Entra ou Sai

Fevereiro 16, 2007

Noite chuvosa e ventosa

Filed under: Conto — carva55 @ 3:44 pm

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A chuva a cair e o vento a assoprar nos estores metálicos, geram  um som desagradável que me mantém acordado.

Vejo as horas. São três e cinquenta. Voltas e mais voltas para a esquerda e para a direita.

Lá longe ouço um relógio de torre a dar horas. São quatro com certeza pois que ainda há pouco eram três e cinquenta, penso.

Neste espaço de tempo destes minutos decorridos, os meus olhos fechados foram visitados por mil imagens. Umas idílicas, sugestivas, agradáveis, outras inarráveis, simplesmente detestáveis.

São agora quatro e dezoito. “ Se estou acordado, desligo já o despertador, escuso de incomodar a minha mulher, a gata, e a minha filha que pesadamente dormem,” penso.

Agora na casa de banho, sentado na sanita a despejar a tripa, já não ouço o tal som provocado pela chuva e pelo vento. “ Queres ver ó Carmindo, que era mais uma alucinação?”

A gata,  costuma vir até à porta a despedir-se de mim. Se falasse, certamente um até logo me diria. Normalmente a correr à minha frente chega lá muito antes que eu, e ora se põe lá ao fundo das escadas a olhar, ou brincalhona se esconde encolhida em algum degrau. Conhece muito bem os meus hábitos rotineiros. À minha chegada, lá está pontualmente esperando-me. Desta vez não veio despedir-se. “Por greve não é, então é porque também foi incomodada com o irritante barulho e agora dorme profundamente, “ penso.

Chego à rua, e verifico que é verdade, portanto alucinação fora de questão. A chuva que fustigada pelo vento cai oblíqua e o vento que ferozmente assopra, são bem reais.

Lá de cima do alto da serra, chega-me o som nítido do tráfego na auto-estrada.

Dou os bons dias ao meu carro que ao relento pacientemente me espera.Solto as rédeas e esporeio os cavalos que nele habitam e lá vamos todos nós para mais uma jornada de trabalho.

Pelo caminho tenho que me desviar de alguns ramos, pedaços de árvores mutiladas, ou de alguns sinais de obras, caídos.

Já em Arbon, em frente ao Migros e junto ao semáforo que há uns dias me “papou” quarenta francos por dois quilómetros a mais, depois de ter reduzido três, nas contas feitas deixou os dois, também os poderia ter tirado, mas não, paguei e não bufei. Neste local, a esta hora da madrugada, cerca de dezoito minutos para as cinco, à minha frente saltita um pássaro preto, talvez melro ou corvo júnior, não sei, não tive tempo para ver bem. Com outras condições talvez o tivesse identificado, pela forma e cor do bico.É engraçado e muito esquisito ele andar aqui a esta hora, ainda de noite, nesta rua iluminada apenas com a luz da iluminação artificial! Será que o vento e a chuva também o despertaram e ele decidiu madrugar para se colocar à frente da concorrência para alguma programada caçada?

Junto ao parque, (parque privado, porque aqui é tudo privado ou assegurado e quem isto não cumprir é lixado), onde o meu carro “dorme”há uns beirais e umas árvores onde a passarada costumam fazer lindas serenatas! Mas não daquelas simples, com dois ou três noctívagos, um a tocar viola ,outro realejo, enquanto um outro cantarola à sua querida a canção do bandido. Não, nada disso. Estas serenatas são feitas com orquestra completa e por sinal bem afinada que a maior parte das vezes me apetece por ali ficar a assistir, a divertir-me em vez de ir trabalhar. O pior é que eles aproveitam para ali mesmo aliviar a tripa e o meu carro às vezes anda transformado em sanita pública. Se fosse pela altura do Carnaval, ainda vá lá, assim não dá sainete. O que vale é que nesta terra chove muito, senão, nem sei…, seria cá um pivete! Mas isso acontece mais à frente, mais perto da Primavera quando costumo sair de casa e já é manhã clara. Mas assim, tal como descrevi, é coisa esquisita!

