Entra ou Sai

Janeiro 28, 2007

Zé-zé Faísca e as suas meninas

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São três da tarde. Lisboa como sempre, está linda. Este bom tempo ensolarado dá-lhe uma luz favorável, que banha as suas colinas e a torna inigualável. Também, Lisboa há só uma, esta nossa e mais nenhuma.   Esta manhã entrei nela, vindo da outra banda.    Que bela é Lisboa vista do Tejo! Navegando num cacilheiro sentindo o fresco da brisa e de alguns agradáveis salpicos de água.    Para ajudar a digerir o almoço que acabei de enfiar para o bucho, calmamente, vou caminhando.   Comecei esta caminhada junto ao Tejo, na Praça do Comércio mais conhecida por Terreiro do Paço, talvez porque em mil quinhentos e onze D. Manuel I transferiu a sua residência do Castelo de S. Jorge, para ali, talvez por preferir estar assim mais perto do Rio Tejo.  E quem pode manda, assim quis e assim foi feito.  Por sua ordem ali foi instalado o Palácio Real e ali ficou durante duzentos anos.  Ali, onde em bons e gloriosos tempos plantaram aquelas gigantescas e muito belas construções, que ostentam belas e imponentes fachadas e arcadas. Ali, após a destruição do terramoto de um de Novembro de mil sete centos e cinquenta e cinco, na reconstrução, o Marquês de Pombal teve de se aplicar e usar muito cuidado naquele espaço.   Ali está a estátua do Rei Dom José I e mais o seu cavalo.   Que estará ali a fazer há tanto tempo virado para o Tejo?   Será que algumas mentes maliciosas o levaram a acreditar numa qualquer iminente revolução vinda em forma de invasão pelo mar? Terá ele tomado nas suas mãos, em vez de noutro delegar, como valente guardião, como normal cidadão feito sentinela alerta, a nobre missão de vigiar na defesa do seu Reino?     A ser verdade aposto que foi obra de grupo liderado pelo Marquês de Pombal. Pois não foi ele o influente omnipotente Ministro do Reino? Não foi ele o grande Visionário nas obras da reconstrução? Não foi ele o grande torcionário aniquilador, justiceiro, exterminador implacável, das revoltas, ou conspirações, reais ou imaginárias contra o Reino, que alguns boatos espalhavam? Que o digam os Távoras.Do lado norte, a Rua Augusta, ostenta o Monumental Arco Triunfal, que representa a entrada principal para a Baixa Lisboeta. Assim chamado graças a dois acontecimentos históricos:   Foi ali, que a um de Fevereiro de mil novecentos e oito, aconteceu o regicídio. O Rei D. Carlos e o seu filho Luís Filipe foram assassinados quando por ali passavam.    Este foi um acontecimento que abalou e abriu uma grande brecha na Monarquia e muito deve ter contribuído para o avanço seguinte, que culminou na revolução que implantou a República em cinco de Outubro de mil novecentos e dez.    Em mil novecentos e setenta e quatro a praça assistiu e serviu de local para a tomada de decisões importantes para que a revolta do Movimento das Forças Armadas, tivesse êxito, no derrube da Ditadura. Subo a Rua da Prata “furandopor entre aquele formigueiro humano. São pessoas apressadas que passam, com ânsia de apanharem os barcos que as levará até à outra banda onde têm as suas casas, onde cada qual espera, nos sofás das salas, repimpar o traseiro para curtir as novelas!São carros que passam acelerados, com os seus cavalos desenfreados, que quase roçam as “abóboras mais avantajadas, que essas sim, pachorrentas caminham e transbordam dos passeios.    Neste turbilhão de gente parece-me ver a passar aquele a quem rotularam de “Pimba. Se não era ele, era o diabo, algum sócia, ou irmão gémeo, a fazer-se passar por ele.    Coitado do tal que assim rotularam só porque apareceu a cantar uma canção que dizia: “E se à noitinha elas querem brincadeira, nós Pimba”.     Não sou advogado de ninguém. Mas, Pimba isto? Não discuto. Mas e então o que antes se ouviu tal como: 1) O mar enrola na areia / ninguém sabe o que ele diz / Bate na areia e desmaia / Porque se sente feliz / O mar também é casado / É casado e tem mulher / É casado com a areia / Bate nela quando quer.  “Que linda mensagem esta!”       2) Está cru / Está cru / Deixai-o cozer, E a panela ao lume e o arroz está cru.     