Entra ou Sai

Janeiro 27, 2007

Num dia assim

Filed under: Conto — carva55 @ 3:48 pm

                 jardim-do-campo-grande-lisboa-da-net.jpg    

 

Foi num dia assim ensolarado por um sol radioso de Primavera.

Havia pouco tempo que tinha chegado a Lisboa onde diziam que a vida era boa. Vim ver para crer. Tal como eu tenho as minhas razões, o outro que dizem que fez o mesmo, __ver para crer, teria as dele.Trabalhava no colégio Valsassina como vigilante. Era o meu dia de folga. Pensei ir visitar um irmão meu que morava na Brandoa. Fui à Rotunda do Relógio apanhar o autocarro número cinquenta que me levaria até Benfica. Para o resto apanharia a carreira “chocalatreira”.  Ao passar pelo Jardim do Campo Grande lembro-me de que tinha ouvido dizer que ali alugavam-se à hora bicicletas para passear pelas imediações.   Chega-me uma enorme saudade da minha querida bicicleta que tinha deixado lá na minha terra.   Para atenuar um pouco esse deprimente sentimento momentâneo, decido de repente sair e ir ver como era isso do aluguer.   Procuro e depressa encontro. Aceito as condições e lá vou eu montado numa bicicleta prima da minha. Reparo que não tem buzina. Sorrio ao recordar o quanto sadicamente gozei ao apertar o papo à buzina da minha, aquando me apetecia atenazar os ouvidos ao meu pai, em sinal de protesto quando ele queria que eu o fosse ajudar na lida dos terrenos dos quais éramos arrendatários. “Que pena, agora apetecia-me apertar o papo a uma buzina.“ __Pensei.  Começo a pedalar e lentamente aquela deprimente sensação foi pregar para outra freguesia.     Sentia-me feliz. Começo a assobiar a canção do Manel da Rola e a do Malhão – Malhão muito em voga por essa altura.    O jardim está cheio de gente. São casais de namorados sentados ou enroscados nos bancos a produzirem quilos de marmelada.     Outros a passearem de mão dada e a trocarem olhares alheios a tudo e a todos, num enlevo tal que:“Ó gente! Olhai como é belo o amor! E pode ser feito de tantas formas! Até com os olhos! Quando for grande vou querer amar assim. Vou começar já a preparar a fisga para a caçada”.A catequista seria o ideal. Ah! Com que vontade ia eu ouvi-la! Aquela coisa de anjos e nunca anjas é que acho que está mal contada. Depois numa brincadeira malandreca de rapazola, usava o truque do espelho no chão. O levantar, esticar o pescoço, e espreitar para aquele “altar”! Aquilo sim era digno de se ver.   Desde então Já passou algum tempo. Agora estou mais espigadote desnecessário será o escadote. Quando a apanhar a jeito vou lançar-lhe o repto. Se não der nada digo-lhe:“Ouve lá. Isso tudo é teu sim senhora, dás a quem quiseres, mas se não me toca nada, escolhe outro mas escolhe bem.Olha, mal por mal dá ao sacristão que é trabalhador. Que eu bem o vi de machado, enxada, marreta etc. na mão, a dar-lhe, no trabalhinho que era obra! Ao outro, isso é que não, nem deves pensar sequer dar-lhe algo, é coisa mal empregada, é manteiga em focinho de cão”. Se, se mostrar desentendida dir-lhe-ei: __”Sabes bem a quem me refiro. Não me faças falar…__ “        Gostei de ver famílias com pequenos e graúdos a pedalarem ou a remarem nos barcos dos lagos.   Alguns velhotes, penosamente, __Via-se claramente, carregavam aos ombros __, porque é nos ombros que tudo nos pesa __, os reumáticos, as artroses, a ferrugem dos ossos já muito usados. Mas lá vão indo. E fazem bem, _ porque lá diz o povo: __ parar é morrer.   