ENTRA OU SAI

Janeiro 26, 2008

O Quarteto na Vigairada

Arquivado como: Conto — carva55 @ 3:56 pm
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Decorriam os anos setenta e era tempo de festas. Festas dos Santos populares. Festa de dança, marchas e petiscadas.
Os quatro amigos decidem ir a ela, à tal festa, e a elas, que por ela, a pavonearem-se certamente não faltariam. “ Nesta altura do ano andam todas à solta, é dos calores!”__diz o Brasuca, muito convicto dessa sua afirmação__. (Brasuca por alcunha, por ter estado no Brasil e por ainda não se ter livrado de algumas expressões tal como uma que repetia amiúde, que era: __ ó seu cara de chapa).
Depois de bem aperaltados eis que: eles lá vão à caça, de armas bem carregadas, prontas a serem descarregadas na primeira “perdiz” que por perto passasse, ou que a jeito se pusesse.
Atravessam o descampado grande como uma parada militar e ao passarem junto ao ringue desportivo e à cozinha, são contemplados com um trecho de uma peça orquestrada pelas gargantas da bicharada que habitava a horta. Eram patos, galinhas, cabritas e porcos, que por serem muito bem tratados por um grupo de doentes orientados e devidamente controlados por uma equipa de profissionais da saúde mental, eles os da bicharada também contentes estavam e se manifestavam com a sua festa possível.
Transpõem o portão e o manicómio fica para trás.
O manicómio era um mundo diferente totalmente à parte, do outro mundo considerado dos sãos .
Ainda hoje tenho as minhas dúvidas que assim seja , porque cada vez mais, vejo mais malucos à solta que internados.
Junto ao Campo Santana, na rua que desce até ao Martim Moniz, passam carros eléctricos a abarrotar de gente alegre.
Os quatro amigos decidem continuar a pé. Não por eles, __os carros irem tão cheios, (porque cabe sempre mais um nem que seja pendurado fora de borda ) , mas porque estava uma rica tarde, com uma temperatura ideal que convidava a bons passeios.
Já no Largo do Martim Moniz, junto ao cinema “piolho”especializado e afamado por passar sessões contínuas de “coboyada” da forte com grandes batalhas de tiroteios, setadas e machadadas entre soldados liderados e guiados por aventureiros e por grupos aguerridos de Índios, que, coitados perdiam sempre. Porque era assim que rezava a história, era assim que a contavam, porque era assim que devia de ser encarada, __ os bons e os maus __. Os bons eram os colonos invasores, os maus eram os Índios, que coitados só queriam que os deixassem em paz e sossego, a viverem na paz dos anjos e na companhia das aves e dos animais de quatro patas seus amigos, naquelas terras onde primeiro tinham chegado. Às vezes nos salões, após todo mundo estar bem bebido, aconteciam desavenças entre pistoleiros, jogadores e engatatões profissionais que originava grandes sessões de porrada de criar bicho e rapar pêlo.
__ Ó pessoal! Ali naquela casa da janela verde, um dia vim ver uma televisão que estava empenada.
Estava eu a olhar as entranhas da dita, envoltas num camadão de poeira, e eis que a dona, uma velhota já muito velhota mas com um pulmão de fazer inveja a muita boa gente, dá uma assopradela com uma tal força, que me enfarinhou todo! Do que ela se haveria de lembrar!
__ Ouve lá ó Dr. “Parafusos”: isso havia de ter sido comigo!Pegava na velha e pendurava-a no estendal da roupa, diz o “Brazuca”.
Na esquina da praça, o “ Rodas baixas”, (alcunha bem espetada porque realmente era muito pequenino), tem um rica ideia e lança-a para a mesa.
__ E que tal se fossemos ali ao Intendente, ao bar Lindoso ou outro, beber algo e arregalar o olho com o mulherio?
__Isso mesmo, boa ideia! E eu até vou espetar cá pró bucho um prego bem regado com um fino bem geladinho. __ Acrescenta o Olhos de sapo.
(este levou com esta, por usar umas lentes tão fortes que parecia que olhava por um fundo de garrafa!)
Ele tinha um carro! Coisa rara em gente com a categoria de servente, que depois alguém se lembrou de mudar para empregado geral e eu soube que alguns anos mais tarde, esta designação, ainda foi mudada para, __ auxiliar de acção médica __. Ora que porra! Ora vejam lá! Coisa linda sim senhora!
Mas dizia eu que ele tinha um carro. Um carro muito grande, não me lembro nem da marca nem do modelo. Era do tipo citroen boca de sapo com a traseira em rampa. Só que o tal era trombudo estilo americanado.
Um dia organizou um passeio até à praia de Tróia. Todos os que ele convidou para o acompanhar naquela aventura, se arrependeram de terem aceitado o desafio porque o maldito carro andava um pouco e parava. Empurrávamos, andava e de repente, punha-se a tossir e depois de soltar uns roncos engasgados e umas tremidelas na carroçaria, tornava a parar.
As paradas e os empurrões foram às dúzias.
No bar, diz o Brasuca:
__Eia! Pá! Que pivete aqui vai!
__Realmente, agora que o dizes, também eu o sinto. __diz o Rodas baixas.
__Tinha que ser, só agora o sentiste porque os cheiros sobem, e tu, se não desces, pelo menos manténs-te aí em baixo. E o “olhos de sapo” que foi quem isto disse e que era grande como uma girafa, passa a mão em frente do nariz do outro como que a medi-lo. O outro, que, coitado não tinha culpa de ter saído assim, __às vezes, a brincar, brincadeira parva! Mas enfim… , também eu lhe dizia : isso foi falta de adubo na raiz! E ele ria e dizia: “Ou má qualidade da semente!__” E ambos ríamos a bandeiras despregadas.
__Cá para mim, isto é cheiro de leite azedo largado pela pachacha de alguma daquelas gajas, diz o Dr. Parafusos.
Gargalhada geral!
__ Realmente só mesmo tu! Só mesmo dessa tua cabecinha pensadora …, tens bom remédio: vai cheirar uma a uma e logo verás.__ Diz o Olhos de sapo
A gargalhada geral tinha levantado a lebre, e o porteiro que era grande como um dos filhos do clã Bonanza da série da Tv. olhava a medir-nos as intenções.
O Barman, secundava-o no serviço de controlo.
Um gajo com uns pendentes amarelados a brilhar na peluda peitaça, e que pelo aspecto deveria ser o dono de alguma, ou algumas, das máquinas de sexo por ali sentadas, esperando um cliente, em defesa do negócio, olhou e deixou-nos sem saber o que tinha concluído.
__ Bem, o melhor é vazarmos já daqui para fora, diz o Brasuca.
Em fila Indiana, passámos em frente às máquinas de sexo, que alinhadas junto à parede, obedientes aos métodos ensinados e assimilados na aprendizagem da vida, nos seguiram olhando à cata do tal olhar sinal __”anda daí”__, que porventura algum de nós fizesse.
Por aquela encosta acima, de metro a metro a festa animava.
Por todo o lado, rua, ruela, beco e esquina, era um regalo ver petiscadas apetitosas, esperando-nos.
Nos bailaricos as moçoilas encaloradas esperam-nos, __ todos pensávamos.
__ É pessoal, nem é tarde nem é cedo, agora mesmo tocou para uma sardinhada, diz o Olhos de sapo
__Pois que assim seja. Para comer e beber todas as ordens são bem vindas, diz o Rodas baixas.
__Pois claro! Tinhas de ser tu a dizer isso! É por estas e por outras que só cresces prós lados, diz o Brasuca.
__ Que raio! O pivete continua presente, nem o cheiro das sardinhas o afasta daqui!__ Diz o Olhos de sapo .
E a festa continuou, como, mais não pode ser dito, porque as paredes têm ouvidos.
Chegados à camarata do manicómio, eu este narrador , (de Dr. Parafusos alcunhado por um enfermeiro bem inspirado que isto inventou devido ao meu gosto e jeito pela electrónica ), entro no quarto, olho em redor e vejo a causa do
pivete.
Naquele tempo, eu aderi , ( e não gosto de modas ), à moda do salto tamanho de um tijolo e das calças “saiadas”que tapavam a biqueira e ainda sobrava pano ! Para compôr o ramalhete usava-se o cabelo grande. Para o segurar meti umas borrifadelas de uma embalagem que eu pensava ser de laca fixadora, mas era uma outra mistela que com a pressa e como não tenho olfacto, não dei por nada.
__ É pessoal! Encontrei a causa do pivete.
Vinde ver. A quem descobrir, pago uma imperial na Portugália, já na próxima saída.
Todos olharam, com olhos de ver, deveras interessados.
__Ó raios te partam! Não é que este gajo em vez de laca pôs brise, purificador de ar?! __ Diz o Rodas baixas.
__ Ai pagas, pagas, e não só a ele que descobriu o mistério, pagas a todos e sem espiga, diz o Brasuca, com toda a sua justiça.
E pronto, foi assim aquela noitada daquela cambada à solta mas bem comportada.

