Entra ou Sai

Novembro 1, 2007

À flor da pele

Filed under: Conto — carva55 @ 9:57 am
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É Novembro. Um de Novembro, dia de todos os santos, __ dizem. Dia em que as pessoas rumam até aos cemitérios e carregados com flores compradas a peso de ouro e, ( sabe-se lá como e com quantos sacrifícios as compram! ) , alinham nesta coisa que o mercado e os costumes engendraram, e lá vão colocá-las, __ para enfeitar __, nos locais onde foram enterrados os seus familiares.
Junto ao portão encontra-se o “mercado”. Está frio. Um nevoeiro incomoda, impregna-se em tudo, __ nas roupas e nos ossos, __ parece.
Mal vestido, a tiritar, um menino baixa-se apanha uma e depois outra flor, __ flor no chão caída, para o chão atirada, flor rejeitada, flor parcialmente desfolhada __, e vai formando um ramito, __o ramito do menino __.
Uma das floristas vendedoras, apercebe-se do que se passa e calcula a dimensão daqueles gestos. Tem pena e apetece-lhe dar ao menino um ramo lindo, fresco, para que o leve e o possa colocar onde deseja. Não pode, porque não é a dona daquilo. Apenas vende, é uma empregada apenas.
Com cuidado, para fugir ao possível olhar da dona da parcela daquele negócio, naquele mercado instalada, sorrateiramente deixa cair algumas flores, ainda lindas, ainda frescas.
Este feito não escapa àquele menino tão preocupado e ocupado no arranjo do seu ramito. Apressa o passo e apanha-as. Sem saber como nem porquê, __ apenas sente como quê um magnetismo que o atrai ao encontro dos olhos daquela senhora_. E ela está precisamente a olhar para ele, e a sorrir-lhe. O menino, agradecendo, retribui com outro sorriso envolto num cândido olhar.
Satisfeito, porque agora o seu ramito já está lindo, __ de todos é o mais lindo! Ela vai gostar, __ pensa, e vai cumprir a missão a que se propôs.
Passa por aquele grande portão que dá acesso a umas grandes ruas que levam até ao chão, transformado em camas, camas para acomodar o descanso final.
Uma menina, puxada por alguém que parece sua mãe, passa, olha para ele e sorri-lhe.
Que linda! __ Pensa o menino.

A tarde está a chegar ao fim. O rapaz que já foi menino, caminha apressado.
Ao longe avista a fragata, “a sua fragata.” Na próxima esquina da rua por onde caminha, vai a passar uma rapariga.
Um grupo de marmanjos, lançam-lhe piropos, alguns picantes demais a rondarem a ordinarice.
Um deles mais afoito ou a querer exibir-se perante o grupo, talvez a marcar posição de líder, agarra no braço da rapariga. Ela, com um enérgico puxão, consegue libertar-se daquela manápula.
O rufia, não gostou nada daquilo. Inicia um gesto que parecia ser o princípio de uma agressão. Sente a pressão de uns dedos que o seguram e lhe contrariam a intenção. Volta-se preparado para atacar aquele intruso. Encaixa um murro no bucho, um gancho, nos queixos.
E pronto, bastou! Para ali ficou, K.O.
Os outros acorrem dispostos a vingar o colega. “Alto lá, que a coisa aquece, pensou o rapaz. “
O primeiro, é recebido com um excelente pontapé circular dado com o peito de pé, naquela lombeira bombeira espadalhuda, de forro criado pelo” fast food “gerado, e mergulhou de bruços. (Parecia um mergulho para uma qualquer piscina, e tinha razão, estava muito calor.)
O segundo, vendo aquilo, desiste, ajuda a levantar os outros e diz: __ vamos, piremo-nos daqui, porque este gajo é um autêntico Rambo!
A rapariga aproximou-se.
__Olá! Como está? Está magoado? Obrigado por me ter defendido.
__Olá! Não, não estou magoado. Estou bem.
“ Afinal ela não viu o filme todo, não viu que nem sequer me tocaram?!”
Os olhares cruzam-se, encontram-se e ambos sentem um abanão seguido de um arrepio que lhes percorre o corpo todo.
“ É ela! __ Pensa o rapaz.
“ É ele! __ Pensa a rapariga.
Ambos rebobinam a cassete do tempo e retornam àquela manhã daquele Novembro.
Ambos ficam sem palavras. Ambos não sabem que dizer.
__Olá! __Diz ela outra vez.
__Olá! __Diz ele outra vez.
__Como te chamas? __ Pergunta ele.
__ Matilde. Responde.
__ Lindo nome! Gosto muito. “ Afinal gosto dela e qualquer nome seria lindo, __ pensa.”
__ E tu, como te chamas?
__ Tiago, chamo-me Tiago, __responde ele, repetindo o nome como se tivesse medo de que ela dele se esquecesse, se o ouvisse só uma vez.
__ Também é lindo, também gosto.
“ É ele! __ Que lindo que é! “
__ Estou a gostar deste bocadinho mas tenho que ir. Já estou atrasado, o navio ainda parte sem mim.
__ O navio? __ Pergunta ela.
__ Sim aquele que está além. __ E aponta para a sua querida fragata __.
Ela repara então na bela farda que o seu salvador traz vestida.
__ Ah! És marinheiro!
__ Sim, como vês. E vaidoso faz uma pose para melhor mostrar a sua farda. E esta para mim é a farda mais linda, mais linda que a outra que tenho.
Gostaria de te tornar a encontrar e que fosse rápido e não depois de tantos anos como desta vez.
__ Sim, realmente já passaram muitos anos. Também gostaria muito de te tornar a ver.
__ Pois bem, dá-me o número do teu telefone, agora todo o mundo tem um, e alguns mais que um. Hoje em dia, até crianças de escola têm! Também tens ? Para que seja fácil te contactar para nos voltarmos a encontrar , queres dar-mo ?
__Sim, tenho , espera um pouco . Toma , __diz depois de ter rabiscado o número num minúsculo papelito que encontrou , mas que serviu e desenrascou .
__Pronto , então adeus . Brevemente, o teu telefone vai fazer trrim , trrim , e vais ver , sou eu no teu ouvido .
__ Está bem , adeus . __Diz já meia voltada em jeito de abalada .
Com a troca dos números cada qual vai à sua vida. Mas não sem que ambos para trás olhassem mais que uma vez até que a distância os tornou invisíveis.

