Entra ou Sai

Novembro 15, 2007

Abaixo de cão

Filed under: Conto,Ratadas — carva55 @ 10:53 am
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cao-curioso.jpg

Na fábrica, fui até ao Wc. despejar as tripas. Necessidade que não se pode delegar em ninguém. Ao menos nisto sou igual aos demais, nem mais nem menos, nisto todos têm que se ocupar, até os tais mandões, pensei. E este pensamento deu-me um gozo do caraças!
Na parede junto à porta estava colado um papel com um texto a convidar o pessoal para o jantar de convívio anual.
Junto ao texto, alguém desenhou um cão em pose de ladrar, a largar pela boca uma baba, espuma ou coisa parecida.
Pelo cu saíam-lhe umas bolitas que eu identifiquei como sendo fezes.
“Quem será o autor desta obra de arte? Com isto estará a querer dizer-me: __não venhas, olha que te mordo. Se vieres, comes esta merda que estou do cu a largar__.“
Isto caiu-me tão mal que logo ali naquele momento decidi não ir.
Após se ter esgotado o prazo para a entrega da confirmação, da ida ou não ida, abeirou-se de mim o grande chefe e assim falou:
__Então Senhor Carvalho, não vi o seu boletim para a festa. Esqueceu-se de o entregar? Vem, ou não vem? __Não, não vou, e digo-lhe porquê.
E falei-lhe de tudo aquilo que vi, deduzi, e que tenho estado a relatar.
__ Toda a gente achou piada só o Sr. Carvalho é que não. Para a próxima vez mando fazer outro desenho com uma coroa de rei e o seu nome, e até lhe posso dar uma para que a coloque na sua cabeça.
__Claro que pode! Pode isso e muito mais!
Mas será melhor que mande escrever somente o texto sem lhe acrescentar desenhos estúpidos.
Sei que sou especial! Tenho uma cabeça que pensa diferente dos demais. É o meu pensar, a minha óptica das coisas, a minha razão. Porque tenho direito a isto tudo, e ainda porque:
__ Não há machado que corte a raiz ao pensamento __, lá diz a célebre canção__, porque não abdico nem sequer de uma ínfima parte desta minha forma de estar e de pensar, digo-lhe: __Não, não vou! __.

Talvez por não estar habituado as falas nem a desobediências destas, Talvez por estar habituado a lidar com gente de todo o mundo, (por aqui, só ainda não vi esquimós!), que devido a guerras, a misérias extremas que os obrigou a deslocarem-se e por sistema acomodam-se, submetem-se e deixam-se escravizar, talvez por ter concluído que este careca, foi feito de outra massa, que não se submetia, que dizia não à ocasião, __ não respondeu, virou-me as costas e não me falou durante uns longos tempos. São assim, procedem assim estes chefes. Os outros, na Marinha, ostentavam uns galões doirados, estes aqui, apenas usam as penas eriçadas, as cristas emproadas, os narizes empinados, a realçarem o poder de todo o conjunto.

Estávamos em mil novecentos e noventa e agora estamos em dois mil e sete. Entretanto com a chamada, __Globalização __, o grupo empresarial cresceu e expandiu-se para o estrangeiro e às festas tem vindo gente das vizinhanças. Em algumas, já aconteceu juntarem-se mil e tal pessoas.
Já aconteceram muitas festas. Acabei por ir a algumas e às restantes tenho-me cortado a ir. Tenho ido conforme o apetite do momento. Estando eu quentinho, na minha casita aquecida, e lá fora haver um grande nevão não me apetece sair para ir, e tenho pensado:
__ Não, não vou! Acendo a lareira, tomo uns copitos, e pronto.
Ir? Para quê? __Para esperar muito tempo pela comida, por um mísero meio copito de tinto, que quando a menina depois de servir aquelas gotas logo vira costas! Apetece chamá-la, apontar para o copo, e dizer: “ Olhe, menina: já estou outra vez às escuras! “
Aqui existe um enchido de que já muito falei noutros escritos mas acho necessário repetir agora.
Chama-se __Olma-Bratwurst __. Faz-me lembrar a moira portuguesa, mas nem aos calcanhares lhe chega. E eu, ainda bem me lembro de quando , e do quanto, ao comê-la lambia os beiços, só que infelizmente, muito raramente, isso acontecia lá na minha terrinha, a minha querida Nagosa, plantada na Beira – Alta, só que esta, a dita, é feita de carne tão triturada e diluída que lhe dá uma cor uniforme, sem a brancura de um único milímetro de nervo ou tendão descarnado, nem a vermelhada típica da carne ensanguentada, nem a dureza traiçoeira de um pedacito de osso. Tem um sabor tão esquisito que me deixa na boca uma sensação desagradável, que me parece estar a comer um pedaço de plástico, e por momentos vejo-me na pele de um cão a roer o seu osso artificial de brincar.
Por estas paragens é considerada uma grande especialidade , especialidade da avó, __OLMA__e é muito usada em festas. Até em algumas onde as portas são abertas ao público, em firmas, em fábricas, em garagens, quando querem apresentar as novidades do mercado. Não há festa que se preze, que não a apresente. Sem ela, não seria festa, não seria nada.