Novembro 15, 2007

Abaixo de cão

Arquivado como: Conto, Ratadas — carva55 @ 10:53 am
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Na fábrica, fui até ao Wc. despejar as tripas. Necessidade que não se pode delegar em ninguém. Ao menos nisto sou igual aos demais, nem mais nem menos, nisto todos têm que se ocupar, até os tais mandões, pensei. E este pensamento deu-me um gozo do caraças!
Na parede junto à porta estava colado um papel com um texto a convidar o pessoal para o jantar de convívio anual.
Junto ao texto, alguém desenhou um cão em pose de ladrar, a largar pela boca uma baba, espuma ou coisa parecida.
Pelo cu saíam-lhe umas bolitas que eu identifiquei como sendo fezes.
“Quem será o autor desta obra de arte? Com isto estará a querer dizer-me: __não venhas, olha que te mordo. Se vieres, comes esta merda que estou do cu a largar__.“
Isto caiu-me tão mal que logo ali naquele momento decidi não ir.
Após se ter esgotado o prazo para a entrega da confirmação, da ida ou não ida, abeirou-se de mim o grande chefe e assim falou:
__Então Senhor Carvalho, não vi o seu boletim para a festa. Esqueceu-se de o entregar? Vem, ou não vem? __Não, não vou, e digo-lhe porquê.
E falei-lhe de tudo aquilo que vi, deduzi, e que tenho estado a relatar.
__ Toda a gente achou piada só o Sr. Carvalho é que não. Para a próxima vez mando fazer outro desenho com uma coroa de rei e o seu nome, e até lhe posso dar uma para que a coloque na sua cabeça.
__Claro que pode! Pode isso e muito mais!
Mas será melhor que mande escrever somente o texto sem lhe acrescentar desenhos estúpidos.
Sei que sou especial! Tenho uma cabeça que pensa diferente dos demais. É o meu pensar, a minha óptica das coisas, a minha razão. Porque tenho direito a isto tudo, e ainda porque:
__ Não há machado que corte a raiz ao pensamento __, lá diz a célebre canção__, porque não abdico nem sequer de uma ínfima parte desta minha forma de estar e de pensar, digo-lhe: __Não, não vou! __.

Talvez por não estar habituado as falas nem a desobediências destas, Talvez por estar habituado a lidar com gente de todo o mundo, (por aqui, só ainda não vi esquimós!), que devido a guerras, a misérias extremas que os obrigou a deslocarem-se e por sistema acomodam-se, submetem-se e deixam-se escravizar, talvez por ter concluído que este careca, foi feito de outra massa, que não se submetia, que dizia não à ocasião, __ não respondeu, virou-me as costas e não me falou durante uns longos tempos. São assim, procedem assim estes chefes. Os outros, na Marinha, ostentavam uns galões doirados, estes aqui, apenas usam as penas eriçadas, as cristas emproadas, os narizes empinados, a realçarem o poder de todo o conjunto.

Estávamos em mil novecentos e noventa e agora estamos em dois mil e sete. Entretanto com a chamada, __Globalização __, o grupo empresarial cresceu e expandiu-se para o estrangeiro e às festas tem vindo gente das vizinhanças. Em algumas, já aconteceu juntarem-se mil e tal pessoas.
Já aconteceram muitas festas. Acabei por ir a algumas e às restantes tenho-me cortado a ir. Tenho ido conforme o apetite do momento. Estando eu quentinho, na minha casita aquecida, e lá fora haver um grande nevão não me apetece sair para ir, e tenho pensado:
__ Não, não vou! Acendo a lareira, tomo uns copitos, e pronto.
Ir? Para quê? __Para esperar muito tempo pela comida, por um mísero meio copito de tinto, que quando a menina depois de servir aquelas gotas logo vira costas! Apetece chamá-la, apontar para o copo, e dizer: “ Olhe, menina: já estou outra vez às escuras! “
Aqui existe um enchido de que já muito falei noutros escritos mas acho necessário repetir agora.
Chama-se __Olma-Bratwurst __. Faz-me lembrar a moira portuguesa, mas nem aos calcanhares lhe chega. E eu, ainda bem me lembro de quando , e do quanto, ao comê-la lambia os beiços, só que infelizmente, muito raramente, isso acontecia lá na minha terrinha, a minha querida Nagosa, plantada na Beira – Alta, só que esta, a dita, é feita de carne tão triturada e diluída que lhe dá uma cor uniforme, sem a brancura de um único milímetro de nervo ou tendão descarnado, nem a vermelhada típica da carne ensanguentada, nem a dureza traiçoeira de um pedacito de osso. Tem um sabor tão esquisito que me deixa na boca uma sensação desagradável, que me parece estar a comer um pedaço de plástico, e por momentos vejo-me na pele de um cão a roer o seu osso artificial de brincar.
Por estas paragens é considerada uma grande especialidade , especialidade da avó, __OLMA__e é muito usada em festas. Até em algumas onde as portas são abertas ao público, em firmas, em fábricas, em garagens, quando querem apresentar as novidades do mercado. Não há festa que se preze, que não a apresente. Sem ela, não seria festa, não seria nada.

Nós os latinos não apreciamos muito aquela coisa, porque temos enchidos, __os nossos muito saborosos fumeiros, que principalmente os alentejanos aquando da ida à terrinha trazem, e convidam alguns amigos para se regalarem numas petiscadas bem regadas.
“Que sorte tenho, por ter amigos desses! Eles são os culpados de algumas segundas-feiras azedas…, que me têm mantido turvo por muitas horas.”
Os nossos chefes sabem isso, e uma vez, na tentativa de agradarem, puseram à disposição e à descrição do pessoal outras carnes tais como: febras e costeletas. Com a obrigação de cada qual as assar. Ora aconteceu que com aquela novidade introduzida, os que puderam, abusaram e paparam tudo num instante. Digo, puderam, porque deixaram os atrasados a berrar! A esta não fui, por isso não assisti, mas se muito gozo tive ao ouvir contar, muito mais teria se tivesse assistido.
Mas, além disto que descrevi como inconvenientes, ainda há a acrescentar que em todas elas têm acontecido sempre as mesmas cenas teatrais! Tenho-me fartado de rir ao ver toda aquela gente, __colegas e chefes__ numa falsa cavaqueira, todos sorridentes, eles que passam todo o resto do ano numa autêntica guerra de lambe-lambe, de ver quem mais espezinha para conseguir os seus fins, e ali, naqueles momentos é um “regalo” vê-los a usarem cumprimentos especiais, com palmadinhas nas costas, tudo aquilo me cheira a uma enorme hipocrisia.
Em algumas até foi muito saboroso. Numa delas, todas as comunidades, (e por lá mora todo o mundo), foram convidadas a apresentarem as suas especialidades. Foram montadas barraquinhas, parecia um arraial no meu Portugal.
Numa outra vez, __ não na festa geral do grupo empresarial, mas na nossa secção e mesmo assim meteu muita gente! __, Um grupo de portugueses aceitou o desafio e tomaram em ombros a tarefa de representar Portugal.
Fizeram gambas, sopa de peixe, e bacalhau assado, __ mesmo na brasa! __, E com mais umas coisas a enfeitar e a complementar, (coisas que agora já não me lembro) deixaram uma boa imagem de Portugal.
Para quem não sabe ou nunca quis saber e por isso nunca nisso sequer pensou, digo aqui e agora, que nós os emigrantes, somos os melhores e autênticos embaixadores de Portugal. Porque os outros ditos e tidos por tal, ficam-se pela representação, selectiva, em momentos e para elementos especiais e que por isso não chegam aos demais, às massas do país onde se encontram teoricamente a desempenharem essa missão. Com isto que estou a dizer, se algum deles me ler, vai ficar a deitar fumo pelas fossas nasais, (vede como também sei falar caro! Porque me apetece, senão escreveria, __ventas__, como um dragão. Mas pouco me importa. Não devo nada a ninguém. Sou livre e independente como o Pardal que vai e que vem, torna a ir e torna a vir sem dar cavaco a ninguém!
E pronto, eis mais um relato verdadeiro, a juntar à minha colecção das esquisitices desta gente.