As faixas verticais dos reclames de uma garagem correm o risco de serem esfarrapadas e arrancadas pelo vento que as insufla e fazem-me lembrar as velas desfraldadas ao vento do elegante navio escola , da minha querida Marinha, baptizado com o nome de ,__Sagres__ .

   Na fábrica, já lá estão alguns dos tais que costumam chegar muito cedo, como duendes a cirandar à volta das máquinas.   Um Albanês, ligou a sua máquina e é presenteado com um duche de mangueira que sossegada estava na vertical pendurada mas aberta, por algum descuidado, deixada aberta.Todos os que presenciaram esta cena riram e fizeram gestos de gozo. Uns levando as mãos aos sovacos, outros às partes baixas simulando um duche.  Porque será que só nos rimos do mal? Do mal, mas do mal dos outros!A “minha”máquina, ontem fez gazeta. Recusou-se a trabalhar e foi preciso chamar o piquete. Por ali andámos na cavaqueira a matar o tempo. Quando assim acontece o relógio parece que não caminha, que também ele se recusa a trabalhar. Mas hoje ela está bem “disposta” arrancou e atrás dela nos levou para mais um dia de produção.  Como andei sempre ocupado, até deu para esquecer a malvada insónia. Por acaso até foi um dia bem passado. E pronto, aqui estou em frente ao Pc., para registar esta coisa banal que foi a minha última noite. Noite que realmente foi muito desagradável, mas deverei pensar que poderia ter sido muito pior.

Ouço uma voz que me diz:

__Pensa de forma positiva, ó Carmindo. Se partires uma perna , pensa:

__Bem, ainda bem que foi só uma, poderia ter partido as duas__.

__Se cortares um dedo, pensa:

__Bem, ainda bem que foi só um dedo, poderia tê-los cortado todos__.

__Pensa assim positivamente ó Carmindo, e verás que a tua vida terá melhor sabor, com  mais alegria, luz e cor.

Fevereiro de 2007         

Fevereiro 9, 2007

Opinião pública , ou uma enormíssima ROUBALHEIRA?

Filed under: Ratadas — carva55 @ 11:00 am

__Estou. Está lá?

__Sim, opinião pública, bom dia.

__Estou a ouvir muito mal. Estão a ouvir-me?

__Sim, estamos. Estamos a ouvi-lo muito bem.  

__Ah! Sim?! Então está bem.

__Diga. Pode falar.

__Bem dizer, dizer, não quero dizer nada …

__Se não quer dizer nada, então porque nos ligou?

__ Liguei para lhe dizer quer está muito linda!

__Muito obrigada. Mas isso não é matéria para este programa.

__ Eu não quero dizer nada, mas quero perguntar-lhe umas coisas, posso? E como estou a pagar faça o favor de não me cortar o pio como costumam fazer a tanta gente que até falam bem e depressa, “melhor que um polícia bêbado”, __costuma-se dizer__ . Não me corte o fio nem o pio , está bem? Então lá vai :

__Por favor diga-me porque tenho que pagar para poder manifestar a minha opinião?“ Do outro lado ouço um  engulho engasgado!”  Para que serve esse dinheiro? Para pagar o seu ordenado? Ou o do seu convidado? Ou será uma forma de custear mais uma das tantas negociatas?   Idêntica por exemplo àquela dos SMSs. São os cêntimos para votar, para jogar, para carregar coisas lindas! Músicas e gajas descascadas para os télélé, para os papalvos se   candidatarem a prémios às vezes bem chorudos , noutras  vezes bem enfezaditos, a bilhetes de futebol, etc. , e para ser o felizardo contemplado nem precisa de saber nada de especial, basta que acerte no número mágico, que eles , “os manda-chuva” decidiram escolher e anunciar. A lista é enorme!  “Não caberia neste ecrã ” Tudo isso é lixo televisivo!  E  mais não é senão que uma enorme e descarada roubalheira?!  “Do outro lado um engulho ainda maior! “Seguem-se uns segundos intermináveis de um silêncio torturante.