Ó santa ignorância! Que mais irão inventar essas “melgas” chamadas de “midia“ que tanto alevantam e levam ao colo qualquer merda que apareça, principalmente se exibe umas ricas tetas ou pernocas, como enterram até mais não, um qualquer coitado que não tenha tão bons atributos para mostar.    A sua Arte, essa não tem brilho, pensam eles, de nada serve.   Ali ao lado na Rua Augusta, por onde há pouco desci, o ambiente é diferente. Ali sim, dá gosto passear.   Há pedintes por todo o lado, uns com mazelas, maleitas, e enfermidades mais ou menos visíveis, outros nem por isso.   Há mulheres com crianças atreladas pelas mãos, ao colo, e algumas, até na barriga.   Ó mulheres, __ide todas para a porta do patriarcado, plantai-vos de raiz e cal, e, no primeiro que encontrardes seja ele bispo, cónego ou cardeal, é igual, pregai-lhes os vossos filhos às bordas das fraldas das suas vistosas vestimentas e com eles formai-lhes um grande “Rabo”, perdão, por ser mais fino, devo dizer: Cauda.   É o que eles merecem por se oporem e desaconselharem métodos de controlo da natalidade. Por exemplo o aborto e o preservativo. Com essa conduta levam a que algumas pessoas se desleixem e pensem: “ seja o que deus quiser “.     E cada vez mais filharada! E cada vez mais miséria!   Filharada desejada e indesejada, filharada e mais filharada que depois se verá o que se fará à cambada!   Há polícias plantados às esquinas, às portas dos bancos.A guardar o quê? Ora, ora! Para quê se quem quiser assaltar, quem estiver para aí virado, assalta na mesma e se lhe der na telha, até leva o polícia pendurado pelas orelhas.   “Ó políticos de meia tigela, que ides vós fazer ao estrangeiro que só copiais o que vos interessa?! Pelo menos aqui à Suíça que vindes fazer? Despejar o conteúdo da mala diplomática em lugar seguro?   Por acaso nunca reparastes que aqui não há polícias nas esquinas, nem às portas dos bancos. Se sim, nunca vos questionastes nem dignastes colher informação esclarecedora?    Por acaso nunca vistes que nos bancos daqui o dinheiro não está nas caixas à mão de semear, mas é pedido às instalações que funcionam no espaço inferior e isso anula qualquer tentativa de assalto?    É claro que já aconteceram alguns assaltos aos cofres-fortes.Mas esses são pensados e executados por grandes cabeças.Isso é coisa de outra dimensão e não um simples acto de um amadoreco qualquer.    Afinal o que vindes cá fazer? __Repito.   Sei, e o que não sei calculo, o quanto é difícil criar ou inovar algo, mas muito se pode com facilidade copiar e imitar o que for de bom para desenvolver, progredir, num caminho desempecilhado, desburocratizado,” etc. __Penso eu de quê, como diria o outro.     Há pessoas que com um simples giz, criam obras lindíssimas! Pelo menos aos olhos deste leigo, nesta área que sei que sou. Mas gosto e vi que muita gente gosta porque pára e se planta a admirar.   Há uns dias recebi um e-mail de um amigo Filho-da-Escola que me mostrou uma foto de um rapaz que estava naquele lugar a tocar acordeão, e em bom-tom acompanhado, pelo seu cachorrito em pose de grande artista cantor. Se calhar ele viu o Concerto dos Pink Floyd ___Live AT POMPEII___, onde, com, e, para o mesmo fim usaram um cão. Isso vos garanto eu porque tenho aqui a videocassete.   Há senhoras muito respeitáveis muito enfeitadas, elas e os seus simpáticos canitos que transportam ou pelas trelas, ou ao colo.    Há vidas e vidas! Até na dos cães há diferenças! Estes pelo menos têm paparoca garantida e não têm que andar a chafurdar nas lixeiras farejando um qualquer resto comestível, nem, quando extremamente esfomeados terem que andar a matar rebanhos, como acto final, desesperado, __a sobrevivência a isso obriga.   Por ali rondam, (aliás rondam por todo o lado), meninas que discretamente trabalham no ataque.   Há gente que passa, alguns e algumas de fato de treino muito justo a mostrar as bordas e as dobras.   Passam em passo de corrida. Será que é para imitarem os verdadeiros atletas? A treinarem ali? Naquele ambiente de ar pesado, saturado e poluído?! Ou serão alguns marados, chanfrados da tola? Lembro-me da canção que diz:“São os loucos de Lisboa / Que nos fazem acreditar / Que a terra gira ao contrário / E os rios nascem no mar “.    