi: “ __ Portugal está atrasado vinte anos __.) Esses e mais alguns__ penso. Porque há já vinte e três anos que entrei numa piscina pública lá para os lados de Rapperswil e que já tinha isso instalado. Nessa altura, para mim, isso foi uma grande surpresa. Mas porra, já lá vão tantos anos!
Vou até à estante para lhe devolver o livro. Lembro-me de que ainda não tenho título para este escrito, e às vezes demoram uma eternidade a surgir…
Mesmo em frente do nariz está o livro do Fernando Namora, ___ Domingo à tarde __. Ora aqui está! Gosto, e foi mesmo a um domingo à tarde, por isso nem mais nem menos, já tenho.
Sento-me à mesa para comer o que já estava preparado. Ao lembrar-me deste meu devaneio vagabundo, automaticamente sorrio. Ela repara e pergunta, o porquê. __ Um dia irás ler. Espera, saber esperar é uma virtude, respondo-lhe.
“Talvez lendo, acredites mais facilmente. No muito do falado às vezes vem embrulhado, __O fado do bandido __. No escrito há mais verdade e fica marcado pela assinatura invisível do escriba.”
Escrevo, mais uma vez, primeiro para mim, e depois para mais alguém será, o tempo o dirá.
Assim desejo. Assim seja.

Rorschach, 31 de Agosto de 2008

4 comentários »

  1. gostei de ver.

    Comentar por catia — Outubro 11, 2008 @ 2:10 pm | Responder

  2. Gostei muito deste teu “roteiro turístico:)” bem como o anterior e além de escreveres para ti, para os teus, eu serei sempre uma leitora assídua desde que a minha vida o permita, já que ser SOS avó é dose:)

    Sim me amigo, mudei de email, ou melhor de blogue, ou melhor de PC, porque o anterior ao fim de 15 anitos queimou por completo e com ele foi tudo pelo cano. Para melhorar esqueci-me por completo as passwords de tudo, já que não sei onde pus o raio do papel.

    Resultado? é tudo novo menos eu.

    Um enorme abraço para ti e toda a tua família

    Comentar por Fatyly — Novembro 7, 2008 @ 8:36 pm | Responder

  3. Já agora PARABÉNS PELO NOVO VISUAL DO TEU BLOGUE:)

    Comentar por Fatyly — Novembro 7, 2008 @ 8:39 pm | Responder

  4. MEU AMIGO PARA QUANDO UM NOVO POST?

    Vá lá qualquer coisinha escrita por ti ou outra coisa qualquer.

    Beijos deste Portugal que já me está a pôr gelada com tanto frio.

    Bom fim de semana

    Comentar por Fatyly — Novembro 15, 2008 @ 9:19 pm | Responder


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