__A isso não lhe posso responder.

__Não pode, porque não sabe, ou porque tem medo de perder o arranjinho. Seja o que seja vai dar ao mesmo, não pode e pronto. Sem surpresa! Já calculava!

Tenha um bom dia. Beijinhos para o programa. 

“ Que estás a dizer, ó pá?! Beijinhos para o programa? E onde lhos darias? Também tu foste apanhado e influenciado por aquela montanha diária de estupidez? Ainda se os mandares para a apresentadora que é boa como milho! Ainda vá lá! Agora beijinhos para o programa?! Deixa-me rir! Mas antes deixa-me bater com a cabeça numa pedra para ver se desperto desta alienação colectiva.    

 SMSsss 

Saber do futuro

Para não falhar. 

 Técnica de beijo

Para melhor beijar.  

 Anedota

Para gargalhar.  

Fofoca

Para baldroar. 

Poema

Para namorar. 

 Botar palavra

Para votar.  

SMSsss omnipresentes

Negócio que dá milhões

Às tvs. Telefones

E seus papões.  

 É o negócio da moda

Para enrolar a malta. 

 Paga os cêntimos

E serás especialista.  

 Paga os cêntimos

E estarás protegido 

Bem acompanhado 

 Teso e lixado.  

Fevereiro 5, 2007

Bola Milagrosa

Filed under: POESIA — carva55 @ 10:42 am
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      foto-de-bola-de-futebol-3.jpg  foto-de-bola-de-futebolj-2-pg.jpg                                                     

                                                Bola Milagrosa 

Enquanto dura   

O rola

Que rebola

Da bola.

 

 

O Zé – Zé

Quer é cervejola

 Gelada

Na mão e bola no pé.

 

 

O Zé-Zé

Jura

Que esquece os males da tola

E da tesura.

 

 

Enquanto o sonho dura

Ele acredita

Na conquista

Da tão cobiçada Taça.

 

Esquece que mora na favela.

Esquece o frio da lata

Da barraca.

Esquece a falta de ração que o põe magricela.

 

 

Esquece o dever da “entesura” do dia.

Esquece que a sua Maria

Por falta de “lenha”

Espera e desespera.

 

 

Esquece

O choro do puto.

Esquece

Até a dor de luto.

 

 

Abençoada bola que cura os males da tola !

Fevereiro 4, 2007

Ratadas ( 12 ) Dupla dedicatória

Filed under: Ratadas — carva55 @ 11:38 am

    

                                  12

 

                   Dupla dedicatória 

  Às vezes, a esta minha “pancada” dá-lhe para escrevinhar certas coisas, que uns “alguéns” tão “chanfrados” quanto eu, classificam como poesia da boa, picante e salgada.Melhor assim…, insurrecto, politicamente incorrecto, que daquela insípida, politicamente correcta, tipo melhoral que nem faz bem, nem faz mal.

                                      

Suíça, a maior clínica psiquiátrica do mundo

Filed under: Ratadas — carva55 @ 11:35 am

                                              

Depois desta clausura de quase vinte e dois anos a suportar estes ventos adversos que por estas altas montanhas afunilado, por vezes nos fustiga, a somar aos onze anos, (como aperitivo), de “estadia” no Lisboeta hospital psiquiátrico __ Miguel Bombarda __, neste país a que chamam de Confederação Helvética que eu considero a maior clínica psiquiátrica do mundo, não haja dúvida tenho que me render à evidência, não irei ter melhoras desta “santa loucura”.  Os porquês? De seguida vou falar-vos de coisas mais ou menos esquisitas que , muitas mais há e delas irei falar conforme me for lembrando , mas se mais não houvesse , como justificação ,considero estas suficientes .  

