Entra ou Sai

Novembro 18, 2007

Modas e modernices

Filed under: Ratadas — carva55 @ 12:44 pm
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É assim, é assim, é assim. Por todo o lado tanta vez já ouvi este __ é assim __. É em debates na Tv. ou rádio, é em simples conversas de café.
“ É assim “, subentendo por uma afirmação, e antecedendo uma resposta, logo deduzo que quem isto disse está a afirmar que o que vai dizer, é rigorosamente assim, sem margem para dúvidas.
Mas depois confirma-se que nem sempre é assim.
Eu, um dia escrevi: __ Nada substitui nada, nem nada é insubstituível __. Mais tarde arrependi-me de ter escrito isto. Lembrei-me de que em pleno século XXI , o sangue, ainda não é substituível. É claro que em muitas outras matérias algo substitui outro algo integralmente em algumas e parcial-mente noutras .
“ Lembro-me que há gente que pensa que é insubstituível, que em tudo que diz ou faz é melhor que todos os demais, “coitados, que se cuidem…”
Não sou especialista nesta matéria, (e certamente não sou em nenhuma), penso. Mas acho que, o indivíduo que usa sistematicamente o tal __ é assim__, sofre de um bloqueio de raciocínio, que se reflecte na sua forma de expressão.
Por exemplo:
O actual treinador do Sporting, __Paulo Bento __, não consegue dizer seis palavras sem que introduza na sua palestra um prolongado e muito irritante __ ãããã__.
Mas que raio! Que é isto? Será uma forma de ganharem tempo para melhor poderem escolher as palavras ideais para a resposta que lhes pedem?
A alguns, aqueles que pelas conveniências, permanentemente obrigados ao politicamente correcto, até aceito, que tenham que escolher as palavras ideais, menos agressivas, __ não vá acontecer que as suas palavras tenham a audácia de ferir aquelas espécimes prenhes de susceptibilidades! E com isso espalharem-se ao comprido e ficarem por ali aos ais __.
Mas, ó gente! E então os demais? Será que andam todos malucos, ou será apenas uma onda, de mais uma moda destas modernices?
Alguns, a isto, acrescentam, usam e abusam do “pronto” enfeitado com um incorrecto (S) e fica “ prontos.” E arrematam com um ,”é claro!”. Quando por vezes nada é, nem está claro, pelo contrário, __ até o tempo está farrusco!
Para descongestionar deste prato indigesto: desligo o “radar”, visto o casaco, “dou corda aos sapatos”, e vou apanhar ar fresco.

Novembro 15, 2007

Abaixo de cão

Filed under: Conto,Ratadas — carva55 @ 10:53 am
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Na fábrica, fui até ao Wc. despejar as tripas. Necessidade que não se pode delegar em ninguém. Ao menos nisto sou igual aos demais, nem mais nem menos, nisto todos têm que se ocupar, até os tais mandões, pensei. E este pensamento deu-me um gozo do caraças!
Na parede junto à porta estava colado um papel com um texto a convidar o pessoal para o jantar de convívio anual.
Junto ao texto, alguém desenhou um cão em pose de ladrar, a largar pela boca uma baba, espuma ou coisa parecida.
Pelo cu saíam-lhe umas bolitas que eu identifiquei como sendo fezes.
“Quem será o autor desta obra de arte? Com isto estará a querer dizer-me: __não venhas, olha que te mordo. Se vieres, comes esta merda que estou do cu a largar__.“
Isto caiu-me tão mal que logo ali naquele momento decidi não ir.
Após se ter esgotado o prazo para a entrega da confirmação, da ida ou não ida, abeirou-se de mim o grande chefe e assim falou:
__Então Senhor Carvalho, não vi o seu boletim para a festa. Esqueceu-se de o entregar? Vem, ou não vem? __Não, não vou, e digo-lhe porquê.
E falei-lhe de tudo aquilo que vi, deduzi, e que tenho estado a relatar.
__ Toda a gente achou piada só o Sr. Carvalho é que não. Para a próxima vez mando fazer outro desenho com uma coroa de rei e o seu nome, e até lhe posso dar uma para que a coloque na sua cabeça.
__Claro que pode! Pode isso e muito mais!
Mas será melhor que mande escrever somente o texto sem lhe acrescentar desenhos estúpidos.
Sei que sou especial! Tenho uma cabeça que pensa diferente dos demais. É o meu pensar, a minha óptica das coisas, a minha razão. Porque tenho direito a isto tudo, e ainda porque:
__ Não há machado que corte a raiz ao pensamento __, lá diz a célebre canção__, porque não abdico nem sequer de uma ínfima parte desta minha forma de estar e de pensar, digo-lhe: __Não, não vou! __.