Novembro 10, 2007

Sornice

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São três e meia da tarde de sábado do dia dez de Novembro de dois mil e sete.
Lá fora, o tempo tem um aspecto farrusco.
Lá em cima no alto da serra passa uma mancha enevoada de onde cai neve. No chão vê-se bem nítida a sua brancura.
Cá em baixo, embrulhados no vento que irritado assopra e faz os meus estores metálicos queixarem-se dos seus safanões,
passam uns flocos de neve que logo derretem.
Aqui na sala, as Tvs., como habitualmente, (e talvez para não variar), estão a passar uns programas que parecem terem sido copiados a papel químico, tal é a semelhança dos seus modelos.
Os pássaros, __Agapornis__, a quem os Ingleses chamam de “ pássaros do amor “ estão enrolados, já preparados para baterem uma rica sesta.
Os peixes, de pança cheia nadam calmos. Alguns nem sequer nadam, flutuam apenas.
Chega-me uma sornice que me torna amorfo, sem que nada de jeito me apeteça fazer.
Penso e visiono o “filme”. Ali ao lado na Caravela certamente que acontece o normal habitual. No espaço que é bar e também salão de jogos, um par a jogar bilhar, alguns a jogar cartas. No restaurante, a esta hora, estará algum retardado a lamber-se nos restos do almoço.
Na casa do Benfica a esta hora já as cartas fervilham nas mãos e saltam para a mesa. As setas voam apressadas em direcção à máquina dos pontos. A Tv. está sintonizada no sporTv. e no futebol Inglês. __ Porque é por lá que anda a brilhar o nosso Cristiano Ronaldo! __.
Os jornais, abandonados, amontoados, lá estão a forrar a máquina do tabaco, esperando um folhear, um simples olhar.
“Coitados de vós …, bem podeis esperar sentados! “

O ambiente do Centro é-me mais difícil calcular pois que ultimamente tem andado muito irregular.
E eu aqui estou sem saber que fazer.
Pego no livro que ando a ler e depressa o lanço para o sofá. “Não, por agora não vou chatear-me mais com esta porcaria. Mas hei-de acabar de te ler,” penso eu, olhando-o.
Dizem que já vendeu carradas de resmas, mas é a maior porcaria que já li até hoje.
Os autores dizem – me para não pensar nas dividas. “ Que antes de abrir a caixa do correio devo pensar sempre que vou encontrar lá dentro arrumadinhos cheques com dinheiro fresquinho e vindo de desconhecidos. Que se eu não pensar nas dividas elas não aparecem.”
Ora eu penso que ninguém dá nada a ninguém. Mesmo quem dá esmolas, está sempre esperando receber algo em troca, nem que seja algo vindo de um santinho qualquer.
Que treta! Elas, __as dividas__, existem porque eu as contraí . Por isso, quer eu pense nelas ou não, as facturas vão continuar a chegar até que tudo seja pago.
“Que os meus pensamentos são como ímanes que atraem as coisas, boas e as más. Que geram ondas de frequência que se espalham pelo Universo e reúnem as pessoas que podem influenciar.”
Um deles diz que conseguiu ter a casa que anos antes tinha pintado numa tela. Um casarão de muito milhão!
Outro diz que ao olhar para os carrões de sonho devo pensar: “ vou ter um igual, vou ter um igual, __devo pensar muitas vezes e assim um dia vou ter um igualzinho!”
Garantem sem vergonha e com muita certeza!
Será por causa desta treta de pensamentos que muitos se cansam de esperar, passam-se dos carretos e entram numa onda de crime? E aí chegados, com isso, compram sim os tais carrões e casarões!
Ora que porra! Já agora digam que tudo se resume em ter ou não ter a tal lâmpada mágica e o tal gajo que ao esfregá-la faz aparecer materializados todos os nossos sonhos.
Àqueles que é costume andarem tesos, por falta de dinheiro dizem que não devem pensar na sua falta, mas que devem dar algum e pensar que já têm muito, que já têm o suficiente e assim vão atrair e conseguir ter muito mais dinheiro!
Enfim…! E assim se fazem fortunas usando o desconhecido e abusando dos desgraçados inconformados que tudo aproveitam para ver se algo de bom muda nas suas vidas. São apenas mais uma fornada a juntar aos bruxos, videntes, e similares.
Já me esquecia de dizer que esta fornada de papões é a autora e colaboradores na feitura do livro, __ The Secret __, o segredo, que de segredo para mim não tem nada de nada de secreto nem de aproveitável.
Não acredito no invisível, acredito somente no palpável.
Que hei-de fazer? Tenho umas mãos muito curiosas! E uns neurónios pouco ou nada influenciáveis.

Pois é rapaz. Tens que sair dessa morrinha e preparar a segunda – feira que já está perto, porque as férias estão a chegar ao fim e tens que ir fresquinho vergar a mola.
Para arrebitar, coloco na aparelhagem uma salada musical composta por: Whitesnake, Bon Jovi, John Mellencamp, Sunrise, Sammy Hagar e mais alguns “amigos”que certamente me elevarão a um estado tal, que me ajudarão a resistir a estes ventos adversos, penso.

Novembro 1, 2007

À flor da pele

Arquivado como: Conto — carva55 @ 9:57 am
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É Novembro. Um de Novembro, dia de todos os santos, __ dizem. Dia em que as pessoas rumam até aos cemitérios e carregados com flores compradas a peso de ouro e, ( sabe-se lá como e com quantos sacrifícios as compram! ) , alinham nesta coisa que o mercado e os costumes engendraram, e lá vão colocá-las, __ para enfeitar __, nos locais onde foram enterrados os seus familiares.
Junto ao portão encontra-se o “mercado”. Está frio. Um nevoeiro incomoda, impregna-se em tudo, __ nas roupas e nos ossos, __ parece.
Mal vestido, a tiritar, um menino baixa-se apanha uma e depois outra flor, __ flor no chão caída, para o chão atirada, flor rejeitada, flor parcialmente desfolhada __, e vai formando um ramito, __o ramito do menino __.
Uma das floristas vendedoras, apercebe-se do que se passa e calcula a dimensão daqueles gestos. Tem pena e apetece-lhe dar ao menino um ramo lindo, fresco, para que o leve e o possa colocar onde deseja. Não pode, porque não é a dona daquilo. Apenas vende, é uma empregada apenas.
Com cuidado, para fugir ao possível olhar da dona da parcela daquele negócio, naquele mercado instalada, sorrateiramente deixa cair algumas flores, ainda lindas, ainda frescas.
Este feito não escapa àquele menino tão preocupado e ocupado no arranjo do seu ramito. Apressa o passo e apanha-as. Sem saber como nem porquê, __ apenas sente como quê um magnetismo que o atrai ao encontro dos olhos daquela senhora_. E ela está precisamente a olhar para ele, e a sorrir-lhe. O menino, agradecendo, retribui com outro sorriso envolto num cândido olhar.
Satisfeito, porque agora o seu ramito já está lindo, __ de todos é o mais lindo! Ela vai gostar, __ pensa, e vai cumprir a missão a que se propôs.
Passa por aquele grande portão que dá acesso a umas grandes ruas que levam até ao chão, transformado em camas, camas para acomodar o descanso final.
Uma menina, puxada por alguém que parece sua mãe, passa, olha para ele e sorri-lhe.
Que linda! __ Pensa o menino.