Os Porquês

1) Porquê

Tive uma vizinha que chegou a vir tocar à minha campainha a queixar-se do frio que tinha em casa e queria que eu regulasse os meus radiadores para o máximo, para assim lhe aquecer a casa. E eu disse-lhe: Tem que aquecer o meu tecto placa e tudo. E para que aumente um grau lá em cima tenho que eu morrer aqui em baixo? Não quero nem tenho nada a ver com isso. Fale com o senhorio para comprar outra maquina mais forte ou que reveja a ligação desta.O caricato desta situação é que ela aparecia-me em trajos curtos. Um dia contei isto ao meu amigo Castelo, que diz:“Mas é claro, está mais que visto, ela quer é lenha no lombo! Então não soubeste aquecê-la? Manda-a vir ter comigo que eu tiro-lhe o frio!”

  

2) Porquê

 Essa mesma vizinha um dia tocou-me à porta a dizer-me que a minha gata estava arranhando a os vidros da porta que dava para a varanda porque estava muito frio e ela queria entrar.Se não era capaz de tratar devidamente dela que a desse. Ora, era Outubro e eu sabia que até nem estava muito frio, que os gatos não são animais de “estufa”, etc.O problema é que a gata entrava numa onda de clausura e queria ir espreitar, mas depressa se fartava e entrava noutra onda. À boa maneira feminina, à clausura, acumulava ansiedade, e sei lá que mais?! Enfim coisas do feminino! 

3) Porquê

Ainda a tal vizinha. Andou a marrar uns tempos queixando-se de que as caves cheiravam mal. Porque nem todos sabem, cabe aqui explicar que as ditas caves das casas daqui da Suíça, para alem de ser nelas que estão montadas as máquinas de lavar e secar roupa e ainda em algumas alguns estendais, também cada inquilino tem um espaço seu que funcionam como arrecadações.Tanto andou, tanto andou, que um belo dia bate-me à porta o senhorio acompanhado do seu cão pastor Alemão tendo (ele o cão) como missão detectar e “classificar” o tal cheiro esquisito.O desgraçado do cão, farejou, farejou e não concluiu e por isso não se manifestou. Sentou-se junto ao dono numa onda de paz e sossego. Tudo isto na nossa presença para que o faltoso fosse ali logo desmascarado e certamente castigado.Aquela coisa intrigou-me muito. Em conversa com a outra família portuguesa, depois de muito pensar, concluí: Ouve lá ó Carlos: Eu não tenho olfacto, por isso não sei. Mas se calhar é o cheiro daquele teu bacalhau que está ali pendurado e com a humidade da cave exala algum cheiro que o cão por ser Suíço e por aqui não haver nem mar nem peixe salgado, não identificou. Se não era isso, então o mistério ficou por desvendar, porque os ventos adversos dessa vizinha acalmaram.  

 4) Porquê

Essa vizinha, quando a neve  desamparava a loja, e dizia adeus até qualquer dia, que em alguns anos era apenas por um par de meses, em alguns, chegou a ir em Abril e retornar em finais de Setembro,  por essa altura ela, a vizinha, entretinha-se a tratar do jardim e vestida com uma mini, vestido ou saia, punha-se de cu pró ar a mostrar a cueca de gola curta sim, mas nada que se parecesse com o fio dental muito agora em moda, mas tão curta que eu não conseguia deduzir se era a barba bem feita, ou se eles não se viam por serem louros. (Tendo em conta e comparando com os da cabeça por que os outros nunca lhes vi a cor. Haja calma e não se confundam as coisas!)  

