Entra ou Sai

Janeiro 29, 2007

NA FÁBRICA

Filed under: Conto — carva55 @ 6:14 pm

Na fábrica tudo ginga sobre rodas. Ou melhor: até agora tudo gingou e a hora da pausa chegou. E isso, agora para mim é o mais importante.São horas de carregar baterias. Vou até ao parque de estacionamento, para merendar algo e sobretudo apanhar um pouco de ar fresco e puro.O pão está salgado. Esmigalho um pouco e deito as migalhas para o chão tendo o cuidado de as atirar para sítio onde os carros ao passar não as estraguem e os pardais meus amigos por quem espero, (porque é habitual virem), as possam comer mais tarde se acharem por bem. Não me preocupo com o facto de estarem salgadas pois que para beber, têm muita água no lago.Para beber eu tenho uma garrafa de, panaché__.É uma mistura de cerveja com limão, __sem álcool como mandam as regras.Um dia o Betriebe Leiter, __ chefe, ou responsável pela produção __, quando ao fim da jornada se aproximava do carro para se ir embora até ao Cantão de Zurique onde tinha residência, (a acreditar pela matricula do carro), olhou e vi bem que olhou com olhos de ver bem e deve ter pensado que eu estava a beber cerveja com álcool porque a cor da garrafa, habitual nessas garrafas é escura sem diferença entre a que tem e a que não tem.       E eu a topar e a pensar: “Ele vai dizer: __Sr. Carvalho, não sabe que o álcool é proibido?”__. “ Veja bem que está enganado, olhe e veja bem que é sem álcool. Vem cá vem que levas troco. Vem cá vem que vens de carrinho e vais de patins! “ __ Dir-lhe-ei.Mas não, não veio. E isso é muito mau porque esta gente na maior parte das vezes, não sei bem porquê, talvez por cobardia, não avançam e depois encarregam os subalternos de darem a cachaporra nos desgraçados. Já na tropa era e com certeza que é e continuará a ser assim: por ordem hierárquica, __do Oficial para o Sargento, do Sargento para o Cabo, do Cabo para o Soldado e do soldado para o cão, (quando e onde os há). E fica por aí, porque o desgraçado do cão não tem em quem descarregar.Mas não veio e deixou-me sem possibilidade de lhe espetar a chapada sem mão que tinha preparada e seria por certo muito saborosa.Lembro-me do meu amigo Margarido, o Italiano que se reformou há já muito tempo. Havia apenas uns dias que eu tinha chegado à fábrica e um belo dia encontro no chão do vestiário um crucifixo, por sinal bem grande e pesado.Fui até ao escritório e entreguei-o.Passados uns minutos, ele mesmo veio agradecer-me o feito.Ficou muito contente e disse-me que era uma velha prenda da mulher e que para alem de ele, também ela iria ficar muito triste com aquela perda. Assim, ficou muito agradecido e de vez em quando repetia esse episódio aos recém chegados.“O Carvalho é uma pessoa em quem se pode confiar”.E lá vinha o resto do episódio, igual e repetido Diga-se de passagem que isso me deixava num estado muito elevado de satisfação, talvez até de vaidade. Mas que importa? Quem não é, nem que seja um pouco?     Mas falo dele aqui e agora porque me lembrei que ele muitas vezes trouxe para a merenda duas servelas. Uma para ele e outra para um raposo.Digo raposo porque tenho que o classificar, ainda que nunca lhe tenha visto o escrito, o chamado bilhete de identidade.Mas isso não importa porque também se diz anjinhos sem saber ao certo se são uns ou umas. Se são anjos ou anjinhas. Sim porque não? Essa coisa só haverá no masculino? E isso ao ser pensado assim, não será mais um caso de puro machismo?Eu sou homem e defendo os da minha “Bandeira”mas não posso usar tais tratamentos. Até porque tenho três filhas e já tive uma gata e agora tenho outra e porque nada tenho contra nem nada a opor contra o sexo oposto.  Que raio! Lá estou eu a desviar-me deste relato.Dizia eu que ele trazia as ditas servelas, colocava uma no chão do parque de estacionamento, lá no meio, voltava e esperava.O raposo aproximava-se, pegava-lhe e afastava-se.Afastava-se, mas sem nunca se esquecer de olhar para trás.Talvez a dizer, (sim porque com os olhos se diz e se pode dizer muita coisa), __ adeus amigo, muito obrigado e até amanhã.Aquela coisa conhecida por servela, é um enchido que tem dentro uma carne que foi triturada e ficou toda da mesma cor e sem nervos nem ossos. Só aqui é que eu conheci aquela coisa. Custou-me muito a habituar-me, porque estava habituado aos nossos enchidos, os famosos fumeiros, bem temperados. Finalmente chegam os meus amigos pardais. E eu a pensar que desta vez não vinham.Mas vieram e ainda bem porque estava a ficar preocupado.Pé, ante pé, se vão aproximando. Alguns muito tímidos ou mais receosos ficavam para trás. Um mais afoito vêm até mais perto, apanham umas migalhas e vão colocá-las debaixo de carros, para que os outros se sirvam, democraticamente, sem atritos. Voltam e dizem qualquer coisa, (para mim indecifrável), mas que entre eles funciona.Pudera! Nunca a mãe natureza me ensinou a forma de descodificar ou interpretar tal linguagem.Mas há momentos em que nos entendemos. E isto acontece com todos os mortais. Sim porque os mortos, esses é que já não comunicam de forma nenhuma. Penso eu de quê.Momentos esses, em que um gesto feito e entendido no momento certo, vale por mil palavras e por mil imagens. Um mais afoito diz qualquer coisa que eu interpreto por:       “Vinde, não há perigo. Este conheço-o bem. Este é de boa cepa. Esta é boa rês “. Esses tais sinais ditos ou feitos levava os mais tímidos a arrimarem-se.Mas, antes, também eles diziam de sua justiça.E eu deduzo:  “Estão a dizer que nunca é de fiar. Que ouviram dizer que lá para os lados de entremeios de Rorschach e Goldach há umas hortas onde uns primos há uns dias foram surpreendidos e apanhados em armadilhas às quais não conseguiram escapar.E foram temperar umas paparocas de uns humanos gulosos e sem escrúpulos”. Se foi isso que estavam a dizer, sei bem que tinham razão.Já há muito tempo que sei que vi e ouvi tais coisas.O relógio tocou. Esse maldito relógio que só é bom e lindo quando toca a hora de saída. Aí sim! Aí é lindo para mim e para quase todos os outros! Uns assobiam, outros até cantam!Mas há alguns que por certo isso não lhes agrada. Porque só vêem e vivem para a fábrica. Chegam cedo. Com trinta ou quarenta minutos de antecedência e me deixam a matutar:    Mas será que esta gente não tem família? Será que esta gente não sabe fazer mais nada senão trabalhar? Será que não têm mais nada que fazer? Será que casaram com o trabalho? Será que eles são os sãos e eu o maluco? Será que são melhores trabalhadores? Mas como, se eu faço o meu trabalho e ninguém o faz por mim?  O relógio tocou, disse eu. E lá vou vergar a mola mais um pouco para que o patrão não se queixe.  Mas antes, seguindo o exemplo do raposo digo aos meus amigos pardais:Adeus amigos, até amanhã, passai bem e tende cuidado. 

 

 

 

      

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