Entra ou Sai

Janeiro 21, 2007

INSÓNIAS

Filed under: Conto — carva55 @ 4:08 pm

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É sexta-feira à noite. São nove e tal. Amanhã tenho que ir trabalhar. A Tv. está a dar o jogo do Sporting com o Beira Mar.    Se fosse o meu Benfica, ainda merecia fazer um esforço para ficar a ver, assim, decido ir para a cama para carregar as baterias.São agora dez para as dez. Ligo a Tv.  do quarto na esperança de enquanto não adormecer assistir à boa notícia de algum golito do Beira Mar.Acordo. São dez para as onze. Passou uma hora, perdi o fio ao jogo, apago a Tv. Ouço as vozes, da minha filha e a da minha mulher.   Quando a minha mulher se vem deitar, digo-lhe:   Bolas! Então tu quando é ao contrário não suportas nem o gorgolhar da água do enfeite no aquário. Estás sempre pedindo para baixar o som da Tv. e tu não consegues controlar esse vozeirão?   Parece um trombone!   Não me responde. Para quê? Sabe que tenho razão!   Esta noite era para ter ido a Zurique a uma cena que não se concretizou. Estava esperando por uma noite mal dormida, talvez ter de fazer uma directa como já há muito que não faço.   Estou a ficar velhote para essas coisas e tenho-as evitado.   Uma criatura de quatro patas, que, como enteado ou filho adoptado me meteram em casa, que usa e abusa da minha paciência. Às vezes quando estou à secretária, ela põe-se em posição a dizer-me que quer saltar-me para o colo.      Não me convém porque para lhe dar espaço  obriga-me  a  afastar-me e não me deixa fazer nada de jeito, então faço de conta que não a entendo, e chego-me à frente.   Mas ela, mesmo assim, sem permissão, salta e bate com o costado na madeira e ali fica com as banhas dependuradas e as unhas a fazerem estragos nas minhas coxas. Lá vou eu puxá-la para cima, pondo-lhe as mãos nos entre folhos, coisa que ela normalmente não admite, mas daquelas vezes sim.   Outras vezes não salta. Usa uma táctica engraçada. Salta para a cadeira e por entre ela e as minhas costas, passa para o braço da cadeira, encosta e roça a cabecita no meu cotovelo às marraditas a chamar-me a atenção.   Como resistir a esta ternura? O pior é que, não lhe basta.   Passeia pelo teclado ou ainda como cúmulo, senta-se e põe-se a olhar para mim como que a perguntar: “ Estás a ver ? Quero , procuro e tenho”.    É de uma fidelidade canina. Deita-se nos meus pés quando estou na sanita. Senta-se quase em cima dos pés da minha mulher quando está a cozinhar. Sabe bem as rotinas cá de casa.Vai despedir-se à nossa abalada e esperar-nos à porta à chegada.   Até nos convida para a brincadeira. Como atleta Olímpico corre e salta por todo o lado.    Como um cão, pega com a boca e trás de volta o que para longe, em jeito de brincadeira lhe atiramos.          Brinca com tudo, contenta-se com coisas simples e baratas, como por exemplo: novelos de linhas, elásticos, os plásticos coloridos e barulhentos que envolvem os rebuçados, etc.   É arraçada de Siamesa. Para  não deixar por mãos alheias, afama do carácter, da raça da sua gente, de vez em quando mostra o quanto é imprevisível. Está numa de ronrom parece muito bem e contente e de repente eis que lá vai dentada! Até nisso é canina. Morde mais do que arranha.   Esta criatura de quem vos estou a falar para que conste, é a gata Senhora Dona Esperança. É este o seu nome.   Sinto-a a chegar e a aconchegar-se ao triângulo composto pelos meus joelhos flectidos. É uma fornalha! Daria muito jeito se a casa não tivesse aquecimento, assim torna-se incomodativo.   Sinto gases nas entranhas que me provocam uma terrível batalha naval, que deveras me incomoda. Apetece-me largá-los. A mim não me incomodaria nada pois que não tenho olfacto e não seria por essa poluição que morreria pois que há piores.   Mas, quando às vezes largo algum, mesmo que seja de pantufas a minha mulher reclama e é uma guerra.    A cama é enorme. Uma vez medimo-la assim: cada qual deitado de lado e esticando os braços não nos chegámos a tocar. Por isso é que não ouço o seu respirar e só sei que dorme quando ressona.          