5) Porquê

Tive um colega Suíço que era um “passado da tola de primeira qualidade”. Um dia na cidade de Chur andávamos a limpar a fachada do banco Kantonnal, para depois em jeito de conservação a impermeabilizarmos com um produto em liquido que depois de secar lhe dava uma cobertura lacada, numa finíssima camada plastificada.  Nas traseiras havia uma clarabóia envidraçada que dava exactamente para a grande sala onde existiam os balcões de atendimento ao público. A fachada continuava e era preciso limpar umas partes que eram fixas e alguém tinha que entrar pela única janela que abria por dentro e passar para o exterior colocando os pés numa borda de poucos centímetros mais ou menos a largura do pé, (estou a escrever isto com base no que ainda recordo, cerca de vinte anos depois), e segurar com os dedos àquele canal de metal onde deslizam os estores, enquanto que a outra mão ia buscar a espoja e o resto ao balde também ele pendurado em moldes e maneiras de exercício de circo.Os estores eram movidos por motor. Um belo dia alguém sem olhar bem para o exterior, carrega no botão e eis-me a mim artista de circo à força a gritar: Ai, ai, ai…, mas nem ai nem ui, ninguém me acudia, ninguém me ouvia.O tal meu colega chanfrado tinha por missão ficar a segurar uma corda enrolada às saliências da fachada que em caso de eu me desequilibrar era suposto ele reagir e me segurar. Não podia estar sempre fixa porque eu tinha que me deslocar. Essa foi a solução que o outro colega ainda mais maluco que este e a quem eu já me referi num outro livro que tenho na gaveta e por isso ainda não tem título definitivo.Uma vez, já não sei porquê, chamei-o e não obtive resposta.Dali saí sei lá como e fui dar com o marmanjo repimpado no bar.Fiquei em brasa, mas segurei-me. Havia o medo de perder o emprego que tanto tinha sido difícil me chegar. Se fosse agora agarrava numa cadeira e enfiava-lha nos cornos. E porquê a cadeira? É que ele era grande e “esticado” eu nem de escadote lhe chegaria às fuças. Se eu tivesse caído por ali a baixo com todo o aparatoso estardalhaço daqueles vidros a partir e a caírem juntamente com um gajo de fato-macaco, aquela gente, antes de ouvirem o grito habitual, __ mãos ao ar que isto é um assalto__ certamente morreriam de susto. Eu pagaria para ver. De longe e como espectador é claro, e não como interveniente e artista principal. Que ali nem havia dinheiros extras, (ganhos de artista) a acrescentar.       

 6) Porquê

Mais tarde, por sina calhou-me uma vizinha com estilo de hippie.Estendia a roupa a secar ao sol na sebe do jardim.Fez isso várias vezes, mas já há muito que não faz isso. Deve de ter sido chamada à atenção. É que como certamente tem à sua disposição secadora ou estendal noutro local. Eu apenas estranhei por nunca ter visto tal coisa por estas bandas e por calcular que aos olhos do jeito habitual de mostrar “fachada linda”, isso aos olhos desta gente passava a constituir uma enorme aberração. Era engraçado. Aquela sebe colorida transportou-me até aos tempos idos, e alguns lugares da minha Lisboa. 

7) Porquê

São todos muito nervosos. Este tempo instável, com estes ventos esquisitos, geram Suíços que nascem sem certificado de garantia. E essa coisa de qualidade Made – In CH, com a maldita globalização, a pressionar, já há muito que se foi. Agora a palavra de ordem é produzir, produzir, produzir em grande quantidade para poder vender barato, cada vez mais ao estilo chinês. Saem tão confusos que deveriam vir acompanhados por um manual de instruções. Quando cá cheguei a palavra schenel foi das que mais ouvi.Era o patrão: Vamos lá,__ schnell kaffee trinken. Ouvia-se por todo o lado e a qualquer hora. Schnell, schnell, schnell, e pensei:Esta coisa faz lembrar o chinelo e com tanta chinelada, nunca mais me vou esquecer. Mas estava eu a dizer que são, (e eles assumem-se), todos muito nervosos. Eu então considero que são apenas pacientes da maior clínica psiquiátrica do mundo. Um dia estava eu num Bar sentado com uns amigos que também assistiram à seguinte cena:Estava tudo muito bem numa boa onda de boa música e eis que de repente se ouve um estardalhaço. Olho e já não vi nada. Somente um que se levanta e vai ao balcão pagar e sai acompanhado de um outro. Que se passou? __ Perguntei. “ Foi um que se passou e espetou um sopapo na fronha do outro e agora vão lá para fora acabar.” __ Responderam-me. Pela janela vislumbro uns meios corpos, partes baixas com os pés aos saltaricos que pareciam um sapateado ao estilo daquele Americano, de cinema dançante. Que é aquilo! Algum estilo de artes marciais raras e especiais ou quê? Ninguém intervém. Todo o mundo fica como que alheio, impávido e sereno.    O rebuliço acabou. Passado um instante entram e ouço alguém perguntar a um deles: “Então, já acabaram?” “Ah, ele não quis continuar!” E eu a pensar: sim senhor! Assim é fácil, não quer mais, rende-se e pronto.  

