Entra ou Sai

Janeiro 31, 2007

Para grandes males, grandes remédios

Filed under: POESIA — carva55 @ 6:56 pm

 

Para grandes males , grandes remédios .

Porque os cérebros enferrujam 

Os corações arrefecem 

A palavra falada

Voa na asa do vento

E  passa ao esquecimento 

Existe a palavra escrita

Que heroicamente resiste

À intempérie

E à corrosão do tempo . 

Lagoa da Albufeira , julho de 2000

Janeiro 30, 2007

Filed under: Ratadas — carva55 @ 7:16 pm

                                          1

Desculpem lá qualquer coisinha. Não, retiro essa coisa, escrevi-a apenas só para vos poder dizer que não aceito pedir desculpa por aquilo que a cada momento tenho dito e porventura venha a dizer. Digo, porque acho que devo dizer, porque me apetece, e pronto. Muito menos ter de pagar para aqueles programas televisivos de debate a que chamam de opinião pública. Pagar para opinar? Para quê? Para pagar o ordenado do apresentador ou do especialista na matéria convidado para nos explicar e que nada explica nem justifica porque simplesmente, para mim, mais não representa que, tão e somente apenas mais uma opinião que respeito como a todas as outras com o mesmo respeito que quero para a minha? Ou será uma forma que os governantes arranjaram para compensar os tubarões das comunicações do prejuízo que tiveram com a proliferação das novas tecnologias das comunicações?

Não sei. Sei sim que é mais uma forma de sacarem dinheiro aos incautos

                                                             2

QUERCOS. Que coisa é essa? Dizem que é uma associação portuguesa para a defesa do ambiente.Diariamente, através da Tv., impingem-nos uma coisa a que chamam de minuto verde. É uma treta que eles arranjaram para educarem os gentios. Bem sei que esses são a maioria e que sendo bem treinados fazem a diferença, mas, porquê será que ainda não vi coisas dessas dirigidas à outra parte da população, àqueles que, só um, esbanja por um cento?!  

Água da rega dos jardins. “ Na mangueira ou no regador pegue assim ou assado, se regar à hora tal poupa mais.” E então os campos de golfe? Claro que isso é outra loiça pertence à outra parte e faz falta para o turismo do “pé calçado.” Mas que gasta muita água para “encher tantos buracos “, ai gasta, gasta!

E os tapetes verdes dos campos de futebol? Que acabem já:

Todos a jogarem uma peladinha no areão dos campos carecas. Tapetes só dos outros e prós pés e pronto. 

“Tome duche em vez do banho de banheira.” Muito bem. E então que dizer das piscinas?!

“Evitar deixar acesas as luzinhas pilotos, __ do standbey __, receptoras dos comandos, dos electrodomésticos, que os mantém à espera de ordens.”

Muito mais há para dizer. encheriam um livro estes exemplos de domesticação das massas.

Fazem-me lembrar um anúncio que em tempos conspurcou a Tv. portuguesa.

“Pescada regada com cerveja sagres, sabe a lagosta “

E aquelas coisas apregoadas pela religião que dizem que: “É mais fácil um elefante passar pelo buraco de uma agulha, que um rico passar pela porta do céu.”

Ou então: __ ”Abençoados os pobres e os sofredores que deles será o reino do céu.”

Palavras para quê? 

                                                       

                                                        3

 Mais um natal que chegou cheio de luzinhas! São casas, árvores etc. forradas a luz!

Este ano os “manda-chuva” da Madeira gastaram um dinheirão de mais de um milhão no fogo de artificio de fim de ano. Por ser único, grandioso e lindo de se ver, __ouvi dizer, já entrou para o livro dos recordes. O tal, __Guinness Book__. “Que foi bom para fomentar o turismo,” __ disseram algumas vozes.

Ainda bem! Aleluia! __digo eu. Talvez seja agora que essas coisas a que chamam de holdings ou lá o que são, do turismo, e não só, essas tais paponas que nunca estão satisfeitas, talvez agora obedeçam à voz das consciências perturbadas que por certo de vez em quando também ouvirão, e distribuam uma parte dos rendimentos pelas gentes, e que assim mais aconchegados não sejam obrigados a fugir para a emigração

                                                             

                                                              4

Há muitos meses que iniciei a leitura do livro do desassossego cuja obra foi atribuída ao Bernardo Soares, Heterónimo do Fernando Pessoa e que por isso ao seu acervo foi incluída.

Nos entretantos já li muitos mais. Mas este tenho-o lido lentamente, saboreando-o letra a letra, com olhos de ler. Com os mesmos olhos que noutras ocasiões, uso como olhos, __ de apenas ver.

                                                              5

Dizem que há uma máquina, chamada de, __ máquina do tempo__, que nos transporta até ao passado, ou, de avanço, nos leva para o Futuro.

Oh! Máquina milagrosa… __ vem e leva-me até ao tempo em que ao meu pai lhe bastava arregalar os olhos para manter sobe controle e na boa linha os seus sete filhos.

Ás vezes também chegou a ripar do cinto. Já me esquecia de dizer…

                       

                                                              6

Prendas! Recuso dar prendas em datas inventadas pelo comércio.

Ele é o dia do pai, da mãe, dos namorados, aniversário do dia de nascido e de casado, do primeiro beijo, do natal e do fim de ano.

Que mais irão inventar?

A minha mulher diz-me que não gosto dela porque não lhe dou prendas.

Pois, alguns dão muitas! E levam-lhes bolachinhas à cama como ouvi ontem uma na televisão a dizer que o seu homem lhe levava.

Levava, já não leva! Pirou-se numa onda de bem bom!

Tudo isso é muito carinhoso! Muito romântico! E vós gostais pois então! Só que depois, é com vaso e tudo! Talvez para não estragarem a planta?! É porrada nos cornos , ou cornos na porrada que vai dar ao mesmo .

 

                                                              7

Viva o luxo! Os miúdos de hoje já escolhem e às vezes exigem o que querem receber de prenda.   

“Prenda é o que damos de espontânea vontade e não o que nos seja exigido”__ Penso eu.

E ai do pai natal que se atreva a trazer luzinhas e sirenes. Isso já lá vai! Agora é só, __Motinhas, Helicópteros, Pcs., Consolas, etc., e este etc. quer dizer daí para cima!

                                                             8

Janeiro, de dois mil e sete. O Ministro da saúde do Governo de Portugal, mandou instalar umas maquinetas para que os médicos “assinem” o ponto por reconhecimento digital do dedo do próprio. Gerou-se logo um burburinho tal, que ainda vai no adro e tendo em conta as ameaças de medidas drásticas que os tais proferiram, ainda vai dar muito que falar.

Está circulando um rumor que diz que:

__ Como os médicos escrevem tal mal, o Ministro não entendia o que lia no velho sistema do livro de ponto.

Ficava tão confuso com os rabiscos que lá encontrava escarrapachados, que ficava sem saber se eram assinaturas do respectivo ponto, ou se eram recados deixados na véspera, ao “fiscalizador” do dia seguinte. Coisas do género:

“ Aguenta aí que já venho“

“ Olha, vou ali e já volto”

“ É pá, aguenta isso aí que hoje vou chegar um nadinha mais tarde”

                                                          9

Hoje, a minha querida e acutilante, revista Visão traz-me uma coisa engraçada.

Mostra os exemplos de pessoas que nasceram em berços de “pau duro e frio “, e que com muito trabalho, persistência e sacrifício, conseguiram se formar superiormente. Foi um que trabalhou à jorna e chegou a Ministro. Mas o mais impressionante é o exemplo de um outro que de pastor de vacas, estudando à noite, chegou a médico!

Levantava-se cedo. Ia de égua, (que até era cega de um olho e do outro para lá caminhava, porque com esse também pouco enxergava), ia repito, montado na dita cuja, e aproveitava o tempo que gastava nessa longas viagens até às pastagens para estudar. Imaginemo-nos em cima duma cavalgadura a baloiçar, (sim que não é coisa de bólide caro com boa suspensão nem coisa de avião), com os olhos ora para a esquerda, ora para a direita ao ritmo da batida dos cascos da coitada. Depois de executada esta difícil tarefa ainda tinha que mungir duas vezes, (pela manhã e pela tarde) uns bons pares de vacas.

Um outro levantava-se cedo, três e tal da matina, cuidava da padaria do pai e também estudou de noite.

A estes sim, se o usasse tiraria o meu chapéu, Estes merecem tudo aquilo que têm.

Agora, há por aí uns rapazecos que se arrastam pelos corredores das escolas derreados com o peso dos livros que contrariados passeiam. A gastarem a mesada do velho! E a matutarem qual a melhor canção do bandido, qual será a que melhor levará o velhote à certa para ver se conseguem mais uns trocados. “Porque a “bomba” precisa de pneus novos. E há ainda que contar com os “drinks” e os “drunfes” da noitada.”

Estes, a meu ver, são uns parasitas que não merecem a água que bebem. Digam-me o que disserem, quero lá saber?! Está dito, está dito e pronto, ponto final. 

                                               

Janeiro 29, 2007

BIBLIOGRAFIA

Filed under: Bibliografia — carva55 @ 6:32 pm

                                              Bibliografia

Entre o Ter e o Querer, Editorial Minerva 2000

Entre os Quês e os Porquês, Editorial Minerva 2002

 Mensageiro da poesia Volume I __ Associação Cultural Poética __Antologia Poética __ Vários autores __ 2000

Mensageiro, Volume II 2003 

 Mensageiro, Volume III 2004 

Da Outra Margem _Antologia Poética de autores da Diáspora residentes em vários países e continentes. Edição Instituto Camões. Lançada em Genebra aquando da feira internacional do livro e da imprensa, em 2001  Elos da Poesia _ Colectânea de poemas de autores de língua Portuguesa, recolha feita na NET pelo Grupo _ Elos da Poesia _. Lançado em Lisboa e em vários locais no Brasil . 

Ecos da Poesia __ Grupo da Net _Ecos da Poesia _. Autores vários, lançado em Lisboa e Brasil. Dois povos um destino __ do grupo da Net __ECOS da POESIA__ Lançado em Lisboa e Brasil .  