A tarde está a chegar ao fim. O rapaz que já foi menino, caminha apressado.
Ao longe avista a fragata, “a sua fragata.” Na próxima esquina da rua por onde caminha, vai a passar uma rapariga.
Um grupo de marmanjos, lançam-lhe piropos, alguns picantes demais a rondarem a ordinarice.
Um deles mais afoito ou a querer exibir-se perante o grupo, talvez a marcar posição de líder, agarra no braço da rapariga. Ela, com um enérgico puxão, consegue libertar-se daquela manápula.
O rufia, não gostou nada daquilo. Inicia um gesto que parecia ser o princípio de uma agressão. Sente a pressão de uns dedos que o seguram e lhe contrariam a intenção. Volta-se preparado para atacar aquele intruso. Encaixa um murro no bucho, um gancho, nos queixos.
E pronto, bastou! Para ali ficou, K.O.
Os outros acorrem dispostos a vingar o colega. “Alto lá, que a coisa aquece, pensou o rapaz. “
O primeiro, é recebido com um excelente pontapé circular dado com o peito de pé, naquela lombeira bombeira espadalhuda, de forro criado pelo” fast food “gerado, e mergulhou de bruços. (Parecia um mergulho para uma qualquer piscina, e tinha razão, estava muito calor.)
O segundo, vendo aquilo, desiste, ajuda a levantar os outros e diz: __ vamos, piremo-nos daqui, porque este gajo é um autêntico Rambo!
A rapariga aproximou-se.
__Olá! Como está? Está magoado? Obrigado por me ter defendido.
__Olá! Não, não estou magoado. Estou bem.
“ Afinal ela não viu o filme todo, não viu que nem sequer me tocaram?!”
Os olhares cruzam-se, encontram-se e ambos sentem um abanão seguido de um arrepio que lhes percorre o corpo todo.
“ É ela! __ Pensa o rapaz.
“ É ele! __ Pensa a rapariga.
Ambos rebobinam a cassete do tempo e retornam àquela manhã daquele Novembro.
Ambos ficam sem palavras. Ambos não sabem que dizer.
__Olá! __Diz ela outra vez.
__Olá! __Diz ele outra vez.
__Como te chamas? __ Pergunta ele.
__ Matilde. Responde.
__ Lindo nome! Gosto muito. “ Afinal gosto dela e qualquer nome seria lindo, __ pensa.”
__ E tu, como te chamas?
__ Tiago, chamo-me Tiago, __responde ele, repetindo o nome como se tivesse medo de que ela dele se esquecesse, se o ouvisse só uma vez.
__ Também é lindo, também gosto.
“ É ele! __ Que lindo que é! “
__ Estou a gostar deste bocadinho mas tenho que ir. Já estou atrasado, o navio ainda parte sem mim.
__ O navio? __ Pergunta ela.
__ Sim aquele que está além. __ E aponta para a sua querida fragata __.
Ela repara então na bela farda que o seu salvador traz vestida.
__ Ah! És marinheiro!
__ Sim, como vês. E vaidoso faz uma pose para melhor mostrar a sua farda. E esta para mim é a farda mais linda, mais linda que a outra que tenho.
Gostaria de te tornar a encontrar e que fosse rápido e não depois de tantos anos como desta vez.
__ Sim, realmente já passaram muitos anos. Também gostaria muito de te tornar a ver.
__ Pois bem, dá-me o número do teu telefone, agora todo o mundo tem um, e alguns mais que um. Hoje em dia, até crianças de escola têm! Também tens ? Para que seja fácil te contactar para nos voltarmos a encontrar , queres dar-mo ?
__Sim, tenho , espera um pouco . Toma , __diz depois de ter rabiscado o número num minúsculo papelito que encontrou , mas que serviu e desenrascou .
__Pronto , então adeus . Brevemente, o teu telefone vai fazer trrim , trrim , e vais ver , sou eu no teu ouvido .
__ Está bem , adeus . __Diz já meia voltada em jeito de abalada .
Com a troca dos números cada qual vai à sua vida. Mas não sem que ambos para trás olhassem mais que uma vez até que a distância os tornou invisíveis.

O telefone tocou e o encontro aconteceu. Mais uma vez se ouviram os olás.

__Pai, apresento-te este rapaz. Chama-se Tiago .
__Tiago? Tiago quê? Deve de ter um apelido?!
“Perguntou já preocupado com as companhias da sua querida filhinha, e bem lá no fundo a calcular se aquele rapaz que a sua menina lhe apresentava seria de boa linhagem. Só assim, depois de saber isso, poderia calcular o peso do dote.”
“Apelido? Ah! Sim, tenho o da minha mãe que me teve na condição de mãe solteira, de mulher abandonada, e que muito cedo morreu sem que chegasse a casar, sem que outro amor chegasse e aquelas feridas sarasse.”
__Esqueça isso, __disse ela como que adivinhando o pensamento do seu pai. Foi ele que me defendeu daqueles brutos, daquele mau encontro de que lhe falei , há já uns tempos.
__ Ah! Sim! __ Respondeu pouco interessado nisso por ter sido desviado do pensamento do cálculo do peso do dote.

O telefone tocou, o encontro aconteceu, o tempo decorreu, os lábios e as mãos se tocaram, e um grande amor nasceu e cresceu.

O filme acabou, as luzes se acenderam. E eis que eles ali vão abraçados envolvidos num abraço forte que os levará mundo e vida fora, enfrentando todos os ventos adversos que ousem assoprar, e todos os interesses que ousem se aproximar, com o fim de os separar.

Agosto 16, 2007

Vindimas e lagaradas

vindimas-1-a.jpgVindimas

São tempos idos, tempos que já lá vão. Ó! Como é tanta a saudade que eu tenho daqueles tempos de outrora!
Velhos e novos lá íamos de cesta ou balde e tesoura ou navalha na mão.
Negras e loirinhas lá iam caindo, no cesto ou balde, no bucho do velho, ou no do jovem , menino ou menina.
Eram tempos de festa. Toda a gente alegre cantava, um bago tragavam e uma cantiga cantavam. E o dono muito aflito ao vento lançava:
“Cantai, meninas cantai! Que o vosso canto tem encanto! Cantai, cantai até fartar! Cortai, cortai as minhas uvas sem parar.
Eu o ouvia, ouvia e sorrateiro baixinho dizia:
__Canto, canto! Agora posso cantar! A minha pança há muito que está cheia das que te vinha roubar pelo luar da Lua cheia.
Ao luar algumas vim roubar, E que rico paladar elas tinham! Sabiam-me muito melhor roubadas que dadas.
Pela noite vinha a pisa. Ao ritmo de “esquerdo e direito” da voz de comando, lá íamos marchando.
Lentamente, milímetro a milímetro, lá íamos avançando.
Já depois de bem pisadas, com as pernas de vermelho pintadas começava a grande festa para qual a festança do dia tinha sido apenas um aperitivo.
Ao som do realejo, acordeão ou concertina os magalas improvisados acompanhavam com cantigas em voga.
Mais ou menos afinados, cantávamos, cantávamos. Mas às tantas lá se ouvia uma arranhadela desafinada saída da garganta de alguma boca desdentada.
Era o cantar de algum Manel, Tonho ou Zé, que desdentado desafinava pois que para dentista o seu magro pré não chegava.
No dia seguinte era hora da repisa. Com a lagarada mais aguada a tarefa era mais simplicada.
Toca a marchar, Toca a marchar! Mas as pernas cansadas a marchar se recusavam. A cabeça doía, ainda ressentida da ressaca da véspera, provocada pelo vinho do garrafão, que regou o bom petisco: presunto, chouriça, ou salpicão.
Para carne do talho não havia tostão. Mas havia bons enchidos, boa broa, ou bom pão com mistura de trigo e centeio.
Ainda meio-dia não tinha dado o relógio da torre e já andávamos todos dopados outra vez. Mas agora a culpa maior era do cheiro do mosto.
Pela tarde começava o mais difícil. Era preciso criar apetite para os braços da atarraxa puxar para daquelas cascas todo o sumo tirar.
O mosto enchia cântaros, tonéis e pipas. E aquele “néctar dos deuses”, lá ficava a fervilhar até ao dia do São Martinho.
Era neste dia, com a bênção deste santo que se provava o vinho novo.
E nos dias mais próximos era uma alegria! Não havia lugar a tristezas. Toda a gente, homens e mulheres, esqueciam as maleitas e as agruras do dia-a-dia da vida.
Naqueles tempos, era árdua a tarefa da lavoura. Sem horário certo, a jorna, normalmente era controlada pelo, _ sol – a – sol.
Quem, para si mesmo trabalhava, esse horário pela noite ou madrugada prolongava. Nas regas ou outras tarefas, a fresca aproveitava porque a caloraça tréguas não dava.
Era árdua a tarefa, amargo o viver. Mas, por incrível que pareça o povo ainda arranjava vontade para cantar e dançar.
Eram ranchos de gente a labutar: no amanhar da terra, a mondar, __a arrancar ou chacholar as ervas daninhas para a cultura medrar.
Eram tempos em que as aves sempre rondando, para algum bichito ou verme aproveitar, ou talvez até para daqueles alegres cantar algo aproveitar.
Ó que saudade daqueles tempos. Tempos das vindimas, das pisas e lagaradas. Ó que saudade daqueles tempos, tempos idos, tempos de outrora , tempos que já lá vão !