8) Porquê                                              

Hoje, lá na fábrica, no meu trabalho, precisei de um espeto de metal que se partiu e que faz uns buracos na chapa para ao passar por uma foto célula accionar uma sirene que por som e luz sinaliza a passagem da soldadura para o colega lá da frente tenha cuidado, não vá ela parir. Sim repito, parir um montão de pedaços de chapa e de tubos retorcidos que irá produzir ao partir. Vou até ao armazém e ouço que precisava de um papel requisição passado pelo novo chefe. “Arre que porra, cada vez pior, qualquer dia até para um porca de parafuso… “, pensei.Mas, mesmo, interiormente resmungando, lá fui. __Chefe escreva aí uns quatro.__Dois chegam.__Veja que a chapa é dura e eles partem-se facilmente.__ Dois chegam, repete. E podem desaparecer.__ Isso é alguma coisa que se coma. Para quereria eu isso? Veja que pela noite ou ao sábado quando o senhor não está cá, que faço?   __Fica desde já a saber que quando isso acontecer, ou paro a máquina, ou deixo seguir a chapa sem os buracos e depois vejamos as consequências, ou vou roubar a outra máquina.__Fazes os buracos com um berbequim. __ Diz ele a rir-se.__Sim, poderia ser que sim, se  tivesse algum  à mão, mas estão todos guardados e fechados na oficina dos mecânicos.  São refilices como estas, quase diárias que me revoltam as tripas.Coisa que não incomoda a maior parte da gente que por lá anda. Ou não pensam, ou na condição de lambe cus, não contrapõem nada. O chefe diz isto é pedra, logo passa a pedra ainda que todos vejam que é pau. Os porquês, os quês, que porventura possam pensar, obedientes e servis, engolem-nos todos. E assim neste ambiente onde existem chefes que se deixam comprar pela oferta  de um líquido mijado para copo de plástico   por umas  máquinas que anunciam venderem café. (Os tais lambe cus controlam a sua chegada e plantam-se junto à máquina, esperando, e demarcando o território , não vá    outro lamber melhor …) outros emprenham pelos ouvidos, e ouvem coisas de alguns, muitos hábeis intriguistas e não vão junto da outra parte ouvir a sua versão dos factos para confirmar onde está a razão. Com tais moradores, aquele espaço torna-se numa selva onde andam todos muito sorridentes, quando à frente, e todos procurando a melhor forma de chegar mais acima até ao poleiro de capo, que é a ambição máxima. Para isso conseguir não olham a meios nem a fins. espezinham tudo e todos à sua passagem.Quando chegam, a primeira coisa que fazem é irem ver nas folhas onde o que saiu escreveu a reportagem da produção , os tempos gastos etc. e todos se preocupam em bater o “recorde”do outro. E assim de metro em metro a mais , em cada dia que passa a máquina tem que caminhar mais veloz . Para isso há que rodar os botões , e depois quem se lixa são os que estão a meter material , ou seja a abastecer a maquina , ou os que estão no fim da linha a empacotar . Por vezes a trabalharem como robôs com a       maldita maquina a cagar um tubo de três em três segundos e os desgraçados trabalham ao ritmo de pegar e largar no molho , pegar e largar , pegar e largar , horas a fio nisto, automatizados  como se  máquinas  fossem .  Os chefes  rodam os botões,(e é tão fácil rodar botões! Até crianças rodam botões ! )  E depois é vê-los em animada cavaqueira, ou a passarem lustro ao corredor arrastando os sapatos num queimar de tempo.         Para as grandes chefias, ao jeito dos generais, comandam as guerras sentados às suas secretárias . Os aumentos dos ordenadossão  aplicados tendo por base nas informações que os tais dos botões , lhes fazem chegar . Muitas das vezes “mafiosados” sem corresponderem à verdade , à relação produção e comportamento do funcionário em questão . Por exemplo : O meu actual posto de trabalho   está integrado numa maquina com cerca de cento e vinte metros de comprimento, interligada por quatro secções e onde me encontro há já catorze anos.Uma das funções é soldar , por vezes com maquina __semi-automática e noutras com maçarico , ou seja ,  manualmente.Quando ali comecei o meu capo , um Italiano gordo como um porco chino,  mas certamente com um cérebro atrofiado ao nível de uma criança. E justifico isto com o seguinte :Quando tudo lhe corria bem esfregava as mãos de contente e saltava cantarolando como uma criança faz quando é presenteada com o brinquedo de que mais gosta. Quando algo lhe corria mal e sem que nenhum dos outros fossem culpados , berrava como um chibo , com gestos e palavras que denunciavam   uma grande falta de educação . Quando acontecia alguma soldadura partir , em vez de me ensinar, ria à gargalhada . E isto tudo porque ele queria lá ter colocado  um seu conterrâneo .  Coitado de mim que da situação, culpa não nunca tinha, pois que nunca tinha dito a ninguém que era soldador.Perante isto tenho o direito a questionar quanto ao teor de verdade e imparcialidade  nas informações por ele prestadas aos grandes chefes . Quanto mal de mim , ele não terá dito ?“ Soube , porque me disseram ,ainda que não possa considerar de fonte fidedigna que ele e um outro igual a ele, com as minhas soldaduras  “ defeituosas “justificaram incompetências e falhas próprias “          Mas paras os generais  ,  esses são os melhores. E para concluir permite-me caro leitor que repita essas “qualidades” que aludi . __ Obediência cega, não contestar absolutamente nada, nem questionar, nem sugestionar__.Nesta sociedade onde os contratos são individuais e não colectivos, onde os sindicatos de pouco valem, onde existem comissões de trabalhadores fantasmas ou fantoches que não reúnem com os trabalhadores e não lhes dão cavaco nem do antes nem do depois, onde o patrão dá-se ao luxo de alterar as regras e mandá-las pelo correio, acompanhadas do sítio certo para assinar em como recebeu, e em como concorda. Ora, com estas condições que não dá alternativa, não hão-de os desgraçados, __eu e os outros ,( ainda que poucos ) , como eu concordar?