Há pessoas estáticas em jeito e pose de autênticas estátuas.    Um dia deparo-me com uma destas figuras. Não sei se homem ou se mulher, porque estava tapada até aos pés.   Não lhe vi o escrito, nem chumaços que a identificasse.Estava muito quieta, uma boa imitação de estátua verdadeira.        Ponho-me a observá-la.   “Com este calor de rachar, nem sei como se aguenta assim.Será que não tem, ou não sente comichões?”Em jeito de provocação a ver se ela se desmancha, sorrio-lhe, e, __ nada acontece. Apetece-me coçar os sovacos como se faz para imitar os macacos, mas lembro-me que não estou sozinho, e desisto desse intento pois tenho vergonha do que os outros transeuntes que passam possam pensar.   Mas eis que: __ um abelhão daqueles grandes e peludos se aproxima e ronda-lhe a cabeça. Se calhar também ele está confuso. Ou então também quer admirar a arte do, ou da artista.  Sadicamente penso: “ Ó Carmindo, agora é que vais ver como ele vai reagir. Agora tem de se mexer”.   E fico esperando na expectativa.   Mas mais uma vez, nada.  Apenas um ligeiro mexer de olhos, como fazem os répteis.   Talvez e só a controlar.  Uma vez vi um camaleão a fazer isso. Se calhar, também ele naquele momento estava só a controlar-me, a ver e tentar adivinhar as minhas intenções.   O abelhão desiste ou desinteressa-se e afasta-se.Será que a maquilhagem tem algum efeito repelente?Para a próxima devias trazer uma Burka, __penso.Não, que digo eu! Assim lá se ia, porque não se via, a Arte do Artista. Melhor será, e melhor resultado dará, uma máscara de apanhador de mel. Apanhador não, melhor, __roubador! Porque o mel é propriedade privada, das abelhas. Sei que há pessoas que fazem esse serviço. Chamam-se Apicultores.Aceno-lhe em gesto de despedida, __e nada.   Arre porra! Ao menos a isto deverias responder, ainda que ao de leve, ó seu ou sua, mal-educada pessoa.   Estás lixada porque assim também não te dou nada.   Bem vejo a caixinha mas nem uma moedita…, __ penso.   Não resisto. Perante tal mostra de Arte, quero deixar algo, pois que, quem quer que seja, precisa de meios para viver como qualquer um de nós. E deposito…, ___o quanto não digo aqui, para tu leitor não me chamares de sovina!  “Pronto, ó rapaz ou rapariga, fica cá em paz e sossego que eu vou à vida, que se faz tarde”. E fui.    Paro na Praça da Figueira e penso: __deixa lá ver se o cavalo da estátua do D. João I, ainda tem as ferraduras ou se algum gandulo já lhas roubou! Se o cavalo fosse de carne e de bom sangue certamente não deixaria, assim como é de metal tudo é possível. Que raio de pensamento! Mas com tanta roubalheira não me admirava nada!    Desvio-me para a Praça do Rossio e entro na casa da Sorte para quem acerta, e do azar para quem só vê sair do bolso, e entrar, nem cheta. Também eu não resisto e invisto algum. Mando registar o papelinho igual ao de todos aqueles que depositam religiosamente toda a esperança nos números escolhidos, e ainda com o ovo no cu da galinha começo eu e por certo começam todos, desde logo a imaginar que nos saiu o primeiro prémio e a fazer planos, a pensar em quê, como e onde, gastar a massa.   Ele são casarões, carrões, aviões, porque para tanto darão os milhões.    Pela larga Praça vou caminhando com cuidado para não incomodar nem dar uma biqueirada em algum dos tantos pombos que junto às biqueiras dos calçados das pessoas sem pressa se vão movimentando. Mas pressa para quê se não têm mais nada para fazer e para sobreviver, aquilo lhes basta?      Vida regalada! Até se divertem! Há sempre alguém que sem os convidar os aproveita para poses fotográficas, normalmente com crianças. “Com alguns é divertido! Brincalhões, só querem farra, não fazem mal nem a uma mosca, com outros nem por isso.    Têm já no sangue os genes maliciosos, o bichinho da ruindade que herdaram dos seus progenitores.Tentam pontapear-nos. O que nos obriga a dar uns saltinhos estratégicos de defesa. Mas alguns de nós, e eu por vezes também, (sim que não sou nenhum santinho), vingamo-nos e largamos-lhes nas mãos uns presentes mal cheirosos”.