Entra ou Sai

Janeiro 21, 2007

RATAZANA

Filed under: Ratadas — carva55 @ 1:25 pm

Ratazana    ratazana.jpg 

Acordo e saio do estado que me manteve, nem sei por quanto tempo numa “onda” que por certo foi, (a exemplo das outras vezes), de uma enorme letargia. Estremunhado abro os olhos. Vejo-me numa sala que me é familiar, não por ter lá estado, mas por tantas vezes a ter visto na televisão.

Ainda estou debaixo duma cadeira, receoso avaliando a situação em que me encontro.

Lembro-me de ter entrado pela abertura que me levou ao buraco onde pretendi hibernar, penso que nessa altura era cobra ou lagarto, já não sei bem. Estou muito confuso. Numa porta envidraçada vejo a minha actual imagem. Apalpo-me. Agora virei em ratazana! Escaqueirada e peluda. Que escaqueirada, não é de admirar, depois de ter estado a hibernar num jejum que foi com certeza muito longo.

Na sala que antes era chamada de assembleia da república e por lá paravam uns humanos engravatados e emproados a entreterem-se a discutir leis, pelas quais governavam o país, agora está cheia, mas nada mais vislumbro senão bigodes, orelhas e rabos de ratos. Um deles está a botar palavra. “Deve ser o manda chuva,” pensei.

Ponho-me à coca a ver se entendo do que se trata.

Ouço: __Isso era no tempo da “outra senhora”. Agora proponho que se criem regras para combater e eliminar todas as formas de corrupção, branqueamento de capitais, fugas aos impostos.

Devemos promover a recriação das aldeias da roupa branca. Que todos, e não só os do povo, lavem no rio. Confisquem-se todas as máquinas lavadoras e assim se elimina a lavagem dos capitais.

Acabe-se de vez com a existência da caução e da prescrição. Quem não cumprir bate com os costados na grelha. Acaba-se com o regime privilegiado que beneficiava os poderosos. De recurso em recurso lá iam arrastando o caso no tempo até que prescrevia. O desgraçado sem cheta é que se lixava! Não tinha como escapar.

“eh lá! Afinal isto ainda é a casa do poder ! E disto que ouvi estou a gostar sim senhor!”

O tal que botava palavra acabou e nem de propósito passa ali rente às minhas patas. Aproveito a oportunidade, chamo-o e questiono: Ó amigo. Pode fazer o favor de me dizer onde estamos, que casa é esta, que se passa? Eu tenho cá umas ideias mas…

Ele olha-me demoradamente e por fim diz:

__Então não sabe?! Por onde tem andado? Isto é a casa a que chamam de gamela da ratanada. Antes quando cá estavam os humanos era a assembleia da república e era aqui que criavam leis com que se regiam. Agora é quase o mesmo só que se chama de gamela porque criamos regras para que todos comam. Se há, comem todos, se não há, não come ninguém. Não é como antes que só comiam alguns.

__Pois, e por isso se dizia que era uma ratanice desavergonhada, acrescento.

Agora este enorme casarão está transformado numa casa multiusos como poderá ver com os seus próprios olhos.

Ali ao lado vai encontrar muitos dos que antes eram humanos mas que à pressa se metamorfosearam em ratos.

Sempre houve e sempre haverá quem mude de casaca conforme a “cor dominante”e aqueles não perderam tempo. Agora somos todos ratos.

__Mas afinal o que aconteceu? Pergunto.

__Ora aconteceu que nós ratos fizemos uma revolução e como ganhámos somos agora nós quem manda nesta terra.

Noutros tempos aconteceu uma revolução que chamaram de: revolução dos cravos. Nós, fizemos a nossa com flores, muitas flores e borboletas multicoloridas. Já viu que coisa mais linda?!

__Ainda bem. Gostei do que ouvi há bocado. Sim senhor! estas boas intenções ou projectos de regras até já me deu matéria inspiratória para a confecção dos meus poemas de muitos louvores e bem hajas a esses heróicos ratinhos.

__ Alto lá! Ratinhos não, ratões! Porque na molhada entraram alguns bem graúdos com aquelas coisas brilhantes dependuradas.

Mas, antes ouvi-lhe dizer, “ dos meus poemas “ Escreve poesia?

Perante o seu ar de espanto digo:

__Sim senhor, sou ratazana mas poeta. A poesia que antes sentia, pelos vistos não a perdi com esta mudança, sinto-a agora mesmo a começar a fervilhar aqui dentro. E aponto para a cabeça que é onde se pensa, e por isso se sente, e não no coração como muitos dizem.

__Estou a começar a gostar de si, Quer vir jantar comigo para continuarmos esta interessante conversa? E quem sabe? Até poderemos começar a namorar. Que tal, quer namorar comigo?

__ Alto lá e pára já o baile, que eu sou ratazana mas a minha rata não é a rata do povo para o povo…

__ Calma, tenha calminha porque eu estou com boas intenções.

“ Sim, quando me vires lavadinha e perfumadinha guinas logo para o lado do casamento…”, pensei.