( A caminho estão: ELOS da POESIA Volume II  __Dois Povos Um Destino__ 

Terceiro livro individual   de Poesia __ Entre Ondas de Ar e Amar _  , a editar pela ABRALI, BRASIL.    Quarto livro individual ,  Entre Uis e Ais e Outras Coisas Mais __Grande salada contendo :  __Crónica , Diário, Prosa poética , Romance etc.__ )

 

Sábado manhoso

Filed under: Conto — carva55 @ 6:22 pm

Hoje é sábado. Fui engatado para trabalhar e é bem claro fui entalado.Prevejo pouco que fazer. Confirma-se, está tudo feito. Sento-me e espero que a máquina me peça mais chapa para engolir.Agarro no jornal __O Crime__ que o meu sócio da assinatura da revista Visão me deixou.Passo os olhos por aquela grande quantidade de crimes.É um tio tresloucado que matou a sobrinha à machadada.É um que estrangulou a jovem amante ainda adolescente.Leio pouco de cada, só as gordas. Para quê, ler mais? Para entender as razões de tais crimes? Insanidades? Razões? Por vezes há razões que a própria razão desconhece! Mas nada justifica ou explica tais crimes.A Visão desta semana vem muito oca. Ela é páginas e mais páginas do Papa.Não me interessa. Bastou aquela grande seca que a Tv. nos espetou. Que aliás, à qual, também resisti o mais possível, mas sei que foi grande, era Papa a toda a hora durante vários dias. Que grande Papada!                                                                                    Traz também comentários sobre o vinte e cinco de Abril de alguns célebres intervenientes do antes e do depois. Para quê saber isto? É claro que tem o seu valor histórico mas mais interessante seria saber isto no dado momento em que os factos aconteceram.   

No corredor passa agora um colega Suíço. Esquelético, encurvado. É muito engraçado. Todos os anos paga os impostos com prisão efectiva. De dia trabalha e à noite vai dormir à prisão.Olha que giro! Pensei.Em tempos, quando disto tive conhecimento, cheguei a ponderar fazer o mesmo. Um dia, em casa, falei disto à minha mulher.“Cruzes! Credo! Canhoto! Que vergonha”. __Diz ela toda encrespada.Antes que ela morresse de vergonha e de susto desisti.E lá continuei, parvo, domesticado, atempadamente a pagar os impostos. É sempre igual. Durante uns tempos ando zangado com tudo e todos devido à avultada soma que me presenteiam, mas como de nada serve, acabo por me acalmar e esquecer, até à próxima fornada.Mas que seria um dinheirito bem poupadito seria. Sempre seriam uns dez mil Euros anuais. 

Chega-me uma soneira do caraças! Vou até ao parque de estacionamento apanhar ar fresco.Está sol. Para hoje dão vinte e seis graus. Aqui nesta terra onde ainda há poucos dias fez frio e nevou, acontecem estas mudanças bruscas que nos põem a todos marados da tola.É por estas e por outras que os Suíços nascem sem certificado de garantia de qualidade! E nós os estrangeiros, após uns anitos também ficamos apanhados, chanfrados e estragados.Um dia, logo após a minha chegada, um colega jugoslavo disse-me:“Carvalho, estes são malucos e instáveis como o tempo. E tu, daqui a uns anos estás igual ou pior que eles. Pira-te daqui logo que te seja possível, o mais rápido que puderes”. Mais tarde, vi o quanto ele estava certo, e não foi preciso esperar muito. Não só pelo tempo, mas por esta sociedade que caminha a um ritmo acelerado, stressante ao máximo, com os chefes de grupo e os de turno escolhidos a dedo, quanto mais parvos e atrasados, melhor.São mais facilmente domáveis, pois que mais não precisam de saber, que lamber as botas, fazer o serviço de uma boa reportagem diária, e apenas rodar os botões, (até uma criança faz isso!), para que em nome da produção, do combate sem limites à concorrência, acelerem as máquinas e ponham as pessoas a correr atrás delas feitos robôs. Por um punhado de tostões, esfarrapam-se e vendem-se ao diabo se necessário for. (Até a alma! Se é que existe, __ essa coisa em que alguns acreditam).   E assim fazem toneladas de material que vai logo ali para o lixo e outras tantas que noutros tempos seriam também rejeitadas. Mas agora, o que é preciso é produzir, produzir, produzir! A cada dia que passa, mais se vê que o tempo do célebre certificado de qualidade Suíço já lá vai.                                                                                                 Lá diz o velho ditado: __ Depressa e bem não há quem __. E o povo com a sua velha sabedoria é que sabe.Mas que importa? O que está em moda, é isso: __Produzir, produzir__, explorar os povos, torturá-los sem contemplações, fazer render o mais possível o peixe.Nestes quinze anos e tal já conheci uma dúzia de directores e afins. É um rodopio. Uns que entram porque outros saíram.Saíram, mas deixaram uma montanha de excrementos.Foi um que chegou a pôr as pessoas a comer a bucha com uma mão enquanto trabalhava com a outra.Outro reduziu o número de elementos em cada sector. Foi um que encomendou serviço de especialistas que de relógio em punho controlavam as pessoas e os tempos gastos na execução das várias tarefas. Este ano já instalaram câmaras de vídeo, fizeram filmes para ver onde poderiam picar mais um pouco as pessoas, (que já andam picadas demais), fazê-las correr como loucas atrás das máquinas e assim ganharem algum tempo. Sem contarem com tempo para as necessidades básicas que um ser humano precisa e que para as quais não pode encarregar ninguém. E ainda bem. Porque assim eles têm que fazer as suas. Pelo menos isso. Não podem exigir que alguém as faça por eles. Se forem mal cheirosas terão que as suportar. Nisso há igualdade. Nisso e na morte. Acabam por também ir. Mais tarde ou mais cedo chega a vez a todos.   Tudo isto em nome da luta anti concorrência, da produtividade, do rendimento desmesurado, que encha os bolsos dos accionistas e lhes alimente a gula descarada e selvagem.   Com uma ganância desmesurada dividem os lucros entre eles, os do capital. Aos outros que são quem geram riqueza dão as côdeas e os ossos.Ainda chegará o dia em que, como lhes pagam tão mal, as pessoas não terão dinheiro para lhes comprar nada. Nem sequer a merda, que as suas fábricas cagarão. Hão-de eles mesmos comer essa merda, cada vez mais barata, menos duradoira mas mais merdosa!     Chegam em poderosos grupos as tais chamadas de__ Holdings.Escudados nos factores__ investimento e criação de emprego__, propõem-se a criar postos de trabalho. Jogam com o dinheiro da banca e quando dá para o torto deixam-na a berrar.Mas, como são todos a mesma cambada, lá temperam a caldeirada, comem-na e cagam-na.Recebem benesses imediatas dos governos, bonificações diversas, reduções tributárias, etc. e quando tudo está chupado levantam a tenda. E é vê-los irem para outro lado à boa maneira do que foi moda na antiga América, irem à procura das terras douradas. Onde os governos ainda se deixem enganar e os gentios se deixem explorar, torturar, e chupar.Este estado dolente conduz-me a uma esquisita desmotivação e recorda-me o que em tempos escrevi: 

Chove! Chove !Há tanto tempo que chove! 

Que silêncio! Que monotonia!Nem uma folha mexe, nem um carro passaNem um pássaro esvoaça. 

                                    Sempre este tempoCinzento húmido e chatoQue me deixa dolente, amorfo. 

                           Que silêncio! Que monotonia!Eis-me aqui, apenas e só mais um Zé neste país da chuvaMiúda e chata. 

Chove! Chove! Há tanto tempo que chove! 

Penso, que não é com torturas, perseguições, exigências desmesuradas, que se aumenta a produção.Penso que melhor seria se esses gulosos refreassem a gula e procedessem a uma partilha mais justa das riquezas mundiais.Porque o trabalhador produz mais se, se sentir acarinhado e visto como pessoa que é e não como peça da engrenagem que muitos pensão que são.À pausa, um Italiano, um Albanês e um Jugoslavo jogam às cartas.Não se entendem.“Na minha terra é assim”.“Na minha é assado”, __diz um dos outros.Presenciar isto, faz-me gostar cada vez mais do meu querido Xadrez. Esse pelo menos, como tem regras escritas, é igual em todo o mundo.  

Alguns destes e outros colegas, Já me perguntaram. “Isso que andas escrevendo que titulo lhe vais dar?”“ Que título lhe darei ?”__ Ainda não sei. Talvez:  Conversas de papel.  Remexendo no sótão dos esquecidos.   Tudo ao molho.  Entre Uis e Ais e Outras Coisas Mais.Ultimamente tenho pensado muito neste último. Mas não sei.   Diariamente há sempre algo que surge, algo que não está bem, algo que é obrigatoriamente retocado e logicamente surgem também várias possibilidades de título. É uma luta diária que só a entrega da safra à máquina, lhe põe fim.Mas isso do título não me preocupa muito, logo se verá.E a conversa ficou por aqui. Pois que havia que completar a jornada e lá fomos à vida. 

                                                               

    

Finalmente

Filed under: Conto — carva55 @ 6:20 pm

O sol está lindo! Doirado, morno, neste Outono.    De rua em rua esticando as pernas, sem pressa nenhuma, vou passeando.    Chego ao cruzamento que é quadrado, e que é usado pelos Italianos como sala de reuniões. Quem os quiser encontrar, não precisa de noutro sítio os procurar, ali certamente os vai encontrar.    Numa das esquinas viradas para a serra encontra-se o Migros, na outra a Coop.    Numa das esquinas viradas para o Lago está o espaço __que por mudar tanto de dono e de conteúdo, chamo -lhe de, __multiusos __.    Na outra está a Ex. Libris com os seu discos e afins, e o Kiosk onde muita gente sonha acertar na sorte.    Vou até ao Cuba Libre e enquanto rego a goela preencho o papelinho que me habilita ao grande jogo do, __Euro milhões. 

    Em frente à Tv. Preparo-me para controlar os números.    Sai o primeiro, certo. Sai o segundo, certo. Sai o terceiro, certo. Pronto já ganhei para a despesa! __Pensei.    Sai o quarto, certo. Sai o quinto, certo. É pá! Já me chega. Isto já dá muita massa!    É agora a vez de saírem os números correspondentes às bolas das estrelas.    Primeira, certo. Segunda, certo.     Até que enfim! Finalmente! Depois de tanto jogar! Depois de tanto sonhar, de olhos abertos, eis que aqui está!    Sei que eram muitos os milhões
em jogo. Calculo que muitos serão os que me vão tocar.
    Incrível! Estou calmo. Tenho ouvido dizer que muitos se passam da tola, mesmo ali no segundo seguinte.    Eu continuo são que nem um pêro.      “O Povo é sereno! Se dúvidas houvesse , esta era a prova ,  ó Carmindo . És do povo e estás sereno”.   

