Entra ou Sai

Janeiro 29, 2007

Sábado manhoso

Filed under: Conto — carva55 @ 6:22 pm

Hoje é sábado. Fui engatado para trabalhar e é bem claro fui entalado.Prevejo pouco que fazer. Confirma-se, está tudo feito. Sento-me e espero que a máquina me peça mais chapa para engolir.Agarro no jornal __O Crime__ que o meu sócio da assinatura da revista Visão me deixou.Passo os olhos por aquela grande quantidade de crimes.É um tio tresloucado que matou a sobrinha à machadada.É um que estrangulou a jovem amante ainda adolescente.Leio pouco de cada, só as gordas. Para quê, ler mais? Para entender as razões de tais crimes? Insanidades? Razões? Por vezes há razões que a própria razão desconhece! Mas nada justifica ou explica tais crimes.A Visão desta semana vem muito oca. Ela é páginas e mais páginas do Papa.Não me interessa. Bastou aquela grande seca que a Tv. nos espetou. Que aliás, à qual, também resisti o mais possível, mas sei que foi grande, era Papa a toda a hora durante vários dias. Que grande Papada!                                                                                    Traz também comentários sobre o vinte e cinco de Abril de alguns célebres intervenientes do antes e do depois. Para quê saber isto? É claro que tem o seu valor histórico mas mais interessante seria saber isto no dado momento em que os factos aconteceram.   

No corredor passa agora um colega Suíço. Esquelético, encurvado. É muito engraçado. Todos os anos paga os impostos com prisão efectiva. De dia trabalha e à noite vai dormir à prisão.Olha que giro! Pensei.Em tempos, quando disto tive conhecimento, cheguei a ponderar fazer o mesmo. Um dia, em casa, falei disto à minha mulher.“Cruzes! Credo! Canhoto! Que vergonha”. __Diz ela toda encrespada.Antes que ela morresse de vergonha e de susto desisti.E lá continuei, parvo, domesticado, atempadamente a pagar os impostos. É sempre igual. Durante uns tempos ando zangado com tudo e todos devido à avultada soma que me presenteiam, mas como de nada serve, acabo por me acalmar e esquecer, até à próxima fornada.Mas que seria um dinheirito bem poupadito seria. Sempre seriam uns dez mil Euros anuais. 

Chega-me uma soneira do caraças! Vou até ao parque de estacionamento apanhar ar fresco.Está sol. Para hoje dão vinte e seis graus. Aqui nesta terra onde ainda há poucos dias fez frio e nevou, acontecem estas mudanças bruscas que nos põem a todos marados da tola.É por estas e por outras que os Suíços nascem sem certificado de garantia de qualidade! E nós os estrangeiros, após uns anitos também ficamos apanhados, chanfrados e estragados.Um dia, logo após a minha chegada, um colega jugoslavo disse-me:“Carvalho, estes são malucos e instáveis como o tempo. E tu, daqui a uns anos estás igual ou pior que eles. Pira-te daqui logo que te seja possível, o mais rápido que puderes”. Mais tarde, vi o quanto ele estava certo, e não foi preciso esperar muito. Não só pelo tempo, mas por esta sociedade que caminha a um ritmo acelerado, stressante ao máximo, com os chefes de grupo e os de turno escolhidos a dedo, quanto mais parvos e atrasados, melhor.São mais facilmente domáveis, pois que mais não precisam de saber, que lamber as botas, fazer o serviço de uma boa reportagem diária, e apenas rodar os botões, (até uma criança faz isso!), para que em nome da produção, do combate sem limites à concorrência, acelerem as máquinas e ponham as pessoas a correr atrás delas feitos robôs. Por um punhado de tostões, esfarrapam-se e vendem-se ao diabo se necessário for. (Até a alma! Se é que existe, __ essa coisa em que alguns acreditam).   E assim fazem toneladas de material que vai logo ali para o lixo e outras tantas que noutros tempos seriam também rejeitadas. Mas agora, o que é preciso é produzir, produzir, produzir! A cada dia que passa, mais se vê que o tempo do célebre certificado de qualidade Suíço já lá vai.                                                                                                 Lá diz o velho ditado: __ Depressa e bem não há quem __. E o povo com a sua velha sabedoria é que sabe.Mas que importa? O que está em moda, é isso: __Produzir, produzir__, explorar os povos, torturá-los sem contemplações, fazer render o mais possível o peixe.Nestes quinze anos e tal já conheci uma dúzia de directores e afins. É um rodopio. Uns que entram porque outros saíram.Saíram, mas deixaram uma montanha de excrementos.Foi um que chegou a pôr as pessoas a comer a bucha com uma mão enquanto trabalhava com a outra.Outro reduziu o número de elementos em cada sector. Foi um que encomendou serviço de especialistas que de relógio em punho controlavam as pessoas e os tempos gastos na execução das várias tarefas. Este ano já instalaram câmaras de vídeo, fizeram filmes para ver onde poderiam picar mais um pouco as pessoas, (que já andam picadas demais), fazê-las correr como loucas atrás das máquinas e assim ganharem algum tempo. Sem contarem com tempo para as necessidades básicas que um ser humano precisa e que para as quais não pode encarregar ninguém. E ainda bem. Porque assim eles têm que fazer as suas. Pelo menos isso. Não podem exigir que alguém as faça por eles. Se forem mal cheirosas terão que as suportar. Nisso há igualdade. Nisso e na morte. Acabam por também ir. Mais tarde ou mais cedo chega a vez a todos.   Tudo isto em nome da luta anti concorrência, da produtividade, do rendimento desmesurado, que encha os bolsos dos accionistas e lhes alimente a gula descarada e selvagem.   Com uma ganância desmesurada dividem os lucros entre eles, os do capital. Aos outros que são quem geram riqueza dão as côdeas e os ossos.Ainda chegará o dia em que, como lhes pagam tão mal, as pessoas não terão dinheiro para lhes comprar nada. Nem sequer a merda, que as suas fábricas cagarão. Hão-de eles mesmos comer essa merda, cada vez mais barata, menos duradoira mas mais merdosa!     Chegam em poderosos grupos as tais chamadas de__ Holdings.Escudados nos factores__ investimento e criação de emprego__, propõem-se a criar postos de trabalho. Jogam com o dinheiro da banca e quando dá para o torto deixam-na a berrar.Mas, como são todos a mesma cambada, lá temperam a caldeirada, comem-na e cagam-na.Recebem benesses imediatas dos governos, bonificações diversas, reduções tributárias, etc. e quando tudo está chupado levantam a tenda. E é vê-los irem para outro lado à boa maneira do que foi moda na antiga América, irem à procura das terras douradas. Onde os governos ainda se deixem enganar e os gentios se deixem explorar, torturar, e chupar.Este estado dolente conduz-me a uma esquisita desmotivação e recorda-me o que em tempos escrevi: 