Desta vez como me sinto deveras incomodado aperto a válvula do escape, arrisco, e eis que lá vai uma pantufinha.   Escapei, não reclamou. Já deve ter adormecido, __ pensei.   A gata talvez por ter sentido alguma parte do vento mal cheiroso que tenha atravessado a roupa e  lhe tenha estragado a tinta da carroçaria começa numa sessão de lambedela a poli-la num cadenciado clac-clac. “Está calada ó Esperança ,  que me estás a incomodar “.   Num afago carinhoso passo-lhe a mão desde a cabeça até ao rabo. Demorando um pouco na lombeira, como ela gosta. Pior a emenda que o soneto. Deliciada, entra numa enlevada onda, num repetitivo ronrom-ronrom.   O tempo vai passando e do sono nem sombras!   Contar os carneirinhos, já noutras vezes não resultou.   Para contar os barrotes é preciso estar com um certo apetite, que naquele momento está ausente.   Tenho a certeza que agora já dorme porque ouço a orquestra do seu ressonar que já entrou ao serviço. Parece a “malhadeira” lá nas eiras da minha terra em tempos idos.   Era cá um barulhão que se ouvia a quilómetros! E se alguém não a ouvisse, bastaria olhar que logo veria a nuvem de poeirada da pragana provocada pelo cereal ao ser malhado, para se saber onde estava.Aquele pó entrava pelas roupas e colava-se ao suor e provocava um enorme tormento. Entrava pelas narinas e garganta que nem uns copos de tinto de vez em quando bebidos, lavavam.Fui obrigado a acordá-la para lhe dizer: vira-te para lá a ver se adormeço. (Às vezes resulta).Resmunga qualquer coisa inaudível e vira-se.   Por momentos houve paz.     Só a bomba de ar do aquário, para fazer a água borbulhar e melhor o enfeitar, persiste.      Foi sol de pouca dura. Dez minutos depois recomeça a mesma música, a mesma canção, até parece disco riscado!     Ao lembrar-me disto sinto uma comichão na garganta.   Levanto-me e vou ao frigorífico buscar uma cerveja.   Aproveito para verter águas. Não dentro do frigorífico como fez um que morou lá para os Lados de Zurique. Ouvi contar que uma vez, com uma grande bebedeira urinou lá para dentro pensando que aquele caixote era o urinol.   Eu já li na Internet uma história igual. Cá para mim esta é mais uma daquelas anedotas que rebolam como bola de neve.   Como aquela da moçoila que foi para Lisboa e passado uns tempos vai passar uns dias à sua terra e quando anda a ajudar na lida do campo, depara-se com um artefacto e pergunta o que é aquilo.   Quem a ouviu admirada pensou: “Esta está feita gente fina! Já não se lembra!” E logo de seguida, a moçoila, pisa o artefacto que salta e o cabo bate-lhe na ponta do nariz, mesmo   em frente aos olhos e diz : “Ai! O filho do caraças do ingasso! Para longe o leve um enguisso ou um raio que o parta ! ““Ora toma que já aprendeste ! Agora já te lembras do nome desta coisa ?”   Pergunta com uma certa dose de ironia a admirada testemunha.    São agora uma da manhã de sábado. A “malhadeira” talvez por se ter acabado o gasóleo , cala-se.   Talvez agora consiga pregar olho, __ pensei.   São uma e vinte e do sono nem sombras .   Uma e vinte e cinco e a “malhadeira” recomeça a tarefa.   Nem é tarde nem é cedo , é agora mesmo e é já .   Levanto-me , vou até à sala . ligo a Tv. e nem de propósito, está a começar o filme __O Crime do Padre Amaro __versão de cinema, alterada, modernizada adulterada! Em relação à história original do livro do grande , Eça de Queiroz . Mesmo assim, pondo de lado essas diferenças e até porque a mensagem principal do tema tratado no original escapou à esponja, acabei por gostar.    Aquelas imagens sensuais acabaram por me despertar ainda mais .   Tenho ouvido dizer, __barriga de padre__, quando alguém quer chamar de comilão a outro alguém. Mas realmente não só têm barriga como dente guloso ! porque petiscos daqueles não são para dente de  toda a gente .   São três e meia. O filme acabou . E agora, o que faço  para passar o resto do tempo ? Pensei.   