    Começo a fazer cálculos e planos para gastar tanta massa.    Quando a receber, vou alugar uma coisa que voe e de lá de cima, vou espalhar ao vento muitas notas.     Vou-me divertir ao ver aqui em baixo as pessoas na azáfama da apanha.     Alguns aproveitarão o que tiverem à mão, para apanharem mais quantidade.     Se chover vão ficar admirados: __Que é isto? Dinheiro na chuva?! Depressa todos pensarão em virar os guarda-chuvas ao contrário para guardarem mais.   Amanhã vou ligar para a Tv. a dizer que pago a cadeira de rodas àquela senhora que há dias lá esteve a pedi-la por caridade.    Que ajudo aquela que pedia apoio em nome do filho portador de doença rara. Mais aquele desempregado, de momento enrascado.   Sim, vou ajudar estes e muitos mais.   Vou mandar à fava, para as ortigas da outra banda todas as editoras sanguessugas, que contactei.   Vou editar os meus livros. E, de manhã vou para a porta da igreja, e de tarde para os supermercados dá-los a quem os quiser aceitar. Basta-me a promessa de que cuidarão bem deles. Já tenho pregão: “ Quem quer quentes e boas? Quentinhas! “   As pessoas irão parar e estupefactas irão perguntar:    “Aonde, elas estão? Que não as vejo!”   “ Tenho-as aqui nas minhas mãos, __tome ofereço-lhas. São palavras minha Senhora, só palavras”.   “Áh! Palavras! Dê-me meio quilo delas por favor “.   “Obrigado minha Senhora. Coma-as devagar como se fossem castanhas, quentes e boas”.   Penso que vou ter que mudar de ares para fugir aos amigos de ocasião. Os da “midia” não tardarão a descobrir e então…   Para onde hei-de ir? Talvez para o grande Brasil. Não é para lá que vai a gente que foge?    Para lá, já foi um padreco a fugir ao rótulo de badameco.Uma de nome Felgueiras para lá foi para se livrar das frieiras que lhe mordiam, como se não lhe bastasse já a dor de calos apertados.   Coitado de ti, __Ó Brasil, grande Brasil! __Tanto gostam da protecção da tua enorme asa.   Talvez devido à fama dos recentes mensalões e dos antes seculares portos de abrigo onde os maiores corruptos escondiam seus proventos de milhões.   Mas eu não irei fugido à justiça, apenas às melgas que não tardarão a rondar-me a porta.   Tantos milhões! Quantos francos? Quantos contos serão?    Também tu, ó pá!    Há tanto tempo após a entrada em vigor dos Euros, e ainda a pensar em contos?!    Em Francos, ainda vá lá. É a moeda corrente desse país onde te encontras e é normal que penses neles para poderes calcular os casarões, os carrões que agora podes comprar.  

   Acordo. Abro os olhos. A sesta de tarde de domingo acabou. Ora que porra! Afinal foi só um sonho. Um rico sonho, sonhado de olhos fechados.    Visto-me. Apalpo os bolsos e encontro uma nota de vinte francos.    Preparo-me para sair.  Aonde vais a esta hora? __Pergunta a minha mulher.  Vou dar uma volta ao __bilhar grande __, ao redondel do costume: à Caravela, ao Centro e à Casa do Benfica.    Vou comer uns caracóis e beber umas imperiais, para ver se esqueço este sonho.__Sonho, que sonho? __Deixa para lá, depois te conto.__Agora vou, mas venho depressa. Amanhã estou no turno da madrugada e é segunda-feira, maldita será como têm sido todas as outras!   Ainda por cima vou ter que continuar a trabalhar, teso como sempre, __resmungo, deveras muito chateado.    Espreito pela janela, e o sol lá está. Lindo, doirado e morno, __sol de Outono.     Valha-me isto, ao menos o sol é real. E aqui por estas terras é coisa rara. 

 

 

 

 

 

 

 

 

NA FÁBRICA

Filed under: Conto — carva55 @ 6:14 pm

Na fábrica tudo ginga sobre rodas. Ou melhor: até agora tudo gingou e a hora da pausa chegou. E isso, agora para mim é o mais importante.São horas de carregar baterias. Vou até ao parque de estacionamento, para merendar algo e sobretudo apanhar um pouco de ar fresco e puro.O pão está salgado. Esmigalho um pouco e deito as migalhas para o chão tendo o cuidado de as atirar para sítio onde os carros ao passar não as estraguem e os pardais meus amigos por quem espero, (porque é habitual virem), as possam comer mais tarde se acharem por bem. Não me preocupo com o facto de estarem salgadas pois que para beber, têm muita água no lago.Para beber eu tenho uma garrafa de, panaché__.É uma mistura de cerveja com limão, __sem álcool como mandam as regras.Um dia o Betriebe Leiter, __ chefe, ou responsável pela produção __, quando ao fim da jornada se aproximava do carro para se ir embora até ao Cantão de Zurique onde tinha residência, (a acreditar pela matricula do carro), olhou e vi bem que olhou com olhos de ver bem e deve ter pensado que eu estava a beber cerveja com álcool porque a cor da garrafa, habitual nessas garrafas é escura sem diferença entre a que tem e a que não tem.       E eu a topar e a pensar: “Ele vai dizer: __Sr. Carvalho, não sabe que o álcool é proibido?”__. “ Veja bem que está enganado, olhe e veja bem que é sem álcool. Vem cá vem que levas troco. Vem cá vem que vens de carrinho e vais de patins! “ __ Dir-lhe-ei.Mas não, não veio. E isso é muito mau porque esta gente na maior parte das vezes, não sei bem porquê, talvez por cobardia, não avançam e depois encarregam os subalternos de darem a cachaporra nos desgraçados. Já na tropa era e com certeza que é e continuará a ser assim: por ordem hierárquica, __do Oficial para o Sargento, do Sargento para o Cabo, do Cabo para o Soldado e do soldado para o cão, (quando e onde os há). E fica por aí, porque o desgraçado do cão não tem em quem descarregar.Mas não veio e deixou-me sem possibilidade de lhe espetar a chapada sem mão que tinha preparada e seria por certo muito saborosa.Lembro-me do meu amigo Margarido, o Italiano que se reformou há já muito tempo. Havia apenas uns dias que eu tinha chegado à fábrica e um belo dia encontro no chão do vestiário um crucifixo, por sinal bem grande e pesado.Fui até ao escritório e entreguei-o.Passados uns minutos, ele mesmo veio agradecer-me o feito.Ficou muito contente e disse-me que era uma velha prenda da mulher e que para alem de ele, também ela iria ficar muito triste com aquela perda. Assim, ficou muito agradecido e de vez em quando repetia esse episódio aos recém chegados.“O Carvalho é uma pessoa em quem se pode confiar”.E lá vinha o resto do episódio, igual e repetido Diga-se de passagem que isso me deixava num estado muito elevado de satisfação, talvez até de vaidade. Mas que importa? Quem não é, nem que seja um pouco?     Mas falo dele aqui e agora porque me lembrei que ele muitas vezes trouxe para a merenda duas servelas. Uma para ele e outra para um raposo.Digo raposo porque tenho que o classificar, ainda que nunca lhe tenha visto o escrito, o chamado bilhete de identidade.Mas isso não importa porque também se diz anjinhos sem saber ao certo se são uns ou umas. Se são anjos ou anjinhas. Sim porque não? Essa coisa só haverá no masculino? E isso ao ser pensado assim, não será mais um caso de puro machismo?Eu sou homem e defendo os da minha “Bandeira”mas não posso usar tais tratamentos. Até porque tenho três filhas e já tive uma gata e agora tenho outra e porque nada tenho contra nem nada a opor contra o sexo oposto.  Que raio! Lá estou eu a desviar-me deste relato.Dizia eu que ele trazia as ditas servelas, colocava uma no chão do parque de estacionamento, lá no meio, voltava e esperava.O raposo aproximava-se, pegava-lhe e afastava-se.Afastava-se, mas sem nunca se esquecer de olhar para trás.Talvez a dizer, (sim porque com os olhos se diz e se pode dizer muita coisa), __ adeus amigo, muito obrigado e até amanhã.Aquela coisa conhecida por servela, é um enchido que tem dentro uma carne que foi triturada e ficou toda da mesma cor e sem nervos nem ossos. Só aqui é que eu conheci aquela coisa. Custou-me muito a habituar-me, porque estava habituado aos nossos enchidos, os famosos fumeiros, bem temperados. Finalmente chegam os meus amigos pardais. E eu a pensar que desta vez não vinham.Mas vieram e ainda bem porque estava a ficar preocupado.Pé, ante pé, se vão aproximando. Alguns muito tímidos ou mais receosos ficavam para trás. Um mais afoito vêm até mais perto, apanham umas migalhas e vão colocá-las debaixo de carros, para que os outros se sirvam, democraticamente, sem atritos. Voltam e dizem qualquer coisa, (para mim indecifrável), mas que entre eles funciona.Pudera! Nunca a mãe natureza me ensinou a forma de descodificar ou interpretar tal linguagem.Mas há momentos em que nos entendemos. E isto acontece com todos os mortais. Sim porque os mortos, esses é que já não comunicam de forma nenhuma. Penso eu de quê.Momentos esses, em que um gesto feito e entendido no momento certo, vale por mil palavras e por mil imagens. Um mais afoito diz qualquer coisa que eu interpreto por:       “Vinde, não há perigo. Este conheço-o bem. Este é de boa cepa. Esta é boa rês “. Esses tais sinais ditos ou feitos levava os mais tímidos a arrimarem-se.Mas, antes, também eles diziam de sua justiça.E eu deduzo:  “Estão a dizer que nunca é de fiar. Que ouviram dizer que lá para os lados de entremeios de Rorschach e Goldach há umas hortas onde uns primos há uns dias foram surpreendidos e apanhados em armadilhas às quais não conseguiram escapar.E foram temperar umas paparocas de uns humanos gulosos e sem escrúpulos”. Se foi isso que estavam a dizer, sei bem que tinham razão.Já há muito tempo que sei que vi e ouvi tais coisas.O relógio tocou. Esse maldito relógio que só é bom e lindo quando toca a hora de saída. Aí sim! Aí é lindo para mim e para quase todos os outros! Uns assobiam, outros até cantam!Mas há alguns que por certo isso não lhes agrada. Porque só vêem e vivem para a fábrica. Chegam cedo. Com trinta ou quarenta minutos de antecedência e me deixam a matutar:    Mas será que esta gente não tem família? Será que esta gente não sabe fazer mais nada senão trabalhar? Será que não têm mais nada que fazer? Será que casaram com o trabalho? Será que eles são os sãos e eu o maluco? Será que são melhores trabalhadores? Mas como, se eu faço o meu trabalho e ninguém o faz por mim?  O relógio tocou, disse eu. E lá vou vergar a mola mais um pouco para que o patrão não se queixe.  Mas antes, seguindo o exemplo do raposo digo aos meus amigos pardais:Adeus amigos, até amanhã, passai bem e tende cuidado. 