__Confidencia-me um deles.               Têm sempre o papo cheio! Só para pernoitar é que têm problemas para encontrar um lugar seguro e sossegado. O melhor que encontram para encostar os ossos e descansar é algum beiral de fachada ou telhado. Só que às vezes acontece que algum senhorio, porteiro ou inquilino mais criminoso, menos escrupuloso, mas mais zeloso, os envenenam, devido aos dejectos que por ali são obrigados a deixar.   Ora, se não têm instalações sanitárias canalizadas, não têm outro remédio senão largar e ali mesmo deixar o material. Bem basta a dificuldade que têm para limpar o traseiro.   Assim, como assim, a vida vai caminhando mais ou menos na paz dos anjos.    Estou agora junto  à estátua do rei D. Pedro IV que lá do alto tudo domina. Mas o coitado já lá está há tanto tempo, que deve de ter os olhos muito cansados, e qualquer dia dá-lhe o sono e cai por ali abaixo e escaqueira-se todo aos bocados que nem a coroa escapa!  Já agora como tem tempo e paciência que veja se calcula e disso nos avisa, do momento da derrocada total das ruínas do Convento do Carmo.     Na entrada principal da estação de comboios do Rossio, paro para ver se nas obras a que a foi sujeita, os “manda na chuva” e no resto, tinham respeitado e preservado a linda fachada. Lá está lindíssima! Vá lá…! Pelo menos isto escapou!    Vou agora na praça dos Restauradores. Onde antes esteve o cinema Éden, está agora uma loja nova que não conheço.Sinto um toque no ombro esquerdo, rodo a cabeça e sinto outro toque no direito.  Ai o carago! Que é isto? Com certeza, é brincadeira de alguém conhecido, __ pensei.  Viro-me e deparo-me com um”freguês “conhecido.__Olá! Boa tarde, como estás? __Estou bem obrigado. E você? Também me parece bem.__Sim, estou bem obrigado. Acabei de enfardar ali em baixo um peixito que estava uma delícia. E agora, olha vou por aqui a passear a matar saudades desta Lisboa. Está confusa, uma selva! Mas, mesmo assim agradável.“Olha bem ó Carmindo, quem havias de encontrar! Vê lá bem o quanto é verdade aquilo que se costuma dizer: __que ninguém faça mal a alguém, pensando que o mundo é grande e nunca mais verá esse alguém __. Olha, que mesmo agora este gajo poderia ter-te enfiado umas naifadas em vez daqueles toques amigáveis nos ombros”.  __Mas, ouve lá conta-me coisas. Antes foste um figo maduro, depois uma abóbora peidona, agora és o quê? __Á! Isso?! Enganei-os bem! A todos enganei! Todo o mundo! Pensaram todos que eu estava maluco!__Espera aí! A mim não! Não me incluas nesse rol. Até porque eu não era, não sou, nem nunca serei especialista naquelas coisas de classificar pessoas. __Agora sou uma pessoa normal que veio engrossar o lote dos considerados normais, mas cá para mim há mais malucos à solta que internados! __Acho que tens razão. Agora, disseste uma grande verdade!    Ouve lá o que fazes para viver? Desde então já passou muito tempo, trabalhas? __Trabalhar? Eu? Trabalho! Que é isso? Alguma coisa que se coma? Não faço népia. Agora dou pelo chamado de, __ Zé -zé Faísca __. Sou empresário! Tenho aí umas gajitas a atacar que como galinhas a esgravatar, me enchem os bolsos de muita grana.“Estou a ver! __Pensei “.__Olhe lá para ali, para aquela mesa debaixo do toldo azul. São aquelas duas. Acabaram um trabalhinho há poucos minutos e já estão outra vez no ataque. Assim é que é! Assim é que as tenho ensinado.    Olhe bem, não são duas belezas? Coisa fina! Duas autênticas bonecas de porcelana!Olhei.“Realmente! Que pena! Que desperdício!” __Pensei. __Estou a pensar que, como você foi um porreiraço lá naquela casa, como troca de galhardetes vou abrir uma excepção e vou dar-lhe uma borla, um mimo. Venha daí.Aproximámo-nos e confirmei o que tinha pensado. Eram muito novinhas, não teriam mais de uns quinze anitos.__Meninas, vá lá, toca a ajeitar haja maneiras!Apresento-vos aqui este meu amigo. E dando um tom de grande pompa pronunciou o meu nome. E falando para mim: __Esta é a Joana, aquela é a Carla.