Vou até ao computador porque lá o tempo passa.   Passa, não, voa sem que me aperceba!    Escrevo até às quatro e vinte e cinco. Desligo tudo pois que são horas de  marchar .   Rodo a chave da ignição e logo a voz do Robert Plant se faz ouvir .   É disto mesmo que eu preciso. De uma voz de alguém tão desesperada quanto eu .   Até ao cruzamento da Industriestrasse com a Löwenstrasse , não vislumbro vivalma ,  nada nem ninguém . Está tudo a dormir . Gente, carros e animais.   Vindos lá do fundo junto ao lago surgem agora dois carros .   Foram os únicos que encontrei nesta   viagem .    O Robert Plant canta a canção ,   __ Since I´ve been Loving You __Desde que eu andei amando você __ .   E  desesperado diz que anda trabalhando das sete às onze , todas as noites . “Aguenta aí rapaz . Eu trabalho nessas e noutras . Trabalho nos malditos turnos que são a forma mais idiota e lenta de morrer . __Suicídio involuntário __. Diferente do voluntário que permite  decidir onde , quando ,e como  ir fazer tijolo” .   __Disse que tenho chorado / Minhas lágrimas caem como chuva /Você não ouve ,  você não as ouve cair?__     Continua ele lamentando-se .“ Mais uma vez te digo : __Aguenta aí rapaz porque não és o único nem serás o último “.     Isto faz-me lembrar de coisas e factos . Rebobino a cassete de outros tempos em que também já chorei lágrimas silenciosas em  teu cúmplice ombro.    Vou agora a passar junto ao ninho ou ao poiso ,( como lhe queres chamar ? )  Sim , é para ti que agora falo …   Como estás ? Há já tanto tempo ! Parabéns pelo teu silencio!   Dás-me um pouco da fórmula? Que tal , talvez um simples olá me baste … De sexo e amor todos precisam . Uns mais, outros menos . Uns assim , outros assado . Até as  moscas gostam !    Já ouvi o Leo Sayer a dizer : When I Need You __ “Quando eu preciso de você “.    Estás a ver ? ele também assume que precisa .            Os Inxs cantaram: I need you tonight. “ Eu preciso de ti esta noite “.   Estes são esquisitos preferem à noite !    Há tanta gente carente por isto , por aí a  berrar !    Só me lembro da Jane Birkin com a sua muito célebre canção  __  Je T´aime Moi Non Plus __ , que extasiada já com as medidas bem cheias , dizia : “ Eu te amo / Sim , sim eu te amo / Eu mais ainda / Ó meu amor / O amor físico é sem saída / Eu vou e eu venho / Por entre teu dorso / E eu me detenho / Não ! Agora ! Vem !”      Vêm-me à memória certos sons que até me fazem arrepiar !   “Can you remember,remember my name__    cantava o Ian Gillan na canção __Perfect Strangers__ “.   Eu faço minhas as suas palavras e acrescento mais isto que se segue, para te perguntar se por acaso ainda te lembras de algo meu? Dos traços do meu rosto, da cor dos meus olhos, do brilho da minha careca, do encanto do meu olhar esgazeado “ meio louco …,“ como tu o classificavas!   Ou as intempéries e a corrosão dos tempos já levaram tudo, envolto em poeira, na asa do vento?   Só para te atiçar os neurónios toma lá esta : __So long   / I´ve been looking too hard I´ve been waiting too long .  __  <<Por tanto tempo …/ Tenho procurado tanto ,estou esperando há tanto tempo …>>    Eram os Foreigner que diziam . Ainda te lembravas disto ?         Noutros tempos esperei uma rapariga como tu que viesse e entrasse em minha vida  . Encontrei…, encontrei-te, tu que vieste, tu que foste. Na Asa  do Vento                    Há muito , muito tempo !Partiste em silêncioSentada na asa do ventoNo desejo do momento . Sem  pena de mimLevaste o nosso amorE deixaste apenasO suave odorDas açucenasDaquele jardim. Sonho contigoPorque me fazes sofrer assim ?  Beijo-te sem te ter!Toco-te sem te ver!Suave sensaçãoTenho-te aqui na minha mão! Dá-me o teu calorDá-me o teu amorSuave sensaçãoTenho-te aqui no coração.         Queres saber uma coisa? Isto, um dia foi musicado e  saiu  uma  canção engraçada  .  Mas por causa de um “Maneger” da treta  , ainda hoje estou  esperando uma cópia . Azar o meu !   