Nós os latinos não apreciamos muito aquela coisa, porque temos enchidos, __os nossos muito saborosos fumeiros, que principalmente os alentejanos aquando da ida à terrinha trazem, e convidam alguns amigos para se regalarem numas petiscadas bem regadas.
“Que sorte tenho, por ter amigos desses! Eles são os culpados de algumas segundas-feiras azedas…, que me têm mantido turvo por muitas horas.”
Os nossos chefes sabem isso, e uma vez, na tentativa de agradarem, puseram à disposição e à descrição do pessoal outras carnes tais como: febras e costeletas. Com a obrigação de cada qual as assar. Ora aconteceu que com aquela novidade introduzida, os que puderam, abusaram e paparam tudo num instante. Digo, puderam, porque deixaram os atrasados a berrar! A esta não fui, por isso não assisti, mas se muito gozo tive ao ouvir contar, muito mais teria se tivesse assistido.
Mas, além disto que descrevi como inconvenientes, ainda há a acrescentar que em todas elas têm acontecido sempre as mesmas cenas teatrais! Tenho-me fartado de rir ao ver toda aquela gente, __colegas e chefes__ numa falsa cavaqueira, todos sorridentes, eles que passam todo o resto do ano numa autêntica guerra de lambe-lambe, de ver quem mais espezinha para conseguir os seus fins, e ali, naqueles momentos é um “regalo” vê-los a usarem cumprimentos especiais, com palmadinhas nas costas, tudo aquilo me cheira a uma enorme hipocrisia.
Em algumas até foi muito saboroso. Numa delas, todas as comunidades, (e por lá mora todo o mundo), foram convidadas a apresentarem as suas especialidades. Foram montadas barraquinhas, parecia um arraial no meu Portugal.
Numa outra vez, __ não na festa geral do grupo empresarial, mas na nossa secção e mesmo assim meteu muita gente! __, Um grupo de portugueses aceitou o desafio e tomaram em ombros a tarefa de representar Portugal.
Fizeram gambas, sopa de peixe, e bacalhau assado, __ mesmo na brasa! __, E com mais umas coisas a enfeitar e a complementar, (coisas que agora já não me lembro) deixaram uma boa imagem de Portugal.
Para quem não sabe ou nunca quis saber e por isso nunca nisso sequer pensou, digo aqui e agora, que nós os emigrantes, somos os melhores e autênticos embaixadores de Portugal. Porque os outros ditos e tidos por tal, ficam-se pela representação, selectiva, em momentos e para elementos especiais e que por isso não chegam aos demais, às massas do país onde se encontram teoricamente a desempenharem essa missão. Com isto que estou a dizer, se algum deles me ler, vai ficar a deitar fumo pelas fossas nasais, (vede como também sei falar caro! Porque me apetece, senão escreveria, __ventas__, como um dragão. Mas pouco me importa. Não devo nada a ninguém. Sou livre e independente como o Pardal que vai e que vem, torna a ir e torna a vir sem dar cavaco a ninguém!
E pronto, eis mais um relato verdadeiro, a juntar à minha colecção das esquisitices desta gente.

2 comentários »

  1. Gostei da narrativa e da tua posição. Também eu sei dizer Não quando a “carneirada” diz “sim”. Nos almoços e jantares anuais do meu serviço, nunca fui, porque era dividido por todos e gastar dinheiro num grupo de setenta pessoas onde havia “vermes”? jamé:)
    Ia com colegas da secção quando as finanças o permitiam.
    És cá dos meus e parabéns!

    Beijocas

    Comentar por Fatyly — Novembro 20, 2007 @ 11:34 am | Responder

  2. Carmindo,tenho que perder muito mais tempo a ler as tuas belas histórias.
    eu deixei de ir ás festas da empresa há muitos anos(estou aqui vai fazer 22 anos em Abril)desde que um ano o patrão resolveu cancelar a festa por causa dos portugueses(desculpa dele)e eu com português que se preza de o ser nunca mais lá puz os meus pés,porra !tenho a minha dignidade e serei sempre português.
    Como vês não és o único.
    Um grande abraço do Chico Bento

    Comentar por chicobento — Janeiro 15, 2008 @ 6:21 pm | Responder


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