Agosto de 2007

Fevereiro 16, 2007

Noite chuvosa e ventosa

Arquivado como: Conto — carva55 @ 3:44 pm

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A chuva a cair e o vento a assoprar nos estores metálicos, geram  um som desagradável que me mantém acordado.

Vejo as horas. São três e cinquenta. Voltas e mais voltas para a esquerda e para a direita.

Lá longe ouço um relógio de torre a dar horas. São quatro com certeza pois que ainda há pouco eram três e cinquenta, penso.

Neste espaço de tempo destes minutos decorridos, os meus olhos fechados foram visitados por mil imagens. Umas idílicas, sugestivas, agradáveis, outras inarráveis, simplesmente detestáveis.

São agora quatro e dezoito. “ Se estou acordado, desligo já o despertador, escuso de incomodar a minha mulher, a gata, e a minha filha que pesadamente dormem,” penso.

Agora na casa de banho, sentado na sanita a despejar a tripa, já não ouço o tal som provocado pela chuva e pelo vento. “ Queres ver ó Carmindo, que era mais uma alucinação?”

A gata,  costuma vir até à porta a despedir-se de mim. Se falasse, certamente um até logo me diria. Normalmente a correr à minha frente chega lá muito antes que eu, e ora se põe lá ao fundo das escadas a olhar, ou brincalhona se esconde encolhida em algum degrau. Conhece muito bem os meus hábitos rotineiros. À minha chegada, lá está pontualmente esperando-me. Desta vez não veio despedir-se. “Por greve não é, então é porque também foi incomodada com o irritante barulho e agora dorme profundamente, “ penso.

Chego à rua, e verifico que é verdade, portanto alucinação fora de questão. A chuva que fustigada pelo vento cai oblíqua e o vento que ferozmente assopra, são bem reais.

Lá de cima do alto da serra, chega-me o som nítido do tráfego na auto-estrada.

Dou os bons dias ao meu carro que ao relento pacientemente me espera.Solto as rédeas e esporeio os cavalos que nele habitam e lá vamos todos nós para mais uma jornada de trabalho.

Pelo caminho tenho que me desviar de alguns ramos, pedaços de árvores mutiladas, ou de alguns sinais de obras, caídos.

Já em Arbon, em frente ao Migros e junto ao semáforo que há uns dias me “papou” quarenta francos por dois quilómetros a mais, depois de ter reduzido três, nas contas feitas deixou os dois, também os poderia ter tirado, mas não, paguei e não bufei. Neste local, a esta hora da madrugada, cerca de dezoito minutos para as cinco, à minha frente saltita um pássaro preto, talvez melro ou corvo júnior, não sei, não tive tempo para ver bem. Com outras condições talvez o tivesse identificado, pela forma e cor do bico.É engraçado e muito esquisito ele andar aqui a esta hora, ainda de noite, nesta rua iluminada apenas com a luz da iluminação artificial! Será que o vento e a chuva também o despertaram e ele decidiu madrugar para se colocar à frente da concorrência para alguma programada caçada?

Junto ao parque, (parque privado, porque aqui é tudo privado ou assegurado e quem isto não cumprir é lixado), onde o meu carro “dorme”há uns beirais e umas árvores onde a passarada costumam fazer lindas serenatas! Mas não daquelas simples, com dois ou três noctívagos, um a tocar viola ,outro realejo, enquanto um outro cantarola à sua querida a canção do bandido. Não, nada disso. Estas serenatas são feitas com orquestra completa e por sinal bem afinada que a maior parte das vezes me apetece por ali ficar a assistir, a divertir-me em vez de ir trabalhar. O pior é que eles aproveitam para ali mesmo aliviar a tripa e o meu carro às vezes anda transformado em sanita pública. Se fosse pela altura do Carnaval, ainda vá lá, assim não dá sainete. O que vale é que nesta terra chove muito, senão, nem sei…, seria cá um pivete! Mas isso acontece mais à frente, mais perto da Primavera quando costumo sair de casa e já é manhã clara. Mas assim, tal como descrevi, é coisa esquisita!

As faixas verticais dos reclames de uma garagem correm o risco de serem esfarrapadas e arrancadas pelo vento que as insufla e fazem-me lembrar as velas desfraldadas ao vento do elegante navio escola , da minha querida Marinha, baptizado com o nome de ,__Sagres__ .

   Na fábrica, já lá estão alguns dos tais que costumam chegar muito cedo, como duendes a cirandar à volta das máquinas.   Um Albanês, ligou a sua máquina e é presenteado com um duche de mangueira que sossegada estava na vertical pendurada mas aberta, por algum descuidado, deixada aberta.Todos os que presenciaram esta cena riram e fizeram gestos de gozo. Uns levando as mãos aos sovacos, outros às partes baixas simulando um duche.  Porque será que só nos rimos do mal? Do mal, mas do mal dos outros!A “minha”máquina, ontem fez gazeta. Recusou-se a trabalhar e foi preciso chamar o piquete. Por ali andámos na cavaqueira a matar o tempo. Quando assim acontece o relógio parece que não caminha, que também ele se recusa a trabalhar. Mas hoje ela está bem “disposta” arrancou e atrás dela nos levou para mais um dia de produção.  Como andei sempre ocupado, até deu para esquecer a malvada insónia. Por acaso até foi um dia bem passado. E pronto, aqui estou em frente ao Pc., para registar esta coisa banal que foi a minha última noite. Noite que realmente foi muito desagradável, mas deverei pensar que poderia ter sido muito pior.

Ouço uma voz que me diz:

__Pensa de forma positiva, ó Carmindo. Se partires uma perna , pensa:

__Bem, ainda bem que foi só uma, poderia ter partido as duas__.

__Se cortares um dedo, pensa:

__Bem, ainda bem que foi só um dedo, poderia tê-los cortado todos__.

__Pensa assim positivamente ó Carmindo, e verás que a tua vida terá melhor sabor, com  mais alegria, luz e cor.

Fevereiro de 2007         

Janeiro 29, 2007

Sábado manhoso

Arquivado como: Conto — carva55 @ 6:22 pm

Hoje é sábado. Fui engatado para trabalhar e é bem claro fui entalado.Prevejo pouco que fazer. Confirma-se, está tudo feito. Sento-me e espero que a máquina me peça mais chapa para engolir.Agarro no jornal __O Crime__ que o meu sócio da assinatura da revista Visão me deixou.Passo os olhos por aquela grande quantidade de crimes.É um tio tresloucado que matou a sobrinha à machadada.É um que estrangulou a jovem amante ainda adolescente.Leio pouco de cada, só as gordas. Para quê, ler mais? Para entender as razões de tais crimes? Insanidades? Razões? Por vezes há razões que a própria razão desconhece! Mas nada justifica ou explica tais crimes.A Visão desta semana vem muito oca. Ela é páginas e mais páginas do Papa.Não me interessa. Bastou aquela grande seca que a Tv. nos espetou. Que aliás, à qual, também resisti o mais possível, mas sei que foi grande, era Papa a toda a hora durante vários dias. Que grande Papada!                                                                                    Traz também comentários sobre o vinte e cinco de Abril de alguns célebres intervenientes do antes e do depois. Para quê saber isto? É claro que tem o seu valor histórico mas mais interessante seria saber isto no dado momento em que os factos aconteceram.   