 

 

 

      

FINAL DE FÉRIAS

Filed under: Conto — carva55 @ 6:04 pm

São quatro e trinta e três da madrugada de sábado, cinco de Agosto de dois mil seis.      As férias estão chegando ao fim. Estas férias de que já vos falei, que me levaram a esta clausura forçada pelo desejo de poupança, para combater esta actual “tesura”, com o intuito de poupar uns trocos para investir no meu futuro livro o qual já está sendo confeccionado.    Acabei de ver na Tv., o filme, __Os olhos da Serpente __.    Estou agora sentado na sanita a aliviar a tripa. São horas impróprias para tal coisa, mas podia ser diferente melhor ou pior. Há tanta coisa que podia estar a fazer neste momento.    A dormir, como neste momento dormem: a minha mulher, a minha filha, a minha gata, os meus pássaros e peixes.   Ou então a dar uma valente cambalhota.    Mas não. É isto que estou a fazer, foi isto que calhou e foi isto que teve que ser, e o que tem que ser, tem muita força!E ainda por cima é coisa que não podemos delegar em ninguém. Descarrego esta momentânea frustração na ideia caricata que me surge ao largar a parte mais pesada da carga:“Vai chourição, vai por aí abaixo por canos, manilhas até à estação de tratamentos que dizem que existe ali
em baixo. O que restar de ti, (a todas as prensagens, a todas as torturas, resta sempre alguma coisa), nem que seja só uma minúscula partícula, pequenina como uma molécula ou um átomo. Vai, sê corajoso e vai à aventura. Segue o exemplo do que até há pouco, era o teu dono e de quem há pouco saíste.
   Depois da estação, vais entrar no estuário do Rio Reno a que chamam de: __ Lago de Konstanz __. ou __ Bodensee__ Vais viajar. Se ainda tiveres tempo volta-te um pouco para o lado direito e vai dizer adeus à gente da Áustria.    Depois vais passar pela Alemanha, França e só lá para os lados da Holanda é que vais entrar no Mar do Norte.   Vai e diz de tua justiça.    Eiah! que Pena! Agora já é tarde.   Pena porque a exemplo daquelas mensagens que se mandam em garrafas atiradas ao mar e vão mundo fora, também agora poderia e deveria ter-te enfiado num canudo ou garrafa depois de em ti escrever uma mensagem, para todos aqueles parasitas:Para o ministério da cultura, em cujo poleiro se encontra agora montada, uma ministra que só tem olhos para as elites. E também para o primeiro-ministro que nela manda.    Aos editores sanguessugas que só apostam em nomes sonantes que eles mesmos e aquela coisa a que chamam de marketing, promovem.   Aos do lote desta qualidade, a todos, na minha mensagem mandaria para a outra banda. Só isto, para, por educação, não os mandar para a outra coisa.  São agora quatro e quarenta e quatro. Vou esticar estes ossos. Vou fundear no mar dos lençóis. __Penso. E fui.  Ao puxar o lençol para as orelhas pensei ainda. “ Que se lixem, que vão todos pró caraças, que comam e rebentem como um balão”. Tenho dito e continuarei a dizer enquanto isto continuar, enquanto não vier algum degenerado desta súcia, alguém com coragem para isto mudar.       

 

 

 

 

REMEXENDO NO SÓTÃO DOS ESQUECIDOS

Filed under: Conto — carva55 @ 5:51 pm

Hoje é segunda-feira, dia 24 de Abril de 2006.  Fui trabalhar. Foi mais uma daquelas malditas segundas-feiras, que valem por toda a semana. Os sacanas dos ponteiros do relógio pareceu-me que de propósito não se mexiam. E quando assim acontece um segundo equivale a uma eternidade. O trabalho, o tipo de tubos que estávamos fazendo era do tipo puxa e empurra, ou seja: a máquina caminhava devagar e quando isso acontece nem sei como passar o tempo.Se vou rondar, arrastar os pés pelos corredores, há sempre alguém que pensa que não faço nada, que cheguei à América e encontrei o melhor local de trabalho. São vivas à fama da América.Mas nem sempre é assim. Quando algo não corre bem, ou com outro material, é um stress! Que nem tenho tempo para arrear o calhau. Só se for diarreia. Aí sim, que se lixe! Não posso meter uma rolha. Lá vou como outros vão, que bem os vejo a passar no corredor em passo acelerado para fazer o servicinho. E é daqueles que não posso mandar ninguém fazê-lo por mim.Há já uns tempos que ouvi no telejornal que em Portugal, em algumas firmas colocaram nas casas de banho fechaduras com sistemas de controlo de tempo. O empregado tinha onze minutos por mês.Logo que fossem esgotados, não podia entrar. E eu ri à gargalhada. “O quê?! Onze minutos! Para mim nem para um dia me chegariam”.Há outras formas, em outras coisas, de ganhar tempo e produtividade. Estou a chegar a uma fase em que se estão conjugando vários factores no sentido de que, se aqui, um dia me quiserem impor tal coisa, cago num balde. Se for pró mole basta assim, senão, junto água, mexo e enfio a mistela nos cornos do primeiro chefe que encontrar. Raios me partam se não o faço. Estou a imaginar a minha mulher a dizer o que tantas vezes me disse. “ Se tu fosses patrão, coitados dos teus empregados, era só mandar, vai lá, traz cá. Só sabes mandar”. Ainda na última sexta-feira foi um desses dias. Pelas dez horas colou-se-me uma daquelas morrinhas que vou vos contar! Durou até ao meio-dia.Agora depois de jantar estou mais fresco e sem saber porquê, como estou no tema de cagada, remexendo no sótão dos esquecidos recuo no tempo e depressa chego aos anos sessenta e tal. Era eu um puto. Um meu amigo disse-me que tinha morrido a Dona Genoveva.Coitada dela. Mas fiquei contente porque sabia que isso queria dizer que mais tarde ia acontecer velório, onde teríamos guloseimas e isso para mim, era um acontecimento imperdível. As carpideiras para terem direito a tais mordomias tinham que forçosamente chorar lágrimas, ainda que fossem de, __Crocodilo__ para poderem adoçar a boca. Como éramos pequenos, ficávamos dispensados de tal sacrifício.  Lá fomos. A coitada da Dona Genoveva lá estava, deitada de papo pró ar, branca como a cal, com a penca do nariz espetada talvez para que servisse de rampa e assim a sua alma mais rapidamente fizesse a viagem até lá acima, ao céu, que é para onde todos querem ir. Hás tantas chega-me a vontade de arrear o calhau. Disse-o a esse meu amigo. “Olha, vou lá fora ao quintal”. Naquela altura nem sei como lhe expliquei o que tinha que ir fazer. Se fosse mais tarde, passados alguns anos, lhe diria de outras formas, talvez: “Vou mandar um telegrama, ou algo parecido”. Sei que me entendeu e me disse: Não é preciso ires lá fora, vem cá. Era visita assídua daquela casa e sabia que por lá havia sítios mais modernos, mais próprios. Era uns anitos mais velho que eu. Malandreco leva-me até à casa de banho, (soube mais tarde que era assim que aquele espaço se devia chamar). Olho à minha volta e em vez de um buraco no sobrado como o que existia na minha casa onde era difícil errar, era só apontar e deixar sair. Problemas poderiam ter os porcos e a burra que moravam por baixo. Eles sim, tinham que ter em conta o horário dessas descargas. Em vez disso repito, havia duas coisas brancas. Ele sentou-se numa e disse: Senta-te e caga aí. Eu, é claro, lá faço o servicinho todo contente por me sentir mais aliviado. O pior foi quando me quis desfazer das chouriças que ali ficaram. E ele ria! E eu desesperava! Vi uma coisa que me pareceu que daria para as desfazer e truca que truca, mas nada. Lá continuavam também elas a rirem-se de mim. Aquela coisa era dura e não se desfazia. Sem saber o que fazer, saí e deixei tudo num triste e porco espectáculo. Ao outro dia constava no “Jornal de parede” toda a aldeia ficou a saber mesmo havendo alguns, e eram muitos que nem sabiam ler, mas aquele tipo de jornal, circulava rápido e todos entendiam. Depois de concluir que tinha sido gozado pelo meu amigo, pensei:“ Para amigo, amigo e meio”. Andei uns tempos a matutar em como me poderia vingar.Como já disse ele era mais velho, mais espigadote, também nem seria preciso muito porque eu era um enfezadito e mesmo depois pouco cresci fiquei pelo metro e sessenta e sete. Logo que aconteceu a primeira peladinha na pelota no largo do Irô, eis que lá vai disto:__Biqueirada à farta. Cometi faltas várias, perdemos o jogo, está claro, mas nesse momento, para além dessa minha programada vingança, nada mais me importava __. Não satisfeito mais tarde aproveitei uma sessão de pedrada para afinar a pontaria e toma que lá vai: __ Pedrada na crista do galarote! E foi assim, que servi a minha vingança. Fria e eficaz.Mesmo agora que já lá vai tanto tempo, não me sinto arrependido nem sequer com um pouco de remorsos.                                                   

         

 

 

 

Janeiro 28, 2007

Zé-zé Faísca e as suas meninas

Filed under: Conto — carva55 @ 1:54 pm

 jorge_castle0081.jpglisbon_monum0031.jpgtorre-de-belem-em-lisboa.jpgterreiro-do-paco-lisboa.jpg