Junto a um largo há barraquitas a vender muita coisa. Numa delas um gaiato faz um grande berreiro porque quer um ramalhete de algodão doce.O adulto que o acompanha tenta impingir-lhe pipocas. Talvez por serem mais baratas, não sei, mas ele não cede, aumenta o tom, já vai em nota alta e para complementar salta e bate com os pés no chão. “Isso mesmo! Assim é que é! Devemos lutar e exigir aquilo que queremos. Se fosse eu espolinhava-me no chão. Ele iria pensar se não seria melhor alargar os cordões à bolsa, antes que a despesa na lavagem das nódoas da roupa fosse grande”. __pensei.  Numa outra barraca, uma garota faz exactamente o que eu pensei __parece que me ouviu! E tudo isso para tentar ganhar um gelado. “Esta é mais esperta! Assim, como assim, leva mais cor, doce e sabores.Uma cigana tenta impingir a leitura da sina a um par. “Certamente lhes estaria a dizer, que ele iria morrer de velho, e ela ainda mais velha e rodeada de netos bisnetos e trinetos. Que iriam ganhar na lotaria para comprar uma casinhota novinha em folha.   E eles, contentes com tanta felicidade prevista, trocavam umas valentes beijocas para comemorar”. Mas não, eles não se descosem. E ela desiste, e vai à vida, bater a outra porta, a ver se lhe toca mais sorte. Para chatear os pais há ainda quem tenha à venda brinquedos diversos, mas os que concentram a atenção e a admiração da pequenada, são os balões coloridos, e os moinhos de vento.  Aqui não vi guerras. Estavam pasmados a ver. Talvez algum ainda estivesse em fase de estudo da melhor táctica a tomar para atacar.   Há pombos que saltitam para fugir a alguma biqueira malandra e para mais depressa que a concorrência, chegarem ao grão de milho que lhes oferecem.       Na avenida lateral àquele jardim, naquele momento passa um bólide. __Um Lamborghini, ou um Lotos __. Passa a esgalhar que nem dá para ver bem. O condutor pareceu-me jovem. Possivelmente um qualquer filho de papá…   Quem não gostou da coisa foi um que agora passou entalado num carocha. O bólide passou-lhe tão perto que lhe ia levando para recordação o espelho lateral. Como se não bastasse ao desgraçado, (pareceu-me que tinha pinta de operário), no banco do pendura seguia uma caraça carrancuda como máscara de Carnaval.  Era muito mais velha, seria a sogra? Não me admirava nada. Elas têm fama, mas muitas têm a fama e o proveito.   Passa acelerada, uma ambulância a caminho do hospital de Santa Maria. Para ajudar, e só por isso, telepaticamente digo ao possível doente, (porque eu não vislumbrei ninguém lá dentro, se calhar até ia assim desenfreada, para que o motorista não perdesse o Benfica Sporting que estava prestes a começar). “ Cuidado amigo, quando chegares, grita como puderes, porque há gente que só ouve gritos e porrada.   Já o povo há muito que diz: __”Quanto mais me bates, mais gosto de ti “ __. Em tempos houve um que disse:  “Isto já não vai lá com palminhas nem com Palmas Carlos”.  “ Grita, grita muito, não vá acontecer eles esquecerem-se de ti lá pelos corredores daquele enorme casarão”.      De longe chega um grito: __Agarra que é ladrão! Mais um alguém que já ganhou o dia, e um outro alguém que o perdeu e sabe-se lá que mais, porque foi roubado.     Segue-se-lhe um apito. Apito de arbitro não é porque por aqui futeboladas não há , só pode ser de polícia . Com certeza a dizer ao ladrão: “Ouviste? Eu estou aqui. Vai por outro lado. Não me estragues a sossega. Ainda há pouco ali em baixo enfiei três minis cá pró bucho, não me faças correr que tenho os bofes muito sensíveis”.     Se ele o ouviu e o conselho seguiu, não sei, mas ladrão não se viu, logo detenção também não.    