9) Porquê

Era Carnaval e era Domingo. Saí de casa e estando eu muito entretido a jogar bilhar, vêm-me dizer:Ó pá! Já viste que tens um buraco no capô do carro?! Aquilo cá para mim é buraco de projéctil de bala de pistola.Que raio vamos ver, digo eu atrapalhado e deveras preocupado.“É sim senhor, __confirmam todos os que foram assistir à cena.Vou até onde e de onde tinha tirado o carro lugar esse onde esteve estacionado toda a noite e lá estava a causa do efeito, o projéctil e pasme-se! Até o invólucro ali estava por perto.Tiro?! Logo no meu carro! Logo eu que não faço mal a uma mosca! Chamei a polícia. Vêm dois. Diz um deles:“ Isto como é Carnaval foi alguém que passou contente, ou embriagado e deu-lhe para isto, __tiro para o ar e na queda fez isto.“ O quê? Veja lá que isto é chapa francesa que tem fama de fraca mas não é cartão. E aquilo que ali está. (apontei para o invólucro) porque não sabia dizer tal coisa ”__digo-lhe eu com cara de incrédulo esfornicado. A sua estupidez não permitiu que engendrasse uma resposta qualquer.Mais tarde contei isto a um meu amigo Sargento da Marinha que era especialista e instrutor de armamento, diz-me ele:“Esse gajo ou estava bêbado ou é maluco.”Bem, bêbado não sei, mas maluco é com certeza. E arrematei juntando à conversa mais uma coisas similares que o fizeram rir com muito gosto.       