__ Vou pensar, preciso de algum tempo, ver-nos-emos por aí certamente, respondi.

Afasto-me e começo a passar revista a todo o espaço.

Realmente ele tinha razão. O casarão sofreu uma grande remodelação. Onde antes existiu um enorme corredor por onde passavam os deputados apressados ainda a arrotarem a lagosta comida na véspera regada com bom vinho existe agora um largo onde se encontram uns ratões e umas ratazanas que como a metamorfose não actuou nas caras, exibem as mesmas pelas quais eu os conhecia antes e me permite reconhecê-los agora.

Lá está o que tinha sido presidente e nessa altura acumulava ao ordenado de presidente, várias reformas.

Mais um pouco para o lado direito está um de quem eu ouvi dizer que já a usufruir da pensão por invalidez que conseguiu arranjar, o seu amigo galã Santanado lhe arranjou um tacho superiormente remunerado.

Umas criaturas que antes foram muito famosas, estão sentadas num banco numa visível saudável harmonia. Nesse grupo reconheço a Faty Figueiradas, o Valentão e o Isaltinado Desatinado. O tal que quando sentiu os calos apertados devido a uns dinheiros depositados numas contas na Suíça, disse que era de um sobrinho que lá trabalhava como taxista. Arre! Devia de ser o recordista! Como taxista ganhava muito bem! Ganhava por ele e por mais uma boa meia dúzia de colegas, se julgarmos pelos números falados das ditas chorudas contas.

Devem de estar a preparar mais algumas e das boas, pensei.

Numa mesa ali perto alguns dos filhos de papá que eu conheci como ligados de uma forma ou de outra ao meio financeiro, estão reunidos e muito entretidos a jogar o monopólio, talvez para não perderem o jeito.

Reconheço também um casal de enfermeiros que conheci no manicómio e que foram os primeiros a alinhar na exigência da implantação do regime de trabalho de trinta e seis horas semanais alegando que tinham uma profissão muito desgastante. Só que depois iam os dois para os respectivos ganchos onde tiravam outro ordenado, mas que os cansava muito e lhes retirava a pachorra para servirem quem deviam servir com a qualidade devida. De tão ocupados quase não se viam nem juntos se deitavam. Só se cruzavam esporadicamente nos corredores. Tinham dois filhos. Mas por falta de tempo para o fazer, o primeiro, arranjaram-no no proveta a que também chamam de: in – vitro. Foi muito fácil. Ela foi sozinha até ao fazedor, e toma lá que lá vai e de lá cheia saiu.

O segundo, por ser ainda mais fácil adoptaram o primeiro gaiato disponível que encontraram e que por sinal tinha uns olhos bonitos que aos outros olhos logo agradou. Assim como assim, já estava feito e crescidito. “ Olha como é lindo!”__ Disse ela, logo assim que o viu. “Pronto, foi tiro e queda.”

Num outro grupo, um de nome Estebes, (um que depois da respectiva prescrição confessou a autoria do fabrico da bomba que em tempos matou um que era o primeiro ministro e mais outras pessoas), estava a contar ao grupo que atentamente o ouvia as suas façanhas e aventuras vividas nos entretantos lá nas longínquas terras dos “Brasiles”.

“ Olha aí está! Essa coisa da prescrição. Vou ter que alertar o meu pretendente a namorado, (o tal bem-falante) para não se esquecerem e terem em atenção esta praga, que por ser tão nociva, sem demora, deve de ser eliminada. . Olha, nem que seja só por e para isso, até vou aceitar o convite.”

Saio para o exterior e logo na primeira esquina encontro vestido de porteiro, à porta de um “hotelzeco” que me pareceu muito rasca, o tal que antes se passeava de bólide pelas ruas lisboetas. O tal Portadas. Olha que engraçado! Portadas, portas, portões! Vai dar tudo ao mesmo, pensei. Que giro que ele está! Na sua cabeça, onde antes tinha umas enormes entradas, mora agora uma grande careca que juntando ao seu enorme nariz lhe dá um ar muito especial a fazer-me lembrar o simpático ratinho o Speedy Gonzalez dos velhos desenhos animados.

Olha, olha! Quem ali vai!

Mesmo à minha frente engelhado arrastando as pantufas que tantos e, em tantas vezes lhas recomendaram, ali vai o super marinho. Coitado … para sair assim “enfeitado” para a rua deve de estar “passado.”

Mas também já conta muitos! Quantos serão?

Afinal quanto tempo estive hibernado?

Hibernação que talvez com o cheiro da tal revolução da ratanada, também eu virei em ratazana! Para mais uma vida! Para juntar às outras anteriores nas quais fui humano e réptil.

Este pelo menos não sofreu alteração. Continua humano e com o seu porte habitual, de ar altivo!

E assim embrenhado, pensando nas voltas e reviravoltas que o mundo dá, reparo no quanto é giro esta metamorfose de ratazana peluda, eu que aquando da minha existência como humano era careca! Solto uma sonora gargalhada e vou à vida à procura de algo para roer. Porque agora uma nova vida para mim começou e há que viver e aproveitar o que ela, a vida, nos der.

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