O Robert Plant acompanhou-me até à curva que tem o radar e dá inicio à recta do Jumbo .   Ele cala-se e outro se segue . Não me agrada, depressa lhe aperto o papo . Rei morto rei posto . Outra voz se faz ouvir .    Era mais uma voz ideal para o momento .    Agora sim, esta sim, esta vai ser a cereja em cima do bolo deste meu festim, __ pensei.     São os Righteous Brothers com a sua Unchained Melody que alguns traduzem como: __”Melodia do Desespero”. Outros chamam-lhe de: __ “Canção Desacorrentada”.    Seja como seja, assim como assim, o cantor realmente grita desesperado. E com garra desenfreada canta: __Meu amor , minha querida / Eu tenho ansiado por seu toque / Um longo tempo solitário ./ E o tempo passa , tão lentamente / E o tempo pode fazer tanto/  Rios solitários flúem  para o mar , para o mar , / Para os braços abertos do mar . / __        Etc, etc, e etc. Mas como estou a chegar à fábrica mais não te digo . Excepto : Se puderes , passa bem e sê feliz .                Estou já na fábrica . Espreguiço-me . Que bom! Talvez assim afugente esta preguiça e arranje algum apetite para o trabalho que me espera e me acompanhará manhã fora até ao meio-dia .   Pelo corredor vem a chegar   a minha colega Marta .    Ela que , quando passa , com  a sua simpatia , a todos fala e a todos encanta com o ar da sua graça . Depois , na grua onde trabalha , de lá de cima , repimpada na sua cabine, com a autoridade de quem está por cima , tudo e todos domina .__Bom dia , Carmindo .  __Bom dia Marta, __ respondo.__Que é isso ? A espreguiçar-se ?!  Parece mal !__Parece mal dizem as más-línguas! Mas alivia!    É preguiça e mal do dono digo eu em jeito de brincadeira .__ Se você soubesse o que me aconteceu …__ Agora , já hoje ? Pergunto reparando nas horas .__ Agora , agora não , mas há um bocado quando vinha sair de minha casa para vir trabalhar encontro ao fundo das escadas a minha vizinha , uma senhora já muito velhota em cuecas …__Em cuecas e morta ? Pergunto eu interrompendo-a e antecipando para o acontecido um fim sangrento, trágico, logo e tão rápido imaginado. “Mas porque será que a gente só  vibra com sangue e cenas maquiavélicas e mórbidas ?” São influências dos noticiários,  sensacionalistas , de muita violência impregnados , por uma certa imprensa  sedenta de impacto para fazer subir as audiências . __Não , credo ! Que coisa  você   havia de imaginar .Estava muito assustada porque não tinha luz em casa e pediu-me para a ajudar . __Se tinha assim tanto medo , que se enfiasse na cama e se tapasse , orelhas e tudo , e esperasse pela manhã .Bastava deixar o nariz de fora como eu fazia em pequeno quando tinha medo , ( realmente de velho se torna a menino ) !     __Coitada da senhora ! Estava tão assustada ! __ Diz a Marta com um ar realmente dorido .     À pressa lá fui à cave ver os fusíveis e voltei acima a minha casa buscar uns que para lá tinha que me pareceram iguais .   Meti-os mas não deram luz .__Também fundiram , quer você dizer . Pois claro !  Se calhar não eram mesmo iguais , sentenciei .__Eram do mesmo tamanho , diz ela admirada por a sua acção não ter resultado .__São daqueles de porcelana de enroscar ?__Sim desses mesmos . __Pois até serão , pelo menos fisicamente, senão nem sequer enroscavam , mas há que ter em conta a amperagem .   Em cada aparelho , até numa simples lâmpada existem    consumos diferentes . Por isso há que ver bem a referência  neles inscritos .    O relógio tocou e interrompeu aquela aula matinal de electricidade . Que raio! Àquela hora com tanto mais importante para fazer !   O relógio tocou e determinou : toca a trabalhar, não há escolha nem alternativas para ninguém , eu é que mando.   E pronto lá fomos , como meninos obedientes vergar a mola  até ao meio-dia .   Chego a casa e de pronto pergunto à  minha mulher .__Há algo importante a tratar ? Não ? Ainda bem ! Vou já fundear no mar dos lençóis carregar as baterias .      Já sei ,  não digas o que dizes sempre .” Só pensas em dormir “. Mas que porra !