Talvez por não estar habituado as falas nem a desobediências destas, Talvez por estar habituado a lidar com gente de todo o mundo, (por aqui, só ainda não vi esquimós!), que devido a guerras, a misérias extremas que os obrigou a deslocarem-se e por sistema acomodam-se, submetem-se e deixam-se escravizar, talvez por ter concluído que este careca, foi feito de outra massa, que não se submetia, que dizia não à ocasião, __ não respondeu, virou-me as costas e não me falou durante uns longos tempos. São assim, procedem assim estes chefes. Os outros, na Marinha, ostentavam uns galões doirados, estes aqui, apenas usam as penas eriçadas, as cristas emproadas, os narizes empinados, a realçarem o poder de todo o conjunto.

Estávamos em mil novecentos e noventa e agora estamos em dois mil e sete. Entretanto com a chamada, __Globalização __, o grupo empresarial cresceu e expandiu-se para o estrangeiro e às festas tem vindo gente das vizinhanças. Em algumas, já aconteceu juntarem-se mil e tal pessoas.
Já aconteceram muitas festas. Acabei por ir a algumas e às restantes tenho-me cortado a ir. Tenho ido conforme o apetite do momento. Estando eu quentinho, na minha casita aquecida, e lá fora haver um grande nevão não me apetece sair para ir, e tenho pensado:
__ Não, não vou! Acendo a lareira, tomo uns copitos, e pronto.
Ir? Para quê? __Para esperar muito tempo pela comida, por um mísero meio copito de tinto, que quando a menina depois de servir aquelas gotas logo vira costas! Apetece chamá-la, apontar para o copo, e dizer: “ Olhe, menina: já estou outra vez às escuras! “
Aqui existe um enchido de que já muito falei noutros escritos mas acho necessário repetir agora.
Chama-se __Olma-Bratwurst __. Faz-me lembrar a moira portuguesa, mas nem aos calcanhares lhe chega. E eu, ainda bem me lembro de quando , e do quanto, ao comê-la lambia os beiços, só que infelizmente, muito raramente, isso acontecia lá na minha terrinha, a minha querida Nagosa, plantada na Beira – Alta, só que esta, a dita, é feita de carne tão triturada e diluída que lhe dá uma cor uniforme, sem a brancura de um único milímetro de nervo ou tendão descarnado, nem a vermelhada típica da carne ensanguentada, nem a dureza traiçoeira de um pedacito de osso. Tem um sabor tão esquisito que me deixa na boca uma sensação desagradável, que me parece estar a comer um pedaço de plástico, e por momentos vejo-me na pele de um cão a roer o seu osso artificial de brincar.
Por estas paragens é considerada uma grande especialidade , especialidade da avó, __OLMA__e é muito usada em festas. Até em algumas onde as portas são abertas ao público, em firmas, em fábricas, em garagens, quando querem apresentar as novidades do mercado. Não há festa que se preze, que não a apresente. Sem ela, não seria festa, não seria nada.

