
Pela manhã, abeiro-me da minha janela.
A serra está linda!
Hoje o Sol acordou bem disposto
E vai acontecer um dia quente e colorido.
Já pintou a paisagem de muitas cores.
As casas, o lameiro e as árvores.
As vacas pastam, lindas, coloridas.
Uma mistura de sentimentos
Inunda-me de um misto
De nostalgia
Tristeza e raiva.
Lembro-me do meu Portugal e da minha casa
Plantada num bairro
Dormitório a que deram o nome de Vale da Amoreira.
Cercada por uma paisagem árida
Triste despida e vazia
Onde bailam ao sabor do vento
Cascas de melão e sacos vazios de plástico.
Lixo que sobra dos contentores
Abarrotados
A rebentarem pelas costuras.
Lixo abandonado
Pelo remexer dos animais abandonados
Vadios e esfomeados. E dos caçadores de tesouros
Que se contentam com pouco.
Basta-lhes uns palmos de cartão
Usado que lhes rende uns trocos
Para o vinho e o pão.
Os autocarros a passarem!
Os cães a ladrarem!
Bestas humanas que de dentro dos carros
Com preguiça de alçar o rabo
E carregarem no botão da campainha
Apitam para chamarem algum vizinho
Dorminhoco e atrasado.
Camiões aquecem os motores
Num irritante e engasgado
Matraquear de malhadeira
Cansada e soltam lamentos
Em soluços fumarentos.
Não vá pelo caminho chegarem as dores
Do reumático e pregarem uns sustos aos condutores.
Tenho já saudades
Das saudades
Que ainda não tenho
Mas que sei que irei ter.
Saudades deste verde, desta calma
Destas cores, que depois, daquela minha varanda
Só em pensamento poderei ver.
Julho de 2003