É sempre igual , quando  vou dormir é para compensar a descarga da véspera . Ando sempre descompensado .   A partir deste momento estou incontactável . Despertar-me , só para caso de vida ou de morte , quanto ao  resto , nada para ninguém . Estes malditos turnos aos poucos matam-me , digo-lhe.   Depois da sesta,  já retemperado , ligo o computador e fico lixado ao constatar que tudo aquilo que tinha escrito com a pressa  de ir trabalhar não devo ter memorizado e foi tudo pró caraças . Que grande merda ! Com isso, fiquei  muito chateado e com a tarde estragada.     Vou ter de remexer no caixote para ver do que me lembro . O pior é que muita coisa não me vou lembrar com certeza . Muita coisa vai sair diferente. Melhor ? Pior ? Igual não sairá certamente .    Ainda por cima escrevo só com um dedo . Que trabalheira !  Agora reparo que muita vez me lamento do trabalho e dos turnos. Quem me leu até aqui e nisso reparou, certamente pensará : “que grande  moinante  que não gosta de trabalhar!”Mas não é nada disso. O que se passa é que não gosto do que faço, e pronto.A minha grande paixão é a electrónica. Ainda me lembro como ficava embasbacado a olhar para a televisão, admirado e a pensar, a tentar adivinhar como era que aquelas imagens de pessoas e bichos saíam daquele grande caixote.Logo que cheguei a Lisboa inscrevi-me num curso por correspondência e para isso o meu pai teve que me dar a emancipação, ou seja, passei a ser de maioridade antes do tempo normal.Nessa altura eu morava na camarata do hospital e devido a não ter um espaço meu para estudar à vontade, não consegui concluir o curso. Às vezes, acontecia que algum colega que tinha visto luz, por baixo da porta, aproximava-se e ao ver que eu estava tentando estudar dizia: __Pronto então até logo.__Espera aí, aonde vais?__Olha vou ao baile dos bombeiros, vinha ver se querias ir mas como estás entretido, deixa para lá.__ Deixa para lá não, espera um pouco que também vou.Eu era um rapaz “afogueado” também gostava da rambóia! Assim era muito difícil acabar os estudos.Mais tarde já na Marinha consegui entrar para electricidade.Aí, eu só com a minha quarta classe mas com base nos conhecimentos adquiridos na frequência do tal curso dei cartas a muitos que tinham mais habilitações durante a maior parte do curso. Cheguei a ser o explicador de serviço. Tirei vários dezoitos e só não “cheirei” algum vinte porque o próprio professor me chegou a dizer que nunca deu vinte a ninguém porque isso seria cem por cento e cem por cento não há em nada, nem na pureza de uma gota de água. Mais tarde quando apanhámos pela frente matemática e álgebra aí eu vi-me à rasca, aí a porca torceu o rabo, mas aqueles a quem eu tinha ajudado, retribuíram e ajudaram-me.     E o bichinho continuou a roer!Logo assim que saí soube que havia uma escola ao vivo na Amadora. Sem demora inscrevi-me. E aí a cena da entre ajuda repetiu-se. Dessa vez acabei. E então já colado à minha banquinha da reparação eu perdia-me no tempo. A minha mulher, para comer, chamava-me várias vezes. E eu ali entretido, a mexer nas tripas das televisões e dos rádios nem sentia fome. Porque tinha os olhos e a barriga prenhes de felicidade. Por isso repito nunca fui calão.Felizes daqueles que conseguem alcançar como profissão o que sempre sonharam.   Já agora acrescento que não consegui fazer disso profissão nem como empregado nem por conta própria porque não tinha carro e tinha que andar quilómetros com as Tvs. às costas a ter que parar muitas vezes pelo caminho e ainda tinha a mala da ferramenta para transportar.O dinheiro era pouco não tinha peças em stock, perdia dias de loja em loja, nos transportes públicos à procura de peças que por vezes estavam esgotadas e isso complicava muito o sistema, até porque o cliente esperava muito e privado das suas novelas desesperava. Assim tive que emigrar e me tornar num emigrante desiludido, torturado, desmotivado, etc.Enfim…Vida de pobre!  

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