Nós os latinos não apreciamos muito aquela coisa, porque temos enchidos, __os nossos muito saborosos fumeiros, que principalmente os alentejanos aquando da ida à terrinha trazem, e convidam alguns amigos para se regalarem numas petiscadas bem regadas.
“Que sorte tenho, por ter amigos desses! Eles são os culpados de algumas segundas-feiras azedas…, que me têm mantido turvo por muitas horas.”
Os nossos chefes sabem isso, e uma vez, na tentativa de agradarem, puseram à disposição e à descrição do pessoal outras carnes tais como: febras e costeletas. Com a obrigação de cada qual as assar. Ora aconteceu que com aquela novidade introduzida, os que puderam, abusaram e paparam tudo num instante. Digo, puderam, porque deixaram os atrasados a berrar! A esta não fui, por isso não assisti, mas se muito gozo tive ao ouvir contar, muito mais teria se tivesse assistido.
Mas, além disto que descrevi como inconvenientes, ainda há a acrescentar que em todas elas têm acontecido sempre as mesmas cenas teatrais! Tenho-me fartado de rir ao ver toda aquela gente, __colegas e chefes__ numa falsa cavaqueira, todos sorridentes, eles que passam todo o resto do ano numa autêntica guerra de lambe-lambe, de ver quem mais espezinha para conseguir os seus fins, e ali, naqueles momentos é um “regalo” vê-los a usarem cumprimentos especiais, com palmadinhas nas costas, tudo aquilo me cheira a uma enorme hipocrisia.
Em algumas até foi muito saboroso. Numa delas, todas as comunidades, (e por lá mora todo o mundo), foram convidadas a apresentarem as suas especialidades. Foram montadas barraquinhas, parecia um arraial no meu Portugal.
Numa outra vez, __ não na festa geral do grupo empresarial, mas na nossa secção e mesmo assim meteu muita gente! __, Um grupo de portugueses aceitou o desafio e tomaram em ombros a tarefa de representar Portugal.
Fizeram gambas, sopa de peixe, e bacalhau assado, __ mesmo na brasa! __, E com mais umas coisas a enfeitar e a complementar, (coisas que agora já não me lembro) deixaram uma boa imagem de Portugal.
Para quem não sabe ou nunca quis saber e por isso nunca nisso sequer pensou, digo aqui e agora, que nós os emigrantes, somos os melhores e autênticos embaixadores de Portugal. Porque os outros ditos e tidos por tal, ficam-se pela representação, selectiva, em momentos e para elementos especiais e que por isso não chegam aos demais, às massas do país onde se encontram teoricamente a desempenharem essa missão. Com isto que estou a dizer, se algum deles me ler, vai ficar a deitar fumo pelas fossas nasais, (vede como também sei falar caro! Porque me apetece, senão escreveria, __ventas__, como um dragão. Mas pouco me importa. Não devo nada a ninguém. Sou livre e independente como o Pardal que vai e que vem, torna a ir e torna a vir sem dar cavaco a ninguém!
E pronto, eis mais um relato verdadeiro, a juntar à minha colecção das esquisitices desta gente.

Novembro 10, 2007

Sornice

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São três e meia da tarde de sábado do dia dez de Novembro de dois mil e sete.
Lá fora, o tempo tem um aspecto farrusco.
Lá em cima no alto da serra passa uma mancha enevoada de onde cai neve. No chão vê-se bem nítida a sua brancura.
Cá em baixo, embrulhados no vento que irritado assopra e faz os meus estores metálicos queixarem-se dos seus safanões,
passam uns flocos de neve que logo derretem.
Aqui na sala, as Tvs., como habitualmente, (e talvez para não variar), estão a passar uns programas que parecem terem sido copiados a papel químico, tal é a semelhança dos seus modelos.
Os pássaros, __Agapornis__, a quem os Ingleses chamam de “ pássaros do amor “ estão enrolados, já preparados para baterem uma rica sesta.
Os peixes, de pança cheia nadam calmos. Alguns nem sequer nadam, flutuam apenas.
Chega-me uma sornice que me torna amorfo, sem que nada de jeito me apeteça fazer.
Penso e visiono o “filme”. Ali ao lado na Caravela certamente que acontece o normal habitual. No espaço que é bar e também salão de jogos, um par a jogar bilhar, alguns a jogar cartas. No restaurante, a esta hora, estará algum retardado a lamber-se nos restos do almoço.
Na casa do Benfica a esta hora já as cartas fervilham nas mãos e saltam para a mesa. As setas voam apressadas em direcção à máquina dos pontos. A Tv. está sintonizada no sporTv. e no futebol Inglês. __ Porque é por lá que anda a brilhar o nosso Cristiano Ronaldo! __.
Os jornais, abandonados, amontoados, lá estão a forrar a máquina do tabaco, esperando um folhear, um simples olhar.
“Coitados de vós …, bem podeis esperar sentados! “

