Entra ou Sai

Outubro 9, 2007

Má-Língua

ratazana.jpg

São como noctívagos fantasmas na noite mal dormida, vagueando no insípido vácuo do nada da vida.
São apenas componentes insignificantes deste mundo conturbado.
São apenas pedras dum muro parcialmente já demolido.
Vão chegando, de soslaio olhando, os olhos esfregando, a tentar o resto de sono espantar, e um pouco de apetite pró trabalho arranjar.
Uns correndo atrasados, apressados, empurram o cartão lá pró fundo do relógio de ponto. Essa maquineta sem dó nem piedade para quem fora de horas o cartão lá meta.
Por fim mais descansados suspiram aliviados.
“Já está! Pronto! Assim fica sem razão o chefe refilão.”
Quase todos com cara amarelecida e olhos semi – abertos de sono empolados.
Assim, cada qual se transforma numa fachada precocemente envelhecida!
Sorrateiramente vão – se abeirando, controlando qual o melhor porto para atracar: se aqui, se ali.
Com um lacónico olá se vão esgueirando pró lado de lá, fugindo deste ferro que é pesado
e ali mesmo ao lado é mais leve o mangalho do trabalho!
Olá! Lá vem aquele! Se é quem penso que estou a ver já deve ter a língua gasta de tanto lamber!
Esfrego os olhos, apalpo a cabeça, tentando decifrar se é verdade o que nos outros estou a ver: Umas grandes orelhas de burro!
Não consigo chegar a uma conclusão, mas deve ser verdade e não alucinação, pois se fôssemos mais espertos, a esta hora estaríamos fundeados no mar dos nossos lençóis em vez de andarmos por aqui à nora.
Aqui sozinho no meu cantinho enquanto outros se juntam em bando falando de futebol ou então de qualquer coisa baldroando eu aqui estou nas suas casacas cortando.
Voluntariamente deixo cair para o chão uma migalha de pão para alimentar o meu ratinho.
Lá está a espreitar! Com os seus vivitos olhitos e as orelhitas espetadas a fazer lembrar gente especial: __ cientistas, peritos e peritas, espias e espiões até malícia de maioral!
À cautela, patada ante patada vai – se aproximando.
Ainda um dia há – de vir comer à minha mão! É lindo este meu ratinho! Não é desses plastificados, nem de pelúcia de brincar, nem daqueles domesticados treinados a passear pelos colarinhos para impressionar os vizinhos!
Lá vem aquele que já não é ratinho nem ratão mas sim asquerosa ratazana!
Ele e a sua mania que tanto enoja e já não me engana!

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