São três da tarde. Lisboa como sempre, está linda. Este bom tempo ensolarado dá-lhe uma luz favorável, que banha as suas colinas e a torna inigualável. Também, Lisboa há só uma, esta nossa e mais nenhuma.   Esta manhã entrei nela, vindo da outra banda.    Que bela é Lisboa vista do Tejo! Navegando num cacilheiro sentindo o fresco da brisa e de alguns agradáveis salpicos de água.    Para ajudar a digerir o almoço que acabei de enfiar para o bucho, calmamente, vou caminhando.   Comecei esta caminhada junto ao Tejo, na Praça do Comércio mais conhecida por Terreiro do Paço, talvez porque em mil quinhentos e onze D. Manuel I transferiu a sua residência do Castelo de S. Jorge, para ali, talvez por preferir estar assim mais perto do Rio Tejo.  E quem pode manda, assim quis e assim foi feito.  Por sua ordem ali foi instalado o Palácio Real e ali ficou durante duzentos anos.  Ali, onde em bons e gloriosos tempos plantaram aquelas gigantescas e muito belas construções, que ostentam belas e imponentes fachadas e arcadas. Ali, após a destruição do terramoto de um de Novembro de mil sete centos e cinquenta e cinco, na reconstrução, o Marquês de Pombal teve de se aplicar e usar muito cuidado naquele espaço.   Ali está a estátua do Rei Dom José I e mais o seu cavalo.   Que estará ali a fazer há tanto tempo virado para o Tejo?   Será que algumas mentes maliciosas o levaram a acreditar numa qualquer iminente revolução vinda em forma de invasão pelo mar? Terá ele tomado nas suas mãos, em vez de noutro delegar, como valente guardião, como normal cidadão feito sentinela alerta, a nobre missão de vigiar na defesa do seu Reino?     A ser verdade aposto que foi obra de grupo liderado pelo Marquês de Pombal. Pois não foi ele o influente omnipotente Ministro do Reino? Não foi ele o grande Visionário nas obras da reconstrução? Não foi ele o grande torcionário aniquilador, justiceiro, exterminador implacável, das revoltas, ou conspirações, reais ou imaginárias contra o Reino, que alguns boatos espalhavam? Que o digam os Távoras.Do lado norte, a Rua Augusta, ostenta o Monumental Arco Triunfal, que representa a entrada principal para a Baixa Lisboeta. Assim chamado graças a dois acontecimentos históricos:   Foi ali, que a um de Fevereiro de mil novecentos e oito, aconteceu o regicídio. O Rei D. Carlos e o seu filho Luís Filipe foram assassinados quando por ali passavam.    Este foi um acontecimento que abalou e abriu uma grande brecha na Monarquia e muito deve ter contribuído para o avanço seguinte, que culminou na revolução que implantou a República em cinco de Outubro de mil novecentos e dez.    Em mil novecentos e setenta e quatro a praça assistiu e serviu de local para a tomada de decisões importantes para que a revolta do Movimento das Forças Armadas, tivesse êxito, no derrube da Ditadura. Subo a Rua da Prata “furandopor entre aquele formigueiro humano. São pessoas apressadas que passam, com ânsia de apanharem os barcos que as levará até à outra banda onde têm as suas casas, onde cada qual espera, nos sofás das salas, repimpar o traseiro para curtir as novelas!São carros que passam acelerados, com os seus cavalos desenfreados, que quase roçam as “abóboras mais avantajadas, que essas sim, pachorrentas caminham e transbordam dos passeios.    Neste turbilhão de gente parece-me ver a passar aquele a quem rotularam de “Pimba. Se não era ele, era o diabo, algum sócia, ou irmão gémeo, a fazer-se passar por ele.    Coitado do tal que assim rotularam só porque apareceu a cantar uma canção que dizia: “E se à noitinha elas querem brincadeira, nós Pimba”.     Não sou advogado de ninguém. Mas, Pimba isto? Não discuto. Mas e então o que antes se ouviu tal como: 1) O mar enrola na areia / ninguém sabe o que ele diz / Bate na areia e desmaia / Porque se sente feliz / O mar também é casado / É casado e tem mulher / É casado com a areia / Bate nela quando quer.  “Que linda mensagem esta!”       2) Está cru / Está cru / Deixai-o cozer, E a panela ao lume e o arroz está cru.     Ó santa ignorância! Que mais irão inventar essas “melgas” chamadas de “midia“ que tanto alevantam e levam ao colo qualquer merda que apareça, principalmente se exibe umas ricas tetas ou pernocas, como enterram até mais não, um qualquer coitado que não tenha tão bons atributos para mostar.    A sua Arte, essa não tem brilho, pensam eles, de nada serve.   Ali ao lado na Rua Augusta, por onde há pouco desci, o ambiente é diferente. Ali sim, dá gosto passear.   Há pedintes por todo o lado, uns com mazelas, maleitas, e enfermidades mais ou menos visíveis, outros nem por isso.   Há mulheres com crianças atreladas pelas mãos, ao colo, e algumas, até na barriga.   Ó mulheres, __ide todas para a porta do patriarcado, plantai-vos de raiz e cal, e, no primeiro que encontrardes seja ele bispo, cónego ou cardeal, é igual, pregai-lhes os vossos filhos às bordas das fraldas das suas vistosas vestimentas e com eles formai-lhes um grande “Rabo”, perdão, por ser mais fino, devo dizer: Cauda.   É o que eles merecem por se oporem e desaconselharem métodos de controlo da natalidade. Por exemplo o aborto e o preservativo. Com essa conduta levam a que algumas pessoas se desleixem e pensem: “ seja o que deus quiser “.     E cada vez mais filharada! E cada vez mais miséria!   Filharada desejada e indesejada, filharada e mais filharada que depois se verá o que se fará à cambada!   Há polícias plantados às esquinas, às portas dos bancos.A guardar o quê? Ora, ora! Para quê se quem quiser assaltar, quem estiver para aí virado, assalta na mesma e se lhe der na telha, até leva o polícia pendurado pelas orelhas.   “Ó políticos de meia tigela, que ides vós fazer ao estrangeiro que só copiais o que vos interessa?! Pelo menos aqui à Suíça que vindes fazer? Despejar o conteúdo da mala diplomática em lugar seguro?   Por acaso nunca reparastes que aqui não há polícias nas esquinas, nem às portas dos bancos. Se sim, nunca vos questionastes nem dignastes colher informação esclarecedora?    Por acaso nunca vistes que nos bancos daqui o dinheiro não está nas caixas à mão de semear, mas é pedido às instalações que funcionam no espaço inferior e isso anula qualquer tentativa de assalto?    É claro que já aconteceram alguns assaltos aos cofres-fortes.Mas esses são pensados e executados por grandes cabeças.Isso é coisa de outra dimensão e não um simples acto de um amadoreco qualquer.    Afinal o que vindes cá fazer? __Repito.   Sei, e o que não sei calculo, o quanto é difícil criar ou inovar algo, mas muito se pode com facilidade copiar e imitar o que for de bom para desenvolver, progredir, num caminho desempecilhado, desburocratizado,” etc. __Penso eu de quê, como diria o outro.     Há pessoas que com um simples giz, criam obras lindíssimas! Pelo menos aos olhos deste leigo, nesta área que sei que sou. Mas gosto e vi que muita gente gosta porque pára e se planta a admirar.   Há uns dias recebi um e-mail de um amigo Filho-da-Escola que me mostrou uma foto de um rapaz que estava naquele lugar a tocar acordeão, e em bom-tom acompanhado, pelo seu cachorrito em pose de grande artista cantor. Se calhar ele viu o Concerto dos Pink Floyd ___Live AT POMPEII___, onde, com, e, para o mesmo fim usaram um cão. Isso vos garanto eu porque tenho aqui a videocassete.   Há senhoras muito respeitáveis muito enfeitadas, elas e os seus simpáticos canitos que transportam ou pelas trelas, ou ao colo.    Há vidas e vidas! Até na dos cães há diferenças! Estes pelo menos têm paparoca garantida e não têm que andar a chafurdar nas lixeiras farejando um qualquer resto comestível, nem, quando extremamente esfomeados terem que andar a matar rebanhos, como acto final, desesperado, __a sobrevivência a isso obriga.   Por ali rondam, (aliás rondam por todo o lado), meninas que discretamente trabalham no ataque.   Há gente que passa, alguns e algumas de fato de treino muito justo a mostrar as bordas e as dobras.   Passam em passo de corrida. Será que é para imitarem os verdadeiros atletas? A treinarem ali? Naquele ambiente de ar pesado, saturado e poluído?! Ou serão alguns marados, chanfrados da tola? Lembro-me da canção que diz:“São os loucos de Lisboa / Que nos fazem acreditar / Que a terra gira ao contrário / E os rios nascem no mar “.    Há pessoas estáticas em jeito e pose de autênticas estátuas.    Um dia deparo-me com uma destas figuras. Não sei se homem ou se mulher, porque estava tapada até aos pés.   Não lhe vi o escrito, nem chumaços que a identificasse.Estava muito quieta, uma boa imitação de estátua verdadeira.        Ponho-me a observá-la.   “Com este calor de rachar, nem sei como se aguenta assim.Será que não tem, ou não sente comichões?”Em jeito de provocação a ver se ela se desmancha, sorrio-lhe, e, __ nada acontece. Apetece-me coçar os sovacos como se faz para imitar os macacos, mas lembro-me que não estou sozinho, e desisto desse intento pois tenho vergonha do que os outros transeuntes que passam possam pensar.   Mas eis que: __ um abelhão daqueles grandes e peludos se aproxima e ronda-lhe a cabeça. Se calhar também ele está confuso. Ou então também quer admirar a arte do, ou da artista.  Sadicamente penso: “ Ó Carmindo, agora é que vais ver como ele vai reagir. Agora tem de se mexer”.   E fico esperando na expectativa.   Mas mais uma vez, nada.  Apenas um ligeiro mexer de olhos, como fazem os répteis.   Talvez e só a controlar.  Uma vez vi um camaleão a fazer isso. Se calhar, também ele naquele momento estava só a controlar-me, a ver e tentar adivinhar as minhas intenções.   O abelhão desiste ou desinteressa-se e afasta-se.Será que a maquilhagem tem algum efeito repelente?Para a próxima devias trazer uma Burka, __penso.Não, que digo eu! Assim lá se ia, porque não se via, a Arte do Artista. Melhor será, e melhor resultado dará, uma máscara de apanhador de mel. Apanhador não, melhor, __roubador! Porque o mel é propriedade privada, das abelhas. Sei que há pessoas que fazem esse serviço. Chamam-se Apicultores.Aceno-lhe em gesto de despedida, __e nada.   Arre porra! Ao menos a isto deverias responder, ainda que ao de leve, ó seu ou sua, mal-educada pessoa.   Estás lixada porque assim também não te dou nada.   Bem vejo a caixinha mas nem uma moedita…, __ penso.   Não resisto. Perante tal mostra de Arte, quero deixar algo, pois que, quem quer que seja, precisa de meios para viver como qualquer um de nós. E deposito…, ___o quanto não digo aqui, para tu leitor não me chamares de sovina!  “Pronto, ó rapaz ou rapariga, fica cá em paz e sossego que eu vou à vida, que se faz tarde”. E fui.    