No corredor passa agora um colega Suíço. Esquelético, encurvado. É muito engraçado. Todos os anos paga os impostos com prisão efectiva. De dia trabalha e à noite vai dormir à prisão.Olha que giro! Pensei.Em tempos, quando disto tive conhecimento, cheguei a ponderar fazer o mesmo. Um dia, em casa, falei disto à minha mulher.“Cruzes! Credo! Canhoto! Que vergonha”. __Diz ela toda encrespada.Antes que ela morresse de vergonha e de susto desisti.E lá continuei, parvo, domesticado, atempadamente a pagar os impostos. É sempre igual. Durante uns tempos ando zangado com tudo e todos devido à avultada soma que me presenteiam, mas como de nada serve, acabo por me acalmar e esquecer, até à próxima fornada.Mas que seria um dinheirito bem poupadito seria. Sempre seriam uns dez mil Euros anuais. 

Chega-me uma soneira do caraças! Vou até ao parque de estacionamento apanhar ar fresco.Está sol. Para hoje dão vinte e seis graus. Aqui nesta terra onde ainda há poucos dias fez frio e nevou, acontecem estas mudanças bruscas que nos põem a todos marados da tola.É por estas e por outras que os Suíços nascem sem certificado de garantia de qualidade! E nós os estrangeiros, após uns anitos também ficamos apanhados, chanfrados e estragados.Um dia, logo após a minha chegada, um colega jugoslavo disse-me:“Carvalho, estes são malucos e instáveis como o tempo. E tu, daqui a uns anos estás igual ou pior que eles. Pira-te daqui logo que te seja possível, o mais rápido que puderes”. Mais tarde, vi o quanto ele estava certo, e não foi preciso esperar muito. Não só pelo tempo, mas por esta sociedade que caminha a um ritmo acelerado, stressante ao máximo, com os chefes de grupo e os de turno escolhidos a dedo, quanto mais parvos e atrasados, melhor.São mais facilmente domáveis, pois que mais não precisam de saber, que lamber as botas, fazer o serviço de uma boa reportagem diária, e apenas rodar os botões, (até uma criança faz isso!), para que em nome da produção, do combate sem limites à concorrência, acelerem as máquinas e ponham as pessoas a correr atrás delas feitos robôs. Por um punhado de tostões, esfarrapam-se e vendem-se ao diabo se necessário for. (Até a alma! Se é que existe, __ essa coisa em que alguns acreditam).   E assim fazem toneladas de material que vai logo ali para o lixo e outras tantas que noutros tempos seriam também rejeitadas. Mas agora, o que é preciso é produzir, produzir, produzir! A cada dia que passa, mais se vê que o tempo do célebre certificado de qualidade Suíço já lá vai.                                                                                                 Lá diz o velho ditado: __ Depressa e bem não há quem __. E o povo com a sua velha sabedoria é que sabe.Mas que importa? O que está em moda, é isso: __Produzir, produzir__, explorar os povos, torturá-los sem contemplações, fazer render o mais possível o peixe.Nestes quinze anos e tal já conheci uma dúzia de directores e afins. É um rodopio. Uns que entram porque outros saíram.Saíram, mas deixaram uma montanha de excrementos.Foi um que chegou a pôr as pessoas a comer a bucha com uma mão enquanto trabalhava com a outra.Outro reduziu o número de elementos em cada sector. Foi um que encomendou serviço de especialistas que de relógio em punho controlavam as pessoas e os tempos gastos na execução das várias tarefas. Este ano já instalaram câmaras de vídeo, fizeram filmes para ver onde poderiam picar mais um pouco as pessoas, (que já andam picadas demais), fazê-las correr como loucas atrás das máquinas e assim ganharem algum tempo. Sem contarem com tempo para as necessidades básicas que um ser humano precisa e que para as quais não pode encarregar ninguém. E ainda bem. Porque assim eles têm que fazer as suas. Pelo menos isso. Não podem exigir que alguém as faça por eles. Se forem mal cheirosas terão que as suportar. Nisso há igualdade. Nisso e na morte. Acabam por também ir. Mais tarde ou mais cedo chega a vez a todos.   Tudo isto em nome da luta anti concorrência, da produtividade, do rendimento desmesurado, que encha os bolsos dos accionistas e lhes alimente a gula descarada e selvagem.   Com uma ganância desmesurada dividem os lucros entre eles, os do capital. Aos outros que são quem geram riqueza dão as côdeas e os ossos.Ainda chegará o dia em que, como lhes pagam tão mal, as pessoas não terão dinheiro para lhes comprar nada. Nem sequer a merda, que as suas fábricas cagarão. Hão-de eles mesmos comer essa merda, cada vez mais barata, menos duradoira mas mais merdosa!     Chegam em poderosos grupos as tais chamadas de__ Holdings.Escudados nos factores__ investimento e criação de emprego__, propõem-se a criar postos de trabalho. Jogam com o dinheiro da banca e quando dá para o torto deixam-na a berrar.Mas, como são todos a mesma cambada, lá temperam a caldeirada, comem-na e cagam-na.Recebem benesses imediatas dos governos, bonificações diversas, reduções tributárias, etc. e quando tudo está chupado levantam a tenda. E é vê-los irem para outro lado à boa maneira do que foi moda na antiga América, irem à procura das terras douradas. Onde os governos ainda se deixem enganar e os gentios se deixem explorar, torturar, e chupar.Este estado dolente conduz-me a uma esquisita desmotivação e recorda-me o que em tempos escrevi: 

Chove! Chove !Há tanto tempo que chove! 

Que silêncio! Que monotonia!Nem uma folha mexe, nem um carro passaNem um pássaro esvoaça. 

                                    Sempre este tempoCinzento húmido e chatoQue me deixa dolente, amorfo. 

                           Que silêncio! Que monotonia!Eis-me aqui, apenas e só mais um Zé neste país da chuvaMiúda e chata. 

Chove! Chove! Há tanto tempo que chove! 

Penso, que não é com torturas, perseguições, exigências desmesuradas, que se aumenta a produção.Penso que melhor seria se esses gulosos refreassem a gula e procedessem a uma partilha mais justa das riquezas mundiais.Porque o trabalhador produz mais se, se sentir acarinhado e visto como pessoa que é e não como peça da engrenagem que muitos pensão que são.À pausa, um Italiano, um Albanês e um Jugoslavo jogam às cartas.Não se entendem.“Na minha terra é assim”.“Na minha é assado”, __diz um dos outros.Presenciar isto, faz-me gostar cada vez mais do meu querido Xadrez. Esse pelo menos, como tem regras escritas, é igual em todo o mundo.  

Alguns destes e outros colegas, Já me perguntaram. “Isso que andas escrevendo que titulo lhe vais dar?”“ Que título lhe darei ?”__ Ainda não sei. Talvez:  Conversas de papel.  Remexendo no sótão dos esquecidos.   Tudo ao molho.  Entre Uis e Ais e Outras Coisas Mais.Ultimamente tenho pensado muito neste último. Mas não sei.   Diariamente há sempre algo que surge, algo que não está bem, algo que é obrigatoriamente retocado e logicamente surgem também várias possibilidades de título. É uma luta diária que só a entrega da safra à máquina, lhe põe fim.Mas isso do título não me preocupa muito, logo se verá.E a conversa ficou por aqui. Pois que havia que completar a jornada e lá fomos à vida. 