__Olá! Disse eu em jeito de cumprimento. __Olá! Responderam quase em uníssono, e, ambas me mirando de alto abaixo.__O tal mimo de que ali atrás lhe falei é isto: __Vá lá escolha e leve a que quiser e que lhe faça bom proveito.__Deixa isso para lá, deixa isso para outra ocasião, há mais marés que marinheiros! __Olhe que com as minhas meninas não tem problemas, são muito limpinhas! __ Disse ele como que adivinhando os meus pensamentos e tentando atenuar as minhas preocupações. Esta minha carola se calhar já muito marada pelos tantos anos a trabalhar na tal casa, começa a engendrar um esquema.A sorrir digo: __Não consigo escolher, levo as duas. __O quê? __Disse ele atrapalhado e preocupado, calculando já o prejuízo que isso lhe acarretaria. __Eh! Lá! Que é isso? Ainda sente pedalada para se aguentar com as duas? __Pergunta ele, matreiro, a sorrir.__Está bem leve-as lá. Por uma hora. __Acedeu, por fim, ainda que com pouca vontade, __ pareceu-me. __Entrai. __ Disse eu, convidando e franqueando-lhes o meu carro. __ Não é preciso, temos os quartos mesmo ali ao virar da esquina. É perto podemos ir a pé.  __ Não faz mal, entrai, é melhor, já ides ver o porquê.     Arranco subo a avenida da Liberdade, depois da rotunda do Marquês de Pombal entro na Fontes Pereira de Melo, passo pela praça Duque de Saldanha, embico por aquela grande avenida abaixo, __a Avenida da República__ e só paro lá no fundo, junto à união das avenidas…, ó raio! Como se chamam? É uma porra das grandes quando às vezes a cabeça falha! E logo agora que estou a fazer este relato! Mas também para estarmos sempre a aprender, temos que ir apagando umas coisas, senão onde iremos buscar espaço para tanta coisa?     Não é o que acontece com os computadores, que por sinal até são máquinas e não se “passamtanto?     Ah! Já sei, já se me ocorreu. São as avenidas, __Estados Unidos da América e a das Forças Armadas. __Vinde daí, digo-lhes, já abrindo-lhes a porta para que saíssem.    Elas, ainda que não o demonstrassem estavam curiosas e ansiosas e deixaram-se levar para verem no que aquilo ia dar. __ Que está a fazer? Pergunta a Carla.__Tem calma, já vais ver. Sabes onde estamos? Conheces Lisboa? Ou vieste há pouco da província, lá de algum lugar perto do sol-posto?    Estamos à porta da feira popular e vamos entrar. __Espere aí, diz agora a Joana com ar preocupado. Já percebi. Vai levar-nos à feira Popular à “boa-vai-ela “ a laurear o queijo como dizem na minha terra. Mas, e então o tal trabalhinho? Pelos vistos você não está para aí virado. Como podemos aparecer ao nosso homem sem a massa.__Não vos preocupeis, não há necessidade disso. É verdade, não vai haver trabalhinho nenhum, nem vai haver massa, mas não há problema. Então não ouvistes ele dizer, que era um mimo que me queria oferecer?! Foi o jeito que ele arranjou para me agradecer a forma como o tratei lá… __Lá onde? Perguntou a Carla sem esconder a sua grande dose de curiosidade.__Deixa para lá, é uma grande história! __Sim, deve ter sido uma grande história, para ele se sentir tão agradecido, tão carinhoso! Bolas! Logo ele que é tão bruto! Pelo menos connosco, disse ela, por fim, desistindo.    Entrámos. Vá lá! Ide divertir-vos à vontade. Aproveitai esta folga que vos estou a proporcionar e que vos sirva de ponto de partida para pensar em deixar esta vida, __que não é vida!    É claro que isto que vos digo é coisa que nunca, mas nunca, lhe pode chegar aos ouvidos. Ouvistes bem? Senão, se nos voltarmos a encontrar, a sua recepção à minha pessoa será bem diferente e para pior com certeza.__Deixar esta vida? __ Pergunta a Joana.   Mas como se a minha avó foi puta! A minha mãe puta foi! Portanto, eu naturalmente tinha que vir a ser puta!     Quem sai aos seus não degenera, __não é o que o povo com a sua imensa sabedoria diz?__É sim, concordo eu, acrescentando mais o seguinte:O mesmo se passa em muitas famílias que por tradição, se o pai é médico ou advogado o filho igual tem de ser.    Se é militar, o filho militar tem de ser, de uma ARMA ou de outra, é igual. O que importa é usar farda e de preferência com uns galões a enfeitar os ombros. E mais tarde, naturalmente umas coisas resplandecentes a brilhar no peito se lhe vão dependurar.    