Paro na Praça da Figueira e penso: __deixa lá ver se o cavalo da estátua do D. João I, ainda tem as ferraduras ou se algum gandulo já lhas roubou! Se o cavalo fosse de carne e de bom sangue certamente não deixaria, assim como é de metal tudo é possível. Que raio de pensamento! Mas com tanta roubalheira não me admirava nada!    Desvio-me para a Praça do Rossio e entro na casa da Sorte para quem acerta, e do azar para quem só vê sair do bolso, e entrar, nem cheta. Também eu não resisto e invisto algum. Mando registar o papelinho igual ao de todos aqueles que depositam religiosamente toda a esperança nos números escolhidos, e ainda com o ovo no cu da galinha começo eu e por certo começam todos, desde logo a imaginar que nos saiu o primeiro prémio e a fazer planos, a pensar em quê, como e onde, gastar a massa.   Ele são casarões, carrões, aviões, porque para tanto darão os milhões.    Pela larga Praça vou caminhando com cuidado para não incomodar nem dar uma biqueirada em algum dos tantos pombos que junto às biqueiras dos calçados das pessoas sem pressa se vão movimentando. Mas pressa para quê se não têm mais nada para fazer e para sobreviver, aquilo lhes basta?      Vida regalada! Até se divertem! Há sempre alguém que sem os convidar os aproveita para poses fotográficas, normalmente com crianças. “Com alguns é divertido! Brincalhões, só querem farra, não fazem mal nem a uma mosca, com outros nem por isso.    Têm já no sangue os genes maliciosos, o bichinho da ruindade que herdaram dos seus progenitores.Tentam pontapear-nos. O que nos obriga a dar uns saltinhos estratégicos de defesa. Mas alguns de nós, e eu por vezes também, (sim que não sou nenhum santinho), vingamo-nos e largamos-lhes nas mãos uns presentes mal cheirosos”.__Confidencia-me um deles.               Têm sempre o papo cheio! Só para pernoitar é que têm problemas para encontrar um lugar seguro e sossegado. O melhor que encontram para encostar os ossos e descansar é algum beiral de fachada ou telhado. Só que às vezes acontece que algum senhorio, porteiro ou inquilino mais criminoso, menos escrupuloso, mas mais zeloso, os envenenam, devido aos dejectos que por ali são obrigados a deixar.   Ora, se não têm instalações sanitárias canalizadas, não têm outro remédio senão largar e ali mesmo deixar o material. Bem basta a dificuldade que têm para limpar o traseiro.   Assim, como assim, a vida vai caminhando mais ou menos na paz dos anjos.    Estou agora junto  à estátua do rei D. Pedro IV que lá do alto tudo domina. Mas o coitado já lá está há tanto tempo, que deve de ter os olhos muito cansados, e qualquer dia dá-lhe o sono e cai por ali abaixo e escaqueira-se todo aos bocados que nem a coroa escapa!  Já agora como tem tempo e paciência que veja se calcula e disso nos avisa, do momento da derrocada total das ruínas do Convento do Carmo.     Na entrada principal da estação de comboios do Rossio, paro para ver se nas obras a que a foi sujeita, os “manda na chuva” e no resto, tinham respeitado e preservado a linda fachada. Lá está lindíssima! Vá lá…! Pelo menos isto escapou!    Vou agora na praça dos Restauradores. Onde antes esteve o cinema Éden, está agora uma loja nova que não conheço.Sinto um toque no ombro esquerdo, rodo a cabeça e sinto outro toque no direito.  Ai o carago! Que é isto? Com certeza, é brincadeira de alguém conhecido, __ pensei.  Viro-me e deparo-me com um”freguês “conhecido.__Olá! Boa tarde, como estás? __Estou bem obrigado. E você? Também me parece bem.__Sim, estou bem obrigado. Acabei de enfardar ali em baixo um peixito que estava uma delícia. E agora, olha vou por aqui a passear a matar saudades desta Lisboa. Está confusa, uma selva! Mas, mesmo assim agradável.“Olha bem ó Carmindo, quem havias de encontrar! Vê lá bem o quanto é verdade aquilo que se costuma dizer: __que ninguém faça mal a alguém, pensando que o mundo é grande e nunca mais verá esse alguém __. Olha, que mesmo agora este gajo poderia ter-te enfiado umas naifadas em vez daqueles toques amigáveis nos ombros”.  __Mas, ouve lá conta-me coisas. Antes foste um figo maduro, depois uma abóbora peidona, agora és o quê? __Á! Isso?! Enganei-os bem! A todos enganei! Todo o mundo! Pensaram todos que eu estava maluco!__Espera aí! A mim não! Não me incluas nesse rol. Até porque eu não era, não sou, nem nunca serei especialista naquelas coisas de classificar pessoas. __Agora sou uma pessoa normal que veio engrossar o lote dos considerados normais, mas cá para mim há mais malucos à solta que internados! __Acho que tens razão. Agora, disseste uma grande verdade!    Ouve lá o que fazes para viver? Desde então já passou muito tempo, trabalhas? __Trabalhar? Eu? Trabalho! Que é isso? Alguma coisa que se coma? Não faço népia. Agora dou pelo chamado de, __ Zé -zé Faísca __. Sou empresário! Tenho aí umas gajitas a atacar que como galinhas a esgravatar, me enchem os bolsos de muita grana.“Estou a ver! __Pensei “.__Olhe lá para ali, para aquela mesa debaixo do toldo azul. São aquelas duas. Acabaram um trabalhinho há poucos minutos e já estão outra vez no ataque. Assim é que é! Assim é que as tenho ensinado.    Olhe bem, não são duas belezas? Coisa fina! Duas autênticas bonecas de porcelana!Olhei.“Realmente! Que pena! Que desperdício!” __Pensei. __Estou a pensar que, como você foi um porreiraço lá naquela casa, como troca de galhardetes vou abrir uma excepção e vou dar-lhe uma borla, um mimo. Venha daí.Aproximámo-nos e confirmei o que tinha pensado. Eram muito novinhas, não teriam mais de uns quinze anitos.__Meninas, vá lá, toca a ajeitar haja maneiras!Apresento-vos aqui este meu amigo. E dando um tom de grande pompa pronunciou o meu nome. E falando para mim: __Esta é a Joana, aquela é a Carla.__Olá! Disse eu em jeito de cumprimento. __Olá! Responderam quase em uníssono, e, ambas me mirando de alto abaixo.__O tal mimo de que ali atrás lhe falei é isto: __Vá lá escolha e leve a que quiser e que lhe faça bom proveito.__Deixa isso para lá, deixa isso para outra ocasião, há mais marés que marinheiros! __Olhe que com as minhas meninas não tem problemas, são muito limpinhas! __ Disse ele como que adivinhando os meus pensamentos e tentando atenuar as minhas preocupações. Esta minha carola se calhar já muito marada pelos tantos anos a trabalhar na tal casa, começa a engendrar um esquema.A sorrir digo: __Não consigo escolher, levo as duas. __O quê? __Disse ele atrapalhado e preocupado, calculando já o prejuízo que isso lhe acarretaria. __Eh! Lá! Que é isso? Ainda sente pedalada para se aguentar com as duas? __Pergunta ele, matreiro, a sorrir.__Está bem leve-as lá. Por uma hora. __Acedeu, por fim, ainda que com pouca vontade, __ pareceu-me. __Entrai. __ Disse eu, convidando e franqueando-lhes o meu carro. __ Não é preciso, temos os quartos mesmo ali ao virar da esquina. É perto podemos ir a pé.  __ Não faz mal, entrai, é melhor, já ides ver o porquê.     Arranco subo a avenida da Liberdade, depois da rotunda do Marquês de Pombal entro na Fontes Pereira de Melo, passo pela praça Duque de Saldanha, embico por aquela grande avenida abaixo, __a Avenida da República__ e só paro lá no fundo, junto à união das avenidas…, ó raio! Como se chamam? É uma porra das grandes quando às vezes a cabeça falha! E logo agora que estou a fazer este relato! Mas também para estarmos sempre a aprender, temos que ir apagando umas coisas, senão onde iremos buscar espaço para tanta coisa?     Não é o que acontece com os computadores, que por sinal até são máquinas e não se “passamtanto?     Ah! Já sei, já se me ocorreu. São as avenidas, __Estados Unidos da América e a das Forças Armadas. __Vinde daí, digo-lhes, já abrindo-lhes a porta para que saíssem.    Elas, ainda que não o demonstrassem estavam curiosas e ansiosas e deixaram-se levar para verem no que aquilo ia dar. __ Que está a fazer? Pergunta a Carla.__Tem calma, já vais ver. Sabes onde estamos? Conheces Lisboa? Ou vieste há pouco da província, lá de algum lugar perto do sol-posto?    Estamos à porta da feira popular e vamos entrar. __Espere aí, diz agora a Joana com ar preocupado. Já percebi. Vai levar-nos à feira Popular à “boa-vai-ela “ a laurear o queijo como dizem na minha terra. Mas, e então o tal trabalhinho? Pelos vistos você não está para aí virado. Como podemos aparecer ao nosso homem sem a massa.__Não vos preocupeis, não há necessidade disso. É verdade, não vai haver trabalhinho nenhum, nem vai haver massa, mas não há problema. Então não ouvistes ele dizer, que era um mimo que me queria oferecer?! Foi o jeito que ele arranjou para me agradecer a forma como o tratei lá… __Lá onde? Perguntou a Carla sem esconder a sua grande dose de curiosidade.__Deixa para lá, é uma grande história! __Sim, deve ter sido uma grande história, para ele se sentir tão agradecido, tão carinhoso! Bolas! Logo ele que é tão bruto! Pelo menos connosco, disse ela, por fim, desistindo.    Entrámos. Vá lá! Ide divertir-vos à vontade. Aproveitai esta folga que vos estou a proporcionar e que vos sirva de ponto de partida para pensar em deixar esta vida, __que não é vida!    É claro que isto que vos digo é coisa que nunca, mas nunca, lhe pode chegar aos ouvidos. Ouvistes bem? Senão, se nos voltarmos a encontrar, a sua recepção à minha pessoa será bem diferente e para pior com certeza.__Deixar esta vida? __ Pergunta a Joana.   Mas como se a minha avó foi puta! A minha mãe puta foi! Portanto, eu naturalmente tinha que vir a ser puta!     Quem sai aos seus não degenera, __não é o que o povo com a sua imensa sabedoria diz?__É sim, concordo eu, acrescentando mais o seguinte:O mesmo se passa em muitas famílias que por tradição, se o pai é médico ou advogado o filho igual tem de ser.    Se é militar, o filho militar tem de ser, de uma ARMA ou de outra, é igual. O que importa é usar farda e de preferência com uns galões a enfeitar os ombros. E mais tarde, naturalmente umas coisas resplandecentes a brilhar no peito se lhe vão dependurar.    E os filhos ainda que contrariados por não sentirem vocação para a dita profissão e nem sequer para aí virados estão, (o que gera uns perigosos empecilhos, emplastros de canudos adquiridos por vezes sabe-se lá como), obedecem aos ditadores papás. Raramente acontece algum degenerar ou por vontade própria para aí não embicar, e, ainda que à custa de muitas guerras familiares, enveredam por outras áreas profissionais alternativas obedecendo a “chamamentos “que sentem dentro de si a fervilhar. Essas sim, que desejam com muito ardor, muita paixão.      __Ó! Rapariga! __ Falo agora dirigindo-me à Joana. Com essa, estás a fazer-me lembrar um rapaz que eu conheci que o pai tinha Boi por alcunha e por sacanice os colegas perguntavam-lhe:   O teu pai é o quê? Boi. E a tua mãe? Vaca. E tu? __ Bezerro. Respondia ele de pronto, sem saber a lógica que a isto correspondia.  __ Eu, __diz a Carla. Fui violada quando ainda era uma criança. “ Uma criança és tu ainda “, __pensei eu.      Depois, com o jornal de parede, depressa se espalhou.    Toda a aldeia ficou a saber. Quase todos me apontavam a dedo. Uns só me gozavam com bocas porcas. Outros queriam aproveitar-se da situação e comer-me também. Os meus pais faziam-me a vida negra com proibições, (que só pecaram por tardias, compreendi mais tarde) e pressões que me sufocavam, não tive outro remédio e tomei a decisão de fugir àquele martírio.   E pronto. À vida vim parar. Em Lisboa onde me disseram que a vida era boa, vi-me sem trabalho e sozinha. Toda a gente come. Dinheiro não tinha. Ainda tentei coisa boa e estive uns tempos como sopeira em casa de uns ricalhaços que tinham uns filhos, uns rapagões, que pensavam que cá esta menina era a “pachacha do povo e para o povo e como se não bastasse ainda me obrigavam a servir uns colegas que de vez em quando levavam lá para casa e a quem queriam agradar, oferecendo-me como se eu fosse uma propriedade a que tivessem o direito de uso e fruto.    E então pensei seguir o exemplo e os passos de umas que conheci nos bailes dos Bombeiros lá do bairro que me disseram: “Ó filha, ninguém dá nada a ninguém. Assim como assim, vais dá-la, mas recebes por isso e resolves os teus problemas de dinheiro”. O pior foi quando conheci aquele gajo. Todo falinhas mansas, todo carinhoso, que cheguei a pensar que era o meu príncipe encantado que me ia tirar desta vida. Uma porra! Na verdade eu até lhe escondi a condição de menina da vida, mas ele fez pior: Aproveitou-se e arrebanhou-me. Tornou-me em mais uma cabritinha para o seu rebanho. Como você vê não é fácil. Entrámos e foi um regalo ver como aquelas duas frágeis criaturas saltaram de carrossel em carrossel brincando como crianças que eram ainda, dando largas a uma fartança de brincadeira de rédea solta.__Anda, vamos ali, __ diz a Carla. __O que tem lá dentro? __Pergunta a Joana.__Tem um comboio a que chamam de “comboio fantasmaque já em movimento passa por uns sítios de onde saem uns bonecos que metem medo, alguns com formas aterradoras de dráculas e coisas assim.__Ai credo! Cruzes canhoto! Não, ali não vou. Até estou arrepiada. __Pronto meninas. Acabou-se. Temos que ir embora. Tenho que vos levar ao vosso dono. A minha vontade seria picar-vos o traseiro e dizer-vos: Ide, correi, sêde livres, libertai-vos desse jugo. Mas não pode ser assim. Ele correria Lisboa de ponta a ponta sem descansar até vos encontrar. Se um dia tomardes essa decisão, ide para o estrangeiro, para bem longe, só assim podereis escapar às suas garras.   Mas antes vamos ainda num instante comer um gelado.__Eu prefiro um “ramalhete”de algodão doce, __diz a Carla.__Ai eu não, eu quero um gelado sim, mas bem grande com muitas bolas e muitos sabores!__Ah! Suas gulosas! ___Digo eu em tom de galhofa.   Reparo mais uma vez no ar juvenil delas. Um ar de: __Bonecas de porcelana.    “Tu e essa tua obsessão por elas! Porque será, ó Carmindo?  Não é por colecção, nem por mania pedófila, __longe vá o agoiro…    É certo que condenas, __ veementemente abominas tais barbaridades. Mas é certo que em todos nós habita a semente do bem e do mal, à espera da ocasião para germinar, e que a qualquer momento pode gerar um assassino, um ladrão.   Quem vê caras não vê corações. E todos temos uma cara, a qual, não revela a tara que em cada um de nós pode existir.        Quem nunca roubou, ou desviou? __O que vai dar no mesmo, ainda que tenham sido pequenas coisas, de pouco valor.       Será talvez pela lembrança das brincadeiras infantis com as tuas irmãs, a mais nova e a mais velha em relação a ti?         A tua outra irmã e os teus irmãos eram muito mais velhos.  Já nas guerras reais, das armas, ou namoradeiros e casadoiros andavam. O teu lado feminino oculto? Deixa lá não te preocupes. Há homens que aproveitam o Carnaval para usar ou testar esse lado e vestindo-se de mulher, divertem-se deixando extravasar esse lado. Há homens que cosem, bordam, tricotam, e muito mais. E nada se passa.        Se assim não fosse que se passaria com tantos que há que optam pela profissão de cabeleireiros, cozinheiros, alfaiates etc., profissões que à priori nos lembram ou encaminham para o lado feminino.    Não te preocupes com isso ó Carmindo.  Nada disto alterará a tua natureza.  À voz que me diz: “Tu ó Carmindo, tu e as tuas Bonecas”! __ Digo-lhe: __ Pois, quando não as há por perto à mão de semear, procuram-se ao longe, nem que seja em imaginação, e canto-lhe a canção ___ Lá longe onde o Sol castiga mais / Não há suspiros nem ais / etc., etc, etc.    Eu não sei se lá ao longe ele castiga mais, se há mais ou menos suspiros e ais. Sei sim, que por aqui castiga e provoca muitos suspiros e ais…        Desligando o interruptor do circuito que rebobinava a cassete, volto a elas, __e digo:__ No entretanto, e enquanto comeis, quero contar-vos uma coisa: Uma bela noite, há já muito tempo, ia eu na rua Gomes Freire, ali junto ao muro do Miguel Bombarda e vejo umas meninas a fazerem o mesmo trabalhinho que vós fazeis agora.  __Olha lá ó Joana. Se calhar alguma delas era a tua mãe. Tu própria disseste que também andou nessa vida. Como dizia, vi e perguntei à que estava mais perto:“Ouve lá, quanto custa o quilo?”     Ela, por quilo, deduziu, __cambalhota__, e respondeu:“Custa duzentos e cinquenta escudos”. “O quê? No talho é mais barata!” __Respondi. Alço a perna e, eis que lá vai: lá vai não, lá foi! Saiu-me cá um peido tão forte! Parecia um trombone em banda de música nos arraiais lá na minha terra. Foi cá um estardalhaço que parecia bomba!Até o muro abanou! Nem sei como se aguentou?!“Á seu grande filho da puta, (nem reparou na sua condição) espera aí que já vais ver”. Ripa da soca e corre para mim assanhada como se fosse gata.Eu como é lógico, não fiquei quedo para ver, não pelo medo à soca mas ao que o seu homem poderia fazer, dou de frosque, piro-me em passo de Sprinter e escapei.    Vede lá que já passou tanto tempo e ainda hoje sinto remorsos cada vez que me lembro disto.__Se calhar foi devido à pressão exercida por esses remorsos que hoje lhe deu para nos proporcionar esta festa recheada de mimos! Para se redimir dos tais efeitos nocivos da tal façanha. __Diz a Carla com um certo ar zombeteiro. __ Se calhar foi. Sei lá!__Havia de ser comigo, fazia e acontecia…., __diz a Joana. __Não sei, se calhar nem me tocavas porque eu nessa altura era quase atleta olímpico. __ Praticava Karaté e Culturismo e tinha cá um cabedal de fazer virar as cabeças! Tinha cá uma preparação física do caraças, leve como uma pena e sem esta proeminente pança que agora aqui vedes.Culturismo? Que é isso? É algo relacionado com Cultura? __Pergunta a Carla.“Estou feito, convosco!”__ Penso. __Não, não tem nada a ver com isso. É um desporto onde se molda o corpo, puxando e levantando pesos.     Chegámos. Ele estava furioso. Tinham decorrido três horas.  Arre porra! Com que então! Tanto tempo!   Tem calma. Sabes? Tens razão. Aqui as tuas meninas são do melhor e portaram-se às mil maravilhas e sabes tão bem quanto eu que é de aproveitar, porque ocasiões de ter a sorte de encontrar amigos como tu são coisa rara e eu aproveitei da melhor maneira o teu mimo. Enchi o “papinho”! Obrigadinho, és um gajo porreiro, __arrematei eu com uma palmadinha nas costas.       Nesta altura do campeonato já eu o tinha sossegado. Já estava manso, mas saiu-se com esta:__Ainda bem que gostou, assim poderá fazer muita publicidade e como conhece muita gente poderá recomendar as minhas meninas.__Ó meu sacana, com que então era só um mimo? Estavas a pensar no teu negócio! __Disse eu em tom de brincadeira.__Bem, foi um pouco disso tudo. Dois coelhos com uma só cajadada. E também não lhe custa nada ajudar cá o rapaz. Sei que o material é do melhor e você mesmo o confirmou, mas publicidade vende e essa que lhe peço a de boca em boca, é da melhor.__Pronto está bem. Estou com uma sede do caraças. Vamos tomar qualquer coisa, __convido-o com o intuito de desanuviar o momento.     Despeço-me delas com um gesto, ao qual elas respondem igualmente com um gesto e um sorriso maroto como que a dizerem-me: __ Obrigado por este especial momento de carinho. E pela recomendação embrulhada naquela sua preocupação. __Olha vamos ali ao bar o Pirata.    Eu tomo uma perna de pau. Tu não sei, uma água, não?__Água, nem pensar!  __Bem, pensei, então já não tomas medicamentos?__Não, não preciso de nada disso, nunca estive maluco já lhe disse. E quanto ao pensar, não pense porque pensar pensam os burros a ver se descobrem a forma de chegarem a espertos e veja lá que nem a cavalos chegam quanto mais… E você é esperto já sabia disso e agora reforcei essa ideia, __ portanto ponto final.Um dia destes apareça por aqui, convido-o a ir comigo aos fados. “Alto lá, haja calma, ainda não me convenceste dessa tua sanidade que apregoas. Ainda me lembro que foste levado pela polícia, enfiado num casaco muito especial a que chamam de: __camisa-de-forças __, é um modelo engraçado! Com os atilhos que imobiliza na perfeição qualquer figurão. E tu ias assim porque te tinhas passado, e armado em Rambo tinhas escavacado uma dessas casas. À boa maneira daquelas sessões de pancadaria de rachar pêlo que nos relatavam nos filmes de Cowboys que ocorriam com frequência nos Salões de diversão, no antigo Far-West”. __ Espere aí. Aposto que adivinho os seus pensamentos deste momento. Está pensar naquela zaragata…__Zaragata aquilo? Disseram que não escapou copo nem mesa e tu ouviste tanto como eu o relato desse feito e não desmentiste, portanto.__ É verdade, não desminto. Mas daquela vez não foi culpa minha. Aconteceu que apareceu por lá o Tonho Faneca que quis mesmo ali acertar umas contas antigas. Há uns tempos saquei-lhe umas lindezas e pu-las a render para mim. Não tenho culpa que elas me preferissem, a mim que até sou um maltrapilho.Sim, que eu não gosto de homens, mas tenho olhos e sei ver que ele é mais aprumado que eu. Uma melhor figura! __Diria a minha avó se ainda hoje fosse viva.     Está bom de ver que ele ainda não tinha digerido aquilo tudo e pronto foi o que foi.   Mas, calma aí! Dias são dias, em alguns nem devíamos sair de casa. Também não ando por aí a fazer da pancadaria profissão. Por isso, repito, apareça. E fica desde já combinado, sou eu que convido, sou eu que pago, à boa maneira da minha terra. __Está bem. Logo se verá. __Respondi, com alguma reserva.    “Ó se faz favor! Digo eu chamando o empregado.    São duas pernas de pau cá para nós, que este meu amigo afinal também é gente e também bebe”.__É pá! Gostei dessa! É mesmo muito boa!       Bebemos, saímos, e cada qual foi à sua vidinha que se fazia tarde.     