                                                               

    

Finalmente

Arquivado como: Conto — carva55 @ 6:20 pm

O sol está lindo! Doirado, morno, neste Outono.    De rua em rua esticando as pernas, sem pressa nenhuma, vou passeando.    Chego ao cruzamento que é quadrado, e que é usado pelos Italianos como sala de reuniões. Quem os quiser encontrar, não precisa de noutro sítio os procurar, ali certamente os vai encontrar.    Numa das esquinas viradas para a serra encontra-se o Migros, na outra a Coop.    Numa das esquinas viradas para o Lago está o espaço __que por mudar tanto de dono e de conteúdo, chamo -lhe de, __multiusos __.    Na outra está a Ex. Libris com os seu discos e afins, e o Kiosk onde muita gente sonha acertar na sorte.    Vou até ao Cuba Libre e enquanto rego a goela preencho o papelinho que me habilita ao grande jogo do, __Euro milhões. 

    Em frente à Tv. Preparo-me para controlar os números.    Sai o primeiro, certo. Sai o segundo, certo. Sai o terceiro, certo. Pronto já ganhei para a despesa! __Pensei.    Sai o quarto, certo. Sai o quinto, certo. É pá! Já me chega. Isto já dá muita massa!    É agora a vez de saírem os números correspondentes às bolas das estrelas.    Primeira, certo. Segunda, certo.     Até que enfim! Finalmente! Depois de tanto jogar! Depois de tanto sonhar, de olhos abertos, eis que aqui está!    Sei que eram muitos os milhões
em jogo. Calculo que muitos serão os que me vão tocar.
    Incrível! Estou calmo. Tenho ouvido dizer que muitos se passam da tola, mesmo ali no segundo seguinte.    Eu continuo são que nem um pêro.      “O Povo é sereno! Se dúvidas houvesse , esta era a prova ,  ó Carmindo . És do povo e estás sereno”.   

    Começo a fazer cálculos e planos para gastar tanta massa.    Quando a receber, vou alugar uma coisa que voe e de lá de cima, vou espalhar ao vento muitas notas.     Vou-me divertir ao ver aqui em baixo as pessoas na azáfama da apanha.     Alguns aproveitarão o que tiverem à mão, para apanharem mais quantidade.     Se chover vão ficar admirados: __Que é isto? Dinheiro na chuva?! Depressa todos pensarão em virar os guarda-chuvas ao contrário para guardarem mais.   Amanhã vou ligar para a Tv. a dizer que pago a cadeira de rodas àquela senhora que há dias lá esteve a pedi-la por caridade.    Que ajudo aquela que pedia apoio em nome do filho portador de doença rara. Mais aquele desempregado, de momento enrascado.   Sim, vou ajudar estes e muitos mais.   Vou mandar à fava, para as ortigas da outra banda todas as editoras sanguessugas, que contactei.   Vou editar os meus livros. E, de manhã vou para a porta da igreja, e de tarde para os supermercados dá-los a quem os quiser aceitar. Basta-me a promessa de que cuidarão bem deles. Já tenho pregão: “ Quem quer quentes e boas? Quentinhas! “   As pessoas irão parar e estupefactas irão perguntar:    “Aonde, elas estão? Que não as vejo!”   “ Tenho-as aqui nas minhas mãos, __tome ofereço-lhas. São palavras minha Senhora, só palavras”.   “Áh! Palavras! Dê-me meio quilo delas por favor “.   “Obrigado minha Senhora. Coma-as devagar como se fossem castanhas, quentes e boas”.   Penso que vou ter que mudar de ares para fugir aos amigos de ocasião. Os da “midia” não tardarão a descobrir e então…   Para onde hei-de ir? Talvez para o grande Brasil. Não é para lá que vai a gente que foge?    Para lá, já foi um padreco a fugir ao rótulo de badameco.Uma de nome Felgueiras para lá foi para se livrar das frieiras que lhe mordiam, como se não lhe bastasse já a dor de calos apertados.   Coitado de ti, __Ó Brasil, grande Brasil! __Tanto gostam da protecção da tua enorme asa.   Talvez devido à fama dos recentes mensalões e dos antes seculares portos de abrigo onde os maiores corruptos escondiam seus proventos de milhões.   Mas eu não irei fugido à justiça, apenas às melgas que não tardarão a rondar-me a porta.   Tantos milhões! Quantos francos? Quantos contos serão?    Também tu, ó pá!    Há tanto tempo após a entrada em vigor dos Euros, e ainda a pensar em contos?!    Em Francos, ainda vá lá. É a moeda corrente desse país onde te encontras e é normal que penses neles para poderes calcular os casarões, os carrões que agora podes comprar.  

   Acordo. Abro os olhos. A sesta de tarde de domingo acabou. Ora que porra! Afinal foi só um sonho. Um rico sonho, sonhado de olhos fechados.    Visto-me. Apalpo os bolsos e encontro uma nota de vinte francos.    Preparo-me para sair.  Aonde vais a esta hora? __Pergunta a minha mulher.  Vou dar uma volta ao __bilhar grande __, ao redondel do costume: à Caravela, ao Centro e à Casa do Benfica.    Vou comer uns caracóis e beber umas imperiais, para ver se esqueço este sonho.__Sonho, que sonho? __Deixa para lá, depois te conto.__Agora vou, mas venho depressa. Amanhã estou no turno da madrugada e é segunda-feira, maldita será como têm sido todas as outras!   Ainda por cima vou ter que continuar a trabalhar, teso como sempre, __resmungo, deveras muito chateado.    Espreito pela janela, e o sol lá está. Lindo, doirado e morno, __sol de Outono.     Valha-me isto, ao menos o sol é real. E aqui por estas terras é coisa rara. 

 

 

 

 

 

 

 

 