E os filhos ainda que contrariados por não sentirem vocação para a dita profissão e nem sequer para aí virados estão, (o que gera uns perigosos empecilhos, emplastros de canudos adquiridos por vezes sabe-se lá como), obedecem aos ditadores papás. Raramente acontece algum degenerar ou por vontade própria para aí não embicar, e, ainda que à custa de muitas guerras familiares, enveredam por outras áreas profissionais alternativas obedecendo a “chamamentos “que sentem dentro de si a fervilhar. Essas sim, que desejam com muito ardor, muita paixão.      __Ó! Rapariga! __ Falo agora dirigindo-me à Joana. Com essa, estás a fazer-me lembrar um rapaz que eu conheci que o pai tinha Boi por alcunha e por sacanice os colegas perguntavam-lhe:   O teu pai é o quê? Boi. E a tua mãe? Vaca. E tu? __ Bezerro. Respondia ele de pronto, sem saber a lógica que a isto correspondia.  __ Eu, __diz a Carla. Fui violada quando ainda era uma criança. “ Uma criança és tu ainda “, __pensei eu.      Depois, com o jornal de parede, depressa se espalhou.    Toda a aldeia ficou a saber. Quase todos me apontavam a dedo. Uns só me gozavam com bocas porcas. Outros queriam aproveitar-se da situação e comer-me também. Os meus pais faziam-me a vida negra com proibições, (que só pecaram por tardias, compreendi mais tarde) e pressões que me sufocavam, não tive outro remédio e tomei a decisão de fugir àquele martírio.   E pronto. À vida vim parar. Em Lisboa onde me disseram que a vida era boa, vi-me sem trabalho e sozinha. Toda a gente come. Dinheiro não tinha. Ainda tentei coisa boa e estive uns tempos como sopeira em casa de uns ricalhaços que tinham uns filhos, uns rapagões, que pensavam que cá esta menina era a “pachacha do povo e para o povo e como se não bastasse ainda me obrigavam a servir uns colegas que de vez em quando levavam lá para casa e a quem queriam agradar, oferecendo-me como se eu fosse uma propriedade a que tivessem o direito de uso e fruto.    E então pensei seguir o exemplo e os passos de umas que conheci nos bailes dos Bombeiros lá do bairro que me disseram: “Ó filha, ninguém dá nada a ninguém. Assim como assim, vais dá-la, mas recebes por isso e resolves os teus problemas de dinheiro”. O pior foi quando conheci aquele gajo. Todo falinhas mansas, todo carinhoso, que cheguei a pensar que era o meu príncipe encantado que me ia tirar desta vida. Uma porra! Na verdade eu até lhe escondi a condição de menina da vida, mas ele fez pior: Aproveitou-se e arrebanhou-me. Tornou-me em mais uma cabritinha para o seu rebanho. Como você vê não é fácil. Entrámos e foi um regalo ver como aquelas duas frágeis criaturas saltaram de carrossel em carrossel brincando como crianças que eram ainda, dando largas a uma fartança de brincadeira de rédea solta.__Anda, vamos ali, __ diz a Carla. __O que tem lá dentro? __Pergunta a Joana.__Tem um comboio a que chamam de “comboio fantasmaque já em movimento passa por uns sítios de onde saem uns bonecos que metem medo, alguns com formas aterradoras de dráculas e coisas assim.__Ai credo! Cruzes canhoto! Não, ali não vou. Até estou arrepiada. __Pronto meninas. Acabou-se. Temos que ir embora. Tenho que vos levar ao vosso dono. A minha vontade seria picar-vos o traseiro e dizer-vos: Ide, correi, sêde livres, libertai-vos desse jugo. Mas não pode ser assim. Ele correria Lisboa de ponta a ponta sem descansar até vos encontrar. Se um dia tomardes essa decisão, ide para o estrangeiro, para bem longe, só assim podereis escapar às suas garras.   Mas antes vamos ainda num instante comer um gelado.__Eu prefiro um “ramalhete”de algodão doce, __diz a Carla.__Ai eu não, eu quero um gelado sim, mas bem grande com muitas bolas e muitos sabores!__Ah! Suas gulosas! ___Digo eu em tom de galhofa.   Reparo mais uma vez no ar juvenil delas. Um ar de: __Bonecas de porcelana.    “Tu e essa tua obsessão por elas! Porque será, ó Carmindo?  Não é por colecção, nem por mania pedófila, __longe vá o agoiro…    É certo que condenas, __ veementemente abominas tais barbaridades. Mas é certo que em todos nós habita a semente do bem e do mal, à espera da ocasião para germinar, e que a qualquer momento pode gerar um assassino, um ladrão.   