Entra ou Sai

Fevereiro 16, 2007

Noite chuvosa e ventosa

Filed under: Conto — carva55 @ 3:44 pm

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A chuva a cair e o vento a assoprar nos estores metálicos, geram  um som desagradável que me mantém acordado.

Vejo as horas. São três e cinquenta. Voltas e mais voltas para a esquerda e para a direita.

Lá longe ouço um relógio de torre a dar horas. São quatro com certeza pois que ainda há pouco eram três e cinquenta, penso.

Neste espaço de tempo destes minutos decorridos, os meus olhos fechados foram visitados por mil imagens. Umas idílicas, sugestivas, agradáveis, outras inarráveis, simplesmente detestáveis.

São agora quatro e dezoito. “ Se estou acordado, desligo já o despertador, escuso de incomodar a minha mulher, a gata, e a minha filha que pesadamente dormem,” penso.

Agora na casa de banho, sentado na sanita a despejar a tripa, já não ouço o tal som provocado pela chuva e pelo vento. “ Queres ver ó Carmindo, que era mais uma alucinação?”

A gata,  costuma vir até à porta a despedir-se de mim. Se falasse, certamente um até logo me diria. Normalmente a correr à minha frente chega lá muito antes que eu, e ora se põe lá ao fundo das escadas a olhar, ou brincalhona se esconde encolhida em algum degrau. Conhece muito bem os meus hábitos rotineiros. À minha chegada, lá está pontualmente esperando-me. Desta vez não veio despedir-se. “Por greve não é, então é porque também foi incomodada com o irritante barulho e agora dorme profundamente, “ penso.

Chego à rua, e verifico que é verdade, portanto alucinação fora de questão. A chuva que fustigada pelo vento cai oblíqua e o vento que ferozmente assopra, são bem reais.

Lá de cima do alto da serra, chega-me o som nítido do tráfego na auto-estrada.

Dou os bons dias ao meu carro que ao relento pacientemente me espera.Solto as rédeas e esporeio os cavalos que nele habitam e lá vamos todos nós para mais uma jornada de trabalho.

Pelo caminho tenho que me desviar de alguns ramos, pedaços de árvores mutiladas, ou de alguns sinais de obras, caídos.

Já em Arbon, em frente ao Migros e junto ao semáforo que há uns dias me “papou” quarenta francos por dois quilómetros a mais, depois de ter reduzido três, nas contas feitas deixou os dois, também os poderia ter tirado, mas não, paguei e não bufei. Neste local, a esta hora da madrugada, cerca de dezoito minutos para as cinco, à minha frente saltita um pássaro preto, talvez melro ou corvo júnior, não sei, não tive tempo para ver bem. Com outras condições talvez o tivesse identificado, pela forma e cor do bico.É engraçado e muito esquisito ele andar aqui a esta hora, ainda de noite, nesta rua iluminada apenas com a luz da iluminação artificial! Será que o vento e a chuva também o despertaram e ele decidiu madrugar para se colocar à frente da concorrência para alguma programada caçada?

Junto ao parque, (parque privado, porque aqui é tudo privado ou assegurado e quem isto não cumprir é lixado), onde o meu carro “dorme”há uns beirais e umas árvores onde a passarada costumam fazer lindas serenatas! Mas não daquelas simples, com dois ou três noctívagos, um a tocar viola ,outro realejo, enquanto um outro cantarola à sua querida a canção do bandido. Não, nada disso. Estas serenatas são feitas com orquestra completa e por sinal bem afinada que a maior parte das vezes me apetece por ali ficar a assistir, a divertir-me em vez de ir trabalhar. O pior é que eles aproveitam para ali mesmo aliviar a tripa e o meu carro às vezes anda transformado em sanita pública. Se fosse pela altura do Carnaval, ainda vá lá, assim não dá sainete. O que vale é que nesta terra chove muito, senão, nem sei…, seria cá um pivete! Mas isso acontece mais à frente, mais perto da Primavera quando costumo sair de casa e já é manhã clara. Mas assim, tal como descrevi, é coisa esquisita!

As faixas verticais dos reclames de uma garagem correm o risco de serem esfarrapadas e arrancadas pelo vento que as insufla e fazem-me lembrar as velas desfraldadas ao vento do elegante navio escola , da minha querida Marinha, baptizado com o nome de ,__Sagres__ .

   Na fábrica, já lá estão alguns dos tais que costumam chegar muito cedo, como duendes a cirandar à volta das máquinas.   Um Albanês, ligou a sua máquina e é presenteado com um duche de mangueira que sossegada estava na vertical pendurada mas aberta, por algum descuidado, deixada aberta.Todos os que presenciaram esta cena riram e fizeram gestos de gozo. Uns levando as mãos aos sovacos, outros às partes baixas simulando um duche.  Porque será que só nos rimos do mal? Do mal, mas do mal dos outros!A “minha”máquina, ontem fez gazeta. Recusou-se a trabalhar e foi preciso chamar o piquete. Por ali andámos na cavaqueira a matar o tempo. Quando assim acontece o relógio parece que não caminha, que também ele se recusa a trabalhar. Mas hoje ela está bem “disposta” arrancou e atrás dela nos levou para mais um dia de produção.  Como andei sempre ocupado, até deu para esquecer a malvada insónia. Por acaso até foi um dia bem passado. E pronto, aqui estou em frente ao Pc., para registar esta coisa banal que foi a minha última noite. Noite que realmente foi muito desagradável, mas deverei pensar que poderia ter sido muito pior.

Ouço uma voz que me diz:

__Pensa de forma positiva, ó Carmindo. Se partires uma perna , pensa:

__Bem, ainda bem que foi só uma, poderia ter partido as duas__.

__Se cortares um dedo, pensa:

__Bem, ainda bem que foi só um dedo, poderia tê-los cortado todos__.

__Pensa assim positivamente ó Carmindo, e verás que a tua vida terá melhor sabor, com  mais alegria, luz e cor.

Fevereiro de 2007         

2 comentários »

  1. Visualizei cada palavra tua e nem dei pelo tempo a passar.

    Bela narrativa.

    Beijocas e um bom fim de semana

    Comentar por Fatyly — Fevereiro 17, 2007 @ 1:30 pm | Responder

  2. Muito bacana o seu blog brother… e belos trabalhos !!!

    Comentar por Paulie Hollefeld — Maio 3, 2007 @ 9:57 pm | Responder


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