Janeiro 27, 2007

Num dia assim

Filed under: Conto — carva55 @ 3:48 pm

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Foi num dia assim ensolarado por um sol radioso de Primavera.

Havia pouco tempo que tinha chegado a Lisboa onde diziam que a vida era boa. Vim ver para crer. Tal como eu tenho as minhas razões, o outro que dizem que fez o mesmo, __ver para crer, teria as dele.Trabalhava no colégio Valsassina como vigilante. Era o meu dia de folga. Pensei ir visitar um irmão meu que morava na Brandoa. Fui à Rotunda do Relógio apanhar o autocarro número cinquenta que me levaria até Benfica. Para o resto apanharia a carreira “chocalatreira”.  Ao passar pelo Jardim do Campo Grande lembro-me de que tinha ouvido dizer que ali alugavam-se à hora bicicletas para passear pelas imediações.   Chega-me uma enorme saudade da minha querida bicicleta que tinha deixado lá na minha terra.   Para atenuar um pouco esse deprimente sentimento momentâneo, decido de repente sair e ir ver como era isso do aluguer.   Procuro e depressa encontro. Aceito as condições e lá vou eu montado numa bicicleta prima da minha. Reparo que não tem buzina. Sorrio ao recordar o quanto sadicamente gozei ao apertar o papo à buzina da minha, aquando me apetecia atenazar os ouvidos ao meu pai, em sinal de protesto quando ele queria que eu o fosse ajudar na lida dos terrenos dos quais éramos arrendatários. “Que pena, agora apetecia-me apertar o papo a uma buzina.“ __Pensei.  Começo a pedalar e lentamente aquela deprimente sensação foi pregar para outra freguesia.     Sentia-me feliz. Começo a assobiar a canção do Manel da Rola e a do Malhão – Malhão muito em voga por essa altura.    O jardim está cheio de gente. São casais de namorados sentados ou enroscados nos bancos a produzirem quilos de marmelada.     Outros a passearem de mão dada e a trocarem olhares alheios a tudo e a todos, num enlevo tal que:“Ó gente! Olhai como é belo o amor! E pode ser feito de tantas formas! Até com os olhos! Quando for grande vou querer amar assim. Vou começar já a preparar a fisga para a caçada”.A catequista seria o ideal. Ah! Com que vontade ia eu ouvi-la! Aquela coisa de anjos e nunca anjas é que acho que está mal contada. Depois numa brincadeira malandreca de rapazola, usava o truque do espelho no chão. O levantar, esticar o pescoço, e espreitar para aquele “altar”! Aquilo sim era digno de se ver.   Desde então Já passou algum tempo. Agora estou mais espigadote desnecessário será o escadote. Quando a apanhar a jeito vou lançar-lhe o repto. Se não der nada digo-lhe:“Ouve lá. Isso tudo é teu sim senhora, dás a quem quiseres, mas se não me toca nada, escolhe outro mas escolhe bem.Olha, mal por mal dá ao sacristão que é trabalhador. Que eu bem o vi de machado, enxada, marreta etc. na mão, a dar-lhe, no trabalhinho que era obra! Ao outro, isso é que não, nem deves pensar sequer dar-lhe algo, é coisa mal empregada, é manteiga em focinho de cão”. Se, se mostrar desentendida dir-lhe-ei: __”Sabes bem a quem me refiro. Não me faças falar…__ “        Gostei de ver famílias com pequenos e graúdos a pedalarem ou a remarem nos barcos dos lagos.   Alguns velhotes, penosamente, __Via-se claramente, carregavam aos ombros __, porque é nos ombros que tudo nos pesa __, os reumáticos, as artroses, a ferrugem dos ossos já muito usados. Mas lá vão indo. E fazem bem, _ porque lá diz o povo: __ parar é morrer.   Junto a um largo há barraquitas a vender muita coisa. Numa delas um gaiato faz um grande berreiro porque quer um ramalhete de algodão doce.O adulto que o acompanha tenta impingir-lhe pipocas. Talvez por serem mais baratas, não sei, mas ele não cede, aumenta o tom, já vai em nota alta e para complementar salta e bate com os pés no chão. “Isso mesmo! Assim é que é! Devemos lutar e exigir aquilo que queremos. Se fosse eu espolinhava-me no chão. Ele iria pensar se não seria melhor alargar os cordões à bolsa, antes que a despesa na lavagem das nódoas da roupa fosse grande”. __pensei.  Numa outra barraca, uma garota faz exactamente o que eu pensei __parece que me ouviu! E tudo isso para tentar ganhar um gelado. “Esta é mais esperta! Assim, como assim, leva mais cor, doce e sabores.Uma cigana tenta impingir a leitura da sina a um par. “Certamente lhes estaria a dizer, que ele iria morrer de velho, e ela ainda mais velha e rodeada de netos bisnetos e trinetos. Que iriam ganhar na lotaria para comprar uma casinhota novinha em folha.   E eles, contentes com tanta felicidade prevista, trocavam umas valentes beijocas para comemorar”. Mas não, eles não se descosem. E ela desiste, e vai à vida, bater a outra porta, a ver se lhe toca mais sorte. Para chatear os pais há ainda quem tenha à venda brinquedos diversos, mas os que concentram a atenção e a admiração da pequenada, são os balões coloridos, e os moinhos de vento.  Aqui não vi guerras. Estavam pasmados a ver. Talvez algum ainda estivesse em fase de estudo da melhor táctica a tomar para atacar.   Há pombos que saltitam para fugir a alguma biqueira malandra e para mais depressa que a concorrência, chegarem ao grão de milho que lhes oferecem.       Na avenida lateral àquele jardim, naquele momento passa um bólide. __Um Lamborghini, ou um Lotos __. Passa a esgalhar que nem dá para ver bem. O condutor pareceu-me jovem. Possivelmente um qualquer filho de papá…   Quem não gostou da coisa foi um que agora passou entalado num carocha. O bólide passou-lhe tão perto que lhe ia levando para recordação o espelho lateral. Como se não bastasse ao desgraçado, (pareceu-me que tinha pinta de operário), no banco do pendura seguia uma caraça carrancuda como máscara de Carnaval.  Era muito mais velha, seria a sogra? Não me admirava nada. Elas têm fama, mas muitas têm a fama e o proveito.   Passa acelerada, uma ambulância a caminho do hospital de Santa Maria. Para ajudar, e só por isso, telepaticamente digo ao possível doente, (porque eu não vislumbrei ninguém lá dentro, se calhar até ia assim desenfreada, para que o motorista não perdesse o Benfica Sporting que estava prestes a começar). “ Cuidado amigo, quando chegares, grita como puderes, porque há gente que só ouve gritos e porrada.   Já o povo há muito que diz: __”Quanto mais me bates, mais gosto de ti “ __. Em tempos houve um que disse:  “Isto já não vai lá com palminhas nem com Palmas Carlos”.  “ Grita, grita muito, não vá acontecer eles esquecerem-se de ti lá pelos corredores daquele enorme casarão”.      De longe chega um grito: __Agarra que é ladrão! Mais um alguém que já ganhou o dia, e um outro alguém que o perdeu e sabe-se lá que mais, porque foi roubado.     Segue-se-lhe um apito. Apito de arbitro não é porque por aqui futeboladas não há , só pode ser de polícia . Com certeza a dizer ao ladrão: “Ouviste? Eu estou aqui. Vai por outro lado. Não me estragues a sossega. Ainda há pouco ali em baixo enfiei três minis cá pró bucho, não me faças correr que tenho os bofes muito sensíveis”.     Se ele o ouviu e o conselho seguiu, não sei, mas ladrão não se viu, logo detenção também não.    Como haveria de se saber, se cara de ladrão, é cara igual a tantas outras?   Lá ao fundo vislumbro uma imagem que:“ Ó que raio! Ou muito me engano ou aquilo que estou a ver são dois pretos montados em duas bicicletas! Com a aproximação veio a confirmação. Estava certa a dedução. E vinham descontraídos a pedalar e a falar distanciados apenas de um metro e meio, mais coisa menos coisa.   Na minha terra não havia, nem a penantes, nem montados.       Já aqui disse que estava um dia lindo ensolarado por isso os vi logo que se aproximaram. Mas se fosse de noite ou com nevoeiro cerrado, possivelmente só veria algum reflexo nos olhos ou nos dentes provocado por alguma réstia de luz.   Estou a brincar. Mais tarde até fui morar para o Vale da Amoreira onde a maioria era preta e não tenho nada a dizer de negativo nem de depreciativo bem pelo contrário. Convivi com muitos numa vivência sã.              Só algum tempo depois, com o “internamento”no Miguel Bombarda é que apanhou o “doutoramento”mas nessa altura esta minha cabeça já andava muito maluca! (Penso que desde a catequese). Senão vejamos:    Tinha tanto espaço para passar mas marrei na ideia de passar pelo meio deles.   Do pensamento ao acto foi um pequeno “rato como diria um espanhol.   Embiquei a roda dianteira na direcção deles e lá vamos nós, eu e ela, a bicicleta, como caravela desfraldada ao vento, e eis que:    Catrapum! Que lá vai tudo ao molho! E era uma vez um branco e dois pretos mais duas bicicletas amolgadas rezaria a crónica se algum repórter se dignasse aparecer.Mas como feridos não ouve, nem muito nem pouco sangue e a essa gente só interessa grandes sangrias, se a alguma redacção algo chegou, cá para fora nada transpirou. O grande chefe deve ter pensado: “São só dois pretos, de onde vieram há muitos mais. O outro o branco, é com certeza um qualquer insignificante emergente acabado de chegar da terrinha na Beira, de perto do sol-posto. E aos seus subordinados deve ter ordenado:Deixai para lá que temos coisas mais importantes a tratar. Ide mas é, à Baixa ver o que se passa com aquela confusão que a estudantada anda a fazer. Temos que mostrar trabalho ao grande “Irmão.   Televisões, só havia um canal e meio em certas horas. Por isso, se eu aqui e agora não reportasse, tudo ficaria nos segredos dos deuses.      Voltemos ao local do acidente.__O minino tinhas tanto por onde passar, e não soubeste enxergar, veio logo marrar com nós! __Diz um deles” .   “Olha, olha! Este pelo menos não é parvo de todo! Sabe lindas palavras “. __Tem calma ó pá. Vê lá bem, foi só uma ideia maluca que se me arrimou. Nunca tiveste nenhuma assim?   Olhámo-nos de alto abaixo e eram só pequenas escoriações.    Por fim achámos piada e desatámos a rir.    Eram dois bacanos os fulanos.    E lá vamos nós cada qual com a sua bicicleta às costas, (pois que tinham todas ficado impróprias para consumo), entregá-las ao alugador.   O homem olha para a minha, torce o nariz e em jeito de orçamento, diz:   “Esta, cá para mim, fica à volta de setenta e cinco escudos”    Tremi um bocado porque eu ganhava quinhentos escudos, comidos, bebidos, cama e roupa lavada. Mas, mesmo assim, representava um enorme rombo no meu parco ordenado.Bem feito, quem te mandou teres ideias malucas?      Dinheiro? Nem vê-lo, quanto mais tê-lo! Deixei lá com o homem, o meu bilhete de identidade cativo até que efectuasse o pagamento.E pronto. Assim se passou um dia de folga memorável.         

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