Quem vê caras não vê corações. E todos temos uma cara, a qual, não revela a tara que em cada um de nós pode existir.        Quem nunca roubou, ou desviou? __O que vai dar no mesmo, ainda que tenham sido pequenas coisas, de pouco valor.       Será talvez pela lembrança das brincadeiras infantis com as tuas irmãs, a mais nova e a mais velha em relação a ti?         A tua outra irmã e os teus irmãos eram muito mais velhos.  Já nas guerras reais, das armas, ou namoradeiros e casadoiros andavam. O teu lado feminino oculto? Deixa lá não te preocupes. Há homens que aproveitam o Carnaval para usar ou testar esse lado e vestindo-se de mulher, divertem-se deixando extravasar esse lado. Há homens que cosem, bordam, tricotam, e muito mais. E nada se passa.        Se assim não fosse que se passaria com tantos que há que optam pela profissão de cabeleireiros, cozinheiros, alfaiates etc., profissões que à priori nos lembram ou encaminham para o lado feminino.    Não te preocupes com isso ó Carmindo.  Nada disto alterará a tua natureza.  À voz que me diz: “Tu ó Carmindo, tu e as tuas Bonecas”! __ Digo-lhe: __ Pois, quando não as há por perto à mão de semear, procuram-se ao longe, nem que seja em imaginação, e canto-lhe a canção ___ Lá longe onde o Sol castiga mais / Não há suspiros nem ais / etc., etc, etc.    Eu não sei se lá ao longe ele castiga mais, se há mais ou menos suspiros e ais. Sei sim, que por aqui castiga e provoca muitos suspiros e ais…        Desligando o interruptor do circuito que rebobinava a cassete, volto a elas, __e digo:__ No entretanto, e enquanto comeis, quero contar-vos uma coisa: Uma bela noite, há já muito tempo, ia eu na rua Gomes Freire, ali junto ao muro do Miguel Bombarda e vejo umas meninas a fazerem o mesmo trabalhinho que vós fazeis agora.  __Olha lá ó Joana. Se calhar alguma delas era a tua mãe. Tu própria disseste que também andou nessa vida. Como dizia, vi e perguntei à que estava mais perto:“Ouve lá, quanto custa o quilo?”     Ela, por quilo, deduziu, __cambalhota__, e respondeu:“Custa duzentos e cinquenta escudos”. “O quê? No talho é mais barata!” __Respondi. Alço a perna e, eis que lá vai: lá vai não, lá foi! Saiu-me cá um peido tão forte! Parecia um trombone em banda de música nos arraiais lá na minha terra. Foi cá um estardalhaço que parecia bomba!Até o muro abanou! Nem sei como se aguentou?!“Á seu grande filho da puta, (nem reparou na sua condição) espera aí que já vais ver”. Ripa da soca e corre para mim assanhada como se fosse gata.Eu como é lógico, não fiquei quedo para ver, não pelo medo à soca mas ao que o seu homem poderia fazer, dou de frosque, piro-me em passo de Sprinter e escapei.    Vede lá que já passou tanto tempo e ainda hoje sinto remorsos cada vez que me lembro disto.__Se calhar foi devido à pressão exercida por esses remorsos que hoje lhe deu para nos proporcionar esta festa recheada de mimos! Para se redimir dos tais efeitos nocivos da tal façanha. __Diz a Carla com um certo ar zombeteiro. __ Se calhar foi. Sei lá!__Havia de ser comigo, fazia e acontecia…., __diz a Joana. __Não sei, se calhar nem me tocavas porque eu nessa altura era quase atleta olímpico. __ Praticava Karaté e Culturismo e tinha cá um cabedal de fazer virar as cabeças! Tinha cá uma preparação física do caraças, leve como uma pena e sem esta proeminente pança que agora aqui vedes.Culturismo? Que é isso? É algo relacionado com Cultura? __Pergunta a Carla.“Estou feito, convosco!”__ Penso. __Não, não tem nada a ver com isso. É um desporto onde se molda o corpo, puxando e levantando pesos.     Chegámos. Ele estava furioso. Tinham decorrido três horas.  Arre porra! Com que então! Tanto tempo!   Tem calma. Sabes? Tens razão. Aqui as tuas meninas são do melhor e portaram-se às mil maravilhas e sabes tão bem quanto eu que é de aproveitar, porque ocasiões de ter a sorte de encontrar amigos como tu são coisa rara e eu aproveitei da melhor maneira o teu mimo. Enchi o “papinho”! Obrigadinho, és um gajo porreiro, __arrematei eu com uma palmadinha nas costas.       