Chove! Chove !Há tanto tempo que chove! 

Que silêncio! Que monotonia!Nem uma folha mexe, nem um carro passaNem um pássaro esvoaça. 

                                    Sempre este tempoCinzento húmido e chatoQue me deixa dolente, amorfo. 

                           Que silêncio! Que monotonia!Eis-me aqui, apenas e só mais um Zé neste país da chuvaMiúda e chata. 

Chove! Chove! Há tanto tempo que chove! 

Penso, que não é com torturas, perseguições, exigências desmesuradas, que se aumenta a produção.Penso que melhor seria se esses gulosos refreassem a gula e procedessem a uma partilha mais justa das riquezas mundiais.Porque o trabalhador produz mais se, se sentir acarinhado e visto como pessoa que é e não como peça da engrenagem que muitos pensão que são.À pausa, um Italiano, um Albanês e um Jugoslavo jogam às cartas.Não se entendem.“Na minha terra é assim”.“Na minha é assado”, __diz um dos outros.Presenciar isto, faz-me gostar cada vez mais do meu querido Xadrez. Esse pelo menos, como tem regras escritas, é igual em todo o mundo.  

Alguns destes e outros colegas, Já me perguntaram. “Isso que andas escrevendo que titulo lhe vais dar?”“ Que título lhe darei ?”__ Ainda não sei. Talvez:  Conversas de papel.  Remexendo no sótão dos esquecidos.   Tudo ao molho.  Entre Uis e Ais e Outras Coisas Mais.Ultimamente tenho pensado muito neste último. Mas não sei.   Diariamente há sempre algo que surge, algo que não está bem, algo que é obrigatoriamente retocado e logicamente surgem também várias possibilidades de título. É uma luta diária que só a entrega da safra à máquina, lhe põe fim.Mas isso do título não me preocupa muito, logo se verá.E a conversa ficou por aqui. Pois que havia que completar a jornada e lá fomos à vida. 

                                                               

    

1 Comentário »

  1. Li com muito gosto e ainda dei algumas risadas pelo teu humor acutilante no “Ratadas” e este Sábado Manhoso po vezes acontece.
    Dou-te os meus parabéns,primeiro por já cohecer parte da tua escrita e agora por este teu espaço que virei ler com imenso prazer quer o actualizável, quer o anterior,mas conforme te escrevi ando na onda gigante de SOS e vir aqui só mesmo para desanuviar.
    Um grande abraço sincero para ti e toda a familia e manda daí um naco de neve:):):):)

    Comentar por Fatyly — Janeiro 31, 2007 @ 11:10 am | Responder


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