ENTRA OU SAI

Julho 19, 2008

Arquivado como: Por onde passeio o meu olhar ( Links de BLOGS amigos ) — carva55 @ 2:46 pm

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Julho 3, 2008

E a montanha pariu um rato !

Foi em Junho de 2008. A selecção Portuguesa de futebol veio até à Suíça disputar o torneio, (digo torneio e mantenho, porque cá para mim, num campeonato todos jogam contra todos e este evento funciona por sorteio de grupos, meia final, e respectiva final. Por isso fico à espera que alguém me contradiga e me esclareça.)
Foi um corrupio de cobertura mediática, uma grande chatice, direi mais: uma grande tortura aquilo que a Tvi, a televisão que adquiriu os direitos de transmissão, nos impingiu.
Ele foi cortes em programas para passar aos directos do estágio.
Ele foi nos telejornais a ver quem falava mais, a prognosticar enormes resultados, com uma grande certeza, __como no caso daquela coisa que é só baixar, arrear, e ao sair deixar cair __.
E sempre as mesmas perguntas: “ de qual jogador gostas mais? “ E quase sempre lá vinham as mesmas respostas ditas por rapariguinhas ainda com aspecto a leite, (na tv. Ainda não se sente o cheiro!) Quando questionadas sobre os porquês, justificavam as escolhas com isto: “ Ele é tão bonito!” __Como se beleza jogasse futebol ….
E assim se alienaram as massas. Assim se formaram multidões de gente que se deslocaram de longe somente à procura de um autógrafo, de um sorriso, de um aceno.
E eles, armados com a farpela de vedetas lá passavam, ora no conforto da sua”bomba”, ora no aconchego do autocarro de vidros fumados, ou a falar, ou a fingir que falavam ao telefone, a ignorarem pura e simplesmente os papalvos que alimentam aquela paranóia colectiva e lhes pagam os chorudos ganhos.
Assim se formaram enxurradas de gente que os seguiram para todo o lado. E pasme-se porque é para pasmar!!! Alguém se lembrou de cobrar bilhete para assistir ao treino. E doze mil daqueles colectivamente apaixonados, colectivamente alienados, pagaram dezasseis francos suíços, __dez euros, mais coisa menos coisa.
Logo à chegada, desde o aeroporto até ao hotel em Neuchâtel, foram escoltados por mais de dois mil motards durante mais de cem quilómetros.
Os viadutos daquela auto-estrada por onde passaram estavam forrados, de gente dependurada, que esperava a passagem do autocarro. E para matarem o tempo cozinharam, assaram, comeram e beberam o que muito bem quiseram , sem esquecerem as sardinhas e o bacalhau, __ pois claro !
À porta do hotel, o autocarro teve de circular a passo de caracol, e de polícia suíça embasbacada com tamanha coisa nunca vista! Tal era a grandeza de tamanho, de crença, de certeza na vitória final, daquela multidão.
Nos dias seguintes, alguns mais curiosos e teimosos, espreitavam pelas frinchas dos taipais que cercaram e emparedaram a zona envolvente do hotel. Outros mais idiotas , ( munidos de boas ideias quero eu dizer ) , subiram a miradoiros empunhando potentes binóculos, simplesmente esperando qualquer coisa que cheirasse a jogador bonito…
Depois foi o que se viu. Ganharam os dois primeiros jogos e surpreendentemente perderam o terceiro, com uma Suíça que já tinha sido eliminada da competição, mas que crente, cresceu, combateu e venceu o seu primeiro jogo de sempre, nesta competição.
Caiu o Carmo e a Trindade! E lá veio o treinador /seleccionador, alcunhado de “sargentão”, de pronto e em jeito epistolar, falar às hostes, __dizer que podiam ficar sossegados porque nos jogos seguintes iam jogar melhor. (Repare-se que não disse que iriam tentar). Tanta fé! Tanta convicção! Como se o futebol fosse um jogo matemático e isento de ventos adversos naturais e artificiais…).
Mais uma vez, foi o que se viu. Tinham que defrontar, __segundo alguns __, a poderosa Alemanha. O que se viu, não foi uma poderosa selecção a lutar, a jogar jogo bonito e corrido, mas sim a esperar e a jogar um jogo venenoso, mas incrivelmente concretizador e eficaz. Foi cinco vezes até à baliza portuguesa e marcou três. O mesmo tipo de jogo que usou contra a Turquia, foi três vezes, e marcou três vezes!!!
Portugal a exemplo de quando joga, mesmo nas fases de apuramento onde quase sempre se apura nos últimos instantes, entrou enfezado de medo, devagar e devagarinho, para a esquerda, para a direita e para trás, sem garra, sem ambição, sem vontade de vencer, (as tais palavras inscritas no próprio autocarro, e tão apregoadas como energia movedora). E o adversário deixando jogar. Chegou-se ao desplante da estatística anunciar, ___setenta contra trinta por cento de posse de bola! ___.
Mas isso não chega para marcar golos.
E a tragédia a adivinhar-se.
É verdade que o terceiro golo foi antecedido por uma falta estrondosa, de um empurrão a um jogador português, a tirá-lo do caminho e a ser marcado de cabeça. Falta tão escandalosa que toda a gente viu, só os árbitros é que não! Só lá para o fim é que os nossos rapazecos deram ares da sua graça e lá se viu bom futebol. Mas já era tarde. E assim, fomos impedidos de ir a prolongamento e porque se tratava de um jogo__deita fora __ fomos eliminados.
E todos pegaram na maleta e lá foram com o rabinho envergonhado, entaladinho entre as pernas.
Finalmente, foi-se tudo! Ficou apenas um silêncio constrangedor.
Foram os bruxos, adivinhos e benzedores de ocasião, caladinhos que nem ratinhos antes que alguém lhes lembrasse que as rezas e mezinhas de nada valeram.
Foram os oportunistas emplastros e afins.
Foi-se o circo televisivo com toda aquela palhaçada mediática, (que me perdoem os palhaços profissionais).
Foram os fãs logicamente desiludidos.
Foram os jogadores, __que se não concluíram deveriam de ter concluído que nomes e camisolas não marcam golos, não ganham jogos__.
Foi o treinador / seleccionador talvez sem entender, (a exemplo de outras vezes), como não resultaram as suas opções de chamar jogadores que pouco tinham jogado pelo seu respectivo clube, ou saídos de uma lesão. Talvez sem entender que as promessas às virgens e santinhas da sua devoção, não tinham resultado. Tinham sim, se transformado numa enorme montanha que pariu um rato. Ou seja: NADA!!!!!!
Mas será que esse senhor ainda não enxergou que essas forças se existem e se forem justas nunca o poderão ajudar só porque crê e promete? Porque assim seriam parciais e com tal ajuda a ele concedida, iriam prejudicar os outros, e tornar-se-iam forças interesseiras e tendenciosas.
Realmente há cada um!
Ó gente! Estamos entregues à bicharada!
Será que há por aí alguém que ainda se lembra do outro? ( O tal chamado de Tonho , que espalhava alhos e sal pelo balneário a fim de afugentar maus-olhados! __ Soube-se mais tarde ) E são estes líderes pagos a peso de ouro! Enfim….
Eis os meandros misteriosos do futebol. Óh! Futebol, futebol! __ Quanto mais te conheço, mais gosto de xadrez __.

Julho de 2008

Julho 2, 2008

Quando a música parar

Arquivado como: POESIA — carva55 @ 3:04 pm
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Há encanto e magia na música que paira no ar .

Do toca - discos sai :

” * My girl is mine.
She is the world.
she is my girl. “

É aquela canção mágica
Que me faz vibrar . E então envolvente
Como serpente
Começa a festa .

Em ritmo crescente
E quente
A orgia mental
Avança indomável .

Do toca - discos sai agora :

” ** Toca-me
que tenho medo
pode o amor
guardar segredo ? ”

No reverso
Desta minha
Fachada
Sinto um calafrio .

Um quarto
Dois corpos
E um só medo
Espreita pelo espelho .

Dois desejos , duas almas
Gémeas
Duas forças
Sincronizadas .

Em conjunto lutando
Ocultando
O medo do proibido
Do clandestino .

O fogo invisível está aceso . Como lava
De vulcão arde e queima .

* ” When the music´s over ”

Quando a música parar
Quero ficar assim a flutuar
Ébrio no que restar
Desta música que paira no ar .

É bálsamo é aconchego
É disto que neste momento
Preciso para continuar vivo
Resistindo ao habitual insípido tédio .

Quando a música parar
No silêncio quero ficar
Só , a recordar .

E a cassete deste meu caminhar
Lentamente a desenrolar
Para melhor saborear .

* Jim Morrison
* * António Manuel Ribeiro
Abril de 2001 . In , Entre os Quês e os Porquês

Maio 8, 2008

Mãe Galinha

Arquivado como: POESIA — carva55 @ 4:19 pm
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Mãe , teu ventre me gerou
E o berço me embalou .
Teu doce falar
Ao acarinhar
Teu saber grandioso
Para a vida me soube preparar
Fazendo de mim trabalhador
Lutador
E não ocioso
preguiçoso .

No ventre me transportaste
Imagino quanto peso carregaste !
Quantos sacrifícios passaste !
Tantos filhos criaste !

Mãe , sei que meu silêncio te faz sofrer.
Olha , não é palavra vã
Mesmo , mesmo amanhã
Te vou escrever .

E para alegrar teu coração
Sem mais demora
Que já é hora
A carta mando de avião .

In, __ Entre O Ter e o Querer__, Julho 2000

Maio 4, 2008

Ser Mãe

Arquivado como: POESIA — carva55 @ 10:57 am
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Ser mãe, é na essência da palavra
A máxima consagração
Da condição
Feminina de ser mulher.

Ser mãe, é o despertar de um sonho
Tantas vezes sonhado!

Ser mãe, é o concretizar de um desejo
Que ansiosamente transportava no peito.

Ser mãe, é o florir de uma roseira
Lindas e charmosas rosas!

Ser mãe, não é só o gozar ao fazer um filho
Que ao pari – lo
Como cadela danada o enjeita e atira
Para a sarjeta da vida
Tal como algo putrefacto
Um velho e roto trapo.

Ser mãe, é dar – lhe o seu sangue, uma vida.

Ser mãe, é estar do seu lado
Vigilante a todo o instante
Para que nada falte ao seu filho
Tão querido, tão amado!

Ser mãe, é isso e muito mais!
É em silêncio sofrer sem ais…

É rir de contente
Do mais pequeno instante
Que faz feliz
O seu petiz.

Ser mãe, é defender até à morte
O seu filhote
Como a loba ferozmente com valentia
Defende a sua cria.

A todas vós mães e avós
Mães galinhas extremosas
Mulheres de todo o mundo
Neste dia em todo lado comemorado
Vos peço perdão pela demora
Mas aqui e agora
Vos rendo vassalagem
Me curvo à vossa passagem.

E ao lembrar – me de minha mãe
Velhinha, lá longe sozinha
No seu cantinho
No silêncio do meu quarto
Meus olhos choram lágrimas silenciosas
Que molham e deslizam pelo meu rosto devagarinho.

São mágoas
Águas derramadas
Que eu seco com o meu lenço
De linho.

Se é feio um homem chorar, não me importo de ser feio.
——–
Maio de 1994
In, __ Entre o Ter e o Querer__ Julho 2000

Maio 2, 2008

Bicharada Zangada

Arquivado como: POESIA — carva55 @ 7:01 pm
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Bicharada zangada
( Um porco encontra a sua comadre galinha)

Então comadre galinha!
Como vai a vidinha?
Bem ou não?

Olhe compadre porco,
Isto não vai nada mal.
Veja lá, que meu dono passa mal
Para me dar uns quilinhos de milho
E até de trigo!
Ai que papas mais ricas fazia!

E só para uns ovinhos me apanhar!
Tal é a pouca vergonha
Planta – se de sentinela
Quando os estou das entranhas a largar.

Antes ainda comia uma galinhita
De quando em vez, aquando das doenças
Paranóias das crenças!
Agora não! É obra da ciência!
Já não andam tão encrencados
Andam todos vacinados.

Ah! E então o compadre?

Olhe comadre,
Eu já nem sei o que pensar ou dizer.
Meu dono para um dia me comer
Enche – me tanto a pança!
Diz que é para a matança.

Olha! Olha! Lá vem o Sr. Cão.

Então Sr. Cão, como vai isso? Bem ou não?

Não, não vai bem não.
Meu dono quanto mais eu gosto
Dele, mais mal me trata.
Ele come a carne e o pão
A mim dá-me ossos com cheiro a batata.

E o nosso amigo Burro?

Burro! Esse? É só de nome!

Um dia quando o dono demais o carregou
Nem para trás olhou,
Espetou-lhe uma parelha!
Foi cá um par de coices!
Teve sorte o malvado
Apanhou-o só de lado
Se fosse em sítios tais
Ficava aos ais – ais.

De repente todos se calaram
Para a frente olharam
E viram um garboso gato
Senhor dos bigodes
Não entrando em pagodes
Botou palavra e assim falou:

__Façam como eu. Se me chama não oiço,
Se algo me ordena não faço.
Quem pensa que sou?
Não sou artista nem palhaço
Pró circo não vou
A mim não doma
Em mim não pega a sua goma__.

Todos se entreolharam,
Um silêncio sepulcral se fez sentir
E como o retinir
De campainhas, naquelas cabeças martelou.

Depois de um pouco pensar
Todos concluíram como actuar.

Para mim acabou
Não come mais ovos que eu ponha!
Nem mais um lhe dou!
Haja vergonha.

E eu não corro mais,
Não dou nem mais um passo,
Nem mais um coelho eu caço,
Jamais!

E eu porco sou
Mas parvo não.
Vai ver quem sou
Dou – lhe um safanão
Com o meu focinho
Que o ature o meu vizinho.

In, Entre o Ter e o Querer , julho 2000

Pois é

Arquivado como: POESIA, Uncategorized — carva55 @ 6:23 pm
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É tão verdade
Que não há carecas burros
Como verdade é
Que há muitos burros carecas !

E eu que careca sou e algo de burro também
Estou à vontade
Para falar desta realidade
A muitos filhos da mãe !

Março 15, 2008

O Baile dos Malditos

Arquivado como: POESIA — carva55 @ 7:01 pm
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danca-1.jpgginastica-especial.jpg


Há sombras
Rocambolescas
Nesgas de gente criaturas vesgas
Dançando nuas
À luz da lua
No fim da rua .

Quero , com elas quero dançar
Dançar até fartar .
Dançar nesse baile dos malditos
Animado com tambores
Cornetas e apitos
Quero dançar .

Dançar: o Rock, o Samba
A Valsa , a Lambada
O Roça-Roça, o Bailinho
O Corridinho
O Tango
O Fandango.

Para cá
E para lá
Nesse baile dos malditos
Quero dançar
Dançar
Até fartar .

( In __Entre o Ter e o Querer , Editorial Minerva Julho 2000

Fevereiro 13, 2008

Cicloamores

Arquivado como: POESIA — carva55 @ 3:05 pm
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rosto-e-rosa.jpgpatos1.jpg

( FOTOS, da NET )

Cicloamor ( I )

Oh! Meu amor
Meu estupor.

Socorro estou apaixonado
Desumanizado.

Sou uma pachorrenta
Cavalgadura.

Cavalgam – me o nariz lunetas
Apenas enxergo em frente o resto são tretas.

Cicloamor ( II )

Apaixonado, é vaguear
No chão ou no ar
Ébrio planante
A tudo indiferente
Ora acre
Ora doce
Prenhe de loucura errante.

Cicloamor ( III )

O amor é um monstro de sete cabeças!
Tritura!
Devora!
Mata!
Abandona!
Abençoa!

Cicloamor ( IV )

O amor aparvalha – nos
A todos.
Cegos e moucos
Repudiamos a verdade
Exorcizamos a realidade
E a nossa cara-metade
Fedorento mamarracho horrendo
Torna-se beldade iriante
E empolgante

Cicloamor ( V )

O amor é uma nuvem de encanto envolvente
De uma poção cativante
Que hipnotiza a gente.

Cicloamor ( VI )

Em amores e paixões
Há milhões
De interpretações.
Há cores nas imagens multicoloridas
Há sons maravilhosos nas melodias
Há vibrações estranhas!
Perigos, prazeres, em lutas, em batalhas,
Com coragem e valentia enfrentadas
Nos socalcos, nas curvas
Das paixões loucas
Nos amores desmedidos
Das nossas vidas.

Mas afinal, o que é o amor? Ninguém sabe de facto
Porque é o cúmulo do abstracto.

In , __ Entre o Ter e o Querer , Editorial Minerva Julho 2000

Janeiro 26, 2008

O Quarteto na Vigairada

Arquivado como: Conto — carva55 @ 3:56 pm
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marchas-de-santos-populares.jpgmanjericos.jpgsardinhada2_.jpg

Decorriam os anos setenta e era tempo de festas. Festas dos Santos populares. Festa de dança, marchas e petiscadas.
Os quatro amigos decidem ir a ela, à tal festa, e a elas, que por ela, a pavonearem-se certamente não faltariam. “ Nesta altura do ano andam todas à solta, é dos calores!”__diz o Brasuca, muito convicto dessa sua afirmação__. (Brasuca por alcunha, por ter estado no Brasil e por ainda não se ter livrado de algumas expressões tal como uma que repetia amiúde, que era: __ ó seu cara de chapa).
Depois de bem aperaltados eis que: eles lá vão à caça, de armas bem carregadas, prontas a serem descarregadas na primeira “perdiz” que por perto passasse, ou que a jeito se pusesse.
Atravessam o descampado grande como uma parada militar e ao passarem junto ao ringue desportivo e à cozinha, são contemplados com um trecho de uma peça orquestrada pelas gargantas da bicharada que habitava a horta. Eram patos, galinhas, cabritas e porcos, que por serem muito bem tratados por um grupo de doentes orientados e devidamente controlados por uma equipa de profissionais da saúde mental, eles os da bicharada também contentes estavam e se manifestavam com a sua festa possível.
Transpõem o portão e o manicómio fica para trás.
O manicómio era um mundo diferente totalmente à parte, do outro mundo considerado dos sãos .
Ainda hoje tenho as minhas dúvidas que assim seja , porque cada vez mais, vejo mais malucos à solta que internados.
Junto ao Campo Santana, na rua que desce até ao Martim Moniz, passam carros eléctricos a abarrotar de gente alegre.
Os quatro amigos decidem continuar a pé. Não por eles, __os carros irem tão cheios, (porque cabe sempre mais um nem que seja pendurado fora de borda ) , mas porque estava uma rica tarde, com uma temperatura ideal que convidava a bons passeios.
Já no Largo do Martim Moniz, junto ao cinema “piolho”especializado e afamado por passar sessões contínuas de “coboyada” da forte com grandes batalhas de tiroteios, setadas e machadadas entre soldados liderados e guiados por aventureiros e por grupos aguerridos de Índios, que, coitados perdiam sempre. Porque era assim que rezava a história, era assim que a contavam, porque era assim que devia de ser encarada, __ os bons e os maus __. Os bons eram os colonos invasores, os maus eram os Índios, que coitados só queriam que os deixassem em paz e sossego, a viverem na paz dos anjos e na companhia das aves e dos animais de quatro patas seus amigos, naquelas terras onde primeiro tinham chegado. Às vezes nos salões, após todo mundo estar bem bebido, aconteciam desavenças entre pistoleiros, jogadores e engatatões profissionais que originava grandes sessões de porrada de criar bicho e rapar pêlo.
__ Ó pessoal! Ali naquela casa da janela verde, um dia vim ver uma televisão que estava empenada.
Estava eu a olhar as entranhas da dita, envoltas num camadão de poeira, e eis que a dona, uma velhota já muito velhota mas com um pulmão de fazer inveja a muita boa gente, dá uma assopradela com uma tal força, que me enfarinhou todo! Do que ela se haveria de lembrar!
__ Ouve lá ó Dr. “Parafusos”: isso havia de ter sido comigo!Pegava na velha e pendurava-a no estendal da roupa, diz o “Brazuca”.
Na esquina da praça, o “ Rodas baixas”, (alcunha bem espetada porque realmente era muito pequenino), tem um rica ideia e lança-a para a mesa.
__ E que tal se fossemos ali ao Intendente, ao bar Lindoso ou outro, beber algo e arregalar o olho com o mulherio?
__Isso mesmo, boa ideia! E eu até vou espetar cá pró bucho um prego bem regado com um fino bem geladinho. __ Acrescenta o Olhos de sapo.
(este levou com esta, por usar umas lentes tão fortes que parecia que olhava por um fundo de garrafa!)
Ele tinha um carro! Coisa rara em gente com a categoria de servente, que depois alguém se lembrou de mudar para empregado geral e eu soube que alguns anos mais tarde, esta designação, ainda foi mudada para, __ auxiliar de acção médica __. Ora que porra! Ora vejam lá! Coisa linda sim senhora!
Mas dizia eu que ele tinha um carro. Um carro muito grande, não me lembro nem da marca nem do modelo. Era do tipo citroen boca de sapo com a traseira em rampa. Só que o tal era trombudo estilo americanado.
Um dia organizou um passeio até à praia de Tróia. Todos os que ele convidou para o acompanhar naquela aventura, se arrependeram de terem aceitado o desafio porque o maldito carro andava um pouco e parava. Empurrávamos, andava e de repente, punha-se a tossir e depois de soltar uns roncos engasgados e umas tremidelas na carroçaria, tornava a parar.
As paradas e os empurrões foram às dúzias.
No bar, diz o Brasuca:
__Eia! Pá! Que pivete aqui vai!
__Realmente, agora que o dizes, também eu o sinto. __diz o Rodas baixas.
__Tinha que ser, só agora o sentiste porque os cheiros sobem, e tu, se não desces, pelo menos manténs-te aí em baixo. E o “olhos de sapo” que foi quem isto disse e que era grande como uma girafa, passa a mão em frente do nariz do outro como que a medi-lo. O outro, que, coitado não tinha culpa de ter saído assim, __às vezes, a brincar, brincadeira parva! Mas enfim… , também eu lhe dizia : isso foi falta de adubo na raiz! E ele ria e dizia: “Ou má qualidade da semente!__” E ambos ríamos a bandeiras despregadas.
__Cá para mim, isto é cheiro de leite azedo largado pela pachacha de alguma daquelas gajas, diz o Dr. Parafusos.
Gargalhada geral!
__ Realmente só mesmo tu! Só mesmo dessa tua cabecinha pensadora …, tens bom remédio: vai cheirar uma a uma e logo verás.__ Diz o Olhos de sapo
A gargalhada geral tinha levantado a lebre, e o porteiro que era grande como um dos filhos do clã Bonanza da série da Tv. olhava a medir-nos as intenções.
O Barman, secundava-o no serviço de controlo.
Um gajo com uns pendentes amarelados a brilhar na peluda peitaça, e que pelo aspecto deveria ser o dono de alguma, ou algumas, das máquinas de sexo por ali sentadas, esperando um cliente, em defesa do negócio, olhou e deixou-nos sem saber o que tinha concluído.
__ Bem, o melhor é vazarmos já daqui para fora, diz o Brasuca.
Em fila Indiana, passámos em frente às máquinas de sexo, que alinhadas junto à parede, obedientes aos métodos ensinados e assimilados na aprendizagem da vida, nos seguiram olhando à cata do tal olhar sinal __”anda daí”__, que porventura algum de nós fizesse.
Por aquela encosta acima, de metro a metro a festa animava.
Por todo o lado, rua, ruela, beco e esquina, era um regalo ver petiscadas apetitosas, esperando-nos.
Nos bailaricos as moçoilas encaloradas esperam-nos, __ todos pensávamos.
__ É pessoal, nem é tarde nem é cedo, agora mesmo tocou para uma sardinhada, diz o Olhos de sapo
__Pois que assim seja. Para comer e beber todas as ordens são bem vindas, diz o Rodas baixas.
__Pois claro! Tinhas de ser tu a dizer isso! É por estas e por outras que só cresces prós lados, diz o Brasuca.
__ Que raio! O pivete continua presente, nem o cheiro das sardinhas o afasta daqui!__ Diz o Olhos de sapo .
E a festa continuou, como, mais não pode ser dito, porque as paredes têm ouvidos.
Chegados à camarata do manicómio, eu este narrador , (de Dr. Parafusos alcunhado por um enfermeiro bem inspirado que isto inventou devido ao meu gosto e jeito pela electrónica ), entro no quarto, olho em redor e vejo a causa do
pivete.
Naquele tempo, eu aderi , ( e não gosto de modas ), à moda do salto tamanho de um tijolo e das calças “saiadas”que tapavam a biqueira e ainda sobrava pano ! Para compôr o ramalhete usava-se o cabelo grande. Para o segurar meti umas borrifadelas de uma embalagem que eu pensava ser de laca fixadora, mas era uma outra mistela que com a pressa e como não tenho olfacto, não dei por nada.
__ É pessoal! Encontrei a causa do pivete.
Vinde ver. A quem descobrir, pago uma imperial na Portugália, já na próxima saída.
Todos olharam, com olhos de ver, deveras interessados.
__Ó raios te partam! Não é que este gajo em vez de laca pôs brise, purificador de ar?! __ Diz o Rodas baixas.
__ Ai pagas, pagas, e não só a ele que descobriu o mistério, pagas a todos e sem espiga, diz o Brasuca, com toda a sua justiça.
E pronto, foi assim aquela noitada daquela cambada à solta mas bem comportada.

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