Nesta altura do campeonato já eu o tinha sossegado. Já estava manso, mas saiu-se com esta:__Ainda bem que gostou, assim poderá fazer muita publicidade e como conhece muita gente poderá recomendar as minhas meninas.__Ó meu sacana, com que então era só um mimo? Estavas a pensar no teu negócio! __Disse eu em tom de brincadeira.__Bem, foi um pouco disso tudo. Dois coelhos com uma só cajadada. E também não lhe custa nada ajudar cá o rapaz. Sei que o material é do melhor e você mesmo o confirmou, mas publicidade vende e essa que lhe peço a de boca em boca, é da melhor.__Pronto está bem. Estou com uma sede do caraças. Vamos tomar qualquer coisa, __convido-o com o intuito de desanuviar o momento.     Despeço-me delas com um gesto, ao qual elas respondem igualmente com um gesto e um sorriso maroto como que a dizerem-me: __ Obrigado por este especial momento de carinho. E pela recomendação embrulhada naquela sua preocupação. __Olha vamos ali ao bar o Pirata.    Eu tomo uma perna de pau. Tu não sei, uma água, não?__Água, nem pensar!  __Bem, pensei, então já não tomas medicamentos?__Não, não preciso de nada disso, nunca estive maluco já lhe disse. E quanto ao pensar, não pense porque pensar pensam os burros a ver se descobrem a forma de chegarem a espertos e veja lá que nem a cavalos chegam quanto mais… E você é esperto já sabia disso e agora reforcei essa ideia, __ portanto ponto final.Um dia destes apareça por aqui, convido-o a ir comigo aos fados. “Alto lá, haja calma, ainda não me convenceste dessa tua sanidade que apregoas. Ainda me lembro que foste levado pela polícia, enfiado num casaco muito especial a que chamam de: __camisa-de-forças __, é um modelo engraçado! Com os atilhos que imobiliza na perfeição qualquer figurão. E tu ias assim porque te tinhas passado, e armado em Rambo tinhas escavacado uma dessas casas. À boa maneira daquelas sessões de pancadaria de rachar pêlo que nos relatavam nos filmes de Cowboys que ocorriam com frequência nos Salões de diversão, no antigo Far-West”. __ Espere aí. Aposto que adivinho os seus pensamentos deste momento. Está pensar naquela zaragata…__Zaragata aquilo? Disseram que não escapou copo nem mesa e tu ouviste tanto como eu o relato desse feito e não desmentiste, portanto.__ É verdade, não desminto. Mas daquela vez não foi culpa minha. Aconteceu que apareceu por lá o Tonho Faneca que quis mesmo ali acertar umas contas antigas. Há uns tempos saquei-lhe umas lindezas e pu-las a render para mim. Não tenho culpa que elas me preferissem, a mim que até sou um maltrapilho.Sim, que eu não gosto de homens, mas tenho olhos e sei ver que ele é mais aprumado que eu. Uma melhor figura! __Diria a minha avó se ainda hoje fosse viva.     Está bom de ver que ele ainda não tinha digerido aquilo tudo e pronto foi o que foi.   Mas, calma aí! Dias são dias, em alguns nem devíamos sair de casa. Também não ando por aí a fazer da pancadaria profissão. Por isso, repito, apareça. E fica desde já combinado, sou eu que convido, sou eu que pago, à boa maneira da minha terra. __Está bem. Logo se verá. __Respondi, com alguma reserva.    “Ó se faz favor! Digo eu chamando o empregado.    São duas pernas de pau cá para nós, que este meu amigo afinal também é gente e também bebe”.__É pá! Gostei dessa! É mesmo muito boa!       Bebemos, saímos, e cada qual foi à sua vidinha que se fazia tarde.     

3 comentários »

  1. Que raio de texto gigante!!!! Porraaaaaa!!!

    t bates mal. achas que alguem vai ler esta peta!!!

    OMG!! TRATA’TE SIIM??

    M

    Comentar por Gizilau — Janeiro 28, 2009 @ 10:36 am | Responder

  2. esta um maximo!!!

    n liguem ao comentario daquela totó!!!

    muito bem! 5 estrelas!!!!

    PARABENS!!!

    Comentar por gila — Janeiro 28, 2009 @ 10:38 am | Responder

  3. There are some amazing plus size designers out there like Miss Brache and
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    Comentar por short saia de oncinha — Fevereiro 7, 2014 @ 12:48 pm | Responder


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