O ambiente do Centro é-me mais difícil calcular pois que ultimamente tem andado muito irregular.
E eu aqui estou sem saber que fazer.
Pego no livro que ando a ler e depressa o lanço para o sofá. “Não, por agora não vou chatear-me mais com esta porcaria. Mas hei-de acabar de te ler,” penso eu, olhando-o.
Dizem que já vendeu carradas de resmas, mas é a maior porcaria que já li até hoje.
Os autores dizem – me para não pensar nas dividas. “ Que antes de abrir a caixa do correio devo pensar sempre que vou encontrar lá dentro arrumadinhos cheques com dinheiro fresquinho e vindo de desconhecidos. Que se eu não pensar nas dividas elas não aparecem.”
Ora eu penso que ninguém dá nada a ninguém. Mesmo quem dá esmolas, está sempre esperando receber algo em troca, nem que seja algo vindo de um santinho qualquer.
Que treta! Elas, __as dividas__, existem porque eu as contraí . Por isso, quer eu pense nelas ou não, as facturas vão continuar a chegar até que tudo seja pago.
“Que os meus pensamentos são como ímanes que atraem as coisas, boas e as más. Que geram ondas de frequência que se espalham pelo Universo e reúnem as pessoas que podem influenciar.”
Um deles diz que conseguiu ter a casa que anos antes tinha pintado numa tela. Um casarão de muito milhão!
Outro diz que ao olhar para os carrões de sonho devo pensar: “ vou ter um igual, vou ter um igual, __devo pensar muitas vezes e assim um dia vou ter um igualzinho!”
Garantem sem vergonha e com muita certeza!
Será por causa desta treta de pensamentos que muitos se cansam de esperar, passam-se dos carretos e entram numa onda de crime? E aí chegados, com isso, compram sim os tais carrões e casarões!
Ora que porra! Já agora digam que tudo se resume em ter ou não ter a tal lâmpada mágica e o tal gajo que ao esfregá-la faz aparecer materializados todos os nossos sonhos.
Àqueles que é costume andarem tesos, por falta de dinheiro dizem que não devem pensar na sua falta, mas que devem dar algum e pensar que já têm muito, que já têm o suficiente e assim vão atrair e conseguir ter muito mais dinheiro!
Enfim…! E assim se fazem fortunas usando o desconhecido e abusando dos desgraçados inconformados que tudo aproveitam para ver se algo de bom muda nas suas vidas. São apenas mais uma fornada a juntar aos bruxos, videntes, e similares.
Já me esquecia de dizer que esta fornada de papões é a autora e colaboradores na feitura do livro, __ The Secret __, o segredo, que de segredo para mim não tem nada de nada de secreto nem de aproveitável.
Não acredito no invisível, acredito somente no palpável.
Que hei-de fazer? Tenho umas mãos muito curiosas! E uns neurónios pouco ou nada influenciáveis.

Pois é rapaz. Tens que sair dessa morrinha e preparar a segunda – feira que já está perto, porque as férias estão a chegar ao fim e tens que ir fresquinho vergar a mola.
Para arrebitar, coloco na aparelhagem uma salada musical composta por: Whitesnake, Bon Jovi, John Mellencamp, Sunrise, Sammy Hagar e mais alguns “amigos”que certamente me elevarão a um estado tal, que me ajudarão a resistir a estes ventos adversos, penso.

Novembro 1, 2007

À flor da pele

Filed under: Conto — carva55 @ 9:57 am
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É Novembro. Um de Novembro, dia de todos os santos, __ dizem. Dia em que as pessoas rumam até aos cemitérios e carregados com flores compradas a peso de ouro e, ( sabe-se lá como e com quantos sacrifícios as compram! ) , alinham nesta coisa que o mercado e os costumes engendraram, e lá vão colocá-las, __ para enfeitar __, nos locais onde foram enterrados os seus familiares.
Junto ao portão encontra-se o “mercado”. Está frio. Um nevoeiro incomoda, impregna-se em tudo, __ nas roupas e nos ossos, __ parece.
Mal vestido, a tiritar, um menino baixa-se apanha uma e depois outra flor, __ flor no chão caída, para o chão atirada, flor rejeitada, flor parcialmente desfolhada __, e vai formando um ramito, __o ramito do menino __.
Uma das floristas vendedoras, apercebe-se do que se passa e calcula a dimensão daqueles gestos. Tem pena e apetece-lhe dar ao menino um ramo lindo, fresco, para que o leve e o possa colocar onde deseja. Não pode, porque não é a dona daquilo. Apenas vende, é uma empregada apenas.
Com cuidado, para fugir ao possível olhar da dona da parcela daquele negócio, naquele mercado instalada, sorrateiramente deixa cair algumas flores, ainda lindas, ainda frescas.
Este feito não escapa àquele menino tão preocupado e ocupado no arranjo do seu ramito. Apressa o passo e apanha-as. Sem saber como nem porquê, __ apenas sente como quê um magnetismo que o atrai ao encontro dos olhos daquela senhora_. E ela está precisamente a olhar para ele, e a sorrir-lhe. O menino, agradecendo, retribui com outro sorriso envolto num cândido olhar.
Satisfeito, porque agora o seu ramito já está lindo, __ de todos é o mais lindo! Ela vai gostar, __ pensa, e vai cumprir a missão a que se propôs.
Passa por aquele grande portão que dá acesso a umas grandes ruas que levam até ao chão, transformado em camas, camas para acomodar o descanso final.
Uma menina, puxada por alguém que parece sua mãe, passa, olha para ele e sorri-lhe.
Que linda! __ Pensa o menino.