NA FÁBRICA

Arquivado como: Conto — carva55 @ 6:14 pm

Na fábrica tudo ginga sobre rodas. Ou melhor: até agora tudo gingou e a hora da pausa chegou. E isso, agora para mim é o mais importante.São horas de carregar baterias. Vou até ao parque de estacionamento, para merendar algo e sobretudo apanhar um pouco de ar fresco e puro.O pão está salgado. Esmigalho um pouco e deito as migalhas para o chão tendo o cuidado de as atirar para sítio onde os carros ao passar não as estraguem e os pardais meus amigos por quem espero, (porque é habitual virem), as possam comer mais tarde se acharem por bem. Não me preocupo com o facto de estarem salgadas pois que para beber, têm muita água no lago.Para beber eu tenho uma garrafa de, panaché__.É uma mistura de cerveja com limão, __sem álcool como mandam as regras.Um dia o Betriebe Leiter, __ chefe, ou responsável pela produção __, quando ao fim da jornada se aproximava do carro para se ir embora até ao Cantão de Zurique onde tinha residência, (a acreditar pela matricula do carro), olhou e vi bem que olhou com olhos de ver bem e deve ter pensado que eu estava a beber cerveja com álcool porque a cor da garrafa, habitual nessas garrafas é escura sem diferença entre a que tem e a que não tem.       E eu a topar e a pensar: “Ele vai dizer: __Sr. Carvalho, não sabe que o álcool é proibido?”__. “ Veja bem que está enganado, olhe e veja bem que é sem álcool. Vem cá vem que levas troco. Vem cá vem que vens de carrinho e vais de patins! “ __ Dir-lhe-ei.Mas não, não veio. E isso é muito mau porque esta gente na maior parte das vezes, não sei bem porquê, talvez por cobardia, não avançam e depois encarregam os subalternos de darem a cachaporra nos desgraçados. Já na tropa era e com certeza que é e continuará a ser assim: por ordem hierárquica, __do Oficial para o Sargento, do Sargento para o Cabo, do Cabo para o Soldado e do soldado para o cão, (quando e onde os há). E fica por aí, porque o desgraçado do cão não tem em quem descarregar.Mas não veio e deixou-me sem possibilidade de lhe espetar a chapada sem mão que tinha preparada e seria por certo muito saborosa.Lembro-me do meu amigo Margarido, o Italiano que se reformou há já muito tempo. Havia apenas uns dias que eu tinha chegado à fábrica e um belo dia encontro no chão do vestiário um crucifixo, por sinal bem grande e pesado.Fui até ao escritório e entreguei-o.Passados uns minutos, ele mesmo veio agradecer-me o feito.Ficou muito contente e disse-me que era uma velha prenda da mulher e que para alem de ele, também ela iria ficar muito triste com aquela perda. Assim, ficou muito agradecido e de vez em quando repetia esse episódio aos recém chegados.“O Carvalho é uma pessoa em quem se pode confiar”.E lá vinha o resto do episódio, igual e repetido Diga-se de passagem que isso me deixava num estado muito elevado de satisfação, talvez até de vaidade. Mas que importa? Quem não é, nem que seja um pouco?     Mas falo dele aqui e agora porque me lembrei que ele muitas vezes trouxe para a merenda duas servelas. Uma para ele e outra para um raposo.Digo raposo porque tenho que o classificar, ainda que nunca lhe tenha visto o escrito, o chamado bilhete de identidade.Mas isso não importa porque também se diz anjinhos sem saber ao certo se são uns ou umas. Se são anjos ou anjinhas. Sim porque não? Essa coisa só haverá no masculino? E isso ao ser pensado assim, não será mais um caso de puro machismo?Eu sou homem e defendo os da minha “Bandeira”mas não posso usar tais tratamentos. Até porque tenho três filhas e já tive uma gata e agora tenho outra e porque nada tenho contra nem nada a opor contra o sexo oposto.  Que raio! Lá estou eu a desviar-me deste relato.Dizia eu que ele trazia as ditas servelas, colocava uma no chão do parque de estacionamento, lá no meio, voltava e esperava.O raposo aproximava-se, pegava-lhe e afastava-se.Afastava-se, mas sem nunca se esquecer de olhar para trás.Talvez a dizer, (sim porque com os olhos se diz e se pode dizer muita coisa), __ adeus amigo, muito obrigado e até amanhã.Aquela coisa conhecida por servela, é um enchido que tem dentro uma carne que foi triturada e ficou toda da mesma cor e sem nervos nem ossos. Só aqui é que eu conheci aquela coisa. Custou-me muito a habituar-me, porque estava habituado aos nossos enchidos, os famosos fumeiros, bem temperados. Finalmente chegam os meus amigos pardais. E eu a pensar que desta vez não vinham.Mas vieram e ainda bem porque estava a ficar preocupado.Pé, ante pé, se vão aproximando. Alguns muito tímidos ou mais receosos ficavam para trás. Um mais afoito vêm até mais perto, apanham umas migalhas e vão colocá-las debaixo de carros, para que os outros se sirvam, democraticamente, sem atritos. Voltam e dizem qualquer coisa, (para mim indecifrável), mas que entre eles funciona.Pudera! Nunca a mãe natureza me ensinou a forma de descodificar ou interpretar tal linguagem.Mas há momentos em que nos entendemos. E isto acontece com todos os mortais. Sim porque os mortos, esses é que já não comunicam de forma nenhuma. Penso eu de quê.Momentos esses, em que um gesto feito e entendido no momento certo, vale por mil palavras e por mil imagens. Um mais afoito diz qualquer coisa que eu interpreto por:       “Vinde, não há perigo. Este conheço-o bem. Este é de boa cepa. Esta é boa rês “. Esses tais sinais ditos ou feitos levava os mais tímidos a arrimarem-se.Mas, antes, também eles diziam de sua justiça.E eu deduzo:  “Estão a dizer que nunca é de fiar. Que ouviram dizer que lá para os lados de entremeios de Rorschach e Goldach há umas hortas onde uns primos há uns dias foram surpreendidos e apanhados em armadilhas às quais não conseguiram escapar.E foram temperar umas paparocas de uns humanos gulosos e sem escrúpulos”. Se foi isso que estavam a dizer, sei bem que tinham razão.Já há muito tempo que sei que vi e ouvi tais coisas.O relógio tocou. Esse maldito relógio que só é bom e lindo quando toca a hora de saída. Aí sim! Aí é lindo para mim e para quase todos os outros! Uns assobiam, outros até cantam!Mas há alguns que por certo isso não lhes agrada. Porque só vêem e vivem para a fábrica. Chegam cedo. Com trinta ou quarenta minutos de antecedência e me deixam a matutar:    Mas será que esta gente não tem família? Será que esta gente não sabe fazer mais nada senão trabalhar? Será que não têm mais nada que fazer? Será que casaram com o trabalho? Será que eles são os sãos e eu o maluco? Será que são melhores trabalhadores? Mas como, se eu faço o meu trabalho e ninguém o faz por mim?  O relógio tocou, disse eu. E lá vou vergar a mola mais um pouco para que o patrão não se queixe.  Mas antes, seguindo o exemplo do raposo digo aos meus amigos pardais:Adeus amigos, até amanhã, passai bem e tende cuidado. 

 

 

 

      

FINAL DE FÉRIAS

Arquivado como: Conto — carva55 @ 6:04 pm

São quatro e trinta e três da madrugada de sábado, cinco de Agosto de dois mil seis.      As férias estão chegando ao fim. Estas férias de que já vos falei, que me levaram a esta clausura forçada pelo desejo de poupança, para combater esta actual “tesura”, com o intuito de poupar uns trocos para investir no meu futuro livro o qual já está sendo confeccionado.    Acabei de ver na Tv., o filme, __Os olhos da Serpente __.    Estou agora sentado na sanita a aliviar a tripa. São horas impróprias para tal coisa, mas podia ser diferente melhor ou pior. Há tanta coisa que podia estar a fazer neste momento.    A dormir, como neste momento dormem: a minha mulher, a minha filha, a minha gata, os meus pássaros e peixes.   Ou então a dar uma valente cambalhota.    Mas não. É isto que estou a fazer, foi isto que calhou e foi isto que teve que ser, e o que tem que ser, tem muita força!E ainda por cima é coisa que não podemos delegar em ninguém. Descarrego esta momentânea frustração na ideia caricata que me surge ao largar a parte mais pesada da carga:“Vai chourição, vai por aí abaixo por canos, manilhas até à estação de tratamentos que dizem que existe ali
em baixo. O que restar de ti, (a todas as prensagens, a todas as torturas, resta sempre alguma coisa), nem que seja só uma minúscula partícula, pequenina como uma molécula ou um átomo. Vai, sê corajoso e vai à aventura. Segue o exemplo do que até há pouco, era o teu dono e de quem há pouco saíste.
   Depois da estação, vais entrar no estuário do Rio Reno a que chamam de: __ Lago de Konstanz __. ou __ Bodensee__ Vais viajar. Se ainda tiveres tempo volta-te um pouco para o lado direito e vai dizer adeus à gente da Áustria.    Depois vais passar pela Alemanha, França e só lá para os lados da Holanda é que vais entrar no Mar do Norte.   Vai e diz de tua justiça.    Eiah! que Pena! Agora já é tarde.   Pena porque a exemplo daquelas mensagens que se mandam em garrafas atiradas ao mar e vão mundo fora, também agora poderia e deveria ter-te enfiado num canudo ou garrafa depois de em ti escrever uma mensagem, para todos aqueles parasitas:Para o ministério da cultura, em cujo poleiro se encontra agora montada, uma ministra que só tem olhos para as elites. E também para o primeiro-ministro que nela manda.    Aos editores sanguessugas que só apostam em nomes sonantes que eles mesmos e aquela coisa a que chamam de marketing, promovem.   Aos do lote desta qualidade, a todos, na minha mensagem mandaria para a outra banda. Só isto, para, por educação, não os mandar para a outra coisa.  São agora quatro e quarenta e quatro. Vou esticar estes ossos. Vou fundear no mar dos lençóis. __Penso. E fui.  Ao puxar o lençol para as orelhas pensei ainda. “ Que se lixem, que vão todos pró caraças, que comam e rebentem como um balão”. Tenho dito e continuarei a dizer enquanto isto continuar, enquanto não vier algum degenerado desta súcia, alguém com coragem para isto mudar.       

 

 

 

 

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