O telefone tocou e o encontro aconteceu. Mais uma vez se ouviram os olás.

__Pai, apresento-te este rapaz. Chama-se Tiago .
__Tiago? Tiago quê? Deve de ter um apelido?!
“Perguntou já preocupado com as companhias da sua querida filhinha, e bem lá no fundo a calcular se aquele rapaz que a sua menina lhe apresentava seria de boa linhagem. Só assim, depois de saber isso, poderia calcular o peso do dote.”
“Apelido? Ah! Sim, tenho o da minha mãe que me teve na condição de mãe solteira, de mulher abandonada, e que muito cedo morreu sem que chegasse a casar, sem que outro amor chegasse e aquelas feridas sarasse.”
__Esqueça isso, __disse ela como que adivinhando o pensamento do seu pai. Foi ele que me defendeu daqueles brutos, daquele mau encontro de que lhe falei , há já uns tempos.
__ Ah! Sim! __ Respondeu pouco interessado nisso por ter sido desviado do pensamento do cálculo do peso do dote.

O telefone tocou, o encontro aconteceu, o tempo decorreu, os lábios e as mãos se tocaram, e um grande amor nasceu e cresceu.

O filme acabou, as luzes se acenderam. E eis que eles ali vão abraçados envolvidos num abraço forte que os levará mundo e vida fora, enfrentando todos os ventos adversos que ousem assoprar, e todos os interesses que ousem se aproximar, com o fim de os separar.

1 Comentário »

  1. “Apelido? Ah! Sim, tenho o da minha mãe que me teve na condição de mãe solteira, de mulher abandonada, e que muito cedo morreu sem que chegasse a casar, sem que outro amor chegasse e aquelas feridas sarasse.”
    ……………………………
    De facto é uma barbridade a correria aos cemitérios com flores cujo valor monetário quadruplica neste dia, não critico, mas prefiro dar em vida e 99,9% dos que vão não lhes deram o real valor e na volta agora fazem-no pelo peso que têm na consciência.
    Mas há quem apanhe do chão aquilo que lhes enche o coração e na sua inocência……num olhar que não esqueceu o

    Menino…jovem menino… adulto menino… foi e é feliz, porque ama e amado, já com a sua descedência linda…hoje voltou a ser menino-menino!

    Adorei este teu conto e levanto a taça e digo bem alto. PARABÉNS e que contes muitos e muitos:)))))))))

    Comentar por Fatyly — Novembro 1, 2007 @ 5:49 pm | Responder


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