A tarde está a chegar ao fim. O rapaz que já foi menino, caminha apressado.
Ao longe avista a fragata, “a sua fragata.” Na próxima esquina da rua por onde caminha, vai a passar uma rapariga.
Um grupo de marmanjos, lançam-lhe piropos, alguns picantes demais a rondarem a ordinarice.
Um deles mais afoito ou a querer exibir-se perante o grupo, talvez a marcar posição de líder, agarra no braço da rapariga. Ela, com um enérgico puxão, consegue libertar-se daquela manápula.
O rufia, não gostou nada daquilo. Inicia um gesto que parecia ser o princípio de uma agressão. Sente a pressão de uns dedos que o seguram e lhe contrariam a intenção. Volta-se preparado para atacar aquele intruso. Encaixa um murro no bucho, um gancho, nos queixos.
E pronto, bastou! Para ali ficou, K.O.
Os outros acorrem dispostos a vingar o colega. “Alto lá, que a coisa aquece, pensou o rapaz. “
O primeiro, é recebido com um excelente pontapé circular dado com o peito de pé, naquela lombeira bombeira espadalhuda, de forro criado pelo” fast food “gerado, e mergulhou de bruços. (Parecia um mergulho para uma qualquer piscina, e tinha razão, estava muito calor.)
O segundo, vendo aquilo, desiste, ajuda a levantar os outros e diz: __ vamos, piremo-nos daqui, porque este gajo é um autêntico Rambo!
A rapariga aproximou-se.
__Olá! Como está? Está magoado? Obrigado por me ter defendido.
__Olá! Não, não estou magoado. Estou bem.
“ Afinal ela não viu o filme todo, não viu que nem sequer me tocaram?!”
Os olhares cruzam-se, encontram-se e ambos sentem um abanão seguido de um arrepio que lhes percorre o corpo todo.
“ É ela! __ Pensa o rapaz.
“ É ele! __ Pensa a rapariga.
Ambos rebobinam a cassete do tempo e retornam àquela manhã daquele Novembro.
Ambos ficam sem palavras. Ambos não sabem que dizer.
__Olá! __Diz ela outra vez.
__Olá! __Diz ele outra vez.
__Como te chamas? __ Pergunta ele.
__ Matilde. Responde.
__ Lindo nome! Gosto muito. “ Afinal gosto dela e qualquer nome seria lindo, __ pensa.”
__ E tu, como te chamas?
__ Tiago, chamo-me Tiago, __responde ele, repetindo o nome como se tivesse medo de que ela dele se esquecesse, se o ouvisse só uma vez.
__ Também é lindo, também gosto.
“ É ele! __ Que lindo que é! “
__ Estou a gostar deste bocadinho mas tenho que ir. Já estou atrasado, o navio ainda parte sem mim.
__ O navio? __ Pergunta ela.
__ Sim aquele que está além. __ E aponta para a sua querida fragata __.
Ela repara então na bela farda que o seu salvador traz vestida.
__ Ah! És marinheiro!
__ Sim, como vês. E vaidoso faz uma pose para melhor mostrar a sua farda. E esta para mim é a farda mais linda, mais linda que a outra que tenho.
Gostaria de te tornar a encontrar e que fosse rápido e não depois de tantos anos como desta vez.
__ Sim, realmente já passaram muitos anos. Também gostaria muito de te tornar a ver.
__ Pois bem, dá-me o número do teu telefone, agora todo o mundo tem um, e alguns mais que um. Hoje em dia, até crianças de escola têm! Também tens ? Para que seja fácil te contactar para nos voltarmos a encontrar , queres dar-mo ?
__Sim, tenho , espera um pouco . Toma , __diz depois de ter rabiscado o número num minúsculo papelito que encontrou , mas que serviu e desenrascou .
__Pronto , então adeus . Brevemente, o teu telefone vai fazer trrim , trrim , e vais ver , sou eu no teu ouvido .
__ Está bem , adeus . __Diz já meia voltada em jeito de abalada .
Com a troca dos números cada qual vai à sua vida. Mas não sem que ambos para trás olhassem mais que uma vez até que a distância os tornou invisíveis.

O telefone tocou e o encontro aconteceu. Mais uma vez se ouviram os olás.

__Pai, apresento-te este rapaz. Chama-se Tiago .
__Tiago? Tiago quê? Deve de ter um apelido?!
“Perguntou já preocupado com as companhias da sua querida filhinha, e bem lá no fundo a calcular se aquele rapaz que a sua menina lhe apresentava seria de boa linhagem. Só assim, depois de saber isso, poderia calcular o peso do dote.”
“Apelido? Ah! Sim, tenho o da minha mãe que me teve na condição de mãe solteira, de mulher abandonada, e que muito cedo morreu sem que chegasse a casar, sem que outro amor chegasse e aquelas feridas sarasse.”
__Esqueça isso, __disse ela como que adivinhando o pensamento do seu pai. Foi ele que me defendeu daqueles brutos, daquele mau encontro de que lhe falei , há já uns tempos.
__ Ah! Sim! __ Respondeu pouco interessado nisso por ter sido desviado do pensamento do cálculo do peso do dote.

O telefone tocou, o encontro aconteceu, o tempo decorreu, os lábios e as mãos se tocaram, e um grande amor nasceu e cresceu.

O filme acabou, as luzes se acenderam. E eis que eles ali vão abraçados envolvidos num abraço forte que os levará mundo e vida fora, enfrentando todos os ventos adversos que ousem assoprar, e todos os interesses que ousem se aproximar, com o fim de os separar.

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