Ratadas (10) General ainda vá lá

Filed under: Ratadas — carva55 @ 11:33 am

                                              10                           General ainda vá lá 

Hoje é Janeiro de dois mil e sete.Um homem, que é Sargento do exército está preso. É mais um entre tantos reclusos. Mas este tornou-se muito especial. O seu feito apaixonou meio Portugal. Tornou-se num herói ao preferir ir preso do que denunciar o paradeiro da sua mulher e de uma menina que adoptaram às margens da lei, com um papel que pelos tribunais foi considerado nulo.  Não acatou o decidido em tribunal e foi de cana.  Para que o homem fosse libertado, alguém pensou e iniciou um abaixo-assinado que juntou umas dez mil assinaturas. Entre elas constam as de algumas figuras públicas, tais como as das duas ex. Primeiras Damas. “Soltem o homem!” Ouviu-se à voz esganiçada de uma garganta que com aquele olhar esgazeado, formaram um púlpito de onde a sua dona botou palavra gritando ao mundo a sua justiça.Grande lata o homem teve! Então isso era coisa que se fizesse?! Ao menos poderia ter esperado pelo Carnaval que é tempo em que ninguém leva nada a mal, dizem.Ou então esperar para quando fosse um emproado, garboso e enfeitado general. General, ainda vá lá! Agora, um roliço Sargento! Francamente! É lá coisa que se veja?! 

                                           

Fevereiro 1, 2007

Agora

Filed under: POESIA — carva55 @ 3:20 pm
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barcos-6.jpgbarcos-1.jpgmoinhos-de-vento_2.jpgchega-de-bois-3.jpgcavalo-2.jpg

Agora , muito mais que até agora , me sinto só , isolado

E lixado . 

Se eu tivesse a força dum boi marrava

E este muro derrubava . 

Se eu tivesse a agilidade dum cavalo escoiceava

E galopava . 

Se eu tivesse a força do vento

Que empurra aquele barco .  

Se eu tivesse a força da água que move aquele moinho 

 Talvez encontrasse o meu caminho . 

5 / 00 

Por entre o riso sarcástico da impiedosa morte

 

Por entre o riso sarcástico

Da impiedosa

Morte

Oiço um grito

Lancinante

De uma criança

Inocente

Definhando

Agonizante.

 

Sobre o gume cúmplice do silêncio

Da ganância  

Da arrogância

Da gula

Oiço estrondosas

Gargalhadas envoltas

Num manto impregnado

Em grossas camadas

De pouca-vergonha.

 

Vivas à amizade

Filed under: POESIA — carva55 @ 2:21 pm

O que sou eu sem um amigo ? 

Um animal numa selva perdido 

Um leão caduco sem rugido 

Uma pedra pronta a cair 

Num muro para ruir .

O Luar e a imagem baça

Filed under: POESIA — carva55 @ 2:14 pm

 

Olho para aquela

Imagem baça

Reflectida na vidraça .

 Que será aquela mancha    

Desfocada sem graça   

Que me sorri através da vidraça   ?! … 

Será a sombra

Desdenhosa

Do eu que sou agora ? 

Ou o espectro

Caduco 

A rir , do eu que fui outrora .  

Apróximo – me  e vislumbro

Na penumbra da noite , lá em baixo

Na obscuridade da praça                

Algo que oculto

 Na sombra do luar passa .   11/93

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