Como haveria de se saber, se cara de ladrão, é cara igual a tantas outras?   Lá ao fundo vislumbro uma imagem que:“ Ó que raio! Ou muito me engano ou aquilo que estou a ver são dois pretos montados em duas bicicletas! Com a aproximação veio a confirmação. Estava certa a dedução. E vinham descontraídos a pedalar e a falar distanciados apenas de um metro e meio, mais coisa menos coisa.   Na minha terra não havia, nem a penantes, nem montados.       Já aqui disse que estava um dia lindo ensolarado por isso os vi logo que se aproximaram. Mas se fosse de noite ou com nevoeiro cerrado, possivelmente só veria algum reflexo nos olhos ou nos dentes provocado por alguma réstia de luz.   Estou a brincar. Mais tarde até fui morar para o Vale da Amoreira onde a maioria era preta e não tenho nada a dizer de negativo nem de depreciativo bem pelo contrário. Convivi com muitos numa vivência sã.              Só algum tempo depois, com o “internamento”no Miguel Bombarda é que apanhou o “doutoramento”mas nessa altura esta minha cabeça já andava muito maluca! (Penso que desde a catequese). Senão vejamos:    Tinha tanto espaço para passar mas marrei na ideia de passar pelo meio deles.   Do pensamento ao acto foi um pequeno “rato como diria um espanhol.   Embiquei a roda dianteira na direcção deles e lá vamos nós, eu e ela, a bicicleta, como caravela desfraldada ao vento, e eis que:    Catrapum! Que lá vai tudo ao molho! E era uma vez um branco e dois pretos mais duas bicicletas amolgadas rezaria a crónica se algum repórter se dignasse aparecer.Mas como feridos não ouve, nem muito nem pouco sangue e a essa gente só interessa grandes sangrias, se a alguma redacção algo chegou, cá para fora nada transpirou. O grande chefe deve ter pensado: “São só dois pretos, de onde vieram há muitos mais. O outro o branco, é com certeza um qualquer insignificante emergente acabado de chegar da terrinha na Beira, de perto do sol-posto. E aos seus subordinados deve ter ordenado:Deixai para lá que temos coisas mais importantes a tratar. Ide mas é, à Baixa ver o que se passa com aquela confusão que a estudantada anda a fazer. Temos que mostrar trabalho ao grande “Irmão.   Televisões, só havia um canal e meio em certas horas. Por isso, se eu aqui e agora não reportasse, tudo ficaria nos segredos dos deuses.      Voltemos ao local do acidente.__O minino tinhas tanto por onde passar, e não soubeste enxergar, veio logo marrar com nós! __Diz um deles” .   “Olha, olha! Este pelo menos não é parvo de todo! Sabe lindas palavras “. __Tem calma ó pá. Vê lá bem, foi só uma ideia maluca que se me arrimou. Nunca tiveste nenhuma assim?   Olhámo-nos de alto abaixo e eram só pequenas escoriações.    Por fim achámos piada e desatámos a rir.    Eram dois bacanos os fulanos.    E lá vamos nós cada qual com a sua bicicleta às costas, (pois que tinham todas ficado impróprias para consumo), entregá-las ao alugador.   O homem olha para a minha, torce o nariz e em jeito de orçamento, diz:   “Esta, cá para mim, fica à volta de setenta e cinco escudos”    Tremi um bocado porque eu ganhava quinhentos escudos, comidos, bebidos, cama e roupa lavada. Mas, mesmo assim, representava um enorme rombo no meu parco ordenado.Bem feito, quem te mandou teres ideias malucas?      Dinheiro? Nem vê-lo, quanto mais tê-lo! Deixei lá com o homem, o meu bilhete de identidade cativo até que efectuasse o pagamento.E pronto. Assim se passou um dia de folga memorável.         

1 Comentário »

  1. parabens

    Comentar por